Longe Demais para Esquecer
1 Sofi & Swon
SOFI
Eu estava irritada. Não só com a vida, mas com como tudo era difícil para mim. Ser órfã aos 12 anos não foi fácil e chegar até onde estou sem ajuda, muito menos. E não que eu esteja em um lugar excelente, mas enfim, pelo menos moro na cidade dos anjos... Uma pena que deve ser dos anjos caídos.
Minha colega Emma me roubou dos meus pensamentos e disse:
— Sofi, você se importa se eu colocar meu nome nessa ficha que o mercado enviou?
Olhei para ela, pensando em que ficha ela poderia estar falando. Quando me deparei com a bendita ficha em cima da embalagem do meu almoço: "Sua próxima viagem custeada pelo mercado Wallget! Preencha e concorra".
Encarei aquilo, não pensando na sorte de quem ganhasse, mas no azar que eu tinha.
— Pode ficar — falei e saí da cozinha, pronta para começar meu turno.
Estava trabalhando no Starbucks há 5 meses, e a grana dava para o básico, então, nos finais de semana, eu trabalhava em um restaurante de fast-food. Desde então, eu cheirava a comida os 7 dias da semana, e aos finais de semana com certeza o cheiro era pior. O lado bom dos meus empregos era o café gratuito, do qual eu nunca enjoava e podia tomar à vontade.
Enfim, apenas uma jovem de 23 anos ganhando a vida, assim como outras milhares espalhadas pelo mundo.
Já eram 19h quando cheguei em casa e, assim que olhei para a porta, o recado que eu havia colocado fora estava grudado novamente.
"VOCÊ TEM UMA SEMANA".
Infelizmente, aquela mensagem havia me impactado de novo, do mesmo jeito que quando a vi ontem pela manhã. Peguei o papel grudado e entrei em casa. Só queria tomar um banho quente e comer alguma coisa. Hoje era um dia difícil, fazia 9 anos da morte dos meus pais, e uma mensagem de despejo não era exatamente o consolo que eu precisava.
Tirei minha roupa, entrei debaixo do chuveiro, encostei a cabeça no box e chorei.
SWON
Acordei com meu celular tocando. O barulho do toque só fez minha dor de cabeça chegar ainda mais rápido do que de costume. Tateei a mesa e era Brad, meu agente, me ligando.
"Tão cedo?", pensei.
Cliquei na tela e atendi.
— Hã, oi...
— ONDE VOCÊ ESTÁ? — perguntou ele, gritando.
Minha dor de cabeça aumentava a cada segundo.
— Em casa — respondi.
— Swon, você está 2h atrasado! — gritou ele.
— Mas a gravação é só às 14h — falei.
— Você já olhou que horas são?!
Olhei o relógio: 15:52.
Merda. Merda. Merda.
— Chego aí em 30 minutos — respondi e desliguei sem dar tempo de ele falar algo a mais.
Sentei na cama, olhei para minha cabeceira e meus 3 companheiros diários estavam ali, em fila, esperando a hora em que eu ia usar cada um deles. Minha aspirina para a dor de cabeça pela manhã, um copo pela metade do whisky que tomei à noite e meu remédio para dormir, que comecei a tomar 5 meses atrás para ver se eu conseguia ter mais de 3h de sono contínuo.
Tomei o primeiro do dia, me levantei e fui direto para o banheiro. Me olhei no espelho e, como sempre, não gostei do que vi. Eu tinha 25 anos, ia fazer 26 daqui a 1 semana, porém, hoje em especial, aparentava ter muito mais. Minhas olheiras estavam fundas e minha pele estava péssima. O pessoal da maquiagem ia ter que fazer um grande milagre hoje.
Bom, eles sempre faziam. Essa vida, na verdade, sempre fazia. Eu podia estar acabado, mas eles sempre davam um jeito de, através das câmeras, me tornar a pessoa mais desejável do mundo.
Esse pensamento me arrancou uma risada. Desde os meus 13 anos eu sempre quis chegar onde estou hoje. Batalhei incansavelmente para conquistar minha carreira e agora, me olhando e encarando meu real estado, não sei em que parte desses anos eu me perdi.
Enxuguei as lágrimas que estavam ameaçando cair, olhei para o relógio e pensei: "Ótimo, agora só tenho 20 minutos".
Me troquei, tomei um gole de água e entrei no carro que já estava me esperando no porte-cochère.
— Só mais essa semana. — suspirei baixinho.
Fale com o autor