O natal havia chegado. O restaurante que trabalhava me pediu para que ajudasse os voluntários de uma organização, seus integrantes forneciam comida para quem morava na rua ou para aqueles que não tinham o que comer. Seria um trabalho fácil, praticamente serviria uma simples sopa para aqueles homens aquecidos com andrajos, de idade e na maior parte do tempo, homens.

Vesti um suéter preto de gola alta com uma calça também preta. Para completar o vestuário, um sobretudo e sapatos perfeitamente lustrados. Durante a viagem no trem, ouvia Tender de Blur nos fones de ouvido, quando, de repente, um senhor me pediu alguns trocados. Descemos na mesma estação, como também nos dirigimos ao mesmo destino: a igreja em que a organização se hospedava para fazer suas ações filantrópicas.

Enquanto caminhava, fumava um cigarro e o senhor estava à frente de mim, de vez em quando ele olhava por cima do ombro meio desconfiado e eu lhe retornava com um sorriso. Acho que ele pensou que o seguia para pegar meu dinheiro de volta, mas parei quando vi que nevava.

Olhei pra cima pensando quando fora o último natal em que eu passara realmente feliz.

Estava servindo a sopa para os desabrigados e o senhor do trem piscou os olhos quando me viu e, novamente, lhe retornei com um sorriso. Acho que agora ele havia compreendido que não estava atrás dele e sim que ia trabalhar ali.

— Feliz natal! — Disse e ele me deu um aceno com a cabeça enquanto pegava o seu prato de mim.

Era hora da troca de turno e fumaria na certa, obviamente fora da igreja e por isso parei na praça em que ela ficava. No entanto, enquanto me juntava aos outros integrantes da organização, percebi que havia um grupo de adolescentes entre eles.

— Ninguém merece trabalhar nesse frio! — Disse um, fechando mais o casaco como se fosse possível quando todos os botões estavam fechados.

— Sim, tá até nevando! — Disse outro, esfregando os braços cobertos. — Por que será que mandaram a gente fazer isso?

— Porque estamos presos num reformatório?

— Sim... mas não acha que mendigos não são tão diferentes da gente? Tipo, enquanto a gente picha a cidade, eles cagam nas plantas dos canteiros, certo?

Naquele momento, tive a certeza que também não faziam parte da organização, a diferença era que estavam pagando uma punição e eu não — pelo menos, eu acho que não. Resolvi tirar um cigarro do maço, enquanto pensava que eram ainda muito ingênuos. Era esperar demais de um adolescente que pensasse mais com o coração do que com a cabeça. Céus! Estávamos no Natal!

— O problema é essa cidade, ela merece mesmo ser toda pichada e cagada. — Disse o terceiro jovem que não havia falado nada até então, eu passei a prestar atenção novamente e vi que tinha cabelos tingidos de verde. — Se há moradores de rua, é porque o governo não está sabendo gerenciar o sistema.

— Qual é, Zoro?! Vai defender essa gente?!

— Cara, tu tá preso. Eles pelo menos são livres; livres das amarras da sociedade. Pergunto-me como é o ponto de vista de um deles, deve ser algo surreal...

— Ham?! — Exclamaram os outros dois em uníssono. — Com certeza, eles pensam que são lixos. Tenho certeza que o que mais querem é que os matem.

Os meninos começaram a rir dele.

— Não é isso... — O rapaz de cabelo verde se afastou até se sentar na fonte da praça e eu fui atrás.

— Zoro. — Chamei assim que cheguei perto, ele estava com os braços atrás da cabeça, deitado nos degraus da fonte, nem parecia que havia saído de cabeça quente numa discussão. — Esse é o seu nome, certo?

— O que foi, tio?

— Tio?! — Eu tinha só 22 anos. — Deixa, eu trabalho servindo sopa também.

— Legal.

“Só isso?”. O idiota passou a me ignorar e eu não sabia o que dizer pra fazer o papo continuar e nem sei por que me esforçava pra falar com aquele marimo ignorante. — Desculpe-me pelo incômodo. — Dei as costas para voltar à igreja.

Sobrancelhas.

“Sobrancelhas”? Ele estava me chamando? — É comigo?

— Me dê um cigarro, lá no reformatório só conseguimos um se chuparmos um guardinha.

Olhei para o cigarro nos meus lábios, ele ainda estava apagado porque fiquei prestando atenção na conversa. Sentei-me ao lado dele e lhe dei o que queria, compartilhamos a mesma chama para acendê-los. — Guardinha? Você está mesmo no ensino médio.

Ele tragou prazerosamente o cigarro e assoprou aos poucos. — Esse é dos bons.

Ri. — Mas traga como um adulto.

— É que tu ainda não me viu bebendo...

Zoro estava mais simpático, talvez o interpretei mal ou não lhe abordei da forma correta. — Eu ouvi a conversa sua com os seus amigos.

— Eles não são meus amigos.

— Colegas. — Pigarreei. — Gostei do que você disse, concordo com sua visão.

— Ei... você veio aqui só pra me bajular?! Só temos opiniões parecidas, só isso.

— Você gosta de bancar o durão, né? Não sabe lidar com elogios?

O rosto moreno dele se avermelhou e eu ri até começar a tossir por conta do cigarro. — Tá, já disse o que queria... pode ir, agora! Anda, anda! — Ele dizia constrangido.

— Eu já morei na rua. — Disse de supetão.

Pela primeira vez, ele encarou os meus olhos e desviou quando sorri. — É? Você é tão bem vestido...

— Um senhor me abrigou quando eu tinha sua idade... me ensinou tudo o que sabia e digamos que eu fui um bom aluno. Chamo até hoje ele de “velhote de merda”, mas fui um bom aluno. — Meneei a cabeça com os braços cruzados e Zoro riu. — O que você disse sobre “visão surreal” é muito verdade, ainda mais eu que tive essa “oportunidade” de experimentar os dois lados.

— Você era mais livre antes?

Cocei minha barbicha, ponderando meus pensamentos. — Eu conheci muita gente da rua... todos tinham uma história que podia virar roteiro fácil de Hollywood... e as visões deles eram mesmo diferentes... porque, como eu ouvi por aí, só somos alguém se produzirmos algo... se trabalharmos ou estudarmos ou consumirmos... mas enquanto àqueles que não fazem isso? Então, nosso mundo era outro e um inexplicável, nossas prioridades eram outras. Casa própria, carro zero, filho médico? Isso só faz sentido para aqueles que são “gente”. Nós passávamos fome, e essa gente não.

— Legal.

Zoro tinha um sorriso bonito nos lábios.

— Desculpa se for invasivo, mas por que foi preso?

— Ah... não está sendo invasivo, não... — Ele disse coçando a cabeça, meio corado. — Não fiz nada demais, ia mal nas matérias e batia em imbecis que nem aqueles dois.

— Marimo, você era delinquente? — Comecei a gargalhar e aumentava à medida que via sua cara se fechar. Aposto que ele torceu para que eu não adivinhasse o que ele queria dizer entrelinhas.

— Para de rir, nem parece um adulto! E o que é “marimo”?

Parei, aborrecido. — Eu tenho só 22 anos!

— Sério?! Você tá acabado, tio.

— Claro, agora a vida é só trabalhar e trabalhar... — Disse me levantando do degrau da fonte e Zoro riu com a minha desgraça. Meu cigarro havia acabado e eu não pretendia acender outro, porque meu turno estava de volta. — Acho que nós dois não somos um bom exemplo de “gente”, né?

Ele sorriu e se levantou também. — Concordo.

— Bora voltar a trabalhar, marimo.

— Era o que ia dizer, sobrancelhas.

Nos encaramos putos, mas começamos a rir.

— Sinto que te conheço há anos.

— Eu também.

Um senhor da organização nos chamou dizendo que o local estava lotado e que precisavam da gente.

— A propósito, marimo, feliz natal.

— Feliz natal.

Ele deu mais um sorriso e eu só pensava em como eram lindos, joguei meu braço nos seus ombros e disse que era bom ele me procurar quando saísse do reformatório. Acho que esse natal não foi tão ruim assim...

Notas finais
feliz natal!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!