Lorena

18 Sincronicidade III


Notas iniciais
"Ele bateu na parede três vezes com a ponta do guarda-chuva. E o tijolo que tocou estremeceu, torceu-se. No meio apareceu um buraquinho, que se foi alargando cada vez mais. Um segundo depois se viram diante de um arco bastante grande até para Hagrid, um arco que abria para uma rua de prédios irregulares, serpeava e desaparecia de vista. -Bem vindo - disse Hagrid - ao Beco Diagonal. Ele riu do espanto de Harry. Atravessaram o arco. Harry deu uma espiada rápida por cima do ombro e viu o arco encolher instantaneamente e virar uma parede sólida." Harry Potter e a Pedra Filosofal por J. K. Rowling.



Os objetos em volta de Lorena começaram a se desfazer no ar, e até as estruturas de metal e alvenaria da escola começaram a se dissolver lentamente. Foi com absoluto terror que ela deixou de sentir o chão sob seus pés. Seu corpo começou a ascender, enquanto ela era banhada pela claridade da manhã, pois o teto da escola não existia mais.


Então, em um segundo tudo se congelou. E Lorena desapareceu.


Foi como um passe de mágica. Em um minuto, Lorena estava suspensa no ar, em um país tropical. No outro, estava caindo no chão, em um ambiente gelado. Ela estranhou aquilo, mas compreendeu que voltara para seu pesadelo de gelo. Só que agora ela estava em uma kitchenete, com fogão, armário, escrivaninha com computador, e um aparelho estranho, como uma tábua de lavar roupa em pé e ligada na tomada. Ela percebeu que esse estranho aparelho era quente, então naturalmente, ela ficou próxima dele.


Ela não tardou a explorar aquele lugar, e passou a usar camadas de roupas que ela encontrou por lá. Ela chegou a achar que estava em um frigorífico, tão frio era ali. Tentou não entrar em pânico, mas em considerar aquela nova realidade como um refúgio. Procurou o que comer, mas infelizmente não achou nada. Preparou chá no fogão, com uns pós aromáticos, e mascou alguns chicletes que havia na sua roupa de verão, sim pois ela compreendeu que morava no verão, e que agora estava no inverno.


Então ela foi vencida pela fome e cansaço e finalmente adormeceu, coberta por um grosso edredom. Teve sonhos agitados, nos quais fugia de discos voadores que invadiram a terra, como nos melhores filmes antigos da década de 50. No seu íntimo, ela sabia que estava sonhando, só não sabia quando poderia voltar a sua realidade normal e conhecida, pois o presente lugar gelado, ela considerava também um pesadelo.

No momento em que ela saíra de casa e trancara a porta de seu apartamento, ela sentiu a mudança de temperatura. O calor sufocante, a umidade elevada do ar. Ela começou a se despir rapidamente, antes mesmo de se voltar para ver onde estava. A mesma residência envelhecida e algo suja, onde estivera algum tempo atrás, onde habitavam alguns jovens agressivos e rudes.


"Ao menos aqui não é frio." Pensou. Ela ficou apenas de calça jeans e camiseta de meia, e assim mesmo, estava extremamente quente. Arriscou-se a explorar aquele lugar. Caminhou até o local que julgou ser a porta da frente. Ela a abriu para uma paisagem deslumbrante. Tudo, mas tudo mesmo era dourado. O céu era de um azul brilhante, e os raios do sol revestiam tudo de ouro.


"Deve ser algum país tropical, provavelmente ao sul. E eles devem falar português, como da última vez." Lorena refletiu. Ela saiu para aquela realidade dourada e passou a admirar tudo em volta, andando cada vez mais longe, a ponto de não saber mais como voltar para o local de origem.


Ela chegou a um local onde havia aglomeração de pessoas em pânico. Ela viu o motivo nos céus. Lá adiante havia estranhas aeronaves, como discos voadores de um filme B. Ela chegou a sorrir da analogia, até perceber que os OVNIS estavam destruindo as casas. As pessoas estavam amedrontadas. Lorena percebeu que este lugar não era melhor que seu mundo.


Naquela hora, naquele lugar, ela resolveu que iria sobreviver. As pessoas começaram a correr com medo. Ela os acompanhou. Havia um grupo de vândalos depredando e saqueando uma loja de conveniência. Lorena os imitou. Apanhou uma cesta e a encheu de provisões. Um conflito estorou ao seu lado. Ela se desviou e resolveu fugir, levando a cesta na frente do peito.


Correu a esmo e procurou a casa por onde viera, não a encontrou. Resolveu esconder-se em qualquer casa que encontrasse pela frente. Deu um chute em uma porta trancada e a mesma se abriu. Ao invadir a casa, percebeu que estava em seu apartamento. Virou-se para trás e olhou pela porta arrombada. A paisagem lá fora era de um ensolarado país tropical, invadido por OVNIS. Ela não voltaria para lá.


Lorena pegou a porta arrombada e colocou-a no encaixe. Escorando-a com um móvel, para que não desabasse. E com isso fechou o portal para aquele outro mundo. Ela ficou admirando a porta do seu apartamento durante algum tempo, e lembrou-se de que deixara sua roupa de inverno do outro lado. Não tinha problema. Ela tinha outras. Prontificou-se então a guardar as provisões saqueadas, em seu armário. Logo mais ela almoçaria feijoada enlatada, mesmo sem saber que comida era aquela.

Lorena acordou de seu sono se sentindo morna. Abriu os olhos para descobrir que estava de volta a seu quartinho, na casa de sua família adotiva. Desfez-se das roupas de frio e ficou apenas com suas próprias roupas. Abriu devagarinho sua porta para ver se havia alguém em casa. Não havia viva alma. Ela então foi para a cozinha e fez um lanche. Estava faminta.


Sua família adotiva nunca mais voltou para casa. Lorena não sabia por que, mas suspeitava que os alienígenas tinham algo a ver com isso. De fato, não havia viva alma em sua comunidade. Ela suspeitou que fosse a única sobrevivente daquele caos, e graças a Deus, sua casa estava intacta.


Se os alienígenas nunca mais voltassem, ela poderia sobreviver. Ela não tinha mais medo. E é claro, ela sempre podia contar com a porta de seu quartinho, que às vezes se abria para outro mundo, onde tudo era gelado e desolado, mas ao menos não havia ameaça alien. Ela apenas não queria se sentir tão sozinha.

No continente gelado, Lorena consumiu toda a comida saqueada, mesmo tendo racionado e comido com parcimônia. Ela se viu então na contigência de ter que cruzar o portal para o mundo invadido por aliens. Ela não queria ir até lá, mas sua sobrevivência dependia disso.


Ela abriu a porta de seu apartamento e contemplou a paisagem dourada, agora pontilhada por destroços de casas, aqui e ali, incêndios, prédios desabando e gritos ao longe. Tudo fora destruído. Alguém se aproximava da sua porta. Lorena teve medo, mas a curiosidade foi maior. Era uma garota quem se aproximava. Ela era muito jovem e tinha uma trança similar a sua, inclusive os mesmos olhos verdes...


Ela parou próximo a sua porta, e a olhava intrigada e curiosa, também. Lorena reconheceu a semelhança e intuiu que aquela garota era seu equivalente naquela dimensão, naquele outro mundo, naquela realidade estranha. Talvez ... talvez não devessem entrar em contato ... sem dúvida não deviam entrar em contato.


Lorena do continente ártico fechou a porta do seu apartamento para a Lorena do continente tropical.