Loop

3 Capítulo 3


Notas iniciais
E voltamos com a caça ao tesouro Meus queridos, eu estava desesperada já que a internet não ajuda, mas deu certo! Finalmente lancei o novo capítulo! E agora? O que será que vai acontecer com minha querida Lara? O fim do capitulo anterior foi bem marcante não é? Este aqui será mais um capítulo focado na rotina dos personagens, tendo diferenças essenciais na história que farão um gancho para o próximo capítulo. Boa leitura, se gostarem (ou não gostarem) comentem para que eu possa saber como está o andamento de tudo. Beijinho e até o próximo capítulo!

Me levantei, fui ao banheiro, coloquei o meu uniforme, andei até a cozinha, dei bom dia pros meus pais, e me sentei. Mesmo assim, uma sensação pesada se formou em meu coração, algo que eu não conseguia entender, e nem encontrar palavras.

Será que eu estava doente e esta era alguma forma de mal estar?

Estava tentando me lembrar de qualquer coisa que tivesse me colocado naquele estado, porém nada me veio a mente. Lembro claramente de ter ficado em casa no dia anterior, lembro de ter sonhado que tinha adotado um filhotinho de gato para mim (coisa que não posso fazer, pois meu pai é alérgico), não lembro de algo que tenha me deixado mal.

Talvez algo que eu comi?

— Lucas... — Perguntei e olhei para meu irmão que enchia a cara com um sanduíche de queijo. — Você sentiu alguma coisa depois de comer aquele macarrão de ontem? — Perguntei, lembrando que o jantar havia sido macarrão com queijo.

— Hmmm não, eu tô normal. — Ele disse com a boca cheia.

— Está se sentindo mal querida? — Minha mãe perguntou, preocupada.

Percebi que mal tinha tocado na minha comida e logo franzi a testa e comecei a comer mais rápido.

— Não, deve ser a fome. — Falei.

Meu pai olhou para mim com um olhar do tipo "Boa, mas você não vai faltar o primeiro dia de aula" e eu lancei pra ele um olhar de "Nada haver". Afinal, faltar o primeiro dia seria suicídio naquela escola.

Senti meu celular vibrar e quando olhei para a tela o nome da Alexandra estava nas mensagens do Whats App. Abri a mensagem e me surpreendi um pouco com o que estava lá.

Alê: Posso ir com você para a escola?

Eu: Claro que sim! Mas por quê? Aconteceu alguma coisa?

Alê: Hmm...

Nada, eu só ñ quero ir só.

Te explico melhor quando te ver.

Eu: Blz, eu vou praí de bicicleta então e a gente vai no teu carro

Alê: Ñ!

Meu carro ta com probs

Tem como eu ir contigo de bike?

Eu: Aaah tem sim, tu pode ir na garupa do meu irmão

Alê: Ótimo, até daki a pouco

xoxoxo

Comi bem, apesar do mal estar, e fui andando devagar até a saída, com minha mochila nas costas. Olhei para meu irmão, que já estava subindo na bicicleta e puxei seu braço de leve para chamar a atenção dele.

— Ei! Tem como a gente buscar a Alexandra? O carro dela ta com problema e ela não quer ir sozinha. — Falei e fiz carinha de cachorro abandonado.

Ele deu um suspiro irritado.

— De boas, mas vamo logo, tenho que chegar lá pra falar com o Renan. — Disse e eu sorri.

Corri pra minha bicicleta e quando consegui subir nela ele já estava la na frente me chamando de lesma.

— Tchau! — Gritei para meus pais quando subi na bicicleta, e amaldiçoei mentalmente meu irmão enquanto ele ia na frente sem me esperar. — Lucas isso não é uma corrida!

Meu irmão riu da minha cara e foi pedalando mais rápido, eu custei para alcançá-lo. A minha sorte era de que no pedaço entre a minha casa e a casa da Alê mal haviam carros, e o lugar era bem protegido pela copa das árvores, longe da luz do sol.

Alexandra morava a dois quarteirões da minha casa, então não posso dizer que foi um caminho longo, mas meu deus que calor. Tive que prender meu cabelo em coque por quê já não aguentava mais. Meu pescoço estava quente e suado, o dia seria bem abafado.

Ela já estava do lado de fora da casa, fechando o portão, quando chegamos. Sorriu e correu para me abraçar e eu retribui já que estavamos a muito tempo sem nos ver. Meu irmão ficou coçando a nuca e olhando para todos os lados menos para ela, e eu não pude deixar de rir, Alê era a paixão platonica do meu irmão desde que ele tinha uns 12 anos, eu achava meio fofo, mas sabia que ela não tinha interesse algum nele.

— O que houve? — Perguntei, ao notar que ela estava um pouco desanimada.

— Depois. — Ela disse.

E eu entendi o recado, era algo que ela queria desabafar comigo apenas.

Assenti e ela sorriu, parecendo aliviada, então andou até a bicicleta do meu irmão e subiu na garupa, segurando-se nele. Ele limpou a garganta antes de começar a pedalar e eu fui seguindo. Percebi o quanto meu irmão parecia uma criança perto dela.

"Talvez não seja só o medo que deixa os caras mais vulneráveis" pensei, mas então frazi a testa, por quê eu tinha pensado naquilo? Não lembro de ter visto alguém com medo, mas o pensamento pareceu fresco, como se recentemente tivesse passado por uma situação familiar. Mas logo como ele apareceu, desapareceu, e não pensei mais sobre o assunto.

Chegando na escola estacionamos nossas bicicletas. A escola estava lotada, como todo começo de período curricular, e eu logo me despedi de Lucas, que correu para procurar Renan e falar sobre as férias. Olhei para Alexandra e ela parecia estar um pouco melhor, mas ainda meio abalada.

— Quer me contar o que aconteceu? — Perguntei, olhando meu celular para verificar as horas.

7:15 da manhã, ainda tinhamos mais 15 minutos até a aula começar.

— Hm... — Alê parecia estar procurando palavras para começar. — Eu não sei... Acordei me sentindo bem estranha esta manhã, como se... — Eu me arrepiei um pouco.

— Estranha como? — Perguntei, tanto por curiosidade, quanto para que ela continuasse falando.

Ela suspirou e foi andando comigo até um dos bancos vazios da escola.

— Como se eu estivesse presa em um sonho que não consigo lembrar... — Falou, e eu olhei para ela confusa. — Mas estava tudo bem, quer dizer, eu estava bem sabe? Fiz meu café, fui comer e assistir televisão como sempre... — Disse. — Só que ai eu fui pegar o carro para ir para a escola e eu... Eu não sei. Meu estômago revirou, eu não consegui mais olhar para o meu carro, fiquei com tanta tontura e enjoo... Por um momento pareceu como se todos os meus músculos tivessem travado, eu realmente não consegui... — Ela suspirou de novo e olhou pro chão. — Eu não sei o que deu de errado em mim.

Fiquei preocupada, tanto por ter visto minha amiga tão emocional como estava, quanto por ter acordado estranha também. E se fosse alguma espécie de síndrome coletiva? Doença viral? Estaríamos próximos a um apocalipse zumbi? Balancei a cabeça, tentando afastar esses pensamentos infantis.

— Você está bem e é isso o que importa, certo? — Falei e a abracei. — Qualquer coisa conversa comigo Alê, você sabe que não está sozinha.

Ela sorriu, um sorriso alegre, e me abraçou de volta.

— Obrigada Lara, eu sabia que podia desabafar com você! — Disse e percebi que a voz dela estava denunciando um choro.

— Ué, amigas servem para ouvir nossos problemas. — Eu disse. — Que tal se a gente for visitar o Paulo hoje? Podemos ir na minha bicicleta e saímos rapidinho.

— Se eu melhorar eu vou sim! — Ela disse, voltando ser a Alexandra que eu conheço. — Mas a gente confirma tudo direitinho no intervalo, okay?

— De boas. — Eu respondi e nos levantamos assim que o sinal tocou.

E eu tive que me preocupar com a minha amiga e com a maldita aula de matemática ao mesmo tempo, foi horrivel, nunca mais quero me preocupar com mais de uma coisa ao mesmo tempo, não da gente, e essa versão de Luigi indiano – professor — parece que tava me deixando mais louca.

E então o intervalo chegou e a minha amiga confirmou que iria. Ela finalmente começou a me contar sobre sua viagem à Itália e eu fiquei feliz em vê-la bem. Ríamos muito e ela me falou sobre os presentes que queria dar para mim e Paulo.

Sorri quando ela disse isso.

As aulas acabaram e eu tive que ir com ela de bicicleta até o restaurante que costumávamos almoçar e depois para a casa do Paulo. O problema é que não sou tão forte como meu irmão e não estou acostumada a levar nem cinco quilos de peso para qualquer canto, quanto mais os 56 de Alexandra, o que fez a viagem demorar um pouco e tivemos que ficar revesando nos pedais.

Quando finalmente chegamos na casa dele estávamos tão mortas que os planos de Alexandra para fazer uma sopa falharam, ela estava tão cansada que ficou com preguiça, acabamos que por comprar comida para viagem no restaurante e torcer que estivesse no mínimo morna.

Marcia estava visivelmente cansada, ela nos olhava com um olhar de gratidão e felicidade quando chegamos, dissemos que iamos cuidar dele pelo resto do dia o que a deixou mais aliviada.

Paulo estava a cara do catarro e o quarto dele cheirava a benegrip, e mesmo assim ele parecia mais um zumbi do que um gripado. Tive que forçá-lo a tomar remédios, o que foi mais fácil do que eu previa já que tive ajuda da Alexandra e por fim nos sentamos no chão de seu quarto enquanto ele comia na cama.

— É muito bom ver vocês duas de novo! — Paulo disse, animado e com a boca cheia.

— Sim! Eu senti tanto a sua falta! A Itália é incrivel! — Ela começou a falar e Paulo prestava atenção em cada palavra que saia de sua boca. Após algum tempo ela pareceu lembrar de algo e moveu para sua mochila, tirando duas caixinhas de la. — Abram! Quero ver a reação de vocês! — Disse animada.

Eu sorri pegando a caixinha vermelha e desfazendo seu laço. Encontrei um lindo globo de neve. E ao tirá-lo da caixa o admirei com cuidado, mas... Que estranho? Eu acho que... Não, espera. Uma onda me atingiu, eu já tinha visto aquele globo antes, mais de uma vez.

Meu estômago começou a embrulhar e as palmas de minhas mãos ficaram suadas, eu olhei para Alê que me encarava preocupada.

— Lara? Está tudo bem? — Ela perguntou.

Pisquei algumas vezes, sentindo aquela sensação me deixar aos poucos, porém um formigamento irritante me atingiu na base da nuca, um alerta de que algo estava errado.

— Não estou me sentindo muito bem. — Falei e de imediato senti uma pontada no meu útero. — Ah... Preciso de um banheiro.

Paulo e Alexandra me observavam com um olhar assustado, os dois se levantaram e me acompanharam até o banheiro.

Ao abaixar minhas roupas e sentar no vaso pude ver minha roupa intima um pouco suja de sangue, meu coração acelerou, mas eu fiz questão de fechar os olhos.

Havia ficado muito nervosa e eu nem sabia o motivo, aliás não tinha motivo. Recebi um presente maravilhoso, eu tenho absoluta certeza de que nunca vi aquele globo antes, e lentamente a sensação de deja vu foi me abandonando. Agora, eu tinha um problema. O estresse, ou seja lá o que tenha sido isso, acabou me fazendo menstruar antes da hora e eu estava sem absorvente.

Suspirei quando fiquei mais calma e gritei, para que pudessem me ouvir do outro lado da porta.

— Alê olha o celular! — Pedi.

Alê: AH MEU DEUS O QUE FOI? VOCÊ TÁ BEM?

Eu: Tô sim, mas preciso de um absorvente.

Alê: Ah... Pera, vou ver se tenho um.

Fiquei esperando, até que ouvi batidas na porta e ela entrou devagar. Senti meu corpo meio mole e fraco, as dores das cólicas me faziam piorar nesse quesito. Ela olhou pra mim bastante preocupada antes de me entregar o absorvente.

— Nossa você parece que viu um fantasma. — Ela disse e colocou a mão na minha testa. — Nem muito quente e nem muito fria, pelo menos.

— Mas bem envergonhada. — Falei, enquanto posicionava o objeto em minha roupa intima. — Pronto, muito obrigada, você salvou minha vida. — Falei.

— Pensei que você nunca esquecece o dia. — Ela falou, ainda com o tom de preocupação.

— Veio mais cedo. — Falei enquanto me levantava. — Não sei direito o porquê... Acha que eu devia ir no médico? Eu acordei me sentindo estranha hoje, talvez esteja doente... — Continuei.

— Acho melhor, talvez não seja nada, mas é bom acompanhar. — Ela passou a mão no meu braço de forma carinhosa em uma mensagem silenciosa de "você tem o meu apoio".

Assenti e sai do banheiro com ela, expliquei a situação para o Paulo que ao chegar na palavra menstruação fez uma careta e disse ter entendido tudo com cara de "por favor não me dêem detalhes".

— São pedaços do meu útero lentamente saindo de mim... — Comecei a provocá-lo.

— Ela pode basicamente sentir, as contrações, o sangue. — Alexandra continuou com um sorriso malicioso.

— Para! — Paulo pediu e cobriu os ouvidos.

Me movi e fiz com que ele tirasse as mãos de lá.

— E quando passamos muito tempo sem trocar o absorvente... Tudo fica com o cheiro de peixe podre... — Continuei.

O garoto me empurrou e começou a fazer um "lalala" repetitivo para se distrair e não ouvir aquilo.

Olhei para Alexandra e ambas caímos na risada. Paulo era provavelmente o cara mais fresco que eu conhecia, era legal zoar com a cara dele.

Continuamos conversando por um tempo, quando ele se acalmou.

— Bem acho melhor a gente ir... — Alê disse depois de algumas horas.

— Ah... Na verdade... — Eu tive uma sensação ruim novamente, um sentido de alerta me dizendo para não sair agora, tentei não ignorar desta vez, parecia importante. — Eu queria saber se a gente podia passar a noite aqui, não estou muito bem para andar de bicicleta, a cólica ta forte. — Conclui.

— Hmmm eu não reclamaria que vocês ficassem, mas é melhor perguntarmos pra minha mãe, e você tem que confirmar com seus pais Lara. — Paulo falou e eu concordei.

Falei com meus pais, mas disse que iria dormir na casa da Alexandra para que meu pai não brigasse comigo, afinal, Paulo ainda é um homem e ele não gosta de pessoas do sexo oposto dormindo juntos sem as seguintes opções:

1 – Familiar, como irmãos, pais, e no máximo primo-irmãos.

2 – Casados.

O que me deixava com uma chance de 100% de receber uma negação e ter que voltar para casa de bicicleta, correndo o risco de não chegar a tempo antes do escurecer.

A mãe de Paulo deixou tranquilamente que eu e Alê ficassemos a noite, em troca arrumamos um pouco da casa e fizemos o jantar. Notei que a mulher estava bastante cansada e ofegante mesmo quando realizava movimentos simples e me preocupei bastante, porém não comentei nada.

Enxemos um colchão de ar, que dava tranquilamente para nós duas, e colocamos no chão do quarto, junto com cobertores e travesseiros e juntos, nós três, ficamos assistindo filmes de ação e comédia trash até adormecermos.

Tive um sonho estranho.

Não lembro direito como começou.

Mas sonhei como se estivesse em cima de um barranco. Lá em baixo eu podia ver uma floresta, e ao olhar para trás também pude ver uma floresta do mesmo tipo. Densa, que me impedia de ver o céu. Com passaros e animais que estavam parados me observando.

Ouvi um rugido e logo me virei em alerta.

No meio das árvores uma figura feral andava em minha direção lentamente, seus olhos azuis e castanhos, os dentes afiados, uma sensação de alerta que me inundava, os pelos eriçados – tantos meus quanto os da criatura. -. Saliva saia por entre os seus dentes e o enorme urso ficou de pé nas duas patas, me fazendo andar para trás e cair no abismo.

Acordei atônita e suando frio.

Ainda era de noite, meus olhos procuravam qualquer detalhe que estivesse diferente naquele quarto porém nada encontraram.

Eu suspirei de alívio ao perceber que estava segura, e voltei a me deitar na cama de ar. Mas não consegui voltar a dormir, percebi que Alexandra se debatia levemente, como se estivesse em um pesadelo. Eu a abracei e fiquei sussurrando que estava lá por ela.

Eu estava lá por ela.

E como resultado: Acabei caindo de sono no meio da aula de português.

Viva.

— Sabe foi muito exagero a professora me dizer que ia pedir para a coordenação falar com meus pais. — Falei, sentindo raiva de mim mesma. — Eu não estava fazendo nada que atrapalhasse, só caí no sono, era mais adequado ela ter me perguntado se eu estava me sentindo bem.

— Mas você está bem. — Meu irmão disse do meu lado.

Estávamos ambos sentados em umas cadeiras de plastico, com os braços cruzados, encarando o nada, enquanto esperávamos a coordenadora nos chamar.

— E você? — Perguntei curiosa. — O que fez para parar aqui?

— Eu baixei LoL no computador da informática e fiquei jogando enquanto o professor passava uma tarefa. — Ele revirou os olhos. — Mas eu me empolguei demais em uma partida e acabei gritando na sala, chamei atenção demais, ele viu o que eu estava fazendo e disse que eu não tinha respeito pela matéria. — Fez uma careta. — Acontece que eu respondi que tinha respeito pela matéria, só que ele deixava tudo chato com as atividades de doente mental.

— Ai... E o que ele tinha colocado pra vocês fazerem? — Perguntei.

— Jogar um jogo sobre números e calcular o tempo que resolviamos tudo, primeiro que jogar joguinho na aula é coisa de primeira série e segundo que eu já tinha feito essa atividade antes, não tinha saco pra fazer de novo.

— Ué, mas você foi mandado pra cá por jogar joguinho na aula... — Falei.

— LOL não é joguinho, é mais complicado do que você pensa, é um esporte!

Eu ri quando ele ficou mais carrancudo e parou de falar, percebendo que eu só estava procurando motivos para irrita-lo.

— Você veio pra cá por quê mesmo? — Ele perguntou.

— Eu já disse: Dormi na aula de português. — Falei.

Ele balançou a cabeça incrédulo e murmurou baixinho.

— Escola fresca da porra. — Disse.

Eu sorri, mas meu sorriso morreu quando meu pai saiu da sala da coordenadora com cara de poucos amigos. Nós ficamos surpresos, pois não tínhamos notado que ele já estava la.

— Vamos. — Meu pai disse e nós obedecemos. — Vocês estão suspensos pelo resto do dia.

Eu e meu irmão nos entreolhamos e o seguimos calados. Ao chegarmos no estacionamento, indo em direção ao volvo prata de meu pai, ele parou e olhou para nós parecendo incrédulo.

— Você foi suspensa por dormir na sala e você por não querer fazer uma atividade que eu sei que já fez por quê lembro de você reclamando no semestre passado, certo? — Disse, e quando confirmamos ele deu um suspiro pesado. — Escola fresca da porra.

Nossa, um deja vu.

Eu e meu irmão pegamos nossas bicicletas, meu pai prendeu a minha na traseira do carro enquanto meu irmão foi na frente, voltando sozinho para casa.

Assim que entrei no carro, a primeira coisa que fiz foi colocar o cinto de segurança e apertar sua alça o máximo possivel, meu pai notou isso e franziu a testa.

— Eu não dirijo tão mal assim. — Falou e eu lhe dei um sorriso amarelo.

Posso jurar como meu coração quase parou quando ele ligou o carro.

Voltamos pra casa em um caminho rápido, sem problemas, mas não lembro de ter visto meu irmão nas ruas, e nem quando chegamos em casa.

Só fomos perceber que ele havia desaparecido a noite. É aquele tipo de coisa que você nunca acha que vai acontecer com você ou com sua familia, até que acontece.

Passamos pela negação inicial, tentando arranjar motivos para a demora de meu irmão. No meio dessa fase fomos de "ele se perdeu", para "foi beber escondido" e então "deve ser aquele Renan, o amigo baitola dele, deve estar levando ele para o mal caminho!", não pude deixar de gritar com meu pai neste momento, até que finalmente começamos a perceber: Não tinhámos ideia de onde meu irmão estava.

Minha mãe ligava para colegas, ia procurar nos vizinhos, desesperada.

Meu pai pegou o carro e foi procurá-lo em ruas mais distantes.

Eu fiquei em casa e liguei para Renan, procurando-o, mas Renan disse que não o viu.

Fiquei esperando meu irmão voltar.

Ele não voltou.

Meu coração parecia desacelerar a cada minuto que eu passava sem ele.

Memórias de infância, do meu irmão correndo para meus braços quando eu tinha cinco e ele três anos. Da primeira escola de natação, da vez que meus pais precisavam trabalhar e eu fiquei cuidando dele em casa, sozinha. Aquele era meu irmão, meu melhor amigo e meu confidente. E ele se foi.

No fundo eu já sabia a resposta.

O mês foi avançando e espalhamos cartazes de desaparecido pela cidade inteira. Minha família desmoronava a cada dia que se passava. Minha mãe começou a beber e saiu de casa, indo morar com a minha avó. Meu pai ajudava as equipes de busca.

Na metade do mês encontramos a bicicleta de meu irmão, praticamente destruida e cheia de sangue. A polícia disse que ele havia sido atropelado, mas eu não sabia no que acreditar, ao ver a bicicleta – em um momento cujo eu estava espiando sozinha os grupos de busca e a polícia – eu podia jurar que apenas um monstro poderia ter feito aquilo.

No mesmo mês uma garota foi encontrada morta, seu corpo boiando no rio. A causa: Suicídio. Porém meu coração ficou cada vez mais alarmado, cada vez mais perto da verdade e ao mesmo tempo tão distante.

No ultimo dia do mês meu irmão foi encontrado. Pelo menos os restos dele... O corpo foi esquartejado e jogado na floresta, os animais fizeram o trabalho de limpa-lo, restando apenas ossos e uns pedaços de carne estragada.

Não nos deixaram vê-lo.

Me lembro da última vez que vi alguém morto... Meu tio, que cuidou de mim quando meus pais não podiam. Que me levava para pescar com meu irmão, e era tão da família quanto todos os outros. Quando meu tio morreu, por conta de câncer no fígado, eu passei dias imaginando como deveria ser. Se a pele já tinha ficado pálida, se seus olhos tinham escurecido, se os lábios tinham rachado, se a barriga estava inchada pela decomposição, se as unhas e os dentes estavam ficando cada vez mais feios.

Eu apenas superei esta fase por quê pude desabafar com meu irmão, por quê ele compartilhava da minha dor. Mas agora ele tinha ido embora, e aqueles pensamentos estavam voltando, e eu não sabia o que fazer.

Me senti vazia por dentro, algo em minha cabeça martelando, dizendo que eu poderia ter evitado aquilo se não tivesse tomado seu lugar no carro.

Minha família, aquilo não podia ser mais chamado de família.

Eramos uma mulher desesperada, um homem que aos poucos se tornou vazio e eu, eu nem sei o que eu era.

Meus amigos tentaram me ajudar, porém nada funcionou, eu estava sozinha, eu tinha perdido alguém muito importante para mim.

No último dia do mês, no dia do enterro de meu irmão, ouvi uma voz atrás de mim, que pegou em meu ombro de forma carinhosa. Eu me virei para ver quem era e vi o doutor da minha escola me encarando com profunda tristeza.

Não entendi o que ele estava fazendo ali, não entendi o que eu tinha que fazer também. Apenas o encarei.

— Sinto muito. — Ele disse antes de ir embora.

— Por favor vá embora. — Falei seca, sem vida.

Eu tinha noção do que todos falavam ao meu redor, de que tinha sido uma pena o que tinha acontecido. Falavam de minha mãe, a chamavam de fraca, e riam dela. Falavam do meu pai, de como era uma pena o que ele devia estar aguentando.

Na despedida, me falavam para der forte, porém os olhos de algumas pessoas denunciavam um silencioso "bem feito". Tóxicas. Muitas daquelas pessoas nunca nem tinham falado com meu irmão antes, e mais de 90% não o conheciam de verdade.

Era uma pena para a cidade perder um futuro nadador profissional, um homem correto que nos traría orgulho. Mas para a cidade ele não passava disso.

Ao chegar em casa eu enchi a cara com bebidas que tinha comprado no mercado, fiquei bebendo até desmaiar, vomitei e acho que deitei no meu próprio vômito. Que patética, que fraca, que inútil, meu deus, eu me odiava.

Acordei com o sol da manhã batendo em meu rosto e me esquentando.

Eu estava bem grogue e meus olhos se recusavam a abrir, meu corpo parecia estar saindo de um estado de dormência e meus musculos clamavam por mais descanso.

Me estendi, sem levantar da minha cama confortável, alongando os braços e as pernas antes de me virar e abraçar meu travesseiro. No entanto não consegui ficar muito tempo naquela posição maravilhosa, já que logo ouvi várias batidas na minha porta e uma voz feminina desesperada que dizia:

— Lara levanta você vai se atrasar! — Minha mãe gritou do outro lado da porta antes de ir fazer o mesmo com o meu irmão.

Suspirei e fui tateando minha mão no centro de mesa ao lado de minha cama, até encontrar meu celular e ver que horas eram. 1 de agosto, 6:15 da manhã.

Notas finais
E lá vamos nós!