Lorem
19 Capítulo 18 - O criminoso
O bar de nome “Noite” estava movimentado. O Noite possuía relativa fama, se comparado aos demais bares daquela região. Todas as noites, um tipo de festa estava acontecendo dentro dele, sendo temática ou não. Em seu interior, homens e mulheres se embebedavam vorazmente, dançavam como se o mundo estivesse prestes a acabar, ou expressavam sem amor, encostados nas paredes. Uma música de estilo eletrônico tocava intensamente, e o salão inteiro piscava em diversas cores, um psicodélico show de luzes, refletidas por um globo espelhado no teto. E odores de suor e álcool infestava o ambiente. Era uma atmosfera bem abafada, quase insuportável, na verdade.
A porta da frente se abriu com um pequeno rangido, e Claus Hillman adentrou o recinto. Passou o seu olhar em torno do conhecido local, e inspirou o ar como faria se respirasse o ar puro de montanhas. Enquanto examinava os inúmeros presentes, reconheceu alguns amigos que, ocupados em seus afazeres e lazeres, não notaram sua entrada. Não se importando, Claus fechou a porta pela qual entrara e, esguio, caminhou até o seu usual banquinho em frente ao balcão. Escutou a música que poluía os ouvidos de todos ali. Não podia se dizer que era fã de músicas eletrônicas, mas a convivência no Noite o acostumaram ao típico estilo. Batucou na mesa com seus dedos, acompanhando a batida do som, parecendo feliz. Não estava feliz. Havia deixado o grupo criminoso de Matt Walker na semana anterior. Agora lúcido, percebeu como fora imprudente, principalmente ao infligir ferimentos aos antigos colegas. Eles não o deixariam em paz. Talvez, naquele exato momento, estariam preparando uma vendeta contra ele, algo para arruinar a sua vida. Claus não era dos mais otimistas, notavelmente. Mascarando as aflições com um sorriso, chamou para perto de si o barman. Era um homem da idade aproximada de Claus, sempre atendia seus clientes com olhos castanhos radiantes e um sorriso no rosto. Seu nome era Gabriel, mas normalmente era chamado de Gabe. Ele e Claus já eram amigos. Não muito, mas pelo menos simpatizavam um com o outro. –Claus! Bom em vê-lo! Como vai a vida? – Gabe perguntou, radiante –Bem – mentiu Claus em resposta, forçando um sorriso – E você? –Ah, vou indo... – respondeu Gabe. Logo depois acrescentou – Vai querer o de sempre? Claus ponderou um pouco. –Me dê algo um tanto mais forte hoje, por favor. Gabe assentiu com a cabeça e se afastou, retornando alguns minutos depois com uma garrafa de bebida, a qual Claus não reconheceu. Ao pegar a garrafa com as mãos e chacoalhar o seu conteúdo, notou que a bebida era sim potente. Não era especialista em bebidas, mas sabia reconhecer algo forte quando o via. Pegou o copo que Gabe o deu e encheu-o com o conteúdo translúcido. Claus mirou o copo, entediado. Com um impulso, o virou em sua boca, engoliu um grande gole de uma vez, e sentiu uma leve tontura. Não era muito forte em relação às bebidas. Sentiu um gosto amargo em sua boca e o álcool começou a fazer seu efeito.--- A cada passo, uma fina camada de poeira ascendia-se alguns centímetros, cobrindo seus sapatos com sujeira. Claus acabava de descer de seu veículo, o qual usava para ir até a sede da H.A.N.K., e viu Martin, que o esperava, sentado em uma pedra. Claus riu de leve. “Super-velocidade”, pensou ele, “útil em situações como estas”. –Vamos? – perguntou Martin, pondo-se de pé em um salto Ele assentiu com um aceno de cabeça. Tossiu devido à exaustão e a precária alimentação que recebera antes de embarcar. Não que tivessem muita comida, tiveram que pegar apenas o essencial, sem luxo algum. Começou a caminhar em direção aos prédios cinzentos que se erguiam ao longe, com Martin em seu encalço. Do trio de amigos que conheceu, Martin era a pessoa com quem ele mais simpatizara. Embora não o conhecesse propriamente, sentiu afinidade pelo velocista que os guiara para fora do prédio. Ainda no trio, Claus achou Johnny levemente familiar. O rosto do tal possuía feições conhecidas, similares a de Matt. Será que eram primos, irmãos? Claus achou plausível, embora não soubesse, em seus tempos de criminoso, que Matt possuía familiares vivos. Mais provável era que houvesse eliminado todos. Não, tal atitude seria fria demais. Mas Claus não duvidava de nada vindo de seu antigo patrão. Ele tinha uma afinidade com o frio e cruel como apenas ele. Uma capacidade de apunhalar tanto inimigos quanto amigos. “Pergunto a Johnny mais tarde”, pensou, colocando o assunto de lado. Naquele momento, atravessavam o emaranhado de ruínas. As construções decadentes apenas pioravam a já desagradável paisagem do planeta. Para o outro lado, ao longe, uma cordilheira se erguia, majestosa, em contraste a paisagem feia da direção pela qual Martin e Claus caminhavam. Martin, por sua vez, admirava fascinado as ruínas. Aproximou-se de uma em particular, agachou-se e examinou atentamente. –Isto aparenta ser muuuito velho – comentou o óbvio Claus concordou com um grunhido seco. –Veja, tudo que já esteve aqui já se decompôs... ou foi levado pelos monstros que raptaram o seu amigo – Martin acrescentou. –Improvável – replicou Claus – Se isto é tão velho quanto aparenta, não teria utilidade para a tribo de Rornac... –Ah... – Martin percebeu que Claus estava com a razão – Boa observação O amigo sorriu em resposta, e continuaram a caminhar. O velocista estava entretido em examinar as ruínas e bolar teorias sobre suas origens, uma mais sem noção do que a anterior. Claus replicava, de vez em quando, apontando falhas e inconsistências, até que o outro desistiu. Então se concentraram em localizar o acampamento dos lorenses no labirinto de prédios. Por duas vezes eles se perderam, mas encontravam um referencial e se colocavam de volta à trilha.
Horas mais tarde, ambos estavam resmungando pela falta de uma alimentação decente, e já estavam prestes a parar para comer alguma das coisas que haviam trazido. Até que Claus avistou o conhecido acampamento. –Achamos! – exclamou, abrindo um sorriso. Animado, ele começou a correr. Veria Pete... poderiam encontrar Jack e finalmente sair daquele maldito planeta... finalmente... –Claus! – ele ouviu a voz de Martin atrás dele. Virou a cabeça rapidamente para ouvir o que o companheiro tinha a dizer. Viu algo cinzento, uma pancada na cabeça., e perdeu os sentidos.--- No Noite, Claus se sentia mal. A garrafa que tinha acabado de esvaziar não lhe fizera nada bem, visto que tinha estômago fraco. Tossiu com força, e sentiu que estava prestes a colocar o seu almoço para fora. Em resposta a ânsia, Claus correu até o banheiro, esbrrando e empurrando conhecidos e desconhecidos no frenesi de cores que inundava o Noite. Abiu a porta com força, quase que desabando no piso branco de azulejos. Quase rastejando, se dirigiu até o vaso sanitário mais próximo. Bêbado, quase caiu em cima do tal. Se recuperando, despejou tudo o que tinha por para fora em um ácido vômito. E lá ficou por alguns minutos até a ânsia o deixar. Ao terminar, aliviado e sem energias, cambaleou até a porta para retornar ao salão, e percebeu que a música havia deixado de tocar. Ao abrir a porta, as luzes coloridas foram desligadas, e todos olhavam em direção a três homens. Eram policiais, de uniforme. Dois jovens, um pouco mais velhos do que Claus, e quem parecia ser o líder, um senhor de certa idade, e cabelos grisalhos. –Procuramos por Claus Hillman, um mafioso com potencial assassino que... As pernas de Claus fraquejaram e ele quase desabou. Afastando-se da porta entreaberta pensou “Quem me entregou?!” A resposta veio de prontidão à sua mente. Matt Walker, obviamente, devia ter o entregado anonimamente. Ele conhecia parcialmente sua rotina, vez que já trabalhou com ele. Apoiou-se na pia, e examinou a sua própria imagem. O rosto magro e pálido contrastava com a cabeleira ruiva e berrante, e o olho esquerdo chamava a atenção. Não tinha como passar discretamente, e nem fugir pelo banheiro, visto que o tal não tinha janelas. Tentou fazer eletricidade com os dedos, sem sucesso. Estava completamente esgotado. Como poderia escapar? BUM! A porta se arrebentou e o trio de policiais adentrou o banheiro. Claus tentou novamente conjurar eletricidade, e mais uma vez não obteve sucesso. Os policiais empurraram seu rosto contra a pia enquanto algemavam suas mãos com as algemas que neutralizavam seus poderes. Ele tentou se debater, mas não tinha como combater três homens mais velhos e bem treinados. –Claus Hillman, você está preso por... O policial começou a listar seus crimes e direitos, depois o levando para o bar. Evitou olhar para as pessoas, encontrar conhecidos. Ouviu murmúrios baixos e nervosos percorrendo o salão. Olhando para frente, viu o olhar atônito de Gabe, e suas pernas fraquejaram outra vez. Estava sendo levado para o veículo policial, e seria preso. A pior e a melhor parte de sua vida estava prestes a começar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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