O detetive fora informado de que seu amigo vivera em um apartamento em Whitechapel. Ele continuara vivendo ali mesmo após a morte de sua mulher. O lugar aos poucos fora se tornando seu martírio, como uma forma de punição. Julian sempre evitara passar ali, e quanto mais andava pelo bairro mais se sentia mal.

Ao subir as escadas do apartamento, o detetive fora ficando cada vez mais angustiado e nervoso. O fato de não ter contato com ele há alguns anos significava a possibilidade de um novo modo de agir de seu amigo. Ele pode ter virado um alcoólatra, se afundado em drogas ou até mesmo ter perdido sua sanidade por completo e isso era o que ele mais temia que acontecesse.

Ele bate na porta quando o mesmo o atende. Christopher adquirira uma aparência bem mais velha, deixara seu cabelo crescer, não fazia a barba e enormes olheiras cobriam seu rosto. Ele não parecia sair de casa há bastante tempo.

— Christopher... Como vai? .

—O que queres aqui? . – Ele responde, com um olhar de indiferença.

Por um momento, ele não sabia o que dizer, o encarou por uns quatro segundos quando finalmente disse algo.

— Apenas conversar. Já faz um tempo que não nos falamos. – Ele diz. -Posso entrar? .

— Desde que seja breve.

Ao adentrar no local, seu amigo logo o oferecera um chá. Tudo ao redor parecera estar fora de ordem. Livros jogados pelo chão, roupas sujas, restos de comida e algums quadros, um deles o de Kirsty.

— Então, o que o trazes aqui? .

— Vim aqui para ver como estava e, por sinal aqui esta uma bagunça, meu caro. – Ele diz. _ Também vim oferecer-lhe uma proposta.

— Que tipo de proposta.

— Acredito que já saiba sobre Daisy, certo? .

—Sim, eu fora informado. Sinto muito por isso.

— Por qual motivo não fostes vê-la? .

— Não pude ir, estive ocupado.

— Você nem mesmo parece sair muito, a verdade é que não sei como tu ainda consegues viver aqui, enfim... Andam dizendo que podes ter sido ele a ter feito isto com ela, mesmo não acreditando muito.

— Certo, mas já não encontraram o criminoso? .

— Na verdade, sim e não. As impressões corporais batiam com as do indivíduo, porém o mesmo não aparenta sequer ter noção do que fez, ele fora encontrado por nós caído sobre o banheiro de sua casa, sem expressão alguma de vida. Chegamos a tentar falar com ele, que até vociferou algo, mas logo entrou em pânico e tivemos que sair. Neste momento ele ainda esta no hospital.

— Entendo. E oque queres que eu faça? .

Julian então se levantara da mesa e o entregara algo.

—Eu encontrei esta carta nas vestes de minha irmã, não falei com ninguém sobre ela e ainda nem sei do que se trata. Pela forma parece ser em latim, não? .

Christopher sempre fora um ótimo leitor e sua maestria em desvendar enigmas eram as melhores. Ele olhou para a carta e em seguida colocou sobre a mesa.

— Seu amigo não pode ajuda-lo? . Tenho certeza de que Stephen é um bom detetive. – Ele diz.

— É que não tenho certeza de quem mais esteja envolvido nisto, alguma coisa oculta e macabra aconteceu com Daisy. Tenho certeza de que sua morte fora apenas o bode expiatório e pra isso não vejo ninguém melhor além de ti para me ajudar. Entenda, és a única pessoa em quem confio agora.

Seu amigo o olhara com um tom de desaprovação.

— Lamento, mas não sou mais um detetive.

— Por favor, não estou pedindo para fazer isto por min. Aliás, nem precisamos trabalhar juntos, só peço que me auxilie em algumas coisas. A cidade já sofrera muito, na verdade, todos nós. E ela precisa da gente, juntos ou não, agora mais do que nunca. — Ele conclui.

Ele pensou em vociferar algo quando, num momento de fúria, Christopher jogara a xícara de chá ao longe, quebrando o objeto no mesmo instante em que se chocava sobre a parede, o que assustou Julian.

— Me responda, amigo. O que tu fizestes quando Kirsty fora terrivelmente assassinada?. Diga-me, onde esteve quando me jurou protegê-la? . – Ele diz, batendo sobre a mesa, ferozmente. _Chega, nós já falamos muito, você precisa ir.

Ele jamais se esquecera daquele dia, durante os anos isso fora o atormentando e o deixava cada vez mais obcecado em seu trabalho, o que impediu até mesmo seu casamento com a Srta. Catherine. Mas ele nunca contou a seu amigo.

— Certo. Já estou ciente de que jamais ira me perdoar, mas saiba que eu me sinto culpado a casa dia e hoje, eu só espero que fique bem, amigo. – Murmura Julian, prestes a sair do local.

Ele então pegara seu casaco e saíra rapidamente. Já estava a descer as escadas quando o mesmo lhe entregava a carta.

— Você esqueceu isto.

— Ah, sim.

— Esta carta possui um significado oculto. – Ele diz. _ Mas parece ser direcionada a ti, estão o desafiando. Eu recomendaria que desistisses disto, mas sei que não vai me ouvir.

— Você sabe que não posso.

— Certo. Então tenha cuidado.

— Foi bom vê-lo de novo.

Apesar do encontro não ter sido como queria, a suspeita sobre a carta logo se confirmou. E Julian, mais angústiado e determinado do que nunca, aceitaria o desafio.