Loneliness

1 Darkness and Light


Notas iniciais
Sim, é capítulo único mas um capítulo único beeeeem longo hahaha' Não achei que seria apropriado cortar essa capítulo, achei ele perfeito desse jeitinho kkkkk' Amei escrever essa história e espero que gostem também! Boa Leitura!

Naquela época, eu não sabia de nada.

Se vocês soubessem o quanto podem mudar a vida de alguém em oportunidades simples, vocês o fariam. É natural muitas vezes esperarmos por um grande acontecimento, como nos filmes e livros, esperamos por uma oportunidade que nos faça pensar “uau, é mesmo coisa do destino”, para aí sim, fazermos as coisas andarem. Mas nem sempre as coisas funcionam assim. E minha vida mudou completamente depois de um simples e comum dia, quando resolvi pela primeira vez agir diferente do normal.

Naqueles dias eu não sabia de nada, e não me culpo. Em muitas épocas de nossa vida nós “não sabemos de nada”, isso é normal, porque faz parte de nosso crescimento aprender. Fico feliz por ter mudado, mas ao mesmo tempo desejava já ter a capacidade de entender certas coisas, teria sido tudo mais fácil, para mim, e para ela.

Vou lhes contar a história da menina mais incrível que já conheci, uma garota que me ensinou muitas coisas e me fez ver de outras formas como a vida funciona para algumas pessoas. Alguém que se achava fraca, mas não era nem um pouco. Sim, ela teve seus momentos de fraqueza, participei de um bocado deles e talvez do mais difícil, mas quem não tem? Ela era incrível não por ser impecável como pessoa, mas por saber lidar impecavelmente com suas falhas e seus problemas.

Eu estava em mais um dia como qualquer outro na escola, conversando com meus amigos na sala de aula. Eu não era popular, pelo menos não achava, mas sim, eu tinha um bom número de amigos e conhecia um bocado de gente da escola, não me considerava popular simplesmente porque sempre achei isso uma grande farsa, eu era apenas uma pessoa simpática e com muitos amigos. E um jovem que não sabia de nada.

— Então você vai ao boliche com a gente? – Me perguntou uma amiga sentada em minha mesa, todos me olharam com olhares questionadores. Não queria ir, queria ir para casa e ficar de bobeira, mas todos fizeram aquela pressão e cedi.

— Claro. – Respondi com um falso sorriso, não tão falso afinal. Todos ficaram felizes e começaram a planejar as coisas para o dia. Não estava muito interessado então fiquei apenas ouvindo a conversa, enquanto olhava para lugar nenhum especifico.

Foi nesse momento que a vi. Já havia visto ela muitas outras vezes, afinal estudávamos na mesma sala, sabia inclusive seu nome, mas nunca cheguei a reparar realmente nela, era uma garota meio estranha, nunca havia visto ela andando com ninguém. Ela passou na minha frente borrando a imagem da lousa que eu encarava meio desligado, nessa hora senti um estalo na minha cabeça. Estávamos marcando um passeio depois da escola com toda a turma, meio no automático disse:

— Por que não chamamos ela para ir com a gente também? – Perguntei.

— Ela quem? – Um de meus amigos me perguntou.

— Ela. – Eu disse e apontei. Instantaneamente todos olharam para ela, depois fizeram uma cara meio amarga, os sorrisos meio desmanchados.

— Acho que não. – Eles disseram. – Ela é um pouco estranha, é daquelas que gosta de ficar sozinha, é melhor não incomodarmos. – Eles falaram, olhei para ela sentada sozinha nos fundos da sala e dei de ombros.

De fato, ela tinha um rosto sério demais, até meio sombrio. Era o que eu achava na época, mas como eu disse, naquela época eu não sabia de nada.

Naquele dia, assim que as aulas terminaram todos saíram animados para irmos jogar boliche. Dei uma última olhada para os fundos da sala a procura dela, mas ela já havia ido embora, rápido demais.

Foi divertido o boliche, no fim não me arrependi de ter ido. Comemos bastante, jogamos, disputamos, rimos e ficamos mais próximos de algumas pessoas da sala que antes não tínhamos muito contato. Esse era o tipo de vida que importava para mim, e que todos deveriam ter. Amigos, passeios juntos, aqueles momentos de bobeira em casa depois e por aí vai. Eu adorava isso, minha vida era boa assim.

No dia seguinte, assim que cheguei na sala me deparei com uma barulheira. Todos comentavam sobre o dia anterior, lembrando de coisas engraçadas e contando para aqueles que não haviam ido como havia sido. Meus amigos vieram me cumprimentar, já me contando algumas coisas que haviam acontecido no dia anterior e rindo, dei risada junto com eles e comecei a entrar na conversa. Havia um grande número de pessoas conversando, todos riam bastante, mais uma vez sem querer meus olhos foram para o fundo da sala. Ela estava lá, a mão apoiando o queixo e o rosto virado para a janela, encarando alguma coisa ou pensando em algo que eu nunca saberia. Resolvi falar com ela, como um desafio a mim mesmo, disseram que ela era do tipo solitária mesmo e não gostava muito de companhia. Eu já tinha todos os amigos de que precisava e de que não precisava também, conhecer mais uma pessoa não faria mal. Fui orgulhoso e presunçoso demais.

Saí do meio do pessoal que conversava e caminhei até a mesa dela, pouco iluminada pelo sol que ainda se levantava.

— Bom dia. – Disse o mais descontraído possível. Ela tirou a mão do queixo e me olhou por uns bons segundos, como se raciocinasse se eu estava mesmo falando com ela.

— Bom dia. – Ela respondeu, sua voz quase inaudível, na verdade precisei de uma rápida leitura labial.

— Sou o Nero. – Falei e me agachei ao lado da mesa dela sorrindo o mais simpático possível.

— Sei quem você é. – Ela respondeu, seu rosto não demonstrava absolutamente nada, comecei a sentir vontade de recuar, um pouco intimidado, mas não desisti.

— Estou lisonjeado que saiba quem eu sou. – Respondi brincando. – Também sei quem você é, Aida, não é? – Perguntei, ela me olhou pelo canto dos olhos.

— Estou lisonjeada que saiba quem eu sou. – Ela respondeu abrindo um imperceptível sorriso, mas eu notei e fiquei meio sem reação. Ela havia devolvido a brincadeira! E havia soltado um singelo sorriso, mas ainda assim havia sorrido, falando comigo! Por alguma razão isso me deixou muito feliz. Soltei uma risada baixa.

— Não quer se juntar a nossa conversa? – Perguntei apontando para o pessoal com a cabeça. – Tem muitas histórias engraçadas sendo contadas, acho que você vai se divertir.

Seu olhar voltou a ficar mais frio e ela deu uma rápida olhada para o grupo de alunos, que continuavam a conversar e rir. Eles olharam para ela também e Aida desviou o olhar.

— Estou bem. – Ela respondeu simplesmente e voltou a apoiar o queixo na mão e olhar para a janela. Fiquei sem entender nada.

— Ei, Nero! – Um de meus amigos me chamou, olhei para ele, fazia um sinal pedindo que eu fosse até ele. Olhei mais uma vez para Aida, ela estava completamente concentrada na janela outra vez, levantei e voltei até onde meus amigos estavam.

— O que pensa que está fazendo? – Um dos garotos me perguntou.

— Como assim? – Retruquei.

— Nós dissemos que ela não gosta de companhia. Não fique incomodando ela, além de fazer você parecer um bobo, acredite, outras pessoas já tentaram. – Ele me disse olhando sério.

A aula começou e sentei em meu lugar. Não me pareceu que ela gostava de ficar sozinha. Na verdade, até pudesse gostar, mas não me pareceu que ela era antipática e completamente desinteressada. Fiquei curioso, mas meio sem jeito de falar com ela novamente, então deixei para lá por enquanto.

A professora então começou a divulgar as notas finais das provas. Eu já sabia que havia ido mal no geral, e sabia quem mais teria que compensar nota junto comigo, era sempre o mesmo grupinho que deixava a desejar. E isso incluía Aida. Nunca havia me importado muito com ela no nosso grupinho de compensar notas, mas dessa vez senti que poderia ser uma oportunidade.

Era algo bem chato que tínhamos que fazer para recuperar nota, seria bem melhor se simplesmente tivéssemos que fazer outra prova. Mas não, tínhamos que ser uteis então ajudávamos em algum projeto da escola, algo que ninguém normalmente iria querer fazer. Dessa vez, como estava perto das férias de inverno, seríamos o grupo que iria organizar o baile de inverno da escola. Acho absolutamente chato e trabalhoso, éramos no total um grupo de cinco pessoas, claro, contando apenas com os alunos de nossa sala.

Nos reunimos então em uma sala após as aulas para começar a preparar e listar tudo o que precisaríamos fazer, afinal o baile seria no final do próximo bimestre já.

— Então... – Cheguei perto de Aida. – Que matéria sempre te faz se juntar a nós? – Perguntei descontraído, ela me olhou pelo canto dos olhos.

— Todas. – Respondeu e novamente abriu um singelo sorriso, eu sorri. – E você? – Ela perguntou, ela havia devolvido a pergunta. Não havia como ela ser totalmente desinteressada.

— Bem, história e geografia. – Respondi. – Não sou bom com esse tipo de matéria. – Ela riu, depois seu rosto voltou a ficar sério e ela se concentrou na reunião que continuava. Sem perceber continuei a olha-la de perfil. Cabelos curtos e negros, uma pele branca como papel e meio rosada, e olhos negros profundos, me concentrei nos olhos dela por alguns segundos e notei, pela primeira vez, o motivo de todos acharem que ela tinha um ar sombrio e distante. Ela tinha olheiras profundas embaixo dos olhos, percebi que não era algo nascido com ela, mas certamente estavam ali há muitos anos, o suficiente para se disfarçarem e comporem a estética de seu rosto.

— Algo de errado? – Ela me perguntou com um leve sorriso nos lábios, me toquei que a encarava e virei o rosto constrangido.

— Não é nada, foi sem querer, desculpa. – Respondi e a ouvi rindo baixinho. Cada gesto dela me fazia ficar surpreso, ela era bem diferente do que todos diziam, aparentemente.

Por fim foi decidido que dividiríamos as tarefas em duplas, seria mais rápido e ninguém ficaria sobrecarregado, juntando com o pessoal de outras classes formamos um grupo grande e legal. Devo ter sido até um pouco impulsivo, mas assim que disseram que trabalharíamos em duplas grudei em Aida.

— Se importa? – Perguntei a ela, talvez eu estivesse começando a ser um pouco invasivo.

— Não, mas talvez... – Ela deixou morrer a frase mas terminou de dize-la apontando com a cabeça para o outro lado da mesa. Dois amigos meus me olhavam decepcionados, provavelmente queriam que ficássemos todos juntos para no fim não fazermos coisa alguma. Dei de ombro para eles.

— Eles vão me superar. – Eu disse meio sarcástico para ela e Aida riu.

A reunião acabou depois de uma hora e meia mais ou menos. Aida levantou rapidamente e foi em direção a saída, achei estranho e fui atrás dela, já havia sido invasivo demais não faria mal mais uma vez.

— Já vai? – Perguntei para ela no corredor, ela já estava a uns quatro metros de mim.

— Sim, tenho algumas coisas para resolver, não se preocupe, estarei disponível nos próximos dias para ajudar na organização. – Ela disse e me deu as costas, indo embora.

Fiquei absurdamente curioso para conhecer Aida melhor, afinal que tipo de pessoa ela era? Havia sido muito simpática comigo até agora! Mas talvez, não fosse algo tão complicado quanto eu pensava, talvez ela simplesmente fosse na dela e todos a interpretavam mal por ser um pouco séria demais. De qualquer forma, não posso negar que havia chamado minha atenção.

Os dias seguintes começaram a ser mais corridos, e como Aida havia dito, ela estava sempre presente para me ajudar. Sinceramente era um porre para mim fazer isso, mas eu podia passar mais tempo com ela, conhece-la melhor. E foi aí que descobri algo: Aida era simpática, mas havia um bloqueio ao redor dela. É estranho de expressar isso, mas ela era sempre simpática, falava serenamente, ria de forma discreta mas sempre continuava a conversa comigo, mas de alguma forma era quase impossível de conhece-la mais. Eu era como um livro aberto, falava sem nem perceber de coisas da minha vida, coisas banais, afinal não havia nada muito interessante para ser contado, mas Aida, não dizia nada, eu não sabia que tipo de música ela gostava, que tipo de filme, comida, seus hobbies, como eram as coisas em sua casa. Nada. O que eu sabia era que ela se chamava Aida, tinha 17 anos (assim como eu), e estudava em minha sala. E, bem, isso basicamente qualquer um de nossa sala sabia. Fiquei com certo receio de fazer qualquer tipo de pergunta pessoal então não fiz, apenas deixava o assunto fluir na esperança dela deixar escapar algo. Mas nada.

— Ai, que calor. – Eu disse, Aida e eu estávamos andando no centro da cidade debaixo de um sol de trinta graus. Havíamos ficados responsáveis por parte da decoração e estávamos fazendo a compra de materiais.

— Estou derretendo também. – Ela respondeu e amarrou os cabelos negros num coque, deixando alguns pequenos fios soltos em sua nuca. Não vou negar que isso me atraiu muito, mas não disse e nem fiz nada.

— Quer tomar um sorvete? – Perguntei.

— Hum, adoraria, mas estou sem dinheiro para isso. – Ela fez uma cara de decepcionada.

— Relaxa, eu pago.

— Não, não precisa. – Ela respondeu, revirei os olhos.

— Deixa disso, vem. – Segurei um dos braços dela e a arrastei até uma sorveteria que havia ali perto. Foi maravilhosa a sensação de entrar no local e sentir o ar condicionado no rosto, Aida parecia satisfeita também.

Para a minha surpresa, começamos a passar cada vez mais tempo juntos. Passamos o intervalo juntos, fazíamos lições juntos, em aulas vagas eu sentava ao lado dela e ficávamos conversando sobre coisas banais. Ela era realmente divertida, e diferente das outras garotas, ainda não sabia em que sentido, mas ela era diferente.

— Sabe. – Eu disse a ela. – Os outros alunos certamente gostariam muito de você, eles não vêm se enturmar por ficarem um pouco intimidados com você. – Eu disse e ela me olhou surpresa, depois riu.

— Sério? – Ela perguntou.

— Sim, dizem que você é do tipo que gosta de ficar sozinha, então ficam receosos de te incomodar. – Eu disse rindo, nesse momento Aida não riu e vi um olhar frio e distante em seu rosto.

— Ninguém gosta da solidão. – Ela disse simplesmente. – Preciso ir ao banheiro, já volto. – Ela levantou e saiu, fiquei pensando no que ela disse. O que ela quis dizer com aquilo? Não havia entendido e resolvi não perguntar.

Aida voltou a agir normalmente depois disso, depois das aulas fomos até uma sala para organizar os materiais de decoração que havíamos comprado e começamos a juntar com o que outro pessoal havia comprado. Estava apenas nós dois na sala, as outras duplas estavam cada uma cuidando de seus deveres. Na sala ao lado havia duas amigas minhas, responsáveis por cuidar de todo o equipamento de som, várias músicas aleatórias tocavam enquanto elas provavelmente faziam uma playlist e testavam os equipamentos. Me surpreendi quando Aida começou a cantarolar baixinho uma das músicas, era a primeira vez que tinha uma pista de algo que ela gostava. Eu conhecia a música também e comecei a cantarolar com ela, Aida me olhou e sorriu. Ficamos ali cantando baixinho a música, e assim que ela terminou continuei olhando para ela, seu rosto era lindo, as expressões eram suaves e serenas. Ela era linda e eu estava mais do que atraído por ela. Instintivamente me inclinei na direção dela e coloquei uma mecha de seu cabelo para trás. Aida me olhou nos olhos, seus olhos eram profundos, como se guardassem algo dentro deles, e me atraíam cada vez mais para ela.

Sem saber se era correto cheguei mais perto dela, tocando seu pescoço delicadamente, Aida não se afastou, e isso me fez continuar. Meus lábios tocaram os dela levemente, apenas o suficiente para eu sentir a maciez de sua boca. Me afastei um pouco dela e a olhei nos olhos, seu rosto estava levemente corado. Abri um sorriso quando os olhos dela descerem para os meus lábios e a beijei, dessa vez de verdade. Lentamente, depois se transformando num beijo mais ardente, contendo certo desejo da parte dela, e muito da minha parte. Ela levou suas mãos até meus cabelos lisos e compridos que eu geralmente prendia num coque, e me puxou para mais perto. Sem entender muito bem, mas satisfeito pelas coisas estarem fluindo, quando vi eu a havia deitado no chão, estava por cima dela, Aida continuava a me puxar para mais perto, dessa vez pelas costas. Nossos lábios se separaram para tomarmos fôlego, ela estava com as bochechas rosadas de calor e um pouco constrangida, imagino. Não raciocinando direito e apenas seguindo minhas vontades beijei o pescoço dela a mostra, algo que queria fazer há muito tempo, beijei e mordisquei de leve sua pele, descendo até a região da clavícula, Aida soltou um longo suspiro e apertou meus braços. Algo estava nos atraindo para cada vez mais perto, ela não queria me soltar, e eu menos ainda. Mas ambos sabíamos que era arriscado continuar com aquilo e nos afastamos, a decisão tomada quase ao mesmo tempo, demorei um pouco mais para ceder.

Nossa relação depois disso ficou um pouco mais intima, Aida parecia um pouco mais aberta comigo e eu gostava de ficar com ela, gostava de verdade. Passamos a ficar o tempo todo juntos. Certo dia, meus amigos me chamaram para sair novamente e eu aceitei, Aida não foi. Senti como se aquele ambiente não me agradasse tanto mais, e eu sabia exatamente o porquê, eu queria ela comigo, era mais divertido, era mais calmo. Percebi então como ela já havia tomado posse de mim sem que eu nem percebesse, e certamente sem que ela nem ao menos soubesse.

O dia que fiquei mais feliz, foi quando ela me convidou a ir para sua casa. Precisávamos terminar algumas coisas e não poderíamos usar a escola a partir de um certo horário. Saímos da escola e seguimos para a casa dela.

Aida morava em uma casa pequena, mas aparentemente suficiente para ela e quem mais morasse ali. Estava tudo muito organizado e a casa tinha o cheiro dela, o cheiro da Aida, isso me fez sorrir por alguma razão.

— Vou preparar algo para almoçarmos rapidinho, pode ir começando sem mim se quiser. – Ela disse e concordei. Comecei a me concentrar no que tinha de fazer por alguns poucos minutos, depois disso os barulhos das louças na cozinha me chamaram mais atenção. Fui até a cozinha e vi Aida com o cabelo preso num rabo de cavalo e um avental protegendo sua roupa, preparando alguma coisa que cheirava muito bem. Fui até ela e lhe dei um abraço por trás. Ela era tão magrinha e pequena, eu era alto, não era musculoso mas tinha o corpo definido, afinal eu praticava esportes regularmente, e isso a fazia parecer menor ainda. Ela virou a cabeça de lado para me olhar.

— Você é linda. – Eu disse e ela sorriu, os olhos brilhando. Ela me beijou carinhosamente, um depois do outro.

— A comida vai queimar. – Ela disse entre um beijo e outro, procurando algum fôlego. Eu a soltei e comecei a ajudá-la a terminar a comida, na medida do possível.

Almoçamos e voltamos a fazer as coisas do baile, coloquei umas músicas baixas no celular para nos distrair e ficamos ali, o clima agradável e tranquilo.

Algumas poucas horas depois, ouvimos um barulho forte vindo da entrada da casa, Aida levantou num pulo, alerta. A porta da casa abriu e depois ouvi ela sendo fechada. Uma mulher entrou na casa, era bem parecida com Aida, o rosto estava cansado e enrugado, segurava uma garrafa de bebida na mão. Estava visivelmente bêbada, e muito. Aida entrou na minha frente, escondendo a imagem da mulher de mim, não sabia se por instinto ou sem querer.

— Voltou cedo, mãe. – Aida disse. Então era a mãe dela. A mulher soltou um longo suspiro.

— É minha casa, não é? Posso voltar a hora que eu quiser. – A mulher disse com a voz lenta e um pouco enrolada.

— Não disse que não podia. – Aida respondeu, a mulher soltou uma risada.

— Igual o seu pai. – A mulher respondeu. – E quem é esse? – Ela perguntou apontando para mim com a mão que segurava a garrafa de bebida, Aida ainda me escondia então saí de trás dela e falei:

— Sou Nero, estudo com Aida, estamos trabalhando juntos para o baile da escola. – Respondi. – Prazer em conhece-la. – Eu disse tentando soar o mais natural possível. Ela soltou uma risada sarcástica.

— Boa sorte com essa, aí. – Ela me disse apontando para Aida, ela recomeçou a andar e se desequilibrou um pouco, soltou uma risada como se algo muito engraçado tivesse acabado de acontecer e se dirigiu até um quarto. – Tem alguma comida aí? – Ela gritou antes de entrar no cômodo.

— Não. – Aida respondeu séria.

— Ótimo. – A mulher disse ironicamente rindo e entrou no quarto, fechando a porta bruscamente.

Um silêncio absurdamente desconfortável pousou no cômodo, Aida continuava de pé, as mãos brancas de tanto que ela serrava os punhos.

— Desculpa. – Disse ela. – Não era para ela ter voltado para casa agora. – Aida disse.

— Não se preocupe, está tudo bem. – Respondi e toquei de leve a mão de Aida, ela se soltou de mim.

— Não está não. – Ela disse sem me olhar. – Desculpa, mas podemos continuar isso outro dia? – Ela perguntou, mas não era exatamente uma pergunta, “vá embora agora, por favor” era o que ela havia dito por trás da pergunta.

— Tudo bem. – Respondi. Me levantei e fui até Aida, pensei em lhe dar um beijo antes de sair mas desisti, pensei que não seria apropriado. – Te vejo na escola. – Apenas disse isso, mas não recebi resposta.

Definitivamente, isso era uma parte da vida de Aida que ela não queria que eu conhecesse. Depois disso, ficamos distantes um do outro, não por culpa minha, mas ela começou a manter distância de mim, me evitando sempre que podia e sumindo antes mesmo que eu pudesse pensar em ir até ela. Passaram-se dias, trabalhávamos no baile em silêncio e nunca sozinhos, de alguma forma sempre havia mais pessoas nas salas em que ficávamos.

— Eu disse que ela era do tipo que gostava de ficar sozinha. – Um amigo me disse em voz baixa quando fui até ele pegar um material de que precisava. Assim que ele me disse isso olhei para Aida e lembrei do que ela havia me dito.

— “Ninguém gosta da solidão”. – Eu disse a ele repetindo o mesmo que Aida havia me falado alguns dias atrás. Ele me olhou sem entender nada. Depois disso saí da sala para ir até o banheiro, sem perceber havia repetido o que Aida havia feito quando disse essa mesma frase. Olhei no espelho do banheiro para mim mesmo, meus cabelos loiros caindo na altura dos ombros, meus olhos castanhos claros e minha pele bronzeada. Mas não foi para isso que reparei, mesmo sem conhecer Aida direito ela havia mudado algo em mim, eu ainda tinha meus amigos, mas de alguma forma não me sentia eu mesmo. Lavei o rosto para afastar essa sensação e voltei para a sala. Parei ao lado da porta assim que ouvi a conversa lá de dentro.

— Não sei o que houve entre vocês, mas você está fazendo mal ao Nero. – Disse uma garota, reconheci a voz, era uma amiga minha de outra sala, conhecia ela há um bom tempo.

— Se é assim porque ele não veio me dizer nada? – Ouvi Aida responder.

— Nero é uma pessoa boa demais, ele não diria algo assim com medo de causar uma má impressão. – Disse a menina.

— Concordo que Nero é uma boa pessoa, e acho bonita essa sua preocupação com ele. Mas o que acontece entre Nero e eu, diz respeito somente a mim e ele, se fosse algo que vocês e seus outros amigos devessem saber ele teria contato. – Era a primeira vez que ouvia Aida falar mais alto.

— Você está sendo egoísta! Por que apenas não continua no seu canto como sempre fez? – Nesse momento senti algo queimar dentro de mim e me movi para entrar na sala, mas um amigo meu segurou meu braço, ele também estava ali perto ouvindo tudo.

— Nero que veio até mim, não o forcei a se aproximar de mim. É incrível como o universo na cabeça de vocês é tão pequeno, só se preocupam com o mundo que existe ao seu redor, como se o universo se resumisse a isso e esquecesse a realidade de outras pessoas. Posso estar sendo egoísta sim, e para a sua infelicidade continuarei sendo, porque Nero fez algo por mim que nenhum de vocês nunca fez, ele me preencheu como nenhum de vocês nunca pensou em fazer. Ele me fez companhia, me fez rir, me fez sentir importante e querida. Eu não vou desistir de uma pessoa assim. E é egoísta da sua parte pedir que eu me afaste da única pessoa que me importa nessa escola. Não existe apenas o seu mundinho, há muitas coisas que acontece ao seu redor e você nem percebe. – Aida disse. Nesse momento soltei bruscamente o braço que meu amigo segurava e abri a porta. As duas meninas me olharam surpresas, mas só o que me interessava era Aida, fui até ela e segurei sua mão, trazendo-a comigo. Não sabia para onde estava indo, só precisava tirar Aida de lá, só precisava ter ela comigo.

Cheguei ao lado de fora da escola e segui até o jardim dos fundos, onde certamente não haveria ninguém. Parei depois de algum tempo, sem saber ao certo o que dizer. Por fim, o que saiu da minha boca era a pergunta que eu mais tinha medo de fazer.

— Você está bem, Aida? – Perguntei olhando nos olhos dela.

— Estou bem. Você ouviu a conversa, não foi? Não se preocupe, aquilo não é nada. – Ela disse e sorriu. Reparei novamente depois de algum tempo nas olheiras que cobriam seu rosto, passei a mão levemente ali no local.

— Você está realmente bem? – Perguntei, certamente fazendo uma expressão horrível.

— O que foi, Nero? – Ela me perguntou sorrindo. – Estou bem. – Ela disse novamente, mas algo dentro de mim sabia que ela não queria me contar o que estava acontecendo. Instintivamente eu a abracei, sem saber ao certo o porquê, abracei-a fortemente.

— Nero? – Ela me chamou, a voz um pouco abafada contra meu peito.

— Aida... você pode me dizer qualquer coisa, mas não se force. – Foi a única coisa que consegui dizer. Aida ficou alguns minutos parada antes de me abraçar de volta fortemente, depois de mais alguns minutos ela começou a chorar, um choro forte e incessante.

Ela ficou uns bons minutos chorando, e como eu não sabia o que fazer apenas continuei a abraça-la.

— Eu, não aguento mais. – Ela disse por fim, a voz demonstrando todo o cansaço que ela queria transmitir.

— O que, Aida? – Perguntei incentivando-a a falar. Ela se soltou de mim e me olhou nos olhos, seu rosto estava vermelho por conta do choro.

— Tudo, Nero, cansei de tudo. – Ela disse, os olhos profundos me encarando.

— Me conte, Aida. – Pedi. Ainda me observando ela soltou um longo suspiro.

— Eu não sei nem por onde começar. – Ela disse rindo.

— Isso não importa, comece por onde achar melhor, se quiser voltar a história depois e acrescentar detalhes eu continuarei ouvindo. – Ela sorriu para mim.

— É um pouco idiota, mas são pequenas coisas que vão acumulando e uma hora tudo pesa demais. Eu sei que é errado misturar um problema com outro, mas as vezes não tem como evitar, ainda mais quando os problemas se interligam. – Ela disse, os olhos indo de um lugar a outro. – Sinto falta da minha avó, Nero. Fui criada por ela até meus 10 anos de idade, vivi e cresci com ela, mas quando eu ainda tinha apenas 10 anos ela faleceu e fui mandada para morar com minha mãe, aquela mulher que você conheceu. Meu pai faleceu em um acidente, ao menos é o que dizem, quando eu tinha três anos, tenho algumas poucas lembranças dele, bem vagas. Meu pai era um homem bom, não lembro muito dele mas disso eu lembro, era sempre muito presente; minha avó eu considero como minha verdadeira mãe, mas ela me deixou também. Minha mãe, como você mesmo viu, é uma droga de uma alcóolatra, nunca trabalha, nunca faz nada em casa, é perdida na vida, totalmente. Estou cansada de trabalhar para sustentar aquela casa, sou eu ou nada! Por isso tiro notas ruins, não tenho tempo para estudar direito por causa do trabalho e não tenho tempo de trabalhar direito por causa da escola!

Aida dizia, uma coisa atrás da outra, como se guardasse aquilo há muitos e muitos anos.

— Assim que minha avó faleceu me entregaram um envelope que ela havia deixado para mim, cheio de dinheiro, ela sabia que eu seria mandada para viver com minha mãe novamente, e mesmo tão nova eu já sabia que apesar de ser muito dinheiro aquilo não significava coisa boa, eu já sabia que eu teria que administrar aquele dinheiro para sustentar a mim e minha mãe. Minha avó sempre soube que eu precisaria disso. Mas uma hora o dinheiro acaba, não é, Nero? Durou muito tempo, mas acabou, e alguém tinha que colocar mais dinheiro em casa, e eu sabia que não seria minha mãe, nem minha avó e muito menos meu pai, já que estão mortos. Trabalho até tarde, e muitas vezes nem durmo porque não suporto chegar em casa e ver aquela mulher, além de alcóolatra ela é folgada, não faz nada e me trata com profundo desprezo. E eu não aguento mais! Nero, eu não aguento mais. Não quero e nem consigo mais fingir que consigo segurar a barra sozinha, uma hora cansa, uma hora você não aguenta mais! E isso só piorou quando te conheci, porque senti uma alegria que não sentia há anos, senti uma leveza que pensei nunca mais poder sentir. Não queria que minha mãe o conhecesse e nem que você a conhecesse, porque senti que as coisas podiam ser diferentes, não queria que ela tocasse na única coisa que importa para mim agora, você Nero! Mas como sempre, ela dá um jeito de estragar tudo, não era para ela estar em casa aquele dia e ainda assim ela apareceu, e isso me irritou muito! Ninguém entende, Nero, ninguém. Muitos acham que é frescura da minha parte, outros acham que é drama de adolescente e eu desisti há tempos de contar com qualquer pessoa, ninguém quer lidar com uma pessoa cheia de problemas, e eu não as culpo! Não é fácil e nem agradável ter que lidar com o problema dos outros além dos seus. Mas uma hora... cansa.

Eu não sabia o que dizer a ela, não sabia que tipo de conselho dar e me odiei tanto por isso.

— Eu quero lidar com seus problemas, Aida. – Foi a única coisa que consegui dizer.

— Você é muito gentil, Nero. – Ela me disse.

— Não, Aida, não é gentileza, quero dizer, talvez até seja, mas eu quero realmente estar com você, não ligo de você reclamar todos os dias para mim, não ligo que chore.

— Eu sempre paguei de forte, nunca quis demonstrar que sou fraca. Mas sabe o que é uma garota de 17 anos ter que sustentar uma casa, estudar e cuidar de uma mulher adulta alcóolatra? Isso não é justo! E eu me odeio por ser tão orgulhosa e não querer deixar transparecer todas essas coisas.

— Eu estou aqui, Aida. E não acho que isso seja nenhuma fraqueza, você sorriu, deu risada de verdade, brincou, cantou e conversou comigo todos esses dias, eu não imagino ninguém que conseguiria fazer o que você fez e está fazendo, e olha que conheço muita gente por essa escola. – Eu disse. – Eu me preocupo com você, e quero estar com você.

— Nero... – Ela disse mas não terminou a frase, apenas me abraçou, os seus braços passando em volta do meu pescoço.

Nesse dia, assim que cheguei em casa fui para meu quarto e chorei, chorei tudo o que senti vontade desde que Aida começou a chorar. Ela agia normalmente, sorria para mim, me beijava, ria comigo, e eu nunca cheguei a perceber o que havia por trás daquelas olheiras pesadas em seu rosto, que agora eu sabia de onde vinham, nunca parei para pensar no que aqueles olhos profundos dela pensavam quando vagava no meio da aula, nunca havia parado para pensar no mundo que havia por trás de Aida. Eu não sabia de nada, e achava que o mundo se resumia a mim, meus amigos e minhas diversões. Enquanto isso, Aida sofria dia após dia, e eu nunca havia notado, nunca havia parado para reparar nela a não ser algumas semanas atrás. Não era errado o modo como eu vivia, mas se eu tivesse reparado em Aida antes, o que já poderia ter feito por ela? Enquanto eu ria e me divertia com meus amigos, ela trabalhava e lidava com uma mãe que era tudo, menos uma mãe. Enquanto eu dormia rindo das lembranças com meus amigos, Aida nem sequer chegava em casa para se deitar e descansar depois de trabalhar. Enquanto eu reclamava que minha mãe não me dava dinheiro para sair para algum lugar, Aida tinha que trabalhar para sustentar ela e a própria mãe que a desprezava. Como eu disse, não era errado o modo como eu vivia, era a minha vida e a minha realidade, mas não pude deixar de pensar no que eu podia ter feito por Aida se tivesse me aproximado dela antes. “Ninguém gosta da solidão”, a frase dela ecoou na minha cabeça por longos minutos. Definitivamente ela não gostava de ficar sozinha, mas ela não teve escolha quando o pai e a avó faleceram, deixando-a sozinha, e também não teve opção nas vezes que tentou desabafar com alguém que ela achou que poderia confiar e a pessoa não levou a sério seus problemas, deixando-a sozinha, até o dia em que ela desistiu de contar com qualquer um. Nesse dia, eu chorei, porque de alguma forma pude sentir a dor dela dentro de mim.

Naquele dia eu havia sido pego meio desprevenido, eu já imaginava que havia algo afetando Aida, só não sabia que era algo tão complicado assim. Eu era um garoto que estava completamente acostumado ao meu estilo de vida e ao daqueles ao meu redor, parecidos comigo. Então o que eu deveria fazer? O que eu deveria falar para ela? “Não se preocupe, vai ficar tudo bem, Aida”, “você consegue passar por isso Aida, é uma pessoa forte”, “ uma hora você se adapta, tente fazer as coisas diferente, Aida”. Não, definitivamente não! A pior parte, era pensar que ela era uma pessoa madura, ela sabia exatamente o que pensar e o que deveria fazer, ela estava simplesmente cansada, nada do que eu dissesse soaria novidade para ela, eu apenas pareceria uma criança que não entende nada. E eu realmente não entendia nada, e não há coisa pior que isso. Aida estava muito acima de mim, cheguei a sentir que ela era inalcançável.

Por fim, quem me disse o que eu precisava fazer havia sido a própria Aida.

— Não precisa pensar demais sobre o que eu te contei. – Ela disse. – Foi apenas um desabafo, só aquilo me deixou muito melhor. – Ela sorria, sorria.

Estávamos deitados juntos em cima do carro de meu pai, olhando para o céu e fazendo nada em especial.

— Eu só queria poder fazer algo, Aida, mas não entendo nada. – Eu disse a ela profundamente angustiado. – Não soube nem o que te dizer, foram apenas palavras vagas.

— “Eu quero lidar com seus problemas, Aida”, “Eu estou aqui, Aida”. Foi o que você me disse, isso parece com palavras vagas? – Ela me perguntou com o rosto grave. – Ah não ser que tenha dito isso apenas por dizer, aí sim seriam palavras vagas, mas eu sei que não foi o caso. – Soltei uma risada.

— Por fim, quem está me consolando é você. – Respondi ela, Aida riu.

— Não se preocupe, cuidarei de você. – Ela respondeu brincando. Um silêncio pousou sobre nós, refleti um pouco e resolvi perguntar algo a ela que estava preso em minha garganta há uns bons dias.

— Você nunca... quis tentar se enturmar com o pessoal da sala? Digo, apenas para distrair a cabeça com bobeiras. – Perguntei mas logo em seguida me arrependi, senti que havia sido completamente inapropriado. Mas como Aida é maravilhosa não se ofendeu.

— Tem razão, muito do que sinto é culpa minha também, eu poderia arrumar modos de me distrair quando possível. Mas muitas coisas passaram a afetar minha própria autoestima, e passei a pensar coisas como: “não sou legal o bastante”, “estou sempre cansada e isso deve ser um saco para os outros”, “eles estão apenas sendo simpáticos comigo, não há nenhum significado maior por trás disso”. Aos poucos fui chegando a conclusão de que era melhor para mim e para os outros que as coisas fossem do jeito que são hoje.

— Mas, você é incrível, Aida! Me diverti com você desde a primeira vez que conversamos.

— Não é tão simples assim, Nero. – Ela disse soltando uma risada baixa. – Eu já disse isso antes, mas ninguém gosta de ficar sozinho, solidão não é algo bom. Claro, todos temos aqueles momentos que queremos ficar tranquilos, só nós e nossos hobbies, mas a solidão mesmo, aquela que você olha para o lado e não vê ninguém com você, aquela que te faz sentir vazia, que te faz guardar tudo o que sente tão fundo que nem você mesmo é capaz de achar, é algo terrível, e faz parte de nós, seres humanos, querermos fugir disso. Não faz bem para nossa própria saúde emocional. É estranha a sensação de que você não faz parte de nada, aonde quer que você vá, sua peça do quebra cabeça não encaixa ali, que por mais que as pessoas conversem com você, você sabe e sente que não faz parte dali realmente. Isso tudo faz com que você simplesmente perca tanto a confiança em si mesmo que nem pensar em tentar mudar você pensa mais, tudo começa a parecer inalcançável.

— Você sente tudo isso? – Perguntei mais por não acreditar que tudo aquilo acontecia dentro dela.

— Sim, e não ajuda muito quando você tem uma louca que não está nem aí para você em casa e que tem que chamar de mãe. – Ela disse e riu. Aida ria de seus problemas, e falava deles de forma natural, não culpando a nada e nem a ninguém.

— Acho que entendo um pouco as pessoas que não levaram a sério seus problemas. – Eu disse mas Aida não respondeu nada, prestando atenção na continuação da minha frase. – Você é forte Aida, e tem perfeita noção de tudo o que acontece com você e com os outros, mesmo que seja algo completamente diferente da sua realidade. Todos devem achar que você tem o controle da situação. Quando reclamava para eles, deviam pensar que estava reclamando de uma coisa qualquer, como “ah, minha mãe não quer me dar dinheiro para sair”. Mas a grande verdade, é que tenho certeza que eles te viam como alguém muito acima deles. Penso isso porque eu sou uma pessoa medíocre, e sinto como se você estivesse muito distante de mim. – Eu disse e Aida me envolveu com os braços, e balançou a cabeça negativando o que eu disse.

— Acho que, ainda que minhas reclamações fossem somente “minha mãe não quer me dar dinheiro”, se fosse algo que realmente me afetava, as pessoas deviam dar ouvidos. Porque o mundo é assim, as pessoas comparam as dores dos outros com as suas próprias, e instintivamente banalizam o que o outro sente, e isso é tão errado! Mas Nero, você é diferente de todos os outros, não digo pelo fato de eu estar com você, mas você pensa sobre as coisas, tenta entender o que se passa na cabeça do outro e isso é algo raro. Ainda que você não entenda tudo está tudo bem, ninguém entende tudo, mas você busca entender, e isso já te coloca a frente da maioria.

Eu simplesmente não era páreo para ela, e nunca deixava de me surpreender. Havia muito que eu deveria entender. Ficamos em silêncio por mais algum tempo e resolvi tirar o clima meio melancólico que havia ficado ali.

— Então, me diga o que gosta de fazer! Que música escuta? Quais são os seus hobbies? Você nunca me disse nada disso. – Perguntei e olhei para ela, que usava um de meus braços como travesseiro. Ela sorriu.

— Bem, sinceramente não sei exatamente. – Ela riu. – Música eu gosto daquelas que tem melodias relaxantes, mas no geral, gosto daquelas que me fazem sentir bem, então acho que não tenho nenhum gênero especifico. Meus hobbies... por conta da minha vida corrida nunca parei para pensar e fazer algo que realmente gostasse. – Senti uma pontada no coração quando ela disse isso. – Mas sempre gostei de pinturas, da ideia de mostrar ao mundo seus sentimentos e pensamentos por meio de tinta e uma tela, também gosto de esportes, não sei se sou boa em algum, mas gosto de assistir e correr, como se estivesse livre. – Ela disse e seus olhos brilhavam. Pensei em quantas coisas ela tinha vontade de fazer e não fazia, sempre fazendo coisas que não a agradavam o tempo todo.

— Interessante. – Respondi, talvez eu pudesse ter algumas ideias usando essas informações.

Já havia se passado pouco mais de um mês desde que conheci Aida. Muita coisa havia acontecido nesse meio tempo, mais coisas do que imaginei quando fui a mesa dela e lhe dei “bom dia” pela primeira vez. O baile de inverno se aproximava e já começávamos a montar todo o esquema da decoração, luzes, equipamento de som e etc. Comecei a refletir em Aida ali, em nosso grupo de recuperação de nota, eu havia perguntado a ela que matéria fazia com que ela tivesse que fazer parte da recuperação e ela sorriu e disse: “todas”. Naquele dia não parei para prestar atenção nessa resposta, apenas achei engraçado, mas apesar do sorriso e de sua resposta, a verdade por trás daquilo era triste. Ela simplesmente não tinha tempo de estudar apropriadamente. Como conseguiria nota sem estudar? As olheiras de seu rosto diziam tudo, eram um resumo da vida de Aida, que ninguém, nem mesmo eu, havia dado importância.

Eu estava no pátio da escola ajudando todos a checarem os itens do baile. O pessoal que cuidava do som colocou algumas músicas para tocar e nos distrairmos enquanto trabalhávamos. Todos cantavam e dançavam uma música ou outra, eu estava com um amigo brincando com uma bola de futebol que alguém havia deixado pelo pátio, devem ter esquecido de guardar e aproveitamos a oportunidade. Até que uma hora meu amigo chutou a bola e quase destruiu todo o equipamento de som, as meninas deram uma enorme bronca nele, depois a discussão se transformou em uma guerra de água, começaram a jogar água das garrafinhas em todo mundo. Jogaram água em mim e quase escorreguei no chão molhado, todos começaram a rir, e eu também. Olhei para Aida e ela estava sentada em um canto do pátio, olhando para mim e ria também. Sorri e peguei uma garrafinha com água e corri na direção dela, seu sorriso se desmanchou na hora e ela entrou em desespero.

— Nero, nem vem! – Ela disse colocando a mão no rosto.

— Então corre, se não vai se molhar também. – Eu disse a ela, Aida pareceu não me levar a sério.

— Você não é nem louco. – Ela respondeu. Fui chegando mais perto e comecei a virar a garrafa na direção dela, seus olhos se arregalaram e ela finalmente levantou para se defender. Vi Aida correr pela primeira vez, seus cabelos longos balançavam em uma cascata em suas costas e eu ouvia sua risada, mesmo ela estando a minha frente. Continuei atrás dela, Aida virava o rosto para trás vez ou outra para ver onde eu estava, seus olhos brilhavam e um sorriso preenchia seu rosto. Se eu pudesse, gostaria de eternizar esse momento para ela.

Alcancei Aida e espirrei água nela, ela parou para se enxugar e olhou para mim rindo, depois olhou para o lado e pegou uma garrafinha que estava no chão ao lado dela, quase vazia, sorriu e antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa ela pegou a garrafa e jogou toda a água em mim. Para a minha surpresa todos começaram a rir e voltaram à brincadeira, incluindo Aida. Era a primeira vez que ela ficava no meio de tanta gente, correndo, sorrindo e interagindo. Isso me fez quase chorar, gostaria que a vida de Aida fosse feita de mais momentos leves como esse. Depois da bagunça é claro que levamos bronca e tivemos que secar e limpar tudo.

Aquele dia havia sido especial, e Aida havia sorrido e brincado como eu nunca havia visto. Mas as coisas não podiam ser boas para sempre, não é? Alguns dias depois daquilo, Aida faltou três dias na escola, e eu não havia recebido nenhuma notícia, nem havia conseguido entrar em contato com ela. Passei esses dias todos melancólico e preocupado.

— Nero? – Uma amiga da sala chamou minha atenção.

— O que foi? – Perguntei, senti como se tivesse acabado de acordar, mesmo estando desperto o tempo todo. Minha amiga soltou um suspiro.

— Não sei o que há entre você e Aida, e nem o que há na vida dela, mas você está sofrendo demais por um problema que não é seu. – Ela me disse.

— O que quer dizer?

— Nero você não tem responsabilidade sobre aquela garota e nem sobre os problemas dela. Pare de ser assim, está te fazendo mal. – Soltei uma risada.

— Você não entende, nada. – Respondi, e nesse momento comecei a perceber que eu realmente, mesmo que aos poucos, estava começando a entender as coisas.

— De qualquer forma, nós vamos ir comer algo juntos depois que terminarmos de resolver as coisas do baile hoje. Vem também. – Ela disse. Ia recusar prontamente, mas Aida não havia ido a escola e nem me dado notícias, não faria mal sair e me distrair um pouco.

— Vou sim. – Respondi.

Faltavam apenas três dias até o baile, todos estavam animados e escolhendo roupas. Eu mesmo estava ansioso, ainda mais por ter ajudado a organizar e tudo mais.

Estava sentindo falta de Aida, muita, a sensação de estar com ela sempre me fazia bem, mas ainda assim era divertido estar com meus amigos, fazia algum tempo que não saía com eles e isso me fez bem. Estávamos em uma lanchonete perto da escola, era um grupo grande, umas 10 pessoas, fazíamos um barulho considerável no estabelecimento. Falávamos sobre nada, coisas banais, lembrávamos de momentos engraçados e enfim, nada de importante realmente.

Ficamos realmente até tarde juntos depois que saímos da lanchonete, ficamos andando pelo centro da cidade, apenas conversando mesmo, sempre gostei de fazer isso, é como se deixasse a vida muito mais simples.

No dia seguinte, como de costume, todos na sala conversavam e comentavam sobre o dia anterior. Minha sala era bem unida, isso sempre foi muito bom, me enfiei no meio da roda para conversar também.

— Ah, e vocês não sabem o que aconteceu. – Uma amiga minha dizia, contando para aqueles que não haviam ido com a gente. – Uma senhora parou o Nero para pedir uma informação, ele pensou um pouco e por fim disse para a senhora que não sabia onde ficava o estabelecimento que ela procurava. Assim que a senhora tomou distancia olhamos para o outro lado da rua e vimos que o estabelecimento que ela procurava estava na nossa cara! Ela olhou para Nero séria, achando que estávamos brincando com ela. – Todos começaram a rir de mim.

— Bem, eu realmente não sabia onde era, e todos vocês estavam comigo, são tão culpados quanto eu! E a senhora também, estava na cara dela também. – Me defendi e continuávamos rindo. Entre uma risada e outra avistei Aida entrando na sala e passando pelo nosso grupo, indo para a própria mesa. Surpreso levantei abruptamente e fui até ela, algumas pessoas me olharam sem entender nada. Saí do meio da roda e fui até Aida.

— Aida! – Chamei, minha voz soando mais preocupada do que eu imaginei. Cheguei até ela assim que ela se virou para mim.

— O que foi? Que desespero é esse? – Ela me perguntou rindo. Senti um alívio dentro de mim ao ouvir ela rir, mas logo depois senti um frio na barriga quando olhei melhor para o rosto dela, abaixo dos olhos estava vermelho e as olheiras mais profundas do que antes.

— O que... você está bem? – Perguntei.

— Estou sim. – Ela respondeu serenamente e desviou os olhos de mim, como se notasse que eu estava avaliando seu rosto. O sinal bateu e a aula começou, impedido que eu terminasse a conversa direito.

Se eu estava preocupado antes, agora eu estava quase louco. Algo havia acontecido e deixado ela pior do que antes, e me magoou de certa forma ela não ter me contado, dizendo que estava tudo bem e com um sorriso no rosto. Claramente não estava tudo bem. Assim que as aulas terminaram fui até ela novamente.

— Aida, você...

— Desculpe. – Ela me interrompeu. – Mas depois a gente conversa, preciso resolver umas coisas hoje então não vou poder ficar para terminar as coisas do baile. – Ela disse apressadamente e se foi, sem dar brecha para que eu pudesse impedi-la.

As coisas ficaram assim nesse dia e no seguinte, e isso começou a me matar por dentro. Sempre que podia ela evitava me deixar fazer qualquer tipo de pergunta mais pessoal, sorria, brincava comigo, qualquer um que olhasse por fora pensaria que estava tudo normal, mas eu sabia que não estava. Aida ainda agia como ela, mas ao mesmo tempo não.

— Você vai ao baile? – Perguntei naturalmente para ela.

— Não. – Ela disse sorrindo meio distante, eu já sabia a resposta, mas ainda assim queria ter certeza.

— Por que não vai? Ainda mais depois de todo o trabalho que fez.

— Não gosto desse tipo de coisa. – Ela respondeu rindo levemente. – Tem muitas pessoas e é tudo muito agitado.

— Hum... então acho que não vou também. – Eu disse e na hora ela parou o que estava fazendo.

— Vai sim. – Ela me disse séria. – Não vem de gracinha não.

— Por que você pode escolher não ir e eu não? – Perguntei levantando uma sobrancelha.

— Porque você quer ir, gosta desse tipo de coisa e se diverte com seus amigos.

— Mas você não vai estar aqui. – Eu disse e ela levantou uma sobrancelha para mim.

— Acredite, você sobrevive uma noite sem mim. – Ela disse e riu, depois voltou a ficar séria. – Me prometa que vai ir a esse baile. – Ela disse, encarei-a e soltei um suspiro.

— Prometo. – Respondi e ela pareceu satisfeita.

O clima estava normal entre nós, mas eu ainda estava incomodado com a mudança de seu rosto, Aida escondia algo de mim e eu estava com medo de forçar um pouco a barra para ela me contar, então apenas aguardei, se ela achasse apropriado uma hora me contaria.

Foi absurdamente cansativo a noite antes do baile, ficamos até tarde ajustando e deixando tudo no ponto. Havia conseguido com meu pai uma boa roupa formal, terno, gravata e esse tipo de coisa. Meus pais me fizeram prometer umas 10 vezes que não chegaria tarde, eles iriam sair e estavam com aquela preocupação de pais, achando que eu ia chegar tarde e etc. Estava empolgado e animado, não via a hora de chegar.

— Me apresente sua garota qualquer dia. – Disse me pai piscando para mim, soltei uma risada.

— Ela não virá hoje. – Respondi e saí do carro, sentindo um certo vazio ao lembrar que não veria Aida ali.

Era possível ouvir a música do baile de longe, estava tudo barulhento e a música alta tocava livremente. A luz estava bem escura e outras luzes coloridas piscavam, roxas, azuis, verdes, vermelhas e por aí vai. Havíamos feito um ótimo trabalho, certamente teríamos nossas notas recuperadas.

Andei um pouco meio sem rumo e avistei alguns amigos conversando e dançando em uma roda no meio do local. Todos estavam muito elegantes, nem pareciam os idiotas que estudavam comigo. Fui até eles e comecei a entrar na conversa, tomei um ou outro refrigerante e dancei algumas músicas. Fiquei surpreso ao ver um certo número de garotas me chamando para dançar, me chamando, ficava um pouco constrangido mas aceitava. Mas não era com elas que eu queria estar e nem dançar, e nesse momento percebi que estava bem mais do que apenas apaixonado por Aida, ela havia tomado conta completamente de mim.

Ainda assim, aproveitei o máximo que eu pude o baile, eu não dançava bem exatamente, gostava mais era de estar com os amigos mesmo e conversar. Mas tudo se apagou na minha mente com a frase que um amigo me disse quando chegou perto de mim.

— Brigou com a sua “amiga”. – Ele perguntou.

— Que amiga? – Perguntei meio confuso.

— Aida é claro. – Ele disse rindo, estranhei.

— Não, por que? – Perguntei.

— Bem, apenas achei estranho você não estar com ela aqui. – Ele disse.

— Ela não veio. – Respondi sorrindo, ele me olhou estranho.

— Claro que está. – Ele me disse como se eu fosse louco. – Na verdade, agora eu acho que não mais porque a vi indo em direção a saída, mas ela estava perambulando por aqui. – Ele disse e minha cabeça girou, não era possível Aida estar ali.

— Você deve ter confundido, ela me disse que não viria. – Eu disse e ele riu.

— Bem, então acho que ela te enrolou, com certeza eu não a confundi com ninguém, mas se você diz. – Ele deu de ombros e voltou a dançar.

Fiquei uns 10 minutos pensando na conversa que havia acabado de ter. Talvez, só talvez, Aida pudesse ter passado lá para ver o resultado de nosso trabalho. Senti algo dentro de mim me pinicar, como se meu corpo pedisse que eu fosse verificar, e foi isso que fiz. Saí correndo da festa e comecei a fazer o caminho para a casa de Aida, sem saber exatamente se era para lá que ela iria. Não vi nem sinal dela em parte alguma. Lembrei então que ela havia dito que não costumava ir para casa a noite por conta da mãe, então a primeira coisa que veio na minha cabeça foi a estação de trem, se ela quisesse distancia da cidade ela iria ir embora para alguma outra.

Corri até a estação o mais rápido que podia, eu tinha que achá-la antes que ela fosse embora. E eu não tinha nenhuma outra pista além do meu amigo que havia visto ela, ainda assim existia a possibilidade dele ter confundido.

Subi as escadas até a entrada da estação e meu coração parou por um segundo. Meu amigo não havia se enganado, Aida havia passado no baile, e eu não tinha visto ela. Ela estava ali, no topo da escada, encostada no vidro da janela olhando para a cidade, usava um delicado e bonito vestido rosa, um rosa bem clarinho, quase branco, fazendo contraste com seus cabelos negros e sua pele clara. Andei calmamente até ela.

— Aida? – Chamei baixinho, ela pareceu se assustar e olhou para mim.

— Nero... o que faz aqui? – Me perguntou confusa.

— O que você faz aqui? – Perguntei um pouco duro. – Disse que não iria ao baile e ainda assim me disseram que haviam te visto lá, e agora está aqui, aonde pretende ir? – Perguntei e ela abriu um fraco sorriso.

— Eu tentei ir ao baile, mas acho que realmente não combina muito comigo. – Ela disse ainda com aquele sorriso fraco e forçado. – Estava indo para lugar nenhum, apenas... me distraindo. – Soltei um suspiro, estava começando a me preocupar cada vez mais.

— Aida. – Eu disse ficando de frente para ela. – O que está acontecendo? – Perguntei e toquei levemente seu rosto, assim que fiz isso foi como se ela desmoronasse, seus olhos encheram de lágrimas e ela desatou a chorar, o corpo inteiro balançando. Abracei-a e fiquei ali, esperando que ela se acalmasse, demorou muito, muito. Depois de mais ou menos meia hora, ela se afastou um pouco de mim e olhou para o meu rosto.

— Minha mãe me deixou, Nero, ela foi embora, me deixou apenas a droga de um bilhete! – Ela disse, alternando a voz entre a raiva e a mágoa. – Eu desejei por muito tempo me livrar do fardo de ter que continuar a tomar conta dela, sempre sonhei com o dia em que pararia de ouvir seus xingamentos, e não precisaria ver seu olhar de desprezo. Mas por alguma razão doeu muito quando vi que ela havia ido embora e me deixado, sozinha. Fui rejeitada completamente por ela. – Aida dizia sem parar. – Não tenho mais ninguém, Nero. Estou com raiva dela, por tudo que me fez e depois ir embora assim, do nada, e triste por mais uma pessoa ter me deixado. Fui demitida do meu trabalho e tive que resolver muitas coisas, por isso faltei aqueles dias, e não queria te incomodar com esse tipo de coisa mais. Mas entrei em desespero um desses dias, precisava te ver, precisava ouvir sua voz, te abraçar, precisava de você, Nero. Então saí de casa e fui até a escola, talvez ainda te encontrasse por lá, mas passei em frente a uma lanchonete e te encontrei, rindo e se divertindo com seus amigos. Pensei então que eu não poderia te tirar essa vida maravilhosa empilhando em você todos os meus problemas. Tentei colocar uma barreira entre nós, mas não consegui, tudo em mim gritava por você, Nero. Tentei mais uma vez te alcançar e decidi que poderia tentar ir a esse baile, arrumei até um vestido. – Ela disse mostrando sua roupa. – Mas assim que cheguei lá vi um sorriso maravilhoso em seu rosto, dançava, ria e se divertida. Vi as garotas pedindo para dançar com você e desisti de vez. Eu não podia tirar essas coisas de você, essa tranquilidade, essa leveza da sua vida. Mas sou egoísta. – Ela disse, suas mãos tremiam apoiadas em meu peito.

— Aida... – Tentei dizer, mas ela me interrompeu.

— Não quero te perder, Nero. Por favor, por favor, não me deixe sozinha também. – Ela me disse olhando bem nos meus olhos, desesperada e completamente insegura, nunca havia visto ela assim. Nesse momento senti meus olhos arderem e as lágrimas começarem a aparecer.

— Não vou, Aida, nunca. – Respondi o mais convicto que conseguia e a abracei, tentando envolver cada pedacinho dela, tentando faze-la se sentir segura. Abracei-a forte e ela retribuiu. Me afastei um pouco para olha-la nos olhos.

— Eu te amo, Aida, profundamente. – Eu disse olhando diretamente nos olhos dela, seus olhos se arregalaram e mais lágrimas rolaram por seu rosto. Ela levantou seu corpo e me beijou, um beijo triste e de sofrimento, segurei-a pela cintura, nossos lábios se separaram e eu a abracei novamente. – Fique comigo esta noite. – Pedi, e ela assentiu com a cabeça em meu peito.

Segurei em sua mão e a guiei até minha casa, deixando-a o mais próximo de mim quanto podia. Tentando faze-la se sentir segura, tentando faze-la entender que eu estava ali, e dificilmente sairia. Ela ficou em silêncio e eu sentia sua fragilidade apenas segurando sua mão. Ela estava sofrendo mais uma vez, e dessa vez, eu tinha certeza que era o momento mais difícil da vida dela até ali.

Como não havia ninguém em casa estava tudo apagado. Não vi necessidade de acender todas as luzes então apenas segui até meu quarto, levando Aida comigo, ela segurava fortemente minha mão. Entramos em meu quarto, fracamente iluminado apenas pela luz da lua e pelas luzes da rua. Virei para Aida para ver seu rosto, estava vermelho e relativamente inchado, não ultrapassei nenhum limite, apenas abracei-a de novo, aconchegando-a em meu corpo, ela retribuiu fortemente o abraço, depois ela mesma se afastou e levantou seus pés afim de alcançar meu rosto, me beijou profundamente, levando suas mãos até meus cabelos presos.

Eu não tinha a intenção de pressiona-la a qualquer coisa, mas assim que ela me beijou coloquei minha mão em seu pescoço, trazendo-a para mais perto, nos beijávamos cheios de desejo. Aida começou a soltar a gravata em meu pescoço, depois começou a desabotoar minha camisa, até que eu estivesse sem ela. Ela parou por alguns segundos e ficou olhando para o que corpo, depois levou a mão suavemente até minha pela e tocou-a, meu corpo inteiro arrepiou, suas mãos desceram até o cinto de minha calça e o tiraram dali. Ergui Aida pegando-a no colo, suas pernas dando a volta em minha cintura, minha pele queimava de desejo por ela. Com a mão livre Aida empurrou a porta fechando-a. Ela me beijava, passando as mãos pelos meus cabelos compridos, apertava meus ombros e arranhava levemente minhas costas.

Caminhei com ela até minha cama e a deitei ali, deitando-me por cima dela. Assim que fiz isso Aida levantou de leve a cabeça e me puxou para perto, me beijando profundamente. Tomamos fôlego e comecei a beijar seu pescoço, traçando uma linha de beijos até sua clavícula, depois comecei a descer mais até chegar entre seus seios, assim que beijei-a ali seu corpo reagiu ao meu toque e se ergueu levemente. Nesse momento, com muito dificuldade, me detive um pouco e olhei para Aida.

— Aida... – Comecei a dizer para ela, mas novamente fui interrompido.

— Não para. – Ela me disse. – Por favor não para, eu preciso disso. – Ela concluiu. Eu não estava achando certo continuar com aquilo levando em conta o estado emocional dela no momento, talvez ela não estivesse raciocinando corretamente.

— Eu não acho que... – Ela novamente não me deixou terminar de falar, levantou seu corpo e me puxou, me beijando e ajeitou delicadamente suas pernas em meus quadris, fazendo um desejo ardente surgir dentro de mim novamente. Aida estava pedindo por mim, e dessa vez eu não conseguiria parar novamente.

Levei minhas mãos até suas costas, abrindo o zíper de seu vestido, Aida colaborou erguendo levemente suas costas. O vestido se alargou e eu retirei-o delicadamente do corpo dela, passando a alça dele pelos seus braços, sentindo levemente a maciez de sua pele. Aida era linda, simplesmente linda. Sorri para ela.

— Eu amo você. – Eu disse e recomecei a beijar seu pescoço, enquanto ela passava uma mão em meus cabelos e a outra em minhas costas. Nossos cabelos passaram a se misturar um no outro, assim como nós. Eu a enchi de beijos, tentando ao máximo faze-la sentir-se amada, desejada e segura. Coloquei minha mão em suas coxas ajeitando-a novamente para mim e Aida instintivamente se aconchegava ali.

Havia sido uma noite incrível para nós dois, satisfizemos um ao outro e depois caímos no sono, Aida usando meu braço como travesseiro e o corpo aconchegado no meu, meu outro braço a envolvia para mantê-la ali, comigo.

Por incrível que pareça eu acordei primeiro. Havíamos dormido bastante, pois já passava do meio dia, mas Aida continuava a dormir pesadamente em mim, seu rosto sereno e sua respiração tranquila, agarrada a mim. Pensei quanto tempo devia fazer que ela não tinha um sono tranquilo e pesado assim. Levei minha mão até seu rosto, acariciando-a devagar, retirei algumas mechas de cabelo que haviam caído em seu rosto e fiquei admirando ela. Eu simplesmente... amava Aida, e sorri ao me dar conta disso.

Depois de passada mais uma hora, Aida se remexeu, abrindo os olhos devagar, se acostumando com a luz do sol que entrava pela janela.

— Bom dia. – Eu disse sorrindo e lhe dando um beijo na testa.

— Bom dia. – Aida sorriu sonolenta.

— Dormiu bem? – Perguntei acariciando suas costas.

— Perfeitamente. – Ela sorriu e encolheu o corpo para mais perto de mim e eu a trouxe para mais perto com o braço.

— Está com fome? – Perguntei perto de sua orelha.

— Hum, talvez, mas não quero sair daqui tão cedo. – Ela respondeu.

— Eu também não. – Soltei uma risada e peguei uma das mãos de Aida, beijando-a delicadamente.

— Nero? – Ela chamou.

— Sim?

— Me desculpe por estar trazendo essas coisas desagradáveis para você, eu queria que fosse tudo mais leve e tranquilo. Eu sei que isso vai passar, porque tudo passa, assim como os momentos alegres passaram isso vai passar também, eu só... não aguentei esperar tudo se ajeitar dessa vez. Mas Nero, obrigada por me trazer luz e calor, obrigada por salvar meu coração e aquece-lo, de um modo que eu nunca pensei que poderia sentir novamente. – Ela disse se afastando um pouco de mim.

— Não tem razão para se desculpar. – Eu disse olhando para ela. – Não é incômodo algum para mim, contanto que eu possa estar com você, estou disposto a acolher tudo isso. É um prazer te amar, Ainda. – Ela abriu um sorriso fraco. Depois se aproximou de mim e me beijou levemente por alguns bons segundos, sentindo o calor de meu corpo, depois se afastou e ficou olhando para meu rosto, acariciando-o com uma mão.

— Eu te amo tanto. – Ela disse, o rosto com uma certa expressão de dor, e eu entendia o porquê.

Eu a trouxe novamente para perto de mim, abraçando o corpo dela e beijei Aida. Nesse momento eu soube, que ela havia realmente decidido confiar e se entregar a mim. Eu sabia que o que havia acontecido entre nós na noite anterior havia sido pura necessidade de contato de Aida, claro, havia nossos sentimentos envolvidos, mas até então havia acontecido porque Aida precisava daquilo, como ela mesma havia dito, e eu entendia isso, pois todos que ela havia conhecido haviam deixado ela sozinha, fosse por um motivo ou outro, certamente era difícil para ela se entregar a uma relação forte novamente. Mas ao ouvi-la dizer “eu te amo”, aí sim, eu tive a certeza de que finalmente ela havia se entregado a mim, como eu já havia me entregado a ela há tempos.

E eu definitivamente não iria decepciona-la, estaria ali sempre que ela precisasse e sempre que não precisasse também, quando ela estivesse mordida de ódio por mim eu ainda estaria ali, quando ela estivesse feliz eu estaria ali, quando chorasse eu estaria ali, quando meu rosto fosse a última coisa que ela quisesse ver, eu ainda estaria ali. Neste momento, eu era a única pessoa que Aida tinha, mas era apenas o começo, as coisas começariam a mudar e uma nova etapa de sua vida surgiria, e, claro, eu estaria ali para ver e ajuda-la. Como ela mesma havia dito, “eu sei que isso vai passar”, e iria mesmo, e seríamos pacientes até lá. E eu estava ansioso pelo dia em que Aida teria todas as suas noites de sono tranquilas, quando poderia praticar seus hobbies e ouvir suas músicas quando quisesse, pois teria tempo para isso, quando finalmente as olheiras em seu rosto sumiriam, deixando apenas aquele lindo brilho em seu olhar. Eu veria e estaria com ela quando tudo isso acontecesse. Aida era forte, e eu sabia que ela conseguiria.

Como eu disse no início, naquela época eu não sabia de nada. E ainda agora eu acho que não sei também, mas entendo o suficiente para fazer o que tenho que fazer e ajudar a quem eu amo. Essa é a história de como conheci a garota mais fantástica do mundo, que me conquistou tão rápido que nem ao menos tive tempo de acompanhar. A história de quando conheci a garota que me mudou e me ensinou tudo e mais um pouco. É uma história um pouco triste, mas como saberíamos aproveitar a felicidade sem infelizmente experimentar a tristeza antes? Aida sabia disso, sempre soube e nunca culpou nada e nem ninguém por suas dificuldades, não culpou a Deus, as energias do mundo, o universo, o destino, a vida e nem qualquer outra coisa que você ou eu acreditemos. Certas coisas simplesmente tinham e tem que acontecer, para aprendermos e evoluirmos. Aida sabia disso, por isso sempre foi muito melhor do que você ou eu, ou qualquer outra pessoa que eu tenha conhecido. Na verdade, tenho certeza de que quem foi mais ajudado havia sido eu, e não ela.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Tudo isso aconteceu por uma simples atitude minha de dizer um “bom dia”, em um dia como qualquer outro. Se eu esperasse um acontecimento “mágico”, talvez não estaria com Aida agora. Com isso aprendi que a vida trabalha de forma simples com algumas coisas, temos apenas que dar o primeiro passo e expandir nossa visão do mundo ao nosso redor.

Eu não sabia de nada, e Aida me ensinou tudo.

Notas finais
Então... me digam o que acharam, ok? kkk' espero que tenham gostado! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!