Loop
8 Capítulo 2.1
Notas iniciais
Meu estômago embrulhou e eu não tive tempo para pensar muita coisa. Corri para fora do meu quarto, andando pelo corredor vazio, ignorei o banheiro – sabendo que meu irmão já estava dentro – do andar de cima e fui correndo para o de baixo, subindo a tampa da privada e vomitando em seguida.
Não tinha nada para por para fora, além do ácido amargo que meu estômago tinha mantido durante a noite, ainda assim era pouco, fazendo com que os vômitos seguintes fossem apenas uma espuma estranha.
O barulho das minhas tosses chamou atenção de meu irmão que logo estava atrás de mim, segurando o meu cabelo e alisando as minhas costas com a mão.
Eu suava muito, meu corpo tremia e as lágrimas teimavam em continuar caindo.
Que porra estava acontecendo?
Era um sonho, só podia ser, era um sonho. Ou isso ou estou morta.
Tentei me lembrar da noite anterior, mas todas as vezes em que tentava duas memórias apareciam, eu assistindo minhas séries e o eu que acabou se envolvendo em um acidente de carro. A primeira parecia bem distante, como se eu estivesse tentando lembrar de algo da minha infância e não do dia anterior. A segunda era uma merda, tão nítida que eu conseguia sentir a dor de meus ossos quebrados, da minha cabeça, do tubo que enfiaram em mim quando eu estava semi-inconsciente a caminho do hospital.
Eu conseguia lembrar nitidamente dos gritos de Alexandra.
E que porra? Eu estou aqui em casa, eu estou bem! Por favor alguém me diga que isso é apenas um pesadelo! Por favor me acordem!
Não tinha mais nada para sair do meu estômago.
Meus soluços aumentaram, senti o nariz entupido me impedir de respirar direito. Meu irmão me olhava preocupado e sem saber o que fazer ele me abraçou, tentando me proteger.
E eu o abracei de volta.
Mesmo assim me sentia sozinha, perdida, o abraço dele era confortante, mas não o suficiente. Eu estava só, só em minha própria mente e ao mesmo tempo fisicamente bem. Tentei parar de chorar, mas sem muito sucesso.
Meu irmão continuou alisando as minhas costas, algo que minha mãe costumava fazer quando eu era pequena.
Afinal, onde raios estava a minha mãe? Meu irmão apareceu mais rápido do que ela, isso não é comum.
Lembrei de minha mãe, gritando na cozinha, apontando uma faca para nós, me pedindo para não confiar em todos, mas o próprio pedido sendo um paradoxo. Se não posso confiar, então como posso confiar nela? Empurrei Lucas de leve e olhei para fora do banheiro, ninguém estava lá, estavamos sozinhos.
— O-Onde es-t-tão nossos p-pais? — Eu falava entre os soluços.
Lucas suspirou fundo antes de responder.
— Eu não sei, acho que saíram. — Disse. — Que merda é essa Lara? Comeu alguma coisa estragada? Ta grávida? — Ele pareceu mais preocupado na ultima pergunta.
Balancei a cabeça várias vezes, meu corpo tremendo como se eu estivesse em algum tipo de convulsão.
— P-Por favor não me faz r-responder! — falei, ouvindo o desespero da minha própria voz. — Eu não sei o que responder!
Ele ficou calado e então apenas me abraçou e esperou que eu me acalmasse.
Acho que nem preciso dizer que não fui para a aula.
Não, sério eu não acredito que alguém no nível de desespero que eu tava já tenha que ter ido para a aula, eu acho que se tiver acontecido foi só por que a mãe mandou, mas a minha não estava lá né, e mesmo que estivesse acho que pediria para eu ficar na cama e me acalmar, sei lá.
Pensar na minha mãe me fez me lembrar da nítida memória novamente, desta vez com ela vindo me acordar todos os dias, mesmo que eu tivesse colocado o despertador no celular. Ela faz isso desde que eu era criança, quando eu tinha um despertador que poderia acordar a casa inteira, ela ainda vinha me ver todas as manhãs.
Essa manhã ela não veio, e isso me deixou um pouco assustada. O que aconteceu?
Eu me deitei em minha cama e comecei a encarar o teto, conforme o tempo ia passando meu estômago melhorava aos poucos.
Lucas cuidou de mim, e isso me dava um pouco de conforto, porém ele ficava calado, me analisando e tentando entender minha situação. Tendo em vista que nem eu consigo entender a minha própria situação.
— Você precisa falar comigo Lara... — Ele disse certa vez, olhando para mim com um olhar preocupado.
— Eu sei... Mas agora não, tudo bem? — Olhei para ele com um olhar de súplica.
Ele apenas suspirou e assentiu.
— Vou preparar um chá. — Falou.
Agradeci, e quando o mesmo foi embora eu comecei a por meus pensamentos em ordem.
Qual era a ultima coisa que eu me lembrava? De acordar em um quarto de hospital, e ouvir a voz de um garoto lá, a voz me fez lembrar automaticamente de um garoto que eu conhecia, mas balancei a minha cabeça e suspirei. Fora de ordem, era o que a minha mente gritava.
Peguei meu celular e comecei a pesquisar coisas na internet sobre viagens no tempo e loops temporais, mas o que eu li me deixaram ainda mais confusa com relação a esse tipo de situação. Não sou uma física, não tenho nenhum conhecimento sobre isso.
Até que eu entrei em um site que falava sobre as 10 dimensões, e a teoria de cada uma. O site não falava muita coisa, porém uma sensação de deja vu me invadiu. E eu senti que já tinha visto aquele site antes, resolvi salvá-lo nos favoritos.
Meu irmão logo voltou com uma xícara de chá e eu tive de me sentar. Ele me ajudou a me apoiar, mesmo que eu não estivesse tão necessitada assim, e ficou me encarando enquanto eu tomava o chá. Escondi o celular em baixo dos meus lençóis e olhei para ele, o mesmo esperava por respostas.
— O que você se lembra sobre ontem? — Eu perguntei.
— O que isso tem haver? — Ele perguntou de volta.
— Me responde. — Eu pedi, e ele pareceu notar a urgencia em minha voz.
Meu irmão deu de ombros, olhou um pouco para longe, como se estivesse tentando se lembrar. Demorou demais para o meu gosto, mas logo ele me respondeu.
— Joguei LOL até dormir. — Disse dando de ombros. — Você ja tinha ido dormir quando eu voltei pra casa.
— Onde estão a mamãe e o papai? — Perguntei, ainda o encarando.
— Saíram. — Ele me disse.
Olhei para ele e semi cerrei os olhos.
— Onde estão mamãe e papai? — Perguntei novamente.
Ele me olhou, no fundo dos meus olhos.
— Porra Lara eles saíram!
— Para onde?
— Não sei!
— Não sei não é o suficiente! — Gritei e me levantei de uma vez, derrubando a xícara e metade do meu chá no chão. — Eu preciso de respostas!
— Tu ta louca? Caralho se senta! Lara! — Ele se levantou e tentou me colocar de baixo da cama, mas eu me movi mais rápido e lhe dei um tapa.
O mesmo deu dos passos para trás e me olhou incrédulo.
Eu parei e senti o ardor na minha mão, olhei para o meu irmão e então olhei para o chão, meu estômago revirando novamente. Fechei os olhos e respirei fundo. Lembrei de quando minha mãe ficou agindo feito louca na minha frente, lembrando também da sensaçao de desamparo e confusão mental que tive no momento, eu não faria isso com meu irmão.
Respirei fundo, fechando os olhos e contando até dez, meu irmão tinha as mãos fechadas em punho, com raiva do que eu tinha feito, mas não avançava.
— Eu tive um sonho. — Falei. — Um sonho que não acabava.
Ele pareceu me ouvir.
— E nesse sonho, a cada mês que se passava nós esqueciamos o que tinha acontecido no mês anterior, esquecíamos de nós mesmos e das pessoas ao nosso redor. Era o mês de agosto sempre se repetindo, sempre apunhalando nossas mentes, e nos destruindo lentamente. — Comecei a me tremer, olhei para o lado e vi que estava próxima da parede, fechei minha mão em punho e a soquei, a dor me fazendo ficar mais concentrada naquele momento e não nas memórias ruins. Meu irmão se aproximou e me segurou, me impedindo que eu socasse a parede novamente, mas a dor de um soco havia sido o suficiente.
"Não consigo me lembrar do que houve ontem" admiti "eu tento, tento muito, porém so consigo me lembrar de acordar em um hospital, depois de ter passado um mês inteiro em coma por conta de um acidente de carro."
— Isso é lo- Eu olhei para meu irmão, e o meu olhar o fez parar.
— Loucura? Eu sei, eu sei que é loucura, e sinceramente eu tô com medo Lucas, eu tõ morrendo de medo, e é esse medo que tá me fazendo vomitar. — Falei. — Eu não entendo o que está acontecendo, eu não entendo nada, eu...
— Você precisa de tratamento. — Ele disse e eu balancei a cabeça de forma negativa.
— Não, preciso de uma confirmação. — Falei.
— Como assim? — Ele franziu a testa olhando para mim.
Se isso tudo for verdade, se realmente estamos presos em um loop temporal, em dimensões alternativas do tempo, então eu preciso de algo ou alguém que me confirme isso. Asha.
A garota que sempre pula da ponte, pelo menos até onde minha memória podia recordar, talvez seja a garota que me salve disso. Além disso temos o irmão dela, aquele cara que estava comigo no meu quarto.
Olhei para meu irmão como se a luz tivesse alcançado minha mente e corri para meu garda roupa.
— O que? Não me diz que você ta pensando em sair... — Ele falou com um tom de repreensão.
— Claro, e você vai me ajudar. — Falei, ele segurou meu braço e olhei para ele. — Eu não acredito que meu sonho tenha sido algo além de um sonho... — Falei. — Mas eu preciso confirmar, sinto que apenas isso me trará paz.
— Fora de questão Lara, eu não vou deixar você sair desse jeito, você ta mais pálida do que um fantasma! Agora se deite e espere, eu vou preparar alguma coisa pra você comer! — Ele disse e eu olhei para ele com cara feia.
Porém não questionei, afinal eu ainda me sentia bem mal.
— Certo. — Falei e andei para a cama, me sentando e cruzando meus braços. — Então confirme para mim. — Disse olhando para ele.
— O que?!
— Faz isso pra mim Lucas, sério, você prefere ver sua irmã ficando louca? Indo para um hospicio? — Falei.
— Não exagera, você ia no máximo para um psicólogo! — Ele disse.
— Será? Você vai realmente arriscar isso?! Eu não sinto que preciso apenas de um psicólogo, eu sinto que preciso de um hospício inteiro! Por favor, por favor não me faz passar por isso! Por favor confirma pra mim! — Meu desespero estava começando a voltar.
— Foi só um sonho ruim Lara. — Ele disse e saiu do meu quarto, fechando a porta com força.
Bufei e olhei para o chão, e então para minhas mãos. Percebi que minha mão, a que eu usei para bater na parede, tinha leves hematomas e ainda doía. Usei a outra para massagêa-la enquanto me deixei levar pelos meus pensamentos.
Um loop temporal.
Isso seria possível? Mas então... Por quê minha mente parece estar tão confusa? Que razões eu teria para imaginar tudo isso literalmente da noite para o dia? Algo tão complexo, tão... Real.
Normalmente quando acordamos começamos a perceber os erros dos nossos sonhos, então comecei a procurar por falhas. Minha mente parecia como um computador, scaneando tudo o que eu lembrava.
Eu já estava pensando que era quase impossível encontrar falhas, quando finalmente me lembrei de duas, uma sendo incrivelmente recorrente e me fazendo me sentir uma retardada. Alexandra viajou para a itália, mas o presente que ela me deu em todos os loops foi uma mine torre eifell.
Tudo bem, após pensar um pouco parece não ser nada demais, afinal eu sempre sonhei em viajar pela Europa, e a França sempre foi meu sonho de consumo, mas... Argh, pensar nisso me dava dor de cabeça. Parecia que qualquer coisa poderia ser uma teoria da conspiração.
O que me dava ainda mais dor de cabeça era a vertigem que senti no primeiro loop que eu parecia me recordar.
Colocando tudo em ordem: Eu sofri um acidente de carro no loop passado, e esse acidente me fez entrar em coma. Por algum motivo minha mente começou a projetar as memórias de outros loops enquanto eu dormia, mas a ordem parecia bastante bagunçada. Porém o primeiro loop, pelo menos eu acho que foi o primeiro, que eu sonhei, lembro claramente de Alexandra evitando entrar no carro, e ela estava no acidente comigo.
Balancei a cabeça e olhei para o chão, não, Alexandra me disse que ela tinha entrado em desespero, mas eu não senti o mesmo, eu acho. Então talvez... Talvez tudo estivesse fora de ordem desde o começo, talvez ela que tivesse sofrido o acidente em algum momento que não me recordo, ela sozinha. Mas... Se voltamos no tempo, como diabos ela sentiria aquele desespero? Minha cabeça começou a ficar uma bagunça cada vez maior e eu decidi pular esse detalhe.
Então passei a pensar em Asha. Eu me lembro claramente do rosto da garota, e dos sinais que eu usava para me comunicar com ela.
Peguei meu celular e pesquisei sobre a língua de sinais, o alfabeto, os sinais comuns, eu conseguia reproduzi-los muito bem, errei só alguns detalhes, porém me recordo de ainda estar treinando.
Isso me deixou ainda mais intrigada e confusa, se me lembro corretamente eu nunca tive aula de libras antes.
Me lembrei de quando empurramos Asha da ponte, da forma como ela ia se matar, da forma como ela falava da família. Um arrepio correu pela minha espinha e então me lembrei do som de tiros e gritos vindos de uma casa mais próxima a zona rural da cidade, mais próxima a reserva florestal.
Me lembrei de estar correndo junto do irmão de Asha, de como ele me segurava, de como tentava me fazer continuar correndo. André era o nome dele? Esse nome... Não consigo me lembrar com tanta certeza, mas parecia não ser. Então me lembrei da água, me circulando, me afogando.
Comecei a hiperventilar.
Eu estava ansiosa, com medo, me lembrava claramente de minha morte. Tentei me acalmar, tentei me lembrar de algo além do afogamento. E eu me lembrei...
— Eu vou te proteger... — Ele dizia enquanto me segurava e beijava a minha testa. — Sério, você não precisa lidar com todos esses problemas sozinha.
E a memória se foi, tão rápido quanto veio.
Senti minha respiração se estabilizar aos poucos, e olhei novamente para meu reflexo no pequeno espelho que ficava sobre a minha cômoda. Uma leve cor vermelha voltava para minhas bochechas, o que me fez sorrir um pouco.
Eu tenho aliados aqui, tenho quase certeza disso
Não vou mentir, também fiquei intrigada com o fato de que talvez meus relacionamentos sejam muito mais abrangentes do que eu realmente consigo me recordar, mas chega. Serei forte. Estou decidida.
Desmaiar? Vomitar? Hiperventilar? Já bastava daquilo, cansei de ter medo, cansei de me sentir sozinha. Meu pai e minha mãe não estão aqui, sabe-se lá o motivo. Meu irmão não acredita em mim, tudo bem, se isso for real é melhor eu protegê-lo disso. Agora esperar que outro zé ninguém bata no meu carro pra que eu lembre de tudo? Não, nem a pau.
Agora... Eu precisava me acalmar e realmente voltar ao presente.
Consegui sentir o cheiro de comida vindo do andar de baixo e escutei meu irmão cantar alguma coisa. Sorri. Mesmo que ele não soubesse cozinhar bem eu sabia que ele tentaria fazer qualquer coisa para me deixar bem, então eu faria um esforço para agradá-lo.
Assim eu teria tempo para reunir forças e realmente pensar no que estava acontecendo e de como resolver aquela situação.
Resolver aquela situação... Eu realmente seria capaz disso? Sozinha não, e pra começar o que raios causaria um loop temporal? De novo minha cabeça doeu.
Peguei meu celular e comecei a me distrair.
Foi quando ele vibrou, me mostrando uma mensagem de um amigo meu, Paulo.
Franzi a testa e comecei a ler.
PP: Ei, você ta bem? A Alê não me responde, fiquei preocupado.
Eu: Eu tô sim...Na medida do possível. Alê não responde? Tentou ligar para ela?
PP: Tentei, mas ela não atende
Já liguei umas três vezes
Mandei mensagem e nada!
Percebi que não tinha recebido mensagem alguma da minha melhor amiga, o que era algo um pouco diferente do usual. Bastante diferente na verdade.
Me lembrei da forma como ela foi arrastada para longe de mim, todo o meu corpo e mente gritando que aquilo era real, que algo deve ter acontecido, e que talvez ainda esteja acontecendo.
Eu: Eu não posso ir ver como ela está, mas vou pedir pro meu irmão ir visitá-la... Agora fiquei preocupada.
PP: Relaxa, ela deve ter ficado em casa cozinhando
ou até dormindo, afinal ela voltou ontem...
Eu: Talvez... De qualquer forma vou pedir pra ele ir...
PP: Sim.
Por quê você não pode mesmo?
Eu: Ah eu passei mal hoje de manhã, acho que foi o sanduíche que comi ontem.
PP: De boas, se cuida.
Olhei para a tela do meu celular e então bloqueei e esperei meu irmão subir.
Eu não queria tentar falar com a Alexandra, sou uma covarde. Meu maior medo era de que algo acontecesse com as pessoas que eu gosto... E o pior seria encará-la e perceber que eu não pude fazer nada para ajuda-la.
Senti lágrimas vindo, e isso não era algo bom.
Meu coração bateu mais forte e eu balancei a cabeça, não vou chorar agora, não mais.
Eu preciso de coragem, preciso enfrentar isso, preciso saber se é verdade ou não e tentar lidar com uma dessas duas respostas.
Se eu realmente estiver ficando louca...
O que eu posso fazer?
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