Loop
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Limpei meu rosto rápido sem entender a sensação de alívio que me invadiu e me fez começar a chorar.
— A-Acho que alguma coisa entrou no meu olho. — Falei enquanto limpava meu rosto.
Meu irmão andou até mim e deu um tapa na minha nuca antes de ir para o próprio quarto.
O que estava acontecendo comigo? Me sentia um lixo e ao mesmo tempo a pessoa mais feliz do mundo. Andei até o banheiro, lavei meu rosto com sabão e água morna. Me acalmei o suficiente e fiquei surpresa ao encontrar a privada limpa, mesmo que meu irmão tenha acabado de sair de lá.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa ouvi alguns barulhos fortes, de panelas e coisas sendo jogadas no chão. Pulei de susto e saí do banheiro ao mesmo tempo em que meu irmão aparecia no corredor confuso. Consegui ouvir os gritos de minha mãe o que me fez correr escadas abaixo, meu tornozelo doeu por isso, porém ignorei a dor e fui até a cozinha.
Vi meu pai assustado olhando para um ponto fixo, a mesa estava uma bagunça, a toalha havia sido puxada fazendo toda a comida, as xícaras de café, tudo ter caído no chão, criando uma espécie de massa, uma mistúra de comida meio nojenta. Olhei para a direção em que meu pai encarava e vi minha mãe encolhida no canto, o fogão ligado fazendo uma panela com água quente ferver e fazer um barulho muito forte com o vapor que saía em velocidade alarmante.
Minha mãe tinha os cabelos assanhados, os olhos perdidos, ela falava algo mas nenhum som saía de sua boca. Percebi que estava rezando. A mão direita, ainda com a luva de cozinha, segurava uma faca e apontava para nós, enquanto o braço esquerdo estava ao redor do corpo, em modo de defesa.
Meus olhos não acreditavam no que estavam vendo, meu irmão tentou se aproximar mas minha mãe olhou para ele assustada e moveu a faca rápido em sua direção, ele parou.
— Não! N-Não! O céu! O céu ficou vermelho! — Ela gritava, uma voz desesperada que quebrou meu coração. — M-Meus filhos! Eu perdi ambos! P-Preciso avisar! — Ela continuava. — Cópias! São cópias! Não p-posso l-lembrar! — Sua mão esquerda subiu até sua cabeça. — E-Eu tenho que impedir! N-Não consigo! Não consigo! Frio...
Meu pai avançou e tomou o braço dela, torcendo-o e fazendo a faca cair. Minha mãe gritou e começou a bater nele, meu irmão avançou e a fez parar.
— Mãe se acalme! — Ele gritou, tão assustado quanto eu.
Meus olhos estavam molhados, eu avancei para ela e coloquei as minhas mãos e seu rosto, minha mãe parou de se debater e olhou para nós, os olhos ainda assustados, o olhar perdido de antes voltando ao normal aos poucos, ela estava muito quente.
Olhei para meu irmão e para meu pai, eles afrouxaram o aperto, minha mãe se soltou e me agarrou, me puxando para mais perto e sussurrando, com a voz rouca e desesperada, em meu ouvido.
— L-Lamentar uma dor passada... — ela disse. — N-No p-pr-presente é c-criar outra d-dor e sofrer novamente, novamente, n-nossas d-du-duvidas são traidoras e v-vivemos e-em um mundo de dementes...
Me afastei dela confusa.
Os olhos de minha mãe se reviraram, fazendo a parte branca toma-los, ela começou a convulcionar e saliva em forma de espuma saía de sua boca. Nós nos apressamos e fizemos o necessário, como era ensinado nos primeiros socorros.
— E-Ela precisa de um hospital! — Falei, olhando para meu pai.
No entanto foi meu irmão que correu para pegar as chaves do carro e abri-lo.
Ajudei meu pai a arrastar minha mãe, agora inconsciente, para o carro e fomos todos juntos.
Meu irmão e eu deitamos mamãe sobre nosso colo no banco de trás enquanto meu pai dirigia apressado. A sensação de estar dentro de um carro me deu um mal estar imenso, lembrei que meu tornozelo ainda doía, mas meus braços seguravam o corpo delicado de minha mãe e todas as minhas forças me faziam me controlar.
Fomos direto para a emergência e logo fomos recebidos. O hospital era frio, pequeno, mas eficiente. As enfermeiras e médicos eram atenciosos, a maioria no horário da manhã eram profissionais, enquanto no horário da tarde os internos estudavam e observavam os processos, em busca de um melhor desempenho, melhores notas, e melhores lugares no hospital.
Mesmo com o atendimento rápido, tivemos que esperar horas para o resultado dos exames. Tiveram que tirar sangue, bater fotos do cérebro dela com aquelas máquinas que eu sinceramente não lembro o nome agora, tiveram que examinar sua boca, que ela tinha cortado turante a convulsão, os olhos e tudo.
Os médicos andavam um pouco preocupados quando olhavam para nós, mas não nos davam detalhes.
Senti meu celular vibrar e percebi que havíamos ficado a manhã toda esperando.
O hospital começava a ficar lotado, mas tinha casos bem simples. Meu pai além de ter ido comprar nosso almoço, buscou roupas para mim e meu irmão. No desespero eu tinha saído de pijamas e ele sem camisa.
Olhei a tela do celular e vi que havia mil mensagens (eita, exagero, eram só 15) da minha melhor amiga e suspirei. A manhã foi tão longa e confusa que eu não tinha sequer avisado ou dado qualquer sinal de vida para ela.
Expliquei a situação sem dar detalhes, só disse que minha mãe havia passado mal e tive que ir ao hospital com ela. Minha amiga entendeu, mas pareceu desapontada e desejou melhoras para minha mãe.
Minha cabeça estava uma bagunça com o que havia acontecido, então apenas me despedi e desliguei o celular.
— Aqui, pegue. — Ouvi a voz do meu pai e ao olhar para o lado percebi que ele estava entregando algumas sacolas de plástico para meu irmão. — Terei que ir trabalhar hoje, não me deram folga pela tarde, me mandem mensagens para me informar sobre tudo ok?
Meu pai claramente já teve dias melhores. Ele parecia cansado, decepcionado, confuso, tudo ao mesmo tempo. Eu concordei e meu irmão também. Meu pai nos abraçou e foi embora, mas pareceu hesitar antes de ir.
Peguei uma das sacolas, a que tinha minhas roupas, e fui até o banheiro para poder me trocar. Coloquei a blusa e a calça jeans, ambas não combinavam e nada, minha blusa era verde limão, própria para ginástica, e a calça era rasgada e estampada, em um azul bem claro. Suspirei, e engoli o fato de querer que meu pai conseguisse roupas melhores em uma situação dessas era querer demais.
Voltei para meu irmão e ele já tinha colocado sua camisa, uma totalmente preta com a estampa do Iron Maiden, e agora finalmente poderíamos entrar no hospital. Tinham dito para meu irmão que ele não poderia entrar sem uma camisa e acabamos do lado de fora.
Uma enfermeira veio nos chamar enquanto estávamos comendo, ela avisou que minha mãe tinha acordado e o quarto estava pronto para visitas. Guardamos a comida e a seguimos, eu estava nervosa e apreensiva, mas engoli tudo e fui andando.
Ouvi gritos no quarto e outra enfermeira pedindo por ajuda, fiquei estática, meu coração acelerando cada vez mais.
— Eu já vivi esse dia! Eu não to louca! Eu não to louca! — Minha mãe gritava dentro do quarto.
Olhei para meu irmão e ele já estava entrando no quarto de forma apressada, eu o segui e encontramos minha mãe se debatendo e enfermeiras a segurando, uma delas tentando alcançar uma bandeja com seringas.
— Mãe você está me assustando! — Falei, com os olhos cheios de lágrimas e me aproximando dela.
Minha mãe pareceu relaxar aos poucos, mas as enfermeiras continuaram segurando a mesma, eu olhei para ela tentando segurar meus próprios soluços.
— Me escute! Me escute! — Ela começou a ficar agitada de novo o que fez as enfermeiras pegarem a seringa e tentarem segurar seu braço. Meu irmão foi ajudar, mas naquele momento eu o vi como um traidor por fazer aquilo com nossa mãe.
— O que vocês estão fazendo?! — Disse, tentando empurra-los.
Iriam droga-la, eu sabia disso.
— N-Não confiem neles! Confiem em ninguém! — Minha mãe disse, e sua voz foi morrendo aos poucos quando enfiaram a agulha da seringa em seu braço. — Não confiem, não confiem... Não... — Ela fechou os olhos e começou a dormir.
Olhei para a minha mãe, frágil, sensível, louca.
No entanto o alerta em minha mente e meu coração nunca foram tão fortes.
***
"Lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor e sofrer novamente, novamente, nossas dúvidas são traidoras e vivemos em um mundo de dementes. O céu está vermelho. Novamente. Não confie. Confie em ninguém."
Estas palavras martelaram minha mente pelo resto do dia, e não me deixaram e paz em meus sonhos.
Em meus sonhos pude reconhecer minha mãe, sendo jogada em uma sala branca com uma camisa de força, as palavras escritas na parede com sangue. Mas não eram seu sangue. Senti minha palma arder e vi que havia cortado minha própria mão, minha mão que sangrava era a mesma fonte daquelas palavras.
Lara! Lara acorda! Lara socorro!
Ouvi os gritos de Alexandra e comecei a procurar, passei por uma porta branca, tão branca que foi difícil encontrar naquele lugar, e do outro lado vi o K.A. vermelho de Alexandra destruído. Não sei por quê, mas senti meu corpo pesado e fui lentamente me deitando no chão. Senti algo molhado sobre mim, minha visão ficando cada vez mais embaçada. E então vi uma figura abrir o carro e arrastar outra figura a força, percebi que era minha amiga por conta de sua voz, seu choro, seu desespero.
Acordei, ainda era noite.
Olhei ao meu redor e procurei meu celular.
2 de Agosto, 3:45 da manhã.
Suspirei, mas não consegui me acalmar.
Senti minha garganta fechar como se estivesse sendo sufocada e me levantei, coloquei qualquer roupa, corri para fora de casa tentando ao máximo não fazer barulho, e peguei minha bicicleta.
Estava frio, o céu estava nublado, deduzi por conta da falta de estrelas.
Comecei a pedalar.
Pedalei sem objetivo, deixei meus pés me levarem, e fui até não saber mais onde iria parar. Senti sombras me observando onde quer que eu fosse, como segredos obscuros de alguma coisa que eu ainda não poderia entender.
"Preciso avisar!"
De novo.
"Eu já vivi esse dia!"
E de novo.
A voz da minha mãe batia em minha mente de novo.
"Novamente"
Ela disse.
Fechei os olhos com força, saí da bicicleta, a joguei para o lado. E gritei, gritei muito, gritei até sentir que minha garganta iria rasgar.
Quando finalmente parei de gritar eu pude ver o céu, os primeiros raios de sol se formando distantes, e senti água caindo sobre mim. "O céu está chorando..." pensei, mesmo sabendo que não era verdade, mas aquilo me confortou, como se o mundo dissesse que eu não estava sozinha.
Mas então algo bloqueou a chuva de cair no meu rosto e senti alguém me puxar pelo ombro.
Olhei para trás assustada e encarei o homem de olhos azuis, em uma mistura engraçada com castanho, que parecia bastante surpreso ao me ver, confuso e até assustado.
Eu já o vi antes.
Mesmo que eu pensasse que sim minha mente foi incapaz de lembrar, o que me deixou confusa e calada.
— O que está fazendo aqui? — Ele começou a falar, me olhando de cima a baixo. — Caralho você ta ensopada.
— Q-Quem é v-você? — Apenas agora percebi que meus dentes tremiam.
— Er... Meu nome é Daniel... — Ele se apresentou. — Hm... Você não quer entrar? Está ficando azul. — Então ele apontou para uma casa com a porta aberta que parecia muito confortável.
Olhei para a casa e então para ele.
— Como m-me v-viu? — Perguntei e me afastei um pouco dele.
— Bem não foi difícil ja que você estava gritando. — Ele deu de ombros. — Me acordou. — Disse.
Vi que ele usava apenas um roupão e calças longas e frouxas.
— D-Desculpe, m-m-mas minha m-mãe me ensinou a n-não entrar na casa de estranhos. — Eu disse, pegando minha bicicleta e indo embora.
Acenei para ele antes de sair, o mesmo aparentava preocupado, mas não insistiu.
Pedalei de volta até a minha casa, e ao chegar já era 6 da manhã.
Andei até o banheiro e eu tentei não molhar a casa, só que não deu.
Comecei a tomar um banho com água morna e tentei organizar meus pensamentos. Não deu certo, mas pelo menos eu não estava mais com frio.
Ouvi um baque forte de algo batendo no chão e um grito.
— Ai! Quem... Por quê o corredor ta molhado?! — Meu irmão gritou, parecendo surpreso e eu percebi que ele deve ter caído em uma das minhas poças.
— Desculpa... — Falei baixinho e encostei minha cabeça na parede, minha mente estava lotada, mas sem qualquer informação válida, e doía.
Dói muito ver minha mãe daquela forma.
Dói muito não saber o que está acontecendo.
Saí do banho, sequei meu cabelo, coloquei o meu uniforme, desci para a cozinha.
— Bom dia flor. — Disse uma voz familiar e pude sentir o cheiro delicioso de comida.
— Alê? — Perguntei e ao terminar de descer as escadas lá estava ela em frente ao fogão com um sorriso enorme no rosto, uma panela na mão, uma colher na outra, e meu irmão deitado sobre a mesa como se estivesse dormindo.
— Seu irmão me chamou e me contou que sua mãe foi internada, como eu não queria ir para a escola sozinha aproveitei para passar aqui! — Ela disse animada.
Colocou as coisas no balcão, deu um tapinha no Lucas – que levantou e foi ao banheiro – e veio até mim para me abraçar. Eu a abracei de volta, mas não tinha saído do meu lugar.
— Own Larinha, calma vai dar certo, sua mãe vai ficar bem. — Ela disse antes de quebrar o braço e voltar para o fogão. — O café vai ficar pronto logo.
Assenti e fui andando até uma cadeira, para me sentar e esperar. Lembrei de meu pesadelo e olhei para ela.
— Você veio de carro? — Perguntei, curiosa.
— O que? Ah, não, o Lucas me chamou e eu vim andando. — Disse. — Meu carro quebrou.
Notei que ela falou a ultima frase com um pouco de nervosismo e meus olhos estreitaram, mesmo assim não falei nada, apenas suspirei e concordei.
— Ah Lara a itália é incrivel! — Ela tentou mudar de assunto e eu deixei, queria me distrair um pouco também.
***
Comemos, fomos de bicicleta até a escola, conversamos muito e então nos despedimos.
Mas a cada minuto eu ia me sentindo lentamente pior.
Comecei a sentir meu corpo pesado e tentei me convencer de que era apenas o sono, afinal não dormi quase nada essa noite, porém comecei a sentir minha garganta coçar, meu peito a ficar pesado, o nariz já estava pedindo clemência quando me levantei, e fui atingida por uma onda de tontura. Lembro do professor gritando meu nome, mas não lembro de ter caído no chão.
Quando acordei de novo eu estava deitada em uma cama, com cortinas ao meu redor. Reconheci o ambiente como a infermaria da escola, e eu tive a sensação de ter estado lá recentemente, embora minhas memórias só podiam me fazer recordar a última visita a dois anos atrás.
Suspirei ao perceber que mal conseguia respirar pelo meu nariz, e tentei sentar mas a tontura não deixou. Eu estava com muito frio, mas sentia meu corpo molhado de suor. Ah que ótimo, além de ter faltado o primeiro dia de aula eu estava doente no segundo. Lembrei-me da chuva da noite anterior e me amaldiçoei por ter saído de casa.
Ouvi alguém se aproximar e abrir as cortinas, ao olhar para o lado pude ver ninguém menos do que Daniel, ou o Doutor.
— Eu disse que você estava ensopada. — Ele falou com um sorriso no rosto e um termômetro na mão. Viu meu rosto confuso e então disse – Sou estágiario aqui desde o começo do semestre, é para meu curriculo e medicina e a experiência, ainda estou na faculdade, então não é grande coisa. — Me deu mais detalhes do que eu queria saber, mas não reclamei. — Você está com uma gripe horrivel, quase 39 graus de febre, é melhor ir pra casa.
Meus olhos se abriram mais e eu segurei sua mão, impedindo que o mesmo saísse.
— N-Não, não conte para o meu pai! — Falei. — Eu espero meu irmão sair, m-mas não conte para o meu pai. — A última coisa que eu queria dar para meu pai agora era qualquer tipo de problema.
Daniel olhou para mim e pareceu ver a urgência no meu olhar, ele acenou com a cabeça em concordância o que me fez relaxar mais.
— Certo, pedirei para avisarem seu irmão... — Disse, e falava como se estivesse me analizando ao mesmo tempo. — Mas fique deitada e descanse.
Ele saiu assim que terminou de falar e eu voltei a fechar os olhos.
Não consegui dormir, meu corpo não me deixava, de tanto que eu tremia.
Daniel pegou alguns remédios para febre e me deu, as tremedeiras pararam depois de um tempo e eu me senti um pouco melhor.
Passei a observa-lo sempre que o mesmo aparecia para mim. Ele fazia seu trabalho de forma impecável e parecia ser bem organizado.
Não sei bem quando eu dormi, mas acordei com meu irmão me tirando da cama e me chamando. Abri meus olhos pesados e olhei para ele, o mesmo tinha uma expressão bastante preocupada.
— Obrigado por cuidar dela. — Ouvi ele dizer para o outro homem.
— Eu posso ficar em pé. — Fale.
— Eu não quero correr nenhum risco – ele disse. — Você recebeu permissão para ficar em casa até melhorar, nós vamos no carro do Renan agora e depois eu volto para pegar as bicicletas.
Olhei para meu irmão e segurei sua camisa.
— Não, não me deixa sozinha de novo. — Eu me sentia triste, como se meu corpo temesse que um vazio voltasse, mesmo que eu não soubesse bem o que seria aquilo.
Meu irmão não disse nada, apenas continuou me levando até o carro dos pais do Renan.
A mãe dele ofereceu apoio, mas meu irmão disse que conseguia cuidar de mim sozinho. Nos deixaram em casa e ele me colocou na cama, de forma bem paternal, comecei a pensar que meu irmão seria um ótimo marido e pai no futuro e isso me alegrou um pouco.
Quando a noite chegou eu já me sentia bem melhor com relação a manhã.
Fiquei o dia conversando com a Alexandra e o Paulo pelo celular, ambos estavam preocupados comigo embora nosso amigo estivesse quase na mesma situação. As mensagens ficaram insuficientes e Alê acabou me ligando para conversar, contei para ela que havia passado a tarde na infermaria e que havia descoberto o nome do médico gato, ela quase pirou e me pediu detalhes.
Falei como ele se comportou comigo, como foi gentil, e ao mesmo tempo sério no que fazia.
— Um homem digno, eu aprovo. — Ela falou em determinado momento.
Eu ri e tentei mudar de assunto, falamos um pouco mais da Itália, até que ela resolveu falar que tinha ido visitar o Paulo sozinha. Me contando detalhes que me fez perguntar:
— Alê, você gosta do Paulo?
Ela ficou em silencio por alguns segundos, longos demais para minha curiosidade, antes de confirmar e desejei que tudo desse certo para eles.
Pelo menos a paixonite da minha amiga com ele me alegrou um pouco e me deu assuntos para me distrair. Passei a semana toda em casa, me sentindo melhor aos poucos e recebendo as bajulações de um irmão preocupado.
Meu Pai passava em casa de vez em quando, as vezes parando para falar conosco e as vezes indo diretamente para o quarto. Ele estava sofrendo em silêncio com toda aquela confusão e eu queria ajuda-lo de alguma forma, mas não consegui pensar em nada que fosse relevante.
Ao voltar para a escola, me sentindo 100% novamente, abracei meus amigos e ouvi as histórias de cada um. Paulo me contou como havia sido suas férias enquanto Alexandra nos deu nossos presentes, eu fiquei surpresa e abri a caixinha vermelha devagar.
Vendo o presente me senti fora de mim mesma e levantei o rosto, apenas para perceber que a escola ao meu redor tinha desaparecido.
Ao invés disso uma cena familiar: Eu estava sentada no chão com Paulo na cama, não reconheci tudo, mas sabia que estava no quarto dele. Tinha em mãos o mesmo globo de neve que segurava agora. Cabia na palma da minha mão, e tinha uma miniatura detalhada da torre Eifell dentro, com uma plaquinha em baixo que dizia "com amor, da França" em inglês e francês.
Olhei para o Paulo e o garoto estava bem animado com seu presente, um pen drive em forma de pizza, a cara de quem adora comida.
Alexandra apareceu com um prato de sopa na mão e o entregou para Paulo que agradeceu e começou a comer.
— Bem o que acharam do presente? — Ela perguntou ansiosa.
— Eu adorei Alê! É lindo! Vou colocar do lado da minha cama. — Falei e ela sorriu muito feliz.
— Cara, teus presentes são geniais, você parece que lê mentes. — Paulo disse. — Eu realmente estava precisando de um pen drive! Valeu Alê.
— Ai assim vocês me deixam envergonhada. — Ela disse, colocando as mãos nas bochechas.
— O que? — Perguntei e a escola voltou para minha visão.
Alexandra estava exatamente na mesma posição de antes, com as mãos na bochecha e parecendo feliz, mas ela estava sentada. Olhei para Paulo, ele não estava comendo nenhum prato de sopa, tinha o pen drive em forma de Pizza nas mãos, mas seus olhos me encaravam, curiosos e ao mesmo tempo... Com dor? Não consegui entender.
O sino tocou, nos informando que tínhamos que ir para a aula.
Alexandra se separou de nós e fui caminhando com Paulo até nossa sala, nenhum de nós dois falou algo, eu não sentia vontade de falar e ele... Parecia estranho.
"Confie em ninguém"
A voz da minha mãe voltou para minha mente.
Não confiar, isso significa que meus amigos estavam envolvidos? Minha família? Todos? Balancei a cabeça, tentando afastar isso de mim. Eu não podia pirar agora, precisava me mantes sã, e forte, para minha família, afinal eles precisavam.
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