Lorena
16 O fim
Notas iniciais
Lorena Cross acordou risonha naquele dia. Foi banhada, alimentada e colocada para dormir. Alguém a deixou sair do berço por volta das 11:00 da manhã, porventura uma babá novata, que achou que não haveria nada demais em um bebê ficar engatinhando pela casa. Ela só não contava que seus patrões estivessem discutindo em um dos recintos fechados, que o bebê convenientemente conseguiu penetrar, e que os pais se agredissem mutuamente.
O pai matou a mãe com um tiro no peito, após ser atacado com um vaso de cristal. E se suicidou, atirando na própria cabeça em seguida. E o bebê assistiu a tudo, sem que eles notassem sua presença no embate macabro. O bebê não entendeu nada, apenas sentia a ira, o ódio, a dor e o sofrimento, como se direcionados para si mesma. Perdera os pais e estava sozinha no mundo. O bebê não sabia disso, mas este evento mórbido ficou marcado para sempre em seu subconsciente.
A tragédia que se abateu sobre os Cross deixou a todos transtornados e desorientados. O bebê então, esse não parava de chorar. Tiveram inclusive que chamar um médico para examiná-la e sedá-la. Seu futuro como órfã de pai e mãe não era dos mais acalentadores. Decidiram-se por tutores, que lhe administraram os bens, além de lhe proverem os meios materiais para seu conforto e instrução. Até que o dinheiro acabou. Então foi mandada a casa de parentes, onde foi tratada como uma criança normal, inclusive padecendo o mesmo que outras crianças enjeitadas padecem, e por fim, foi mandada para um orfanato.
Em sua juventude, Lorena Cross viveu sozinha, trabalhando e se sustentando valentemente, até que o peso da tragédia finalmente a abateu na meia-idade, levando-a à dependência química e a subterfúgios ilegais, como roubo, prostituição, invasão de propriedade alheia, e envolvimento em badernas e perturbação da paz. Foi considerada insana e incapaz, quando capturada pela lei, pois já suas faculdades mentais estavam erráticas e incontroláveis, com atitudes irresponsáveis e tentativas de suicídio. Foi sustentada pelo estado, entre suas diversas entradas e saídas de instituições mentais. O que acontece com pessoas em dificuldades, que não conseguimos ajudar ou modificar sua vida? Elas continuam sobrevivendo, aos trancos e barrancos. Um dia de cada vez.
Com o advento de sua doença cerebral, o câncer chamado glioblastoma, Lorena Cross passou a sofrer alucinações visuais e auditivas, alternadas com períodos de catatonia que duravam semanas. Isto é, ela permanecia sentada, imóvel, de olhos fixos no vazio, sem se alimentar ou fazer qualquer outra coisa, apenas respirar, como uma boneca de plástico. Era alimentada e cuidada por curiosos e pessoas bem intencionadas, que aproveitavam o momento para surrupiar seus parcos bens e recursos.
Quando passou a ter convulsões foi transferida para o hospital público local, onde constataram sua doença e o fato de que ela não poderia arcar com o custo do tratamento, além do que sua moléstia já estava bastante adiantada, sem que pudessem fazer nada para cura-la. Ela se encontrava, por assim dizer, na fase terminal, esperando pela morte.
Durante seus períodos de catatonia, Lorena Cross sonhava. Ela passou a vivenciar experiências diferentes do que era sua realidade e sua vida até aquele momento. Em uma existência era uma garotinha com bonecas Barbies; em outra, era uma órfã vivendo como a gata borralheira; em outra vida, era uma menina mimada, rica e aborrecida; em outra realidade, era uma jovem adulta vivendo em um país muito frio, isolada e sem amigos, a não ser redes virtuais alimentadas por robôs.
Havia por fim uma outra existência que era sua favorita. Nesta, ela era afilhada de um cientista famoso, e era a vida mais parecida com a de uma família normal, ou o que ela imaginava ser normal. Lorena gostaria de viver ali para sempre. Infelizmente, a mente de Lorena alternava entre essas realidades, e às vezes voltava para sua existência atual, em um leito de hospital, vítima de convulsões, no fim da vida, dependendo de aparelhos e da ajuda de outros para aguentar a passagem, desse mundo para o dos mortos.
Em todas essas existências, a sensação de abandono, desvalia, e depressão a acompanhavam. Quando vivia ao lado do Dr. Einstein, sua obsessão com viagens no tempo a consumiu. Uma vozinha no seu íntimo lhe dizia para não mexer com o passado, pois não poderia mudá-lo, mas aquele evento a atraia como um ímã, ou como um buraco negro atrairia um corpo celeste. Subconscientemente, ela tinha necessidade de reviver a tragédia que a marcou como ser humano, e amaldiçoou a sua vida ao tormento e ao fracasso.
Sua viagem fantástica e mágica ao passado coincidiu com eventos cataclísmicos nos universos alternativos para onde fugia. A menina das Barbies perdeu o controle sobre a realidade que a rodeava, quando suas bonecas passaram a interagir consigo como pessoas de carne e osso, e seus parentes próximos se revelaram ser personagens saídos de desenhos animados na TV. Como ela reagiu a isso? Muito mal.
A adolescente maltratada pela família adotiva foi abduzida por aliens não tão bonzinhos como o esperado, e seu destino é uma incógnita. Talvez tenha tido melhor sorte do que os remanescentes do planeta Terra, pois foram considerados espólios de guerra, após a invasão e domínio dos alienígenas.
A garota rica e mimada viveu enclausurada em seu próprio apartamento, enquanto sua cidade sucumbia à destruição causada por turbas enlouquecidas, que voltaram à idade média, como efeito de um fenômeno astronômico solar.
A garota do país assolado por uma era glacial, porventura terá morrido congelada? Ninguém sabe, pois nunca mais foi vista. Em Princeton, em 1950, a família de Lorena ainda a espera para o jantar. Não se sabe se ela chegará a tempo. Ou se se perdeu nos meandros e escaninhos do tempo.
No hospital público onde se encontra internada, Lorena Cross dá o último suspiro. Suas máquinas são desligadas, e o médico do plantão cita a hora da sua morte. Uma pessoa bondosa lhe fecha as pálpebras sobre o olhar plácido e sereno. Ela morreu em paz.
Será esse o fim da estória?
Fale com o autor