Lonely Star
17 Honrar a memória de quem se foi
Notas iniciais
N: Julia.
"Julia, acorda"
Uma voz sussurra ao fundo. Era verão e estava calor. Eu estava de biquíni branco com bordados dourados e saída de praia branca de tricô. Já o meu pai, uma camisa da banda AC/DC cinza e uma bermuda preta, ambos com chinelos de dedo. Estávamos no Rio de Janeiro, pai e filha, abrasados, andando na areia, rindo e conversando sobre alguma coisa engraçada.
"Julia, acorda"
A voz repete mais alto. Ele me aproximou da água e chutou para o meu lado e eu me defendi rindo. Ficamos jogando água um para cima do outro e rindo como loucos. Então eu o derrubei e ele me puxou junto. Quase engoli água da praia de Copacabana.
"JULIA ACORDA!"
Acordei no susto. Aquela era uma das minhas melhores lembranças. Me sentei na cama ofegante, encarando uma foto daquele dia na mesa que tinha em meu pequeno quarto na Base. Uma selfie que ele fez abrasado a mim naquela praia. Eu ainda estava ofegante e as imagens daquele sonho de uma lembrança eram nítidas em minha mente, de tal forma que mais parecia que eu a via.
– O que Você quer com isso?
A pergunta à Deus me pareceu uma ideia um tanto estranha, mas eu tinha o costume de fazer isso. Precisava de ar fresco, mas não sei porque, eu foi pro terraço. Estava com pouco sono e as imagens da manhã naquela praia ainda estavam em minha mente. Entrei no elevador e acabei um pouco mais sufocada. Não me sentia bem dês de quando a Chicote Negro apareceu e agora tudo só piorava.
E lá estava uma silhueta na borda, encarando o chão. Era uma mulher. Não eram Zoe nem Katrina, pois elas não dormia lá. Não era Natasha nem Cléo, pois tinha seus cabelos longos. Me aproximei lentamente. Era Wanda em sua camisola negra e longa. Ela abre os braços e olha para o alto, então, percebo que preciso correr.
Consegui detê-la de cometer o suicídio.
– Wanda, o que você tem na cabeça?! — perguntei desesperada.
– Já chega! Eu desisto! — falou chorando – Eu achei que conseguiria superar a morte, que conseguiria seguir em frente, mas não consigo! Não dá mais! Eu desisto.
– Ficou louca! Seu irmão ia odiar você só de pensar que faria algo assim, eu te garanto. — afirmei.
– Mas ele não está aqui!
– Se ele estivesse, o que pensaria de você?! — gritei – Raciocine, Wanda! Ele te amava. Não desonre a morte dele provocando a sua.
Wanda chorava. Chorava de forma incessante. Então me abraçou e chorou no meu ombro. Retribui o abraço e acariciei seus cabelos, tentando acalmá-la.
– Shsss, shsss, vai ficar tudo bem, amiga.
– Não. Nunca vai. Pietro se foi. Acho que é muito melhor eu desistir agora do que andar por aí sabendo que estou morta junto com ele.
Bufei. Já chega! Olhei nos olhos dela, dei três tapinhas fracos em seu rosto e afirmei:
– Escute aqui: você não está morta. Sua vida ainda não acabou. A dele sim, mas vocês nunca foram a mesma pessoa, nem na barriga da mãe de vocês, já que gêmeos do sexo oposto sempre são bivitelinos. Se você acha que a sua vida acabou só porque a dele acabou, está errada. Eu já perdi pessoas com quem eu me importava, nem por isso eu morri.
Ela abaixou a cabeça e mordeu o lábio de baixo.
– Pietro era tudo para mim.
– Agora não é mais! Você tem um lar, amigos, pessoas que se importam com você, que te amam!
– Eles não me veem assim. Eles só veem meus poderes.
– Todos os Vingadores veem uma família um no outro. Você é parte da minha família então! Põe uma coisa na sua cabeça: se você morrer, muita gente vai sofrer. Não cometa o mesmo erro de seu irmão.
Ela me encarou, pensou em ficar em silêncio, mas acabou perguntando:
– Então acha um erro dele salvar sua vida?
Eu havia me esquecido: a morte de Pietro permitiu que eu estivesse lá. O que eu havia dito? Simples! Que preferia estar morta. Eu estaria em um lugar melhor, mas muito mais gente estaria sofrendo com isso. Pietro tinha Wanda. Eu tenho muita gente mesmo.
– É quase isso. — admiti.
– Se sente culpada. — deduziu.
– Fato. Há poucos dias sonhei com você. Estava me culpando pela morte dele e chorando...
– Ele decidiu isso! — ela afirmou.
Sorri, coloquei uma mão em seu ombro e respondi:
– Lembre-se disso quando quiser se matar. E também de que há alguém lá encima – apontei para o Céu — que fez por você o mesmo feito. Eu não precisava disso. Há tempos eu reconheci Jesus como meu único e suficiente salvador. Fiquei confusa quando seu irmão fez isso. Não sabia o que achar. Mas percebi que Deus quis que eu vivesse, assim como Ele quer que você viva.
– Se formos ver pela sua lógica, Ele também queria meu irmão morto.
– Porque era melhor assim!
– Melhor assim?! Como?! — reclamou.
– Eu não sei! Nem sempre podemos entender o que Deus quer. O que eu sei é que Ele quer o melhor. — expliquei calmamente.
Ela me abraçou mais forte ainda e entramos. Ela foi para o quarto dela e eu voltei para o meu, orando para que ela não voltasse a querer pular de cima da Base. Eu estava achando que ela iria fazer isso uma hora ou outra, mas me negava a me levar por esse pensamento. Ela definitivamente escondia bem os sentimentos.
Acordei pesada na manhã seguinte. Não entendia a razão, mas tinha um mal pressentimento sobre aquele dia. Repreendi o pensamento e me levantei. Fiz a higiene matinal e me vesti para ir à faculdade. Estava no corredor à caminho da entrada da Base quando Wanda me abordou.
– Está melhor? — perguntei preocupada.
– No seu lugar eu não iria até a sala agora.
– Por quê? — perguntei confusa.
– Apenas confie em mim, Julia. — ela pediu.
Ignorei e corri. Ela não tentou me impedir, mas me seguiu. Quando cheguei na sala, me deparei com a cena de meu pai e tio Derek discutindo feio. Mas o tio Derek estava no Rio! O que ele estava fazendo lá?
– Tio Derek? — perguntei.
– Julia. — falou sério, correndo e me abraçando.
– Achei que estivesse no Rio!
– Comprei passagens para vir hoje te fazer uma surpresa, mas decidi fazer um pouco mais que isso.
– Francamente, você não deveria estar aqui. — falou meu pai alterado.
– Pai! — protestei – Sei que não gosta dele, mas é meu tio!
– Diga à sua amada sobrinha o que veio fazer aqui, Heimond! — falou meu pai com raiva.
Derek me olhou nos olhos e falou: — Vou te levar para o Rio de Janeiro comigo, Ju.
– Não posso, tio. — afirmei naturalmente – Tenho faculdade, amigos, problemas pessoais para resolver e, além disso, sou uma Vingadora!
– Escute, eu só quero o seu bem. A escolha é sua. Teria que abandonar muita coisa para se mudar comigo...
– Se mudar... de vez? Com você? — dei alguns passos para trás surpresa.
– É o mais seguro.
– Sou uma heroína, tio. Não precisa ficar preocupado com a minha segurança. Eu deveria ficar preocupado com a sua.
– É exatamente por isso! — ele falou.
– Não vou com você. — afirmei – Agora, se me der licença, eu vou para a faculdade. Vou fundar uma divisão de estudos e pesquisas espaciais nas Indústrias Stark. E vou continuar sendo a Estrela Solitária.
– Viu? Agora volte para onde você veio. — falou meu pai.
– Mas isso não é motivo para trata-lo mal, pai. — reclamei.
– Julia! — chamou Wanda – Por favor, encerre aqui a discussão e vá cumprir seu compromisso.
– Assunto pessoal. — respondi a ela.
– Eu o recebi e pude ver a fúria dele. Também pude ver a de seu pai. Isso não vai ser bom para você, Julia.
– Não se preocupe, é sempre assim.
– Dessa vez, é diferente. — ela afirmou.
– Você ouviu. Não preciso lembrar que ela é telepata e vidente, não é? — perguntou meu pai.
– Stark, deixe sua filha decidir.
– Ela já decidiu, Heimond!
– Quando vocês vão parar de brigar?! — perguntei.
– Julia, se afaste. — Wanda puxa meu braço com telecinese.
– Não! — gritei. As mãos dela brilhavam.
– Você fica, Julia. Você sabe o que quer. — afirmou papai.
– Mas não o que precisa! — protestou Derek.
– Só quero que parem de brigar! — pedi.
Papai foi até Wanda e perguntou:
– Pode usar sua manipulação mental e tirar ele cara daqui?
– Não! — respondemos juntas e indignadas.
– Wanda, — ele segura um de seus braços quando ela vai sair – eu sei que é bem próxima à Julia e não quer perde-la.
– Me solte! — protestou puxando violentamente o braço.
Graças a isso, ela acerta um raio vermelho em minha cabeça. Enquanto tudo escurecia, eu ouvi meu tio...
– Julia! — e me segurou.
– Foi sem querer! — afirmou Wanda.
Então eu não estava mais lá. Eu havia acordado repentinamente no chão de madeira de uma mansão. Eu a conhecia. Lá, meu tio morava com minha mãe. A famosa mansão de Los Angeles. Já estive lá algumas vezes e era incrível só de pensar que minha mãe morou lá. Me levantei e fui até a sala, onde encontrei meu tio e...
– Mamãe. — sussurrei ao identificar.
Me aproximei e observei os dois. Minha mãe tinha uma barriga redonda e charmosa, que estava exposta devido à blusa do pijama, que eram short e blusa de ceda. Eles não me viam nem percebiam minha presença. Apenas eu era expectadora daquela lembrança.
– Julieth Heimond Stark. — ela falou.
– Ela não precisa ter o nome dele. — afirmou tio Derek.
– É claro que precisa!
– O Stark não dá a mínima para ela.
– Mas ainda sim ela é filha dele.
Tio Derek se levantou e disse:
– Não acha que já chega?
– Não. — mamãe se levantou do sofá — Tony age com indiferença quanto a filha dele! Quero assombra-lo com isso.
– Esqueça o Tony! Ela é sua e de mais ninguém!
Minha mãe se levantou e encarou o irmão gêmio.
– Eu não disse que ela pertence a ele. Ela é uma criança, não um objeto. Se quer nasceu e eu já a amo. — acariciou a barriga, me fazendo lembrar que eu estou ali dentro.
– Entendo, irmã. Melhor não discutir, tá? O nome dela vai ter "Stark".
– Pode me fazer um favor? Me prometa que não deixará que o Stark faça algo contra ela.
– Prometo.
– Eu quero ela longe dele. — minha mãe declara por fim.
Meu coração se quebrou.
"Eu quero ela longe dele"
"Eu quero ela longe dele"
"Eu quero ela longe dele"
A frase grita em minha mente umas mil vezes. Não, não, não, não ! Aquele era o maior pesadelo de minha mãe... e eu o alimentava! Caí de joelhos no chão, sem saber o que pensar. Era tudo o que o tio Derek queria: cumprir uma promessa. Acordei vagorosamente, enquanto recitava a frase que estava me destruindo:
– Eu quero ela longe dele. Eu quero ela longe dele. Eu quero ela longe dele. Eu quero...
– Julia! — perguntou meu pai assustado – O que é isso?
– Mamãe me queria longe de você. — afirmei.
Ele, tio Derek, Wanda e Natasha, que chegou nem sei quando, falavam com os outros e comigo, mas algum bloqueio não me permitia os escutar ou os entender. Me levantei, peguei minha bolça e corri. Corri até o meu carro, fechei a porta, liguei para Jones, que não demorou a atender.
– Ju?
– Ainda está em casa? — perguntei em tom choroso.
– Sim, meu pai queimou o meu café da manhã e isso acabou atrasando ele para o trabalho e eu para a faculdade...
– Deus sabe de todas as coisas. Liga pro Freddie e avisa que você nem eu vamos hoje.
– O que foi?
– Preciso de você. — afirmei, não aguentando segurar o choro.
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