Notas iniciais
"Quando o mundo está destruído e engolido, você se afasta de mim pelo linóleo esburacado, sua pele pálida, seus olhos cansados, e assim que você cai fora pela porta aberta, você vira e diz as últimas palavras que você jamais diria pra mim. 'Desligue o sol, OK?' você diz. Então você vai embora." 17 Estórias sobre o fim do mundo por Luc Reid.

Lorena dormia profundamente. Às três da manhã seu quarto estava na mais completa escuridão. Apenas seu abajur de lava, no estilo setentista, teimava em gerar um pequeno halo de luminosidade. Havia luzes no exterior, pois boêmios e notívagos insistiam em viver a vida à noite. O quarto de Lorena ficava no terceiro andar, bem longe do burburinho das ruas, e sua janela envidraçada ainda contava com cortinas de voil, que filtravam qualquer luz externa.


Subitamente, uma claridade incomum penetrou pelas cortinas. Poderia se dizer que já era dia. O quarto de Lorena ficou iluminado como se o sol de meio-dia estivesse a sua janela. Ela continuou seu sono, imperturbável. Um pouco mais e a governanta, vestida com o roupão de dormir, irrompeu em seu quarto agitada. Ao perceber que Lorena continuava dormindo, ela se controlou um pouco. O abajur de lava se apagou.


A governanta aproximou-se lentamente da janela e olhou para fora. Colocou as mãos sobre a boca para suprimir um grito e num supremo esforço, puxou as pesadas cortinas de veludo sobre as de voil, para bloquear a claridade. Ela saiu silenciosamente do quarto.


Nas ruas havia uma comoção fora do comum. Algumas pessoas gritavam e dançavam. Outras se entregavam a religiosidade, clamando para Deus e ou para outras entidades. Muitos simplesmente choravam e se escondiam em casa, esperando pelo pior.


Não demorou muito para o caos se instalar. Saques e depredações ocorreram em toda a cidade. A polícia ficou inteiramente a mercê da população, havendo confrontos em vários pontos da metrópole. O prédio de apartamentos onde Lorena morava foi lacrado com correntes e cadeados, com todos os seus moradores feitos prisioneiros no seu interior, pois tinham medo de sair e enfrentar a turba.


Não havia energia. Nada que dependesse de eletricidade funcionava. Nem carros, nem aviões, nem transatlânticos. Elevadores e lâmpadas se desligaram. Alarmes e travas elétricas se desligaram. Padrões eletromagnéticos ficaram alterados, ou simplesmente deixaram de funcionar. Houve inclusive princípios de incêndio por causa de curto-circuitos ocorrendo simultaneamente.


Computadores, laptops, smartphones, pocketphones, nada funcionava, por mais que suas baterias estivessem cheias. A cidade só não estava no mais completo breu por causa do céu. Muitos apelaram para velas, sendo que tiros foram ouvidos ao longe, aumentando o pânico dos moradores daquele prédio.


Lorena dormiu o sono dos justos. Ao acordar próximo do horário do almoço, estranhou que seu quarto estivesse quente e que ninguém a tivesse chamado para ir à escola. Ela notou as pesadas cortinas de veludo fechadas, e calculou que este havia sido o motivo de não perceber que já amanhecera. Procurou o despertador elétrico na cabeceira e ele estava desligado. Até seu abajur estava desligado. Resolveu abrir as cortinas para iluminar mais o quarto.


Ao abri-las tomou um susto. A cidade estava literalmente em chamas. Monumentos, prédios, automóveis ... estavam incendiados. Havia carros virados em forma de barricada, e lojas depredadas. Era como se ela tivesse ido dormir em uma cidade civilizada e acordasse em plena segunda guerra mundial. Ela então olhou para o céu.


O que ela viu era difícil de descrever. Certa vez escutara uma velha senhora se referir ao céu como o local de morada dos santos que morreram, como se houvesse cidades no firmamento, e os mortos lá habitassem como os seres humanos viviam na Terra. Era um tal de explicar os acontecimentos climáticos como resultado das atividades dos santos e anjos. Se chovesse muito era porque São Pedro estava lavando o céu, e assim ia o raciocínio.


Como ela poderia explicar o que acontecia sobre suas cabeças, senão dizendo que São Pedro deixara as latas de tinta virarem no céu? Havia ondas e dunas amarelas, pistas vermelhas e relvas verdes, entremeadas de laranja e azul anil. E era tudo tão brilhante! Lorena ficou comovida com o que viu, que facilmente chegou às lágrimas. Ela não entendia por que as pessoas enlouqueceram de repente tendo um espetáculo tão bonito acontecendo no céu.


– Lorena! Afaste-se da janela. Isso não é seguro. — A governanta falou assim que entrou no quarto.


– O que? Você viu? Você viu a maravilha que está o céu? — Lorena perguntou extasiada.


– Sim, todos nós já vimos. Agora afaste-se daí, ou alguém pode querer usá-la como alvo, por favor.


Lorena se afastou lentamente da janela, ao passo que a governanta praticamente correu até lá e puxou as cortinas de veludo tapando a claridade. Lorena estava estupefata com aquele comportamento.


– Hoje você vai fazer sua refeição na copa. Nenhum dos empregados veio trabalhar hoje. Deve imaginar o motivo. — A governanta falou tentando se acalmar, mas ainda estava perturbada.


– Oh! Eu vi a confusão que está lá fora. Por que não chamaram a polícia?


– A polícia foi chamada e não pôde fazer nada. A cidade inteira está enlouquecida. As pessoas estão se matando umas às outras. Acham que é o dia do juízo final.


– Oh! Por causa da Aurora Boreal? Estão enfurecidas por causa de um espetáculo astronômico?


– Não é só isso! Nada funciona! Tudo que é elétrico parou de funcionar. As pessoas acham que voltaremos aos tempos das cavernas, isto é, se escaparmos com vida dessa turba louca.


– Isso é passageiro. Logo tudo volta ao normal. Você vai ver.


– É? Pois já está assim há oito horas. Não sei se resistiremos um dia inteiro nesse caos.


– Já telefonou para o tutor? Ele deve nos orientar nesse momento.


– O telefone está mudo, e o celular não funciona.


– Então só nos resta esperar.


– Sim!


Lorena tomou sua refeição em silêncio, calma e resignada. Até mesmo ela estranhava esse comportamento. Desde que interagira com o outro mundo, o da menininha das Barbies, que ela ficara mais séria e emotiva. O grande vazio que parecia querer devorá-la parecia ter sido substituído por uma gravidade e reverência estranhas, como se ela tivesse crescido da noite para o dia, ou simplesmente tivesse percebido a existência de outras pessoas e outros mundos, que não fosse seu próprio umbigo.


Ela deixara de ficar remoendo sua infelicidade de órfã e passara a ansiar por travar contato com aquele outro universo. O advento astonômico somente vinha somar mais um elemento mágico e extraordinário aos acontecimentos recentes de sua vida. Tudo isso a comovia de uma maneira nunca antes sentida ou experimentada. Ela até suspeitava que terminaria seus dias num mosteiro budista.