Loop
1 Capítulo 1
Notas iniciais
AVISO: ESTA HIST?“RIA É PARA MAIORES DE 16.
Não reclamem que eu não avisei, e prestem atenção nos avisos da história, pelo amor de deus, pq ja tive diversos problemas com outras histórias pq as pessoas simplesmente não olhavam os avisos e me davam notas negativas, me fazendo perder totalmente a vontade de escrever por um tempão.
Desde já boa leitura, não quero enrolar mais, bjokas.
Acordei com o sol da manhã batendo em meu rosto e me esquentando.
Eu estava bem grogue e meus olhos se recusavam a abrir, meu corpo parecia estar saindo de um estado de dormência e meus musculos clamavam por mais descanso.
Me estendi, sem levantar da minha cama confortável, alongando os braços e as pernas antes de me virar e abraçar meu travesseiro. No entanto não consegui ficar muito tempo naquela posição maravilhosa, já que logo ouvi várias batidas na minha porta e uma voz feminina desesperada que dizia:
— Lara levanta você vai se atrasar! — Minha mãe gritou do outro lado da porta antes de ir fazer o mesmo com o meu irmão.
Suspirei e fui tateando minha mão no centro de mesa ao lado de minha cama, até encontrar meu celular e ver que horas eram. 1 de agosto, 6:15 da manhã.
Bufei e me forcei a levantar, apenas conseguindo cinco minutos depois.
Praticamente rastejei até o banheiro, usando uma calça larga de algodão e uma camisa cinza com a estampa de um panda tomando café, os pés descalços me fazendo reclamar do piso gelado, além disso o cabelo assanhado me fazendo parecer a Samara nos melhores dias. Ao abrir a porta vejo meu irmão sentado no vaso, nu, que grita um "Oh!" frustrado e me fazendo fechar a porta rápido.
Urgh, um pedaço dos infernos logo pela manhã.
Fiquei esperando do lado de fora enquanto ele terminava, e o mesmo saiu depois de alguns minutos, com uma toalha enrolada na cintura e uma cara de puto.
Revirei os olhos e ao entrar no banheiro fiquei com nojo do "presente" que ele deixou para mim na privada. Nem ao menos abaixou a tampa do vazo, imundo.
Após demorar algum tempo tomando banho e me vestindo eu desci as escadas, logo sentindo o cheiro de ovos e manteiga. Sorri ao ver minha mãe cozinhando com um sorriso e meu pai comendo ao lado de Lucas.
Lucas é meu irmão mais novo, meu único irmão, ele tem 15 e eu 17, vivemos uma relação de irmãos meio conturbada — porém sem passar dos limites — , em uma hora estamos nos amando, em outra parece que o mundo vai acabar. Mesmo assim eu gosto dele, e ambos somos bastante parecidos, tanto nos gostos quanto na aparência, ele sendo mais forte e definido do que eu, já que é nadador e espera se tornar um profissional. Como eu, ele tem cabelos castanhos e a pele bem clara, a diferença seriam os olhos, ele pegou os olhos de nosso pai, castanhos e pequenos, enquanto eu peguei os olhos de nossa mãe, grandes e azuis. A pele do meu irmão fica ainda mais branca em contraste com o uniforme da nossa escola, e seus lábios ficam bem vermelhos, as vezes eu fico zoando com a cara dele e dizendo que ele passou batom (não que seja errado um cara passar batom, mas ele não gosta e eu me aproveito disso).
Minha mãe também tem os cabelos longos como os meus, porém ela é mais loira. Os olhos azuis parecem duas jóias, e o corpo é pouco marcado pela idade. Ela tem uma boca fina, e um belo sorriso, mas a pele branca é coberta por sarnas, o que da um tom brincalhão e fofo em seu rosto. Sou magra como ela, e isso me incomoda um pouco, bem, venhamos e convenhamos, nenhuma garota quer ser magra demais, e eu costumo dizer que tenho peitos de azeitona e a bunda de um bicho pau, ou seja, sem curvas muito definidas. Minha mãe tem as curvas maiores, ela disse que conseguiu depois da primeira gravidez e que lutou para manter na segunda, nunca foi de se importar muito com as aparências, e ela trabalha com arte, o que a deixa quase sempre dentro de casa.
Meu pai é branco também, mas tão branco que fica vermelho facilmente, peguei esse detalhe dele por sinal, ele tem uma barba no estilo cavanhaque, os cabelos escuros, os olhos castanhos e julgadores, mas é um amor de pessoa. Também é meio gordinho, mas minha mãe diz que não se importa já que ele parece um travesseiro.
Eu posso ver o quanto meus pais se amam todo santo dia, e me pergunto se algum dia terei um amor desses, porém agora que estou no meu ultimo ano da escola, me preocupo mais com o vestibular do que qualquer coisa.
Parando com as introduções vamos continuar.
Caminhei até meu pai e lhe dei um beijo na bochecha.
— Bom dia! — Falei para todos, antes de me mover para minha mãe e lhe dar um abraço.
— Bom dia bela adormecida! — Minha mãe falou, com um tôm um pouco cômico. — Está bem carinhosa hoje, o que fez de errado?
— A confiança de você me comove – Falo com ironia, antes de mover até meu irmão e lhe dar um tapa muito bem dado na nuca, o que o fez se engasgar de rir. — Nada, só estou me preparando mentalmente para a volta ás aulas — enquanto arrumo um motivo para não ir. Completei mentalmente.
— Se está tão preocupada é bom começar logo a comer. — Meu pai disse, pegando um jornal que estava no canto da mesa e começando a ler. — E cuidado com a rua, tivemos dois acidentes aqui perto, estes adolescente bêbados não conhecem limites.
— Okay. — Eu e meu irmão falamos juntos.
— Por sinal, que diabos de tapa foi esse Lara? — Lucas perguntou, me olhando de forma irritada, mas já prevendo minha resposta, pude ver que ele também tinha um sorriso se formando no canto dos lábios.
— Cala a boca, você sabe muito bem o motivo seu imundo. — Falei, enquanto enfiava uma colherada de ovos mechidos na minha boca.
— Eu nunca te bati por sujar a privada de sangue. — Ele mais debocha do que reclama.
— Isso só aconteceu uma vez! E foi na minha primeira menstruação! Você caga todo dia! — Falei mais alto.
— Ei! Tem gente tentando comer aqui! — Meu pai reclamou e nos calamos.
Minha mãe se sentou a mesa enquanto franzia a testa, meu pai voltou a olhar para seu jornal, e eu engoli minha comida. Lucas se levantou antes de mim e correu para pegar sua mochila, e quando eu finalmente terminei lavei os nossos pratos e corri para fazer o mesmo.
Quando estávamos ambos do lado de fora, montando nossas bicicletas, eu não pude deixar de prender o cabelo em um coque, tava quente demais hoje e eu precisava de ar no meu pescoço urgentemente.
— Tchau! — Gritei para meus pais quando subi na bicicleta, e amaldiçoei mentalmente meu irmão enquanto ele ia na frente sem me esperar. — Lucas isso não é uma corrida!
Ele apenas riu de mim e me chamou de lesma enquanto seguíamos nossos caminhos.
Minha escola ficava a uns 10 quarteirões da minha casa, com a bicicleta nós conseguiamos chegar la em um máximo de 8 minutos. Eu aprendi a andar de bicicleta a pouco tempo, meu pai sugeriu para que pudessemos economizar gasolina, e minha mãe apoiou a ideia dizendo que assim seria mais fácil e saudavel para mim, uma forma de ganhar pelo menos uma coxa grossa e bunda firmes.
Fui facilmente convencida, afinal, não gosto muito de usar maquiagem e roupas estravagantes, mas quero pelo menos me olhar no espelho e me sentir uma musa grega.
E com o tempo acabei gostando da sensação de andar de bicicleta até a escola, me sinto livre e o vento ajuda, principalmente nestes dias de verão. E eu não me importava se meu cabelo assanhasse um pouco, ele é tão liso que posso ajeitar facilmente usando a minha mão.
A escola estava lotada com a volta as aulas, mesmo assim não foi difícil de encontrar um lugar para prender a bike. Sorri e me despedi de Lucas, indo encontrar meus amigos. O mesmo foi logo se encontrando com Renan, um de seus amigos de infância, e começaram a falar de jogos, o que não me interessava muito no momento.
Respirei fundo, sentindo o cheiro da manhã e ouvindo as árvores balançando por conta do vento. E sorri ao ver minha melhor amiga sentada nas escadas, usando um gorro na cabeça que não combinava em nada com o nosso uniforme.
Seu nome era Alexandra, ela tinha cabelos pintados de azul, olhos cor de chocolate, piercings no lábio e na orelha, e o rosto fino que me lembrava o de uma raposa. E ela já tinha feito 18 anos no mês passado.
Estendi meus braços e ela veio correndo até mim, sorrindo e me abraçando forte. Como tinha viajado até a Itália nestas férias nós mal pudemos nos ver, então estávamos com saudades e cheias de histórias para contar uma com a outra.
Me encontrei com mais colegas de sala, mas nenhum que eu realmente pudesse chamar de amigo(a). Paulo pegou uma gripe logo antes das aulas começarem e se deu mal, teve que ficar em casa logo no primeiro dia do segundo semestre, e os professores costumam marcar os alunos que faltam logo no começo. Bem, foi culpa dele ter ido tomar banho de piscina bêbado e se esquecido de trocar de roupa antes de desmaiar na cama.
Sorri imaginando a cena, bem, logo nos veríamos de novo e o trio estaria completo.
— Quer ir visitar o Paulo mais tarde? — Alê (o apelido carinhoso que dei para minha amiga) perguntou em um dos intervalos das aulas.
— Pode ser... — Falei, sem pensar muito. — Acho que ele vai ficar feliz, e ainda temos que contar pra ele sobre sua viagem. — Sorri e ela sorriu comigo.
— Ótimo, tenho alguns presentes para vocês na minha mochila, mas é melhor quando os dois recebem juntos! — Ela falou e meus olhos brilharam.
Eu. Adoro. Presentes.
— Só tenho que avisar meus pais que vou chegar mais tardes, e você pode me dar carona de volta? — Perguntei, óh as vantagens de ter uma amiga que dirige.
— Claaaro. — Ela falou sorrindo.
E não tocamos no assunto desde então. Quer dizer, eu passei o resto do dia tentando descobrir qual era o meu presente, mas ela consegue ser bastante esquiva.
Falei com meus pais sobre a ideia de passar na casa do Paulo e eles aprovaram, afinal Lucas tem treino na piscina até tarde e e ia sair, acho que eles iriam aproveitar um tempo para eles após o trabalho. Sorri com a ideia, eles dois são uns fofos.
O dia foi cansativo, como qualquer dia de aula para uma pessoa com inteligência mediana como eu. O que me fez quase cair exausta em cenas de drama umas três vezes na frente da Alê, fazendo ela rir e tirar fotos. Claro, as quedas eram encenadas, mas nossas risadas não.
Quando estávamos finalmente livres daquele inferno, entrei no K.A. vermelho da Alê e fomos juntas até a casa do Paulo, avisando a mãe dele antes.
Ao chegar lá vimos o quão péssimo ele realmente estava.
Na hora do almoço, antes de chegarmos definitivamente na casa dele, eu e minha amiga estávamos fazendo nossas teorias da conspiração, imaginando qual seria o motivo dele ter faltado, nenhuma de nós duas imaginávamos que uma gripe poderia derrubar ele tão fácil.
Porém estávamos enganadas.
Ele estava deitado na cama, apenas com um calção de dormir, o rosto meio vermelho e o corpo suado, mesmo assim reclamando bastante de frio. O nariz entupido deixava a voz dele no mínimo engraçada, os olhos vermelhos de tão irritados, olhos com a íris verde bem clara que pareciam ter perdido um pouco o brilho.
Paulo era magro, mas parecia ainda mais magro já que estava debilitado. Marcia, sua mãe, era muito diferente dele, baixinha, com cabelos ruivos pintados, os olhos chocolate, e a pele meio parda. Ela parecia exausta, e creio que é difícil cuidar de Paulo sozinha. O pai, ninguém sabia dele, ele simplesmente sumiu a anos, deixando os dois sozinhos.
Eu lembro o quanto esse tempo foi difícil para os dois, e como essa época nos aproximou muito. Ao chegarmos lá eu e Alê não demoramos para começar a ajudar, assim Marcia poderia descansar.
Alê foi fazer uma sopa, sendo ela uma excelente cozinheira, e eu fui arranjar alguma forma de fazer o Paulo engolir os remédios para febre.
O garoto deu trabalho, senhor, como é difícil fazer ele engolir um simples remédio.
Desde sempre conheço ele como o cara que odeia qualquer coisa relacionada a hospitais e produtos farmaceuticos, ele tem uma verdadeira fobia e eu ainda precisava descobrir o por quê.
E após 20 minutos tentando eu tive que abrir a boca dele e enfiar os remédios na goela.
Incrivél como um adolescente de quase 18 anos pode facilmente se comportar como uma criança de cinco, só por estar com medo.
— É bom te ver de novo Lara – Ele disse com uma voz rouca e embargada.
Alisei seus cabelos e sorri, enquanto ele deitava novamente na cama.
— É bom te ver também, apesar da gente ter se visto semana passada. — Eu falei.
Ele apenas deu de ombros antes de ter um ataque de tosse e espirros. Tive que cobrir meu nariz para não pegar a doença dele, mesmo com a janela aberta é bem melhor previnir do que arriscar.
— Parece mais um tempão. — Ele falou enfim, mas notei que tinha algo mais profundo nisso do que eu pensava.
Antes de perguntar o significado a Alexandra entrou com um prato de sopa.
— Vamos lá! Comida quentinha pro nosso filhote! — Ela disse animada, enquanto Paulo voltou a se sentar.
Ele comeu animado e nós ficamos felizes por isso, até eu tive que provar da sopa, já que estava com um cheiro muito bom, e novamente tive que me curvar diante das habilidades culinárias de Alê. Meu deus, que deusa da cozinha.
A mesma encheu o peito toda orgulhosa e começou a contar sobre a itália.
Ela contou tudo, e mesmo já tendo ouvido as histórias eu continuei prestando atenção, afinal, eu conseguia imaginar o lugar com detalhes, e meu sonho era viajar para fora do país. Quem sabe no futuro eu conseguiria, porém agora parecia apenas um sonho.
Ela terminou de contar a história e logo fez um movimento que eu tanto ansiava.
— E é por isto que eu comprei... — Falou enquanto pegava a mochila e fazia mistério.
Revirei os olhos enquanto o Paulo soltava um "Anda logo, me da essa bosta".
— Aff, vocês estragam o clima – Ela falou, fingindo estar desapontada e logo tirou dois embrulhos da mochila. — Tcharaaam! — Falou com alegria enquanto cada um recebia seu presente. — Enquanto vocês abrem eu vou pegar um pouco mais de sopa pra você Paulo, é bom ver sua cor voltando ao normal, mas eu tenho certeza de que você ta morrendo de fome. — Ela disse se levantando.
Enquanto eu abria meu presente uma mosca irritante passou voando perto de mim, me fazendo agitar minha mão e dizer um "sai mosca". Ao abrir a pequena caixinha, que estava embrulhada com um papel de presente vermelho, encontrei um lindo globo de neve. E ao tirá-lo da caixa o admirei com cuidado, mas... Que estranho? Eu acho que... Não, espera.
Uma incrível sensação de dejavu me atingiu, enquanto eu analizava o presente. Não era muito grande, cabia na palma da minha mão, e tinha uma miniatura detalhada da torre Eifell dentro, com uma plaquinha em baixo que dizia "com amor, da França" em inglês e francês. Sorri, e conclui que nunca havia visto uma daquelas antes, deveria ser minha mente pregando peças.
Olhei para Paulo que estava sorrindo e segurando um pen drive em formato de pizza, bem, comida era bem a cara dele mesmo. Não tive nem tempo de perguntar o que ele achou do presente quando ouvi um grito.
— Ai! — Alexandra disse, e o prato de sopa que ela segurava caiu no chão, espalhando tudo. — Me levantei rápido, para que a sopa não me atingisse, e olhei para ela surpresa. A mesma esfregava o olho enquanto dizia – Merda de mosca, bateu no meu olho! — Reclamou.
— Ah... — A mosca de antes. — Calma que eu vou pegar uma toalha! — Gritei, e corri para a área de serviço.
Deixando Paulo para consolar uma chorosa Alexandra que acabou de desperdiçar comida acidentalmente.
Não demorei tudo para voltar e limpar tudo, a minha amiga ja estava mais calma e eu estava feliz por isso, bem logo estaríamos rindo desta história eu acho. O dia que a famosa cozinheira foi derrotada por uma mosca maligna.
— Bem acho melhor a gente ir... — Falei depois de algumas horas.
Neste instante Paulo olhou para mim parecendo um pouco perdido e se levantou rápido.
— Na verdade acho bom vocês ficarem mais um pouquinho, nunca se sabe quando eu vou precisar de vocês de novo, e eu quero dar o menor trabalho para a minha mãe possível. — Falou com uma voz um pouco controlada, pude sentir urgência vindo dele, mas seu rosto parecia tão confuso quanto o meu e o da Alexandra.
Mas não conseguimos resistir e ficamos um pouco mais naquele dia.
***
O resto da semana seguiu um ritmo normal, ou quase.
Continuei implicando com Lucas, da mesma forma que ele implicava comigo, todas as manhãs. Meu pai lia as noticias com calma, e se revesava com a minha mãe na cozinha. Ele ia trabalhar, minha mãe continuava ocupada com suas pinturas. Menstruei no período normal, e passei o resto da semana reclamando de cólica.
Eu tinha aula e o Paulo finalmente melhorou o bastante para voltar para a aula.
Porém logo no sábado passou na televisão que uma garota havia desaparecido. A suspeita inicial era de que ela havia fugido, porém não descartaram a hipótese de sequestro.
Meus pais, preocupados do jeito que são, não deixavam mais que eu e o Lucas saíssemos, tinhamos sempre que voltar para casa, o que era meio tediante.
Para piorar, percebi que o endereço da ultima vez que a garota havia sido vista era bastante próximo à casa do Paulo, e o dia era exatamente o mesmo de quando fomos visitá-lo, aquilo me deu um frio na espinha, mas apenas comentei aquele detalhe com meus dois amigos, meus pais já estavam preocupados demais e falar aquilo com eles seria a nota final para me manter em casa para sempre.
Nas duas semanas seguintes eu fiquei praticamente presa entre escola e casa, meu único conforto eram meus amigos, que aparentemente estavam na mesma situação.
Por volta do dia 21 eu acidentalmente torci meu pé enquanto descia as pressas as escadas da escola, eu e meu desajeitado modo de correr, me fazendo criar tragédias em minha vida. Fui levada por um dos faxineiros até a infermaria, e fiquei sentada na pequena cama enquanto o mesmo correu para procurar um enfermeiro.
Meu deus, tava doendo tanto que eu não consegui me controlar, e meus olhos soltaram lágrimas teimosas.
Logo o doutor veio, com uma bata que tinha a marca da escola e um estetoscópio no pescoço. Ri um pouco do quanto parecia ser regra que todo mundo que trabalhava na área de saúde usasse uma bata e um estetoscópio, porém logo parei de rir quando ele tocou meu tornozelo.
— É... Você vai passar uns dias de descanso, não festeje a falta de aulas, serão poucos dias. — Falou.
Olhei para o homem que me analizava e notei o quão cansado ele aparentava.
Os olhos tinham olheiras, a voz estava carregada de exaustão, uma voz rouca, que me causou um pequeno arrepio. Não pude deixar de notar o quão seus olhos eram bonitos, em uma mistura de azul e castanho claro. O cabelo negro assanhado, e a barba por fazer o deixavam ainda mais... Sexy. E logo quando ele olhou para mim, senti um arrepio percorrendo minha espinha, e virei meu rosto rapidamente, sentindo minhas bochechas esquentarem e sabendo que eu estava visivelmente vermelha.
Ele se levantou e colocou a mão em minha testa, logo se virando e indo para a mesa.
— Vou fazer um atestado para que você fique o resto da semana em casa e se recuperando. — Falou. — Se sentir dor tome algum analgésico comum, e caso a situação piore então procure um hospital. — Falou o fim da frase de forma um pouco irritada como se dissesse "não volte".
Eu assenti, um pouco decepcionada e envergonhada por ter ficado encarando ele, mas logo ele voltou a se levantar, pegando alguns itens de primeiro socorros e enfaixando meu pé de forma delicada e gentil.
O homem mais velho logo terminou seu servisso e partiu para a coordenação, indo entregar o atestado e notificar meus pais. Fiquei deitada na cama enquanto ficava perdida em meus pensamentos.
Okay, ta certo que o cara era bem bonito, mas eu também não precisava ficar fantasiando com ele, então fiquei cantarolando uma música qualquer do Coldplay que tinha ouvido no rádio ontem a noite.
O resto da semana foi um porre de um tédio.
No entanto recebi visitas de Alê e Paulo, o que me deixou feliz, e fiquei me fazendo de moribunda pra poder convencer a Alexandra a fazer comida para mim.
— Vocês viram a notícia? — Perguntou Paulo, quando nós três estávamos lanchando. — Parece que outra pessoa desapareceu. Desta vez foi um cara.
Olhei para ele surpresa, eu não tinha ouvido essa ainda, porém Alexandra acenou com a cabeça.
— Sim sim, dessa vez a polícia ta enlouquecendo, a cidade ta bem tensa. — Ela disse.
Moramos em uma cidade pequena, não é normal esses desaparecimentos ocorrerem, e é bem complicado quando uma tragédia ocorre.
— Eu espero que não seja nada demais... — Murmurei.
— O que vocês acham que pode ser? — Paulo perguntou.
— Talvez... — Alexandra colocou a comida de lado no chão do meu quarto e abraçou as próprias pernas. — Um casal apaixonado, que prometeu fugir para bem longe. — Ela disse, com olhos fantasiosos.
— Eca, você e suas coisas de garota. — Paulo disse com tom de deboche. — Talvez os dois tenham feito algo ruim e por isso fugiram.
— Bem, eu não culpo eles por terem fugido. — Eu disse. — Só temos quatro lojas de roupas, uma lanchonete, mal temos café, a vida aqui é bem tediosa...
— Eu espero que onde quer que eles estejam, estejam mais felizes do que esse trio de invejoso que eu to vendo aqui. — Lucas disse, entrando no meu quarto sem bater, como se estivesse procurando algo. — Ei Lara, cê viu meu skate? — Ele perguntou.
— Primeiro, por quê diabos eu teria seu skate, e pra onde você pensa que vai com ele? — Perguntei, enquanto franzia a testa.
— Ah, você e sua mania de pensar que eu to tramando algo. — Ele reclamou. — Não sei, só deu vontade de procurar, faz tempo que não vejo. — Ele disse, dando de ombros.
Suspirei.
— Acho que vi um, em baixo do sofá da sala. — Paulo disse, olhando para Lucas.
— Ah legal, valeu! — Lucas disse, saindo animado.
Revirei os olhos.
— Não vejo a hora desse ano acabar. — Falei e Alexandra olhou para mim.
— Nem eu, bem, esse mês ta passando rápido pelo menos. — Ela disse, se levantando. — Bem amores, eu vou indo, Paulo, é bom você ir comigo ou então vai acabar se perdendo também.
Ela me deu um abraço e o Paulo se levantou logo, se despedindo de mim.
— Manda um beijo pra tia Marcia por mim. — Eu disse para ele, e ele disse um "ta bom" antes de sair.
O tempo foi passando, sem tantas emoções. Recuperar a matéria perdida foi um saco, principalmente por quê meus professores já estavam passando dever de casa. Urgh.
Agora, por volta do dia 28 encontraram o primeiro corpo boiando no rio que cruzava o centro. Era o corpo da menina que havia sido dada como desaparecida, a conclusão foi a de que ela cometeu suicídio.
O segundo foi encontrado na manhã do dia 31, esquartejado e jogado dentro de um latão de lixo. Foi um dia tenso na cidade, e tive que faltar aula de novo por conta da preocupação dos meus pais. Bem... Pelo menos eu e o Lucas pudemos passar o dia jogando videogame.
O clima foi tranquilo, apesar das tragédias, é o tipo de coisa que você nunca espera que vai te atingir, por isso seguimos nossa rotina, mesmo sem poder ir pra aula (não que eu reclamasse).
E a noite chegou, me fazendo tomar um longo banho, parando para massagear meu tornozelo, que vez ou outra doía, mesmo estando bem melhor do que antes. Fui me deitar na cama e ao olhar para a janela tive a sensação de ter visto alguém na árvore do jardim, me observando. Não consegui ver ninguém la, mas me levantei e fechei logo a cortina antes de me deitar para dormir.
Acordei com o sol da manhã batendo em meu rosto e me esquentando.
Eu estava bem grogue e meus olhos se recusavam a abrir, meu corpo parecia estar saindo de um estado de dormência e meus musculos clamavam por mais descanso.
Me estendi, sem levantar da minha cama confortável, alongando os braços e as pernas antes de me virar e abraçar meu travesseiro. No entanto não consegui ficar muito tempo naquela posição maravilhosa, já que logo ouvi várias batidas na minha porta e uma voz feminina desesperada que dizia:
— Lara levanta você vai se atrasar! — Minha mãe gritou do outro lado da porta antes de ir fazer o mesmo com o meu irmão.
Suspirei e fui tateando minha mão no centro de mesa ao lado de minha cama, até encontrar meu celular e ver que horas eram. 1 de agosto, 6:15 da manhã.
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