Notas iniciais
'No instante seguinte Alice atravessara o espelho e saltara lepidamente na sala da Casa de Espelhos. A primeira coisa que fez foi verificar se havia fogo na lareira, e ficou muito satisfeita ao constatar que havia um fogo de verdade, crepitando tão alegremente quanto o que deixara para trás. "Assim vou ficar tão aquecida aqui quanto estava lá na sala", pensou; "ou mais aquecida, porque aqui não vai haver ninguém mandando que eu me afaste do fogo. Oh, como vai ser engraçado quando me virem aqui, através do espelho, e não puderem me alcançar!"' Alice através do espelho por Lewis Carroll.


Havia um edifício de apartamentos há alguns anos, onde morava uma diminuta família. Se nós nos aproximássemos, iríamos encontrar em um dos quartos, uma menina bonita, em seus nove anos de idade, brincando de bonecas. Ela tinha cabelos castanhos cacheados, com grandes fivelas mantendo os cachos distantes da sua testa. Usava um vestido xadrez marrom, e sapatos brancos com meias longas, também brancas. Ela estava sentada no chão, servindo chá de um bule dourado nas minúsculas xícaras de plástico, de suas três bonecas Barbie, dispostas ao redor de uma mesinha colorida de plástico, cada uma em sua cadeirinha.


– E então, Emmy, o chá está de seu agrado? — A menina perguntou para uma das bonecas.


– Deverasmente quente e positivamente delicioso, minha cara Lorena. — A boneca Emmy respondeu, soprando a xícara fumegante. Ela era uma Barbie de alta classe, com casaco de veludo e deslumbrante cabelo loiro cacheado.


– Quer um pouco também, Sissy? — A menina perguntou à outra boneca.


– Sim, mas você esqueceu o bolo, Lorena. Como espera que possamos beber chá sem bolo? — A boneca Sissy reclamou, abanando-se com um leque colorido. Ela era uma Barbie em estilo medieval, com um encantador vestido de saia rodada, cheio de pedras coloridas.


– Não esqueci, Sissy. Aqui está. — Lorena rapidamente pegou um pedaço de papel marrom e o amassou para fazer volume, rasgou-o em pedaços e o acondicionou em pratinhos de plástico. Serviu um dos pratinhos a sua boneca, fazendo a vez de bolo.


– Oh! Meu preferido! Você é a menina mais encantadora e gentil que já conheci. Obrigada! — Sissy bateu palmas.


– Gigi, você quer também? — Lorena perguntou para sua outra boneca.


– Claro, meu bem. Eu adoro chá com bolo de chocolate. Não é tão bom quanto um BigMac com fritas, mas ainda assim é gostoso. — A boneca falou sem muito entusiasmo, enquanto cruzava as longas pernas. Ela era uma Barbie roqueira, com botas de cano longo e mini saia.


Elas tomaram seus chás em silêncio e fartaram-se de comer bolo. Lorena ficou satisfeita. Ela tratava muito bem suas bonecas. Eram como suas irmãs e amigas. Às vezes sentia que eram suas únicas amigas. Gostaria de ser como elas, com suas vidas coloridas e aventurosas, embora as bonecas dependessem dela para tudo, inclusive tomar chá.


Após a refeição, as bonecas ficaram à vontade no quarto espartano da menina. Fora seus brinquedos não havia muita coisa ali: uma caminha de menina, a cômoda de roupas, a TV, um puff, uma escrivaninha com material escolar e só. As paredes eram brancas, o carpete era cinzento, e nem cortinas havia na janela. Aquilo ali era quase como um ambiente hospitalar.


Emmy ligou a TV e sentou-se no puff de pelúcia que imitava um coelho. O horário da TV era tranquilo, pois suas bonecas não disputavam para ver programas preferidos, mas às vezes, com o canto dos olhos, Lorena podia ver que seus brinquedos de plástico estavam estáticos e sem vida, nas mesmas posições em que as colocara.


Nessas horas, Lorena tinha a aguda sensação de que estava sozinha em seu quarto, e talvez sozinha no mundo. Ela abandonou a TV ligada e foi até à janela, aberta para uma tarde nublada, que tingia tudo de branco ou cores pastéis. Não era possível divisar o sol no céu. O clima era frio e tornava tudo descolorido e sem vida. Uma tristeza sem sentido assaltou seu coração. Sentiu-se desamparada. Sem nada que a segurasse ou a ajudasse. Se ela morresse de repente, ninguém sofreria com sua perda. Era quase como se fosse órfã, sem nada que a prendesse à vida.

Uma batida de leve na porta interrompeu seu fio de pensamentos. O ranger das dobradiças, avisou que alguém estava abrindo a porta do seu quarto.

Quem poderia ser?

– Lorena? Está na hora do jantar, querida. Desça para a cozinha. A mesa já está servida. — Uma gorda senhora de cabelos grisalhos presos em coque, e oclinhos no nariz, veio chamá-la. Sua avó. Ela vestia uma blusa branca bufante e longa saia azul.


– Já vou, voínha. — Lorena respondeu enfadada.


Não estava sozinha no mundo. Tinha sua avó ao seu lado, que a mimava e educava. E é claro, tinha os pais, embora não os visse muito. Lorena mirou o controle remoto na TV, para desligá-la, justo no momento em que Frajola, Piu-Piu e a Vovozinha estavam juntos na tela. Por um momento, Lorena percebeu a semelhança entre as duas avós, e isso a deixou inquieta.


Desligou a TV e saiu do quarto. Ao fechar a porta despediu-se das bonecas, que estavam novamente em sua versão de carne e osso, e até jogaram beijinhos para ela.


– Não demore, querida. Precisamos de você. — Disse a boneca Gigi, fazendo um passo de dança, como sempre aparecia na TV.


– Quem mais iria lembrar-se de nos servir bolo? — Disse a boneca Sissy, rodopiando com sua grande saia brilhante.


– Você é importante para nós. Não se esqueça disso. — Disse a boneca Emmy, apertando seu longo casaco contra seu corpo.


– Eu volto logo. Assistam TV enquanto isso. — Lorena jogou um beijo para suas bonecas.


Lorena fechou a porta de seu quarto e esperou alguns segundos, antes de resolver espiar o que as bonecas estavam fazendo em sua ausência. Ela tinha essa curiosidade de flagrá-las se divertindo, longe de olhares humanos, quando elas finalmente poderiam agir como sua verdadeira natureza. Afinal, ela havia assistido Toy Story e sabia como as coisas funcionavam para os brinquedos.

Abriu devagarinho a porta e olhou por uma fresta. As bonecas haviam voltado a ser de plástico. Inanimadas, sem risos, sem calor, sem vida. Isso a chocou mais do que o contrário. Fechou a porta com estrépito e saiu correndo para a cozinha.


Sua avó estranhou seu comportamento e a repreendeu por correr dentro de casa. Lorena ouviu tudo calada. Lavou as mãos e sentou-se à mesa. Comeu em silêncio, embora com o canto do olho espiasse sua avó, para ver se Frajola e Piu-Piu não iriam aparecer ao seu lado.