Loop
9 Capítulo 3.1
Notas iniciais
Se eu realmente estiver ficando louca... O que posso fazer?
Isto foi a pergunta que ficou em minha mente, porém, como uma boa pergunta, era difícil encontrar a resposta.
Tentei sondar o meu irmão, ele ainda agia como se eu estivesse falando loucuras. O que era bem válido, eu mesma já estava pensando que estava ficando louca.
O que mais me assustava era que a noite já estava perto de chegar, e nem um sinal dos nossos pais. Nenhum sinal.
Aquilo estava me deixando nervosa. Todas as vezes em que eu tentava sair de casa, meu irmão conseguia algum motivo para eu ficar. Ele estava preocupado comigo, era óbvio.
— Lucas... — Eu disse, enquanto tinha uma ideia. — Eu preciso colocar o lixo para fora.
— Me dê, eu vou. — Ele falou, o que me deu rava.
— Eu estou doente, mas não sou inútil. — Falei.
Ele balançou a cabeça, saindo do sofá e caminhando até mim.
Estavamos na sala, eu mais próxima da saída e ele vindo em minha direção. A televisão estava ligada, passando alguma coisa que falava sobre a presidência e a crise política atual. Olhei para ele sentindo a clemência em meus olhos.
— Ah por favor, você pode ir comigo! — Falei, praticamente gritando. — Me diz porquê eu não posso sair!
— Você sabe o porquê não pode! — Ele gritou de volta. — Está doente! Está louca! Você acha que eu não sei o que você quer?! Você quer fugir, quer alimentar ainda mais isso que você chama de razão!
— Eu não chamo de razão! Eu chamo de confusão! — Gritei. — Minha mente inteira grita para eu não ir! Mas eu não posso ficar parada sabendo que as coisas não estão normais!
— Então se acalme e volte pro normal! — Ele respondeu.
Fechando a cara, meu irmão tomou o saco de minhas mãos e saiu puto da vida para o lado de fora. Batendo a porta com força.
Senti um ardor em minhas mãos e ao olhar para elas vi que tinha fechado o punho com tanta força que as unhas tinham fincado em minha palma. Suspirei e fui até o quarto de minha mãe, pegar alguma gaze ou band-aid na caixa de socorros.
Caminhando até lá eu secretamente planejava alguma forma de fugir. Talvez se eu passasse na casa de Asha... Tentei me lembrar de seu endereço, e fiquei surpresa com a clareza que a lembrança veio em minha mente.
Conseguia me lembrar detalhadamente da mensagem que ela me mandou, a que continha a localização de sua casa. Suspirei e fechei os olhos, eram detalhes demais. Lembrei do som de tiros e gritos, ah nossa, eu estava ficando nervosa de novo.
Tentei contar de um até dez, e fui me forçando a relaxar. Abri os olhos novamente e finalmente comecei a procurar a maldita caixa.
O quarto de meus pais era grande, praticamente do tamanho da nossa casa. Era essa uma vantagem de morar em uma casa, o único limite para o tamanho de um quarto seria o dinheiro para mantê-lo e acordos de terreno com o governo. Até onde eu sei. A cama do casal ficava bastante centralizada, e o quarto era bem decorado com o quadros que minha mãe costumava pintar na juventude.
Meus pais nunca ligaram muito pra organização. Sempre que eu entrava no quarto a cama estava uma bagunça, e algumas roupas estavam jogadas sobre os móveis. Porém ao entrar, percebi que estava tudo arrumado, sem um traço de atividade dos meus pais ali. Senti meu estômago embrulhar novamente, porém algo me dizia para ignorar a sensação e apenas ir atrás da caixa de socorros.
Foi o que eu fiz.
Andei silenciosamente até o guarda roupa e, movendo minhas mãos com cuidado, eu procurei a caixa. Ela estava em uma das estantes maiores, bem no fundo. Abri e achei uma caixa de band-aids quase imediatamente.
A peguei, andei até o banheiro. Lavei minhas feridas, sequei e pus os curativos. Perfeito.
Olhei para meu reflexo no espelho e fiquei me encarando por alguns segundos. Meu irmão não acreditaria em mim, isto já estava claro. Então... Decidi que definitivamente jogaria o jogo dele, ou de sei lá o que fosse aquilo tudo.
Pensei um pouco e sorri para mim mesma.
Andei até o andar de baixo novamente, e meu irmão já tinha voltado. Ele estava, novamente, no sofá, assistindo televisão.
— Você tem razão... — Falei, o fazendo olhar para mim. — Foi só um sonho ruim.
Ele pareceu aliviado ao ouvir aquilo e assentiu, moveu-se para o lado e deu tapinhas no espaço ao seu lado, sobre o sofá.
Dei de ombros e me sentei no sofá.
— Ei você conseguiu falar com a Alexandra hoje? — Perguntei para ele.
Ele negou com a cabeça.
Tendo em vista que a super proteção do meu irmão estava a mil hoje, ele não quis me deixar sozinha para ir visitar a minha amiga. Implorei para que ele ao menos tentasse fazer uma ligação para a casa dela, mas pelo visto ele não insistiu muito no meu pedido. Seu comportamento estava bastante diferente, o que me preocupou um pouco, porém eu não deixei demonstrar.
Eu não sei quando percebi... Talvez tenha sido quando eu estava preparando algo para comer... Talvez tenha sido antes ou depois. Mas meus pais não voltariam esta noite, e meu irmão não era exatamente meu irmão.
Ele tinha a aparência do meu irmão.
Ele tinha o cheiro do meu irmão e o comportamento do meu irmão.
No entanto meu irmão nunca me faria de prisioneira em nossa casa, meu irmão saberia quando estou falando a verdade, meu irmão é meu irmão. E este não era ele.
Eu estava definitivamente ficando louca.
Ficando mais atenta com seus passos ao meu redor, observando, analizando.
Estavamos no segundo andar agora, eu estava bem tensa e tentava disfarçar fazendo coisas normais do meu dia a dia, como tratar minha pele, cantar no chuveiro ou algo do tipo, porém nem o normal parecia normal. Eu estava indo para meu quarto quando Lucas me segurou e me fez virar para vê-lo.
— Lara, eu vou jogar LOL no meu quarto, quero que você fique lá comigo. — Ele praticamente ordenou.
Eu o observei, com sua frieza, seu desgosto, os olhos calculistas como se também estivesse tentando ler meus pensamentos.
— Não. — Falei.
Lucas fechou os olhos e respirou fundo, então ele moveu seu braço e sua mão forte agarrou meu braço fino, me puxando com muita força.
— Eu não estou pedindo. — Ele disse.
Olhei para ele assustada, ciente de que eu não conseguiria manter minha pose de "não estou percebendo o quanto você mudou". Me movi rápido e o empurrei para longe de mim, ele pareceu notar meu medo e por alguns segundos pude ver a hesitação em seus olhos.
Aproveitei isso para correr.
Corri até as escadas, e eu estava prestes a descer os primeiros degrais quando me senti sendo puxada novamente. Ele estava com uma expressão puta de raiva. Eu gritei e tentei empurra-lo, mas ele me segurou com mais força. Doeu.
Eu sabia que ele estava deixando marcas em mim, grunhi e mordi meu lábio para não entregar minha dor para ele. Olhei em seus olhos e comecei a dar mais trabalho. Me debati, ele me virou para que minha cabeça não batesse na dele. O ódio me invadiu e levantei minha perna para trás, dando um chute bem dado em seu saco.
Meu irmão, ou seja lá o que ele era, me soltou, gritando de dor.
O problema foi que ele me soltou de uma vez... E ainda estávamos na escada.
Senti meu corpo leve, tentei segurar no corrimão, mas não fui rápida o suficiente. Eu caí, vi tudo girando como se o mundo estivesse acelerado. Senti meu próprio desespero, pude ouvir meu próprio coração falhando.
Meus braços e pernas sofrendo com os primeiros impactos, minha cabeça doendo tanto que eu queria gritar, mas minha boca estava travada no lugar.
Quando tudo acabou eu ouvi um barulho horrivel e minha visão se apagou. Que terrivel morrer assim, com a agonia de querer se segurar, mas não ter forças para se manter. Me fez sentir inútil.
— Então eu disse para ela... Janet eu trabalho todo dia das seis da manhã até as onze da noite, eu não preciso ouvir suas reclamações sobre o bazar que você foi e perdeu uma blusinha bonita que queria comprar para nossa filha. — Ouvi uma voz masculina falando.
Tudo estava escuro.
Estava frio, meu corpo parecia descoberto, pois eu conseguia sentir o vento bater em minha pele.
— Ai! E ai? Como ela reagiu? — Outra voz perguntou.
Tentei mover minha mão, consegui. Comecei a tatear com meus dedos, a estrutura onde eu estava. Fria, e certamente metálica.
Me perguntei por quê estava tão escuro e percebi que ainda estava de olhos fechados. Me perguntei de quem eram aquelas vozes, e percebi que eu os conhecia, de alguma forma, mas nenhuma imagem foi associada a suas vozes.
— Ela me tirou de casa, e disse pra eu voltar quando quisesse saber dos nossos filhos. — O primeiro falou.
Manti minha respiração calma, embora meu maxilar estivesse travado de nervosismo. Ouvi algo pesado batendo em algo com som metálico, logo depois ouvi água jorrando em algum lugar.
— Cara sinto muito, qualquer coisa dorme lá em casa. — A segunda voz disse, mais próxima de mim.
Senti algo tocando meu braço.
O medo me invadiu.
— Valeu, eu vou pensar sobre. — O outro disse.
Abri os olhos, a luz invadindo tudo e me trazendo dor. Pisquei algumas vezes, eu ainda sentia algo mexer no meu braço. Tentei virar minha cabeça para o lado, e consegui. Vi a figura de um homem, ele parecia distraido com algo no meu braço, mas então percebeu meu movimento, e ao olhar para mim os seus olhos arregalaram e o queixo caiu.
Eu o encarei, observando sua estrutura facial. Bochechas cheias, o queixo com uma barba rala, os cabelos penteados para trás. Seus olhos estavam cobertos por um óculos de proteção feito de plástico, mas que vedava bastante, nunca tinha visto um pessoalmente, mas era comum vê-los na televisão, quando aparecia algum canal de obras ou química. Era bonito, porém gordo, franzi a testa enquanto o observava. Olhei para suas vestes, ele estava usando um avental de açougueiro e luvas vermelhas vibrantes, não consegui ver a parte de baixo.
Olhei então para meu braço, e dessa vez foi a vez da minha boca abrir.
Ele estava aberto, com um corte fundo. Eu conseguia ver as camadas de pele perfeitamente, juntamente com a gaze que barrava meu sangue de sujar tudo. Porém logo abaixo dela, se tinha uma película transparente, também aberta, que separava a pele do meu osso, e no lugar do osso eu vi algo negro, com vários fios.
— E-Ethan! — O gordo gritou.
Me movi e tentei me sentar, foi um pouco mais dificil do que o normal. Senti a dor no meu braço, porém era ignorável, talvez tivessem me anestesiado. Olhei ao redor, as paredes eram brancas como as de um hospital, porém cheias de máquinas estranhas que eu nunca tinha visto na minha vida.
O teto era totalmente iluminado por luzes grandes e brancas, minha vista ainda se acostumando com elas.
Ouvi um barulho de algo caindo e tomei em susto, vi um homem mais magro, com um nariz meio grande e desproporcional ao rosto, me encarando com pavor. Eu me assustei mais com isso. Consegui analiza-lo mais facilmente agora. Ele era alto, com a mesma vestimenta do outro homem, seu rosto era fino e o pescoço longo.
Eu olhei mais uma vez ao redor e percebi que o gordinho tinha se afastado e estava com uma espécie de tablet transparente na mão, ele apertava em algo e sua visão ia do tablet para mim, repetidas vezes.
— Desliga! — O magro gritou.
— Eu estou tentando! — O outro disse, com nervosismo explicito.
Me levantei e senti meu corpo todo doer, olhei para mim mesma, eu estava nua, com hematomas em meu corpo inteiro, a última coisa que eu podia me lembrar era de ter caído da escada após uma briga com meu irmão.
Olhei novamente para meu braço, ele estava aberto dos dois lados, eu conseguia claramente ver o objeto metálico no lugar do meu osso. O que mais me assustava era que aquilo não era normal, mas eu tinha a sensação de que era normal.
Parei de me mover, meus olhos ainda abertos, mas meu corpo inteiro congelado.
— Ah ainda bem! — O magro disse e andou até mim.
Ele me forçou a deitar novamente, como se eu fosse uma boneca. O outro se aproximou, ainda assustado, eu não podia vê-los direito, mas sentia suas mãos em mim. Não estavam me tocando com desejo, mas ainda assim eram estranhos me tocando e isso me deu nojo.
— O-O que vamos fazer? — O gordo perguntou.
O magro fez uma careta e moveu suas mãos até meus olhos, forcando-me a fecha-los. Eu não conseguia me mover, mesmo que eu tentasse, mas ainda conseguia ouvi-los.
— Não vamos contar para ninguém, podem tentar jogar a culpa em nós dois e eu preciso desse emprego tanto quanto você. — O outro falou de maneira mais hostil.
— Ela acordou! Isso nunca aconteceu antes! — O outro disse.
— Exato! Nunca aconteceu. — O magro falou.
A partir dai veio o silencio, e senti os mesmos mexendo no meu corpo.
Eu estava assustada e calma ao mesmo tempo, em uma sensação muito louca de "eu já passei por isso várias vezes" com "que porra tá acontecendo?".
Meu corpo não se movia, mas eu sabia que eles estavam nervosos. Eu conseguia ouvir de vez em quando algo caindo, e sentia suas mãos tremerem enquanto mexiam em mim.
Não sei quanto tempo se passou.
Eu fui tocada, cortada, revirada de dentro pra fora. Ouvi enquanto eles tentavam conversar normalmente, mas passavam alguns segundos falando e a conversa morria. Estavam com medo.
Com medo de quê? De mim? Eu que deveria estar morrendo de medo!
Em um determinado momento ouvi barulho de passos. Eles comprimentaram alguém e senti três pares de mãos me pegando. Fui carregada até alguma coisa confortável, parecia uma cama, mas daquelas de hospital.
Logo eu senti que eles me cobriam com algo, e senti a cama ser movida.
Eu conseguia ouvir o barulho de rodas girando no chão. Senti uma lufada de ar bater no meu rosto, e continuando enquanto a cama era movida. Ouvi pessoas conversando, ouvi barulhos de música e risadas.
Ouvi línguas que eu não conhecia.
Quando finalmente acabaram eu esperei mais algum tempo, esperei e esperei, mas nada aconteceu.
Senti meu corpo inteiro relaxar e percebi que eu podia me mover. Abri os olhos e olhei ao redor. Eu estava realmente em uma daquelas camas de hospital, com um lençol sobre mim.
O lugar estava um pouco escuro, tinha um relógio digital logo na parede a minha frente com o horário: 11:53 pm, indicado em cor vermelha, com o fundo preto.
As paredes eram de vidro, e eu conseguia observar uma ou outra pessoa do lado de fora. Alguns com roupas de açougueiro e outra com terno elegante. Todos pareciam bem ocupados e distraidos.
Olhei para meu lado esquerdo e percebi que tinha uma cama lá, com uma garota de cabelo azul deitada como se estivesse dormindo, porém seu peito não se movia, não estava respirando.
— Alê? — Sussurrei.
Ouvi um barulho e logo fechei os olhos, me forçando a fingir que estava dormindo. Mesmo com as palpebras fechadas eu consegui ver um clarão, a luz tinham sido ligadas.
— Por quê estão cobertos? — Uma voz perguntou.
— Ficamos preocupados que o frio excessivo pudesse fazer algum mau ás maquinas. — Outra disse.
— Ficaram com vergonha por que eles estavam perdendo dignidade? — A primeira voz disse, veio-se o silêncio e então ela continuou. — Essas coisas podem ser vistas como orgãos ambulantes, brinquedos, briquedos sexuais, incubadoras vivas, porém não são humanas. — Ouvi um barulho de tecido se movendo contra o ar, minha audição estava melhorando aos poucos nestes detalhes, talvez fosse meu medo. — São máquinas, são coisas.
O tom de repreensão da mulher que falava me assustou, eu senti o clima de tensão na sala.
— Relatório. — Ela falou por fim.
— A fonte da corrupção ainda é desconhecida, existe a suspeita de que tenha aparecido na última atualização do sistema de dados geral da IA de todos as máquinas. — Alguém que não tinha se pronunciado antes começou a falar. — Tivemos uma máquina que entrou em curto no mês passado, mas logo seu companheiro sofreu com o mesmo. Tivemos que pegar o mais novo de volta para análise, mas a outra ainda estava presa em um loop narrativo com os outros sistemas. Usamos o irmão para mantê-la em observação, porém a improvisação da máquina foi muito bem executada, ela reagiu à falta dos pais de forma agressiva, mas como sempre sem machucar alguém.
— E a de cabelo azul? — Perguntou.
— Um cliente se envolveu com sua linha narrativa de forma excessivamente violenta, ela precisou ser trazida de volta e resetada completamente. — Dessa vez a segunda voz falou.
— Tragam cada um deles para análise, eu quero vê-los pessoalmente. — A mulher disse.
Imediatamente senti meu corpo se mover contra minha vontade, levantei e abri os olhos. Percebi que haviam mais camas do meu lado direito, não pude prestar muita atenção, levantei, juntamente com os outros que estavam deitados, e olhei para um grupo de pessoas que estavam presentes no lugar.
Haviam guardas armados, pessoas com jalecos e um homem com roupas comuns que controlava o mesmo tablet que eu tinha visto antes.
Ele precionou o indicador em algo e logo comecei a andar, andei até uma pequena sala, paralela as outras, e me sentei em um pequeno banco que ficava logo no centro da mesma.
Logo a porta foi aberta e uma pessoa entrou.
Um homem, seu cabelo estava bem bagunçado, ele tinha olhos azuis e verdes, e usava um jaleco de médico. Eu o reconheci imediatamente. Daniel.
Ele entrou e fechou a porta de vidro, antes de pegar um banco para si e se sentar na minha frente, estava com um tablet parecido, porém em uma verão menor.
— Faz um tempo que não nos encontramos Lara, acho que desde a sua última análise. — Ele disse, distraido com alguma coisa que estava no seu tablet. — Olá.
— Olá. — Eu olhei para ele e sorri.
Me senti como se estivesse no automático, como se tivessem duas de mim. Uma que já estava acostumada com aquela situação e outra que estava tentando entender o que estava acontecendo. Deixei a minha versão acostumada atuar, e comecei a sentir que aquilo já tinha sido feito durante um ano inteiro, se não mais.
— O que você achou sobre o comportamento do seu irmão? — Daniel me perguntou.
— Ele estava agindo estranho, distante. — Falei.
— Análise. — Ele falou.
Imediatamente parei de respirar e olhei para o lado, esperando um comando, eu não estava mais no controle.
— Por quê você pensou que seu irmão estava estranho? — Ele perguntou.
— Na minha diretriz temos uma linha a se seguir, meu irmão é gentil, não faria mal a mim, porém ele estava me forçando a fazer algo que eu não queria. — Falei, minha voz saiu tão fria que me assustei.
— E o que você queria fazer? — Ele perguntou, enquanto me mantia naquela posição.
— Sair de casa. — Falei.
— Por quê você queria sair de casa? — Ele perguntou.
Dessa vez eu fiquei em silêncio, minha mente processando uma resposta. Minta. Eu praticamente ouvi a ordem na minha cabeça.
— Eu estava preocupada com a minha amiga, ela normalmente me liga quando algo acontece comigo, mas dessa vez nada aconteceu. — Falei uma meia verdade.
— Entendo... — Ele pareceu convencido.
Então eles não sabiam do meu acesso de loucura? Bom saber.
— O que você acha da sua cidade? — Ele perguntou.
— A cidade em si é bastante tediante, não temos cafés, não temos shoppings, eu espero poder fazer diferença naquele lugar. Mesmo com toda a parte chata, eu nunca poderia abandonar aquele lugar, afinal, é onde eu nasci. — Falei, com a mesma voz fria.
Uma mulher entrou na sala, e ficou em silêncio. Daniel notou sua presença e olhou para ela, antes de olhar para mim.
— Você nota repetições no seu mundo? — Perguntou.
— Todos sentem essa sensação de vez em quando, não significa que é verdade. — Falei.
— Agora a última... Você machucaria um ser humano? — Ele perguntou.
Sim, pensei.
— Não. — Falei.
— Fim da análise. — Ele disse.
Senti meu corpo relaxar e os movimentos voltarem para mim, eu o encarei enquanto ele se levantava para falar com a mulher. Ela mostrou algo para ele e o mesmo parecia impressionado.
— Desligue. — Ele falou para mim e imediatamente tudo ficou escuro.
Acordei com o sol da manhã batendo em meu rosto e me esquentando.
Eu estava bem grogue e meus olhos se recusavam a abrir, meu corpo parecia estar saindo de um estado de dormência e meus musculos clamavam por mais descanso.
Me estendi, sem levantar da minha cama confortável, alongando os braços e as pernas antes de me virar e abraçar meu travesseiro. No entanto não consegui ficar muito tempo naquela posição maravilhosa, já que logo ouvi várias batidas na minha porta e uma voz feminina desesperada que dizia:
— Lara levanta você vai se atrasar! — Minha mãe gritou do outro lado da porta antes de ir fazer o mesmo com o meu irmão.
Suspirei e fui tateando minha mão no centro de mesa ao lado de minha cama, até encontrar meu celular e ver que horas eram. 1 de agosto, 6:15 da manhã.
Bufei e me forcei a levantar, apenas conseguindo cinco minutos depois.
Praticamente rastejei até o banheiro, usando uma calça larga de algodão e uma camisa cinza com a estampa de um panda tomando café, os pés descalços me fazendo reclamar do piso gelado, além disso o cabelo assanhado me fazendo parecer a Samara nos melhores dias. Ao abrir a porta vejo meu irmão sentado no vaso, nu, que grita um "Oh!" frustrado e me fazendo fechar a porta rápido.
Urgh, um pedaço dos infernos logo pela manhã.
Fiquei esperando do lado de fora enquanto ele terminava, e o mesmo saiu depois de alguns minutos, com uma toalha enrolada na cintura e uma cara de puto.
Revirei os olhos e ao entrar no banheiro fiquei com nojo do "presente" que ele deixou para mim na privada. Nem ao menos abaixou a tampa do vazo, imundo.
Após demorar algum tempo tomando banho e me vestindo eu desci as escadas, logo sentindo o cheiro de ovos e manteiga. Sorri ao ver minha mãe cozinhando com um sorriso e meu pai comendo ao lado de Lucas.
Lucas é meu irmão mais novo, meu único irmão, ele tem 15 e eu 17, vivemos uma relação de irmãos meio conturbada — porém sem passar dos limites — , em uma hora estamos nos amando, em outra parece que o mundo vai acabar. Mesmo assim eu gosto dele, e ambos somos bastante parecidos, tanto nos gostos quanto na aparência, ele sendo mais forte e definido do que eu, já que é nadador e espera se tornar um profissional. Como eu, ele tem cabelos castanhos e a pele bem clara, a diferença seriam os olhos, ele pegou os olhos de nosso pai, castanhos e pequenos, enquanto eu peguei os olhos de nossa mãe, grandes e azuis. A pele do meu irmão fica ainda mais branca em contraste com o uniforme da nossa escola, e seus lábios ficam bem vermelhos, as vezes eu fico zoando com a cara dele e dizendo que ele passou batom (não que seja errado um cara passar batom, mas ele não gosta e eu me aproveito disso).
Minha mãe também tem os cabelos curtos diferente dos meus, ela é ruiva. Os olhos verdes parecem duas jóias, e o corpo é um pouco marcado pela idade. Ela tem uma boca fina, e um belo sorriso, mas a pele parda é coberta por sarnas, o que da um tom brincalhão e fofo em seu rosto. Sou magra, não tenho o corpo perfeito como o dela, e isso me incomoda um pouco, bem, venhamos e convenhamos, nenhuma garota quer ser magra demais, e eu costumo dizer que tenho peitos de azeitona e a bunda de um bicho pau, ou seja, sem curvas muito definidas. Minha mãe tem as curvas maiores, ela disse que conseguiu depois da primeira gravidez e que lutou para manter na segunda, nunca foi de se importar muito com as aparências, e ela trabalha com arte, o que a deixa quase sempre dentro de casa.
Meu pai é branco, mas tão branco que fica vermelho facilmente, peguei esse detalhe dele por sinal, ele nunca deixa a barba crescer, gosta de um rosto bem limpo, os cabelos escuros, os olhos castanhos e julgadores, mas é um amor de pessoa. Também é meio gordinho, mas minha mãe diz que não se importa já que ele parece um travesseiro.
Eu posso ver o quanto meus pais se amam todo santo dia, e me pergunto se algum dia terei um amor desses, porém agora que estou no meu ultimo ano da escola, me preocupo mais com o vestibular do que qualquer coisa.
Parando com as introduções vamos continuar.
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