London Love
25 Um dia para conversas estranhas
Notas iniciais
Ana não demorou muito para se acostumar com o clima e as pessoas como achei que demoraria. Na verdade, nos primeiros dois dias ela já sabia o caminho para a maior parte dos lugares perto de minha casa e por isso, costumava sair por conta própria enquanto eu estava nas gravações. Naquele mesmo dia, quando cheguei, não a encontrei em casa, apenas uma mensagem em meu celular avisando-me que ela fora comprar cadernos para a faculdade, os quais tinha se esquecido de comprar no Brasil.
Não achei que fosse um problema, então fui para meu quarto para reler o roteiro das próximas filmagens, mesmo estando exausta depois de um dia inteiro no estúdio gravando cenas longas e muito cansativas. Eu precisava de pelo menos dois dias para me recuperar, mas como se soubesse o que eu sentia no momento, ouvi meu celular tocando logo abaixo do cobertor bagunçado de minha cama.
– Ok, Tyler, o que você quer? – perguntei um pouco agressiva demais depois de ver seu nome no identificador de chamadas.
– Minha nossa, princesa do mal. – ele me dera aquele apelido por conta de meu personagem no filme. Não que eu realmente ligasse para apelidos e muito menos para Tyler. – Será que não vai ter um dia sequer que você não vai me tratar como um inimigo?
Eu ri alto.
– E quer que eu o trate como? – revidei. – Como um amiguinho? Tyler, se ligue, eu não vou trata-lo bem pelo simples motivo de nosso passado nada agradável. E eu não tenho obrigação nenhuma de gostar de você.
Ele ficou em silêncio por tempo demais, algo que começou a me preocupar. Ok, talvez eu estivesse mesmo sendo dura demais com ele, já que mesmo depois de sua declaração, ele vinha sendo até que amigável comigo. Nunca chegara perto demais, além daquele dia em seu apartamento e por isso eu deveria pelo menos tentar trata-lo de uma forma menos maldosa.
– Tudo bem, você não tem obrigação nenhuma mesmo. – disse ele quase que num tom decepcionado. – Olha, acredite, eu não perderia meu tempo ligando para você se não fosse algo importante. Meu empresário me ligou e disse que nós dois saímos em uma capa de uma revista de fofoca e estão ligando você aos meus erros...
– Espera... – murmurei. – Sobre as drogas?
– É. – ouvi um suspiro do outro lado da linha. – Preciso falar com você pessoalmente, mas sobre isso ok? Não quero a mídia envolvendo você nas coisas erradas que eu faço, até porque sua vida já deve ser uma loucura por causa dessa banda inútil que você gosta.
– Tyler.
– Ok, me desculpe. – ele riu. – Mas estou falando sério sobre não querer que a mídia a envolva nisso. Eu sou o problemático e não você. Por isso quero tentar resolver as coisas, mas ainda não sei como.
Ele parecia tão... tão sincero. Fazia muito tempo desde que eu ouvira alguma sinceridade vinda de Tyler, muito menos uma quase bondade como aquela. Ele parecia mesmo disposto a resolver esse problema com a mídia, tanto que nem tive tempo de me preocupar com as criticas negativas sobre mim. Porém, mesmo depois daquelas palavras eu deveria mesmo confiar nele? Afinal, aquele ainda era o mesmo Tyler que praticamente acabara com uma parte de minha vida no Brasil.
– Tyler, você também deveria tentar sair da mídia um pouco. – murmurei rabiscando nas linhas do roteiro colocado em minha frente. – Sabe, sair toda hora com essas garotas e ficar bêbado o tempo todo não o ajuda em nada. Eu sei que Jason não pode tirá-lo do filme, mas continuar fazendo isso só vai prejudicar sua carreira no futuro.
– Sei disso, mas eu nunca serei bom, sabe? – ele riu sem graça. – Nunca tentei e nem fui uma pessoa boa e endireitada, então por que ser agora? Meus pais diriam que sou um caso perdido e... de certo modo, concordo com eles. Mas não vou leva-la para esse caminho, eu vou dar um jeito na mídia, você vai ver.
– Tudo bem. – suspirei. – Acho que... obrigada, então.
– Não há de quê. – disse. – Só assim você vai confiar em mim.
[...]
Ana chegou um tempo depois daquela ligação um pouco estranha. Ela estava sorridente enquanto colocava as sacolas sobre minha escrivaninha e sentava-se de forma largada sobre a cadeira sem se importar muito com meu olhar curioso sobre ela tentando entender o porquê daquilo tudo.
– Eu deveria perguntar? – eu disse, mas ela ainda não se virara em minha direção.
– Na verdade, deveria. Mas você é uma péssima amiga, então eu entendo. – ela riu. – Se quer mesmo saber, você terá que adivinhar, porque estou malvada hoje.
Arqueei as sobrancelhas.
– Certo, vou tentar. – fiquei algum tempo pensando no que a poderia fazer ficar tão feliz a ponto de sorrir daquela forma. – Recebeu alguma coisa sobre a faculdade?
Ana negou ainda sorrindo.
– Encontrou algum britânico bonito na rua?
Negação novamente.
– Ok, isso está difícil. – e então, um nome me veio a mente e não pude segurar o sorriso largo. – Isso tem algo a ver com Zack?
Obviamente Ana praticamente explodiu de tanta felicidade apenas de ouvir o nome dele e claro, eu comecei a gargalhar instantaneamente ao vê-la afundar o rosto nos joelhos dobrados sobre a cadeira e murmurar alguma coisa como “Cale a boca” (não que isso fosse acontecer). Eu já deveria ter percebido isso, estava tão claro desde que ambos se viram pela primeira vez no carro quando ela chegara em Londres – a troca de sorrisos, os olhares, as piadas como se eles se conhecessem há tempos... tudo já indicava uma coisa que eu deveria ter percebido.
Mas então, o rosto de Heiley me veio a mente e tratei de ficar séria.
– Eu não quero estragar a sua alegria... – resmunguei vendo-a ficar séria novamente. – Você sabe que ele tem namorada, certo?
Ana deu de ombros.
– Sei da modelo da Victoria’s secret! Não precisa me lembrar disso, ok? Agora vamos mudar de assunto, porque isso estragou totalmente minha alegria. – ela encarou o chão por alguns instantes. – Mas ele me ligou hoje quando eu estava na loja. Disse que o tio deles ainda tem aquela fazenda e aceitaria nos deixar passar um final de semana por lá.
Franzi o cenho.
– Por que Noah não me ligou avisando? Estou me sentindo abandonada.
Ela riu daquilo apesar de ser trágico para alguém que o considerava um quase melhor amigo. Porém, não conversamos muito mais sobre isso depois que ela começou a folhear seus cadernos novos e a escrever alguma coisa que não pude ver. Já eu, deveria estar com minha atenção redobrada sobre o roteiro, entretanto tudo que se passava em minha mente era a estranha conversa com Tyler sobre meu envolvimento pela mídia com seu uso de drogas. Eu ainda não conseguia me acostumar com a ideia de que Tyler estava “doente”, afinal drogas eram coisas sérias, muito mais sérias do que apenas agir como um bad boy. Ele não conseguiria nada fazendo aquilo, mesmo que eu soubesse de suas intenções de querer chamar minha atenção.
Ok, Tyler parecia gostar de mim depois de sua declaração fora do normal em seu apartamento, porém eu não poderia levar isso em consideração, pois tinha Henri e bom, Henri não era exatamente uma pessoa não ciumenta. O que ele faria se soubesse sobre Tyler? No dia em que me viu com ele, Henri já pareceu incomodado o suficiente para quase começar uma briga, então se soubesse que Tyler era meu ex namorado e ainda por cima, um ator que fazia meu par romântico no filme... com certeza isso não daria certo.
Terminei de reler o roteiro e resolvi me sentar na sacada de meu quarto já de noite. Aquela noite sem estrelas por conta do tempo chuvoso de Londres lembrou-me do último dia que eu e Henri passamos juntos – a forma com que ele dissera um eu te amo, o beijo mais sincero de minha vida... tudo nele era perfeito, não apenas como agia, mas cada pequeno detalhe. E ali, sentada com um céu escuro estendido acima de mim, eu soube de uma coisa que ninguém jamais poderia me fazer mudar de ideia.
Eu amava Henri Price.
– Scarlet?
Tom estava parado no vão da porta de minha sacada, ainda usava roupas sociais de seu trabalho e possuía uma expressão um pouco cansada. Por um instante, vê-lo me lembrou de nossa última briga sobre Henri e seu maldito moletom que eu usava, o mesmo dia que convenci Tom que eu e Price éramos apenas amigos.
Ou pelo menos tentei.
– Eu sei que você deve estar um pouco... ahn, irritada comigo. – murmurou ele caminhando lentamente até a cadeira onde eu estava sentada. – Mas eu quero me desculpar. Fui muito duro com você aquele dia. Sei que você e os garotos são amigos e eu realmente prefiro que faça amizade com eles do que com pessoas erradas...
– Está tudo bem, pai. – eu disse de forma sincera vendo que Tom suspirava de forma aliviada. – Eu não estou brava com você.
Ele sorriu brandamente, mostrando o quanto parecia mais tranquilo ao ouvir isso.
– Fico contente que não esteja. – e riu. – Sabe, Will me disse sobre os planos de vocês para o próximo final de semana. Acho uma boa ideia passarem um tempo longe da cidade e dos fotógrafos, principalmente das filmagens.
– Você viu o que falaram sobre eu e Tyler, não é? – murmurei.
– É. – disse Tom. – Mas eu conheço minha própria filha pelo menos o bastante para saber que ela não está envolvida com drogas. Porém, esse Tyler é mais do que um péssimo amigo para você ter, Scarlet. Quero dizer, não estou a impedindo de vê-lo, mas...
– Pai, eu não sou amiga de Tyler. – interrompi. – Eu só trabalho com ele, nada mais além disso. Pode ficar tranquilo quanto ao filme e essa viagem com os garotos para o interior da Inglaterra.
Tom parecia quase que sem graça com toda aquela conversa. Na verdade, ele sempre ficara daquela forma quando se tratava de conversas sobre garotos e principalmente quando Henri estava envolvido.
– Eu sei que sou muito chato em relação à sua segurança e com quem está envolvida, mas quero que saiba que só faço isso, porque é uma forma de me redimir pelo o que fiz com sua infância. – ele suspirou. – Você é minha única filha e quero que se proteja e...
– PAI! – exclamei não conseguindo controlar meu rosto corado. – Essa conversa é um pouco constrangedora demais, ok? Digamos que minha avó já me avisou sobre tudo e eu sei muito bem!
Tom mais uma vez pareceu aliviado.
– É, eu também não saberia bem como lidar com essa situação. – ele riu acompanhado por mim. – Fico feliz que saiba então.
E com isso, Tom saiu dali.
Despenquei o restante de meu corpo sobre a cadeira não conseguindo controlar os pensamentos constantes sobre aquele dia mais do que maluco. Eram informações demais para absorver e conversas estranhas demais para uma pessoa só! Afinal, o que diabos estava acontecendo naquele dia? Todos resolveram tratar de assuntos constrangedores e malucos comigo de uma vez só?
Tudo o que me faltava agora era Henri ou algum dos meninos me ligarem para tirar dúvidas sexuais!
Ok, isso seria um pouco demais.
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