London Love
41 Mas o que diabos está acontecendo aqui?
Notas iniciais
Naquela manhã, o clima deveria ter ficado ainda mais congelando do que na noite anterior despencando talvez alguns graus. Eu e Ana estávamos dividindo um cobertor gigante com estampa de flores no sofá da casa de Tom deixando apenas nossas cabeças à mostra para quem passasse por ali. Sempre gostei muito daquele clima, principalmente porque o achava mais aconchegante do que o calor extremo do Brasil, porém naquele dia parecia mais que havíamos nos mudado para o Alasca.
Por baixo do cobertor, eu me deliciava com um chocolate quente que aprendi a fazer com Henri meses atrás tomando cuidado para não atingir o cobertor e não meus lábios. Ana recusara o chocolate quente, pois de acordo com ela “qualquer coisa feita por um ex dá azar”. Bom, não dá para discutir com isso.
Eu nem sequer havia contado para ela sobre a noite anterior e o que acontecera além da briga entre Henri e Tyler. Ela não sabia que eu e Henri... ahn, como eu poderia dizer? Estávamos quase agindo como amigos coloridos, mesmo que isso parecesse a coisa mais imbecil do mundo. Mas, n]ao havia bem um motivo para o fato de eu não ter contado a ela, talvez fosse porque nem ao menos eu sabia bem o que acontecera. Bom, nós conversamos sobre minha suspeita sobre Tyler, os motivos e isso tudo acabou com um beijo com direito à cair de costas no sofá. É, provavelmente a ideia sobre amizade colorida se aplica mais a essa situação do que “nos odiamos, mas a conversa acabou em um beijo”.
– Tem certeza que vocês não querem que eu ligue o aquecedor? – Tom estava nos encarando ao pé da escada com um olhar brincalhão e como se ele segurasse o riso. Eu não o culpava, a imagem de mim e Ana dividindo um cobertor com apenas metade da cabeça para fora deveria ser engraçada. – Vocês parecem um iglu. Mas um iglu com estampa de flores.
– Não, eu prefiro congelar até a morte. – eu disse com a voz abafada pelo cobertor entrando na brincadeira dele. – Pode ligar, pai. Quem sabe assim o calor derrete seu coração de gelo.
Ok, eu estava sendo babaca. Mas vejam pelo meu lado! Depois de tudo o que acontecera e Tom me fizera mentir para Henri, eu conseguira adquirir um coração de gelo muito parecido com o dele e fui obrigada a tratar a pessoa que eu amava como um lixo. Isso deveria ser crime! Tudo bem que eu e Henri parecíamos estar prestes a voltar, porém isso não mudava o fato de que Tom ainda não gostava tanto de Henri e ele provavelmente se meteria no meio de novo caso eu e ele admitíssemos estarmos namorando. Seria uma bagunça ainda maior, então eu preferia ser uma babaca dentro de minha própria casa e fazê-lo entender o que me fizera passar.
E claro, Anabelle não fugia de nenhuma das opções acima.
A coitada estava sofrendo em minhas mãos desde a primeira vez que nos vimos no tapete vermelho da premiação. Anabelle parecia uma ótima pessoa e até mesmo simpática, porém havia chegado na pior hora possível. Estávamos com uma tremenda crise em casa e talvez Tom namorar justo agora não era lá uma boa ideia. Mesmo que ela não fosse culpada de nada, eu a estava tratando sempre com um ar sarcástico e ignorando-a em alguns momentos.
Exceto por Ana. Minha amiga preferia se render à lasanha “maravilhosíssima” de Anabelle.
Talvez seja porque ambas são quase xarás.
– Scar, já conversamos sobre isso. – Tom soltou um longo suspiro. Ele desceu os últimos degraus da escada e caminhou rapidamente até onde eu e minha amiga estávamos parecendo um grande iglu estampado de flores. Sua mão direita pousou sobre meu ombro e eu juro que, por um pequeno momento, eu quase mudei de ideia sobre tudo. – Eu sei que não aprova o que eu acho e... tudo bem, talvez você esteja certa. Mas, por favor, não trate Anabelle desse jeito também. Ela não tem nada a ver com essa história. Se você quer atingir alguém, que me atinja então.
Ele não obteve resposta minha nenhuma por mais que me encarasse por minutos esperando por alguma reação minha. Mas claro, eu não daria esse gostinho a ele por nada nesse mundo. Provavelmente, agir daquela forma não era a mais recomendada para discussões entre pais e filhos, porém, em minha cabeça não havia outra forma. Eu queria ser má com eles. Queria que ele entendesse o que havia me feito passar e nada mais perfeito do que ser uma megera de coração de gelo assim como ele fora.
– Ok, entendi. – novamente ele suspirou. Sua expressão parecia exausta e apenas agora de mais de perto eu podia notar as olheiras tornando-se fundas abaixo dos olhos dele. – Eu vou para a gravadora e talvez só volte tarde. Temos muito o que resolver hoje. Então... Anabelle vai ficar aqui, está bem? Nos vemos a noite, filha. Tchau, Ana.
Ana murmurou um “Tchau, Sr. White” baixo enquanto eu tentava não surtar pelo fato de Anabelle estar na minha casa. Por um momento, eu tentei assumir a imagem de pessoa sem coração que transbordava ódio como o a de minha personagem no filme de Jason, porém Valentina não possuía nada parecido comigo. De forma curiosa, eu não conseguia nem ao menos tentar ser parecida com ela naquele momento, como se algo estivesse bloqueando aquela ação.
Ah, claro, deveria ser meu coração que apenas sabe transbordar sangue, bondade e compaixão. Maravilha, White, tantas horas para ser boa e você escolhe justo agora!
– Você deveria ouvir ele. – murmurou Ana de forma hesitante como se estivesse com medo de minha resposta. – Sabe, Tom até que tem razão.
– Sobre o que, Ana?! – dessa vez, eu soara um pouco mais irritada do que pretendia. – Sobre ter me feito mentir para Henri daquela forma? Ou talvez sobre não em deixar quem eu sou de verdade?! Onde que Tom tem razão nisso tudo?
Surpreendendo-me de uma tal maneira, Ana simplesmente jogou parte do cobertor sobre mim fazendo com que uma montanha macia e de estampa de flores fosse formada acima de minha cabeça. Por sorte, eu havia deixado o chocolate quente sobre a mesinha de centro e apenas por isso não havia um líquido quente espalhado pelo sofá,.
– Você poderia muito bem não ter mentido! — esbravejou ela de forma furiosa. – Pare de tentar se fazer de vítima, Scarlet, está ficando ridículo! A própria Jordan já disse que você fica fazendo uma baita tempestade num copo d’água por absolutamente nada! Se amasse tanto Henri Price como diz, teria lutado por ele e brigado com seu pai sobre querer ficar com aquele cantor e não ter mentido e fugido como uma criança assustada! Droga, garota, deixou aquele pedaço de mal caminho escapar e acha que tem todo o direito de agir como se não tivesse coração! Então, pelo amor de Deus, para com essa palhaçada!
Não sei por quanto tempo fiquei encarando Ana. Eu estava descabelada e com quilos de um cobertor branco de estampa florida sobre a cabeça, porém meu único pensamento era que... Ana tinha razão. Eu estava me fazendo de vítima por mais que isso fosse difícil de admitir e deveria ter lutado por Henri como uma pessoa normal e apaixonada faria. Porém, eu preferia me esconder. Eu preferi fugir da luta e me esconder atrás da máscara de vítima e causar toda a bagunça que havia causado.
Eu deixei Henri escapar por entre meus dedos. Se ele fosse qualquer outro cara, teria me deixado para trás e seguido em frente, mas aquele era Henri e... ele sempre deixara claro o quanto me amava apesar de todos os obstáculos e de todos os problemas . Henri me amava e lutou por mim e eu, a idiota morrendo de medo, simplesmente não fizera nada.
– Agora você me entendeu, loira? – Ana tinha uma sobrancelha arqueada. – É sério, está na hora de parar de se fazer de vítima. Vocês dois se amam e não deveria ser seu pai quem vai impedi-la de continuar com esse sentimento. Droga, Scarlet, nunca viu Romeu e Julieta?
Sem arrumar outra forma de agir, acabei gargalhando com aquela frase, tanto que a própria também começara a rir com a expressão de quem conseguira ganhar uma longa discussão.
– Ai, Ana, você faz uma assunto sério parecer piada. – eu disse ainda rindo. – Mas eu... entendi. Você tem razão, Barbie, está na hora de mudar as coisas por aqui.
Ela fez um sinal com as mãos para o alto como se agradecesse para seja lá o que fosse, movimento que me fez gargalhar por uma segunda vez.
– Finalmente você me entendeu! – ela jogou o cobertor de estampa de flores para o lado revelando a calça de moletom num tom de rosa claro e a blusa cinza de mangas compridas com um pequeno bordado no centro... uma ovelha? – Olha, vamos arrumar aqui. Os garotos devem chegar em uma hora.
– Ana, por que diabos você está usando uma blusa com um bordado de ovelha?
A garota morena me encarou de cenho franzido por alguns instantes antes de abaixar os olhos na direção do bordado que fazia com que a ovelha tivesse olhos arregalados e um sorrisinho estranho. Em sua calça de moletom cinza, pelo o que pude notar, também possuía uma ou outra ovelha, como se fosse um conjunto.
– Eu gosto de ovelhas, qual o problema?! – ela deu de ombros e apontou para minha camiseta. Bom, digamos que eu me esquecera da blusa que usava, na qual possuía filas pequenas de uma estampa de dinossauros verdes sorridentes. – Disse a garota que usa uma blusa de dinossauros. – e revirou os olhos. – Você não presta.
Antes que eu pudesse sequer me defender, Ana levantou-se do sofá e correu escada acima pisando duro tentando mostrar que estava com raiva de mim. Porém, minha atenção se voltou para um pequeno detalhe que eu não ousaria comentar com ela nem quando tivéssemos 90 anos cada uma.
Havia outra ovelha sorridente.
Só nas costas.
Mais devidamente, sobre a bunda de Ana.
[...]
A sala de Tom estava uma verdadeira bagunça. E, bom, não era para menos. Eu estava sentada no tapete em frente a mesa de centro com Noah e Will ao meu lado, enquanto o loiro usava meu braço direito como apoio e o moreno também se encostava na lateral de meu corpo, porém eu estava mais apoiada nele. Já Ana, Heiley e Jordan dividiam uma das partes do sofá que ficava de costas para a escada e conversavam sobre alguma banda que eu não conhecia. Enquanto isso, Henri e Zack estavam na parte do sofá que ficava atrás de mim, Noah e Will, fazendo com que eu ficasse encostada meio que propositalmente nas pernas de meu ex.
Havia canecas de chocolate quente para todos os lados, incluindo almofadas e alguns cobertores que tive que arranjar já que mesmo dentro de casa o clima parecia muito frio. Era reconfortante ter todos eles em um único lugar, principalmente porque estávamos apenas nós na sala, enquanto Anabelle se escondia em algum ponto do andar de cima e a Sra. Godwing discutia com o jardineiro.
Conforme eu prestava atenção ao filme que passava na televisão e sentia Noah se revirar ainda usando meu braço como travesseiro, lembrei-me do que aconteceu assim que chegaram.
– Scar, ainda bem que você atendeu! – exclamou Noah assim que abri a porta da casa. Os garotos, Heiley e Jordan conversavam animadamente ao lado dele quase nem ao menos notando minha presença. – Fiquei com medo que fosse a sua governanta assustadora!
– Ahn... Noah, é que...
– Não, sério! Ela me dá muito medo! – ele gargalhadas altas enquanto todos atrás dele já haviam notado que isso acabaria mal. De longe, eu pude ver Henri coçando a nuca e piscando para mim apesar de estar constrangido por Noah. – Imagina acordar do meio da noite e dar de cara com ela e...
Antes que Noah pudesse sequer continuar, a porta atrás de mim fora aberta inteiramente e a Sra. Godwing surgiu com uma carranca que poderia continuar por ali para sempre. Claro, isso foi motivo de piada por horas até que eles enfim entraram e nos acomodamos.
Eu tive que rir com essa lembrança, tanto que isso chamou a atenção de Will, quem se virara na minha direção como se tivesse um enorme ponto de interrogação em sua testa.
– O que foi, capetinha? – perguntou ele apoiando um dos cotovelos na perna de Henri.
– Desde quando meu apelido é “capetinha”?
– Desde que eu acabei de inventar. – ele deu língua. – Então, me diga. Você ficou muito quieta de repente e pelo o que notei, Noah é o único quase dormindo.
Mesmo que estivesse rindo de meu mais novo apelido, dei de ombros para a pergunta. Eu estava ocupada demais lembrando das palhaçadas dos garotos que por pouco não acabara me esquecendo do porquê de estarmos todos reunidos na casa de Tom. Ainda hoje precisávamos juntar todas as pistas que possuímos para descobrir quem ajudara Tyler a incriminar a banda se queríamos ter qualquer chance de salvar a banda.
E bom, não tínhamos muitas opções.
– Ahn, Scar? – havia ficado um silêncio constrangedor na sala, ainda mais porque o filme chegara em uma cena que os personagens conversavam de maneira baixa. Fora Zack quem perguntou e por isso tive que levantar a cabeça para olhá-lo e como consequência, ficar na mesma direção que o rosto de Henri. – Aquele tal de Tyler... por que ele iria querer ferrar a banda se nem conhecemos ele?
A pergunta fez com que o silêncio apenas aumentasse, principalmente porque era o tipo de pergunta que aguçava a curiosidade de todos ali na sala. Nem mesmo eu sabia bem qual era a resposta, tínhamos apenas suposições do que poderia ter sido um motivo para Tyler querer acabar com a The Blue de repente de uma forma tão complicada.
Lembrei da noite anterior depois da briga quando minhas suposições começaram a se formar em minha mente com a ajuda de Henri. Por que diabos ele iria querer correr um risco tão grande fazendo tratos com pessoas da segurança e parte financeira da gravadora? As consequências para alguém como ele seriam muito piores do que as dos garotos, afinal, ele perderia a carreira de vez já que ninguém iria querer contratar um ator que fez algo assim e ele iria ser preso provavelmente. Apenas um louco se complicaria dessa forma por ciúme ou ódio.
E, bom, Tyler era bem louco.
– Na época da escola, eu e Tyler éramos namorados. – logo em que eu disse isso, Zack, Will, Jordan e Heiley arregalaram os olhos. Já Ana, Henri e Noah, os quais sabiam desse fato, permaneceram do mesmo jeito olhando-me com certa curiosidade. – E... ele tentou voltar comigo depois que entrou para o cast do filme. Mas eu estava com...
– Comigo. – a voz de Henri fora apenas um murmúrio, porém todos ali ouviram já que se viraram na direção dele ao mesmo tempo. – Scar namorava comigo quando ele tentou alguma coisa. É por isso que ele tem esse ódio doentio pela banda... fora que ontem a noite nós brigamos feio.
Meio que se surpresa, Will se levantou de repente ao mesmo tempo que os gêmeos também arregalaram os olhos fitando-o de maneira assustada e irritada.
– O QUE?! – disse Will um pouco alto demais. – VOCÊ BRIGOU COM ELE? Eu sabia que tinha alguma coisa errada! Esse roxo ai no olho não apareceu de repente, não é, margarida?
– Cara, se tivesse algum paparazzi por lá... – murmurou Noah.
– Estaríamos ferrados de vez! – berrou Zack claramente irritado. – A banda ia de vez para o lixo se tivesse algum fotógrafo por lá, Price! O que você estava pensando?!
– Eu sei que foi errado, ok?! – defendeu-se Henri erguendo os braços em frente ao peito em sinal de rendição. Will o fuzilava com os olhos enquanto permanecia de pé com os braços cruzados. – Mas vocês teriam que estar lá para entender o porquê de eu ter feito isso. Aquele cara... ele é completamente louco. Se soubessem as coisas que ele me disse! – Henri dirigiu seu olhar na minha direção ainda no chão e logo após, fechou os olhos como se sentisse algum tipo de dor. – Vocês não entenderiam porque eu parti para cima dele. Ele atacou a Scarlet! Eu precisava fazer isso.
Como se as palavras de Henri tivessem um efeito inesperado, eles ficaram novamente em um silêncio que consumiu a sala, fazendo com que só o som da televisão fosse o que poderíamos escutar.
Will ainda estava de pé em frente ao sofá de braços cruzados e encarando a Henri com os olhos semicerrados. Ele parecia pensar em alguma coisa ou talvez avaliar cada palavra de seu colega de banda como se estivesse com a impressão que havia alguma mentira por ali.
Mas não havia. Ele me defendera como talvez ninguém faria, principalmente por causa da fúria de Tyler e o quão perigoso ele poderia parecer.
– Tyler é bem capaz de fazer isso com o dinheiro... – foi Ana quem murmurou. Ela dividia o sofá com Jordan e Heiley, quem a fitaram de forma surpresa ao ouvir isso. – Eu não duvido. Mas não estamos aqui para discutir sobre a briga entre o Henri e ele e sim, sobre quem poderia ter ajudado Blackwell e deu as informações que ele precisava.
Os gêmeos assentiram ao mesmo tempo quase como se tivessem ensaiado esse movimento e foram acompanhados pelo resto dos garotos e Heiley. Jordan fitava cada um de nós de forma pensativa, levando a eu pensar que talvez ela estivesse avaliando as coisas que aconteceram mentalmente.
– Ok, mas quem seria idiota o suficiente para ajudar o cara sabendo as consequências caso eles fossem descobertos? – Noah arqueou uma sobrancelha. – A pessoa devia ser... sei lá, muito próxima dele para aceitar ajudar sabendo que poderiam ser presos e tal.
Henri franziu o cenho.
– Deve ser alguém próximo dele então. Alguém conhecido tanto da área financeira quanto da área de segurança.
– Tyler é meio bad boy, não é, Scar? – perguntou Jordan e continuou assim que assenti. – Pelo o que eu conheço desse tipo de garoto, bad boys geralmente são meio “mulherengos”, não?
– FOI UMA GAROTA!! – berrou Will chamando a atenção de todos para ele, quem deu de ombros e riu como se tudo não se passasse de uma piada. – Acreditem, disso eu entendo. Claro que um rabo de saia deve ter ajudado ele a conseguir o que queria! Aposto que ela também conseguiu alguma coisa, claro...
– Ergh, Will! – Heiley jogou uma almofada no garoto de pé, quem tombou para trás e caiu sobre o sofá ao lado de Henri. – Nós entendemos, ok? Só pode ter sido uma garota que o ajudou. Duas, no caso.
Como reflexo, eu olhei para os garotos da The Blue esperando que eles, pelo menos, fizessem uma suposição sobre quem poderia ser a garota, já que viviam na gravadora quase todos dias e poderiam ter uma ideia. Porém, em resposta Noah assentiu de forma negativa em minha direção e soltou um longo suspiro decepcionado logo em seguida.
– Isso não ajuda muito. Milhares de mulheres trabalham na gravadora. – ele deu de ombros. – Não dá para sair perguntando para todas elas se conhecem um tal de Tyler Blackwell.
– Tire da lista as com mais de 40 anos, gênio. – Will revirou os olhos. – O cara não vai se interessar por mulheres dessa idade.
– A maioria delas são estagiárias e boa parte tem menos de 30 anos, gênio. – ironizou Henri batendo com força na parte de trás da cabeça do amigo. – Continuamos no mesmo lugar. Olhem, eu sinceramente acho que precisamos chamar a ajuda de alguém.
– Mas quem, Price?! – manifestou-se Heiley de forma indignada. – A polícia não está muito interessada no caso de vocês, caso não se lembra disso. Não viram a reportagem sobre isso que passou na televisão ontem? Aquele policial que explicou tudo para vocês na gravadora estava dizendo que o “caso de desvio de dinheiro da The Blue” não é importante por enquanto, porque vocês são famosos e eles têm coisas mais importantes para resolver! Ninguém vai ajudar agora.
Frustrados por terem percebido que o que Heiley dissera era verdade, nós ficamos em silêncio por algum tempo encarando um ao outro como se procurássemos por respostas obvias. Ela tinha razão, porque nem ao menos os policiais nos ajudariam e sozinhos não conseguiríamos chegar a lugar nenhum. Era um grande e confuso labirinto sem saída para tanto a banda quanto eu, a madrinha.
O que uma madrinha de banda faria em um momento como aquele? Ficar em silêncio e deixa-los se virarem não era uma opção e muito menos tentar ajudar também. Assim como eles, eu estava em um grande beco sem saída, mas tudo o que eu poderia fazer agora era apoia-los em tudo sem deixar que a mídia e até mesmo fãs do contra pudessem acabar com o resto de auto estima que a The Blue possuía – não que Will fosse deixar que os garotos sequer pensassem dessa forma – e isso significava que eu teria que ser a madrinha que jamais fui.
– Ual, não sabia que estávamos esperando visita!
Rapidamente, todos nós olhamos de maneira curiosa e surpresa na direção da escadaria da casa em forma de meia lua, onde uma mulher usando um roupão cor de vinho e cabelo preso em um coque bagunçado nos encarava de volta da mesma forma. Apenas assim lembrei-me de que Anabelle estava na casa, pois ela não fizera um mínimo som desde que Tom fora para a gravadora e isso fez com que eu me esquecesse dela. Olhando de longe, Anabelle parecia mais bonita reparando melhor do que na primeira vez que nos encontramos – os cabelos loiros num tom parecido com o meu estavam presos de forma descontraída no formato de um coque baixo fazendo com que seu rosto em formato de coração parecesse um tanto mais jovem do que era. Ela tinha uma sequência de rugas em torno dos olhos enquanto sorria para nós e exibia fileiras e dentes brancos e bonitos. Ela realmente parecia uma agente importante e conhecida apesar de usar um roupão e estar sem nenhum rastro de maquiagem sequer.
Mas além dos pensamentos sobre a aparência de Anabelle, havia um único pensamento rondando minha mente e alertando-me do perigo que a presença dela representava.
Henri estava ali.
– Anabelle! Eu tinha me esquecido que você estava aqui! – exclamei antes de mandar Noah calar a boca por murmurar algo como “agora nos ferramos”. – Não é nada que você está pensando, somos todos amigos e...
– Tia Anabelle? – confusa, virei-me na direção do garoto de pé. Henri encarava a namorada de Tom com uma expressão um tanto surpresa e confusa, no entanto não era bem isso que me chamara a atenção na pergunta. Por que diabos Henri estava chamando ela de “tia Anabelle”? – É... é você?
Deixando todos ainda mais boquiabertos, ela esboçou um sorriso largo e meio tímido em direção a Henri.
–Vejam só se não é Henri Price. – disse ela de forma carinhosa. Exatamente... como uma tia faria. – Você cresceu muito, menino!
– Eu não sabia que... – Henri coçou a nuca de forma nervosa enquanto tentava ignorar os olhares de todos sobre ele, os quais tinham a mesma pergunta em mente: o que diabos está acontecendo aqui?. – Quando Scar disse Anabelle Fitzpatrick achei que fosse uma coincidência ou outra pessoa! Então... você é a namorada de Tom White?
Anabelle deu de ombros e ergueu os braços como um pedido por um abraço e claro, deixando-me ainda mais confusa do que já estava, Henri seguiu lentamente na direção dela antes de ela o receber em seus braços. Alternei meu olhar entre aquela cena e Will, quem estava bem ao meu lado com a mão direita sobre os lábios indicando que ele não estava entendendo absolutamente nada. Vendo que eu o observava, Will deu de ombros como se dissesse “nem me pergunte!”.
– Bom, podemos dizer que sim. – ela sorriu de forma envergonhada. – Mas acho que seus amigos não estão entendendo. – agora, um risinho nervoso escapou dos lábios dela. – Principalmente você, não é, Scarlet?
Para que eles entendessem, assenti rapidamente arrancando risos de Anabelle e Henri, quem coçou a nuca de novo e deu de ombros para mim.
– Ahn... eu queria muito saber como se conhecem. – mandei como única forma de não perguntar o que diabos estava acontecendo.
– É uma história cheia de coincidências, pelo visto. Scar, eu morava também em Bradford. Na verdade, nasci naquela cidade. – ela passou um dos braços ao redor dos ombros de Henri. – Conheço os pais dele desde antes dele nascer e fui madrinha de casamento do casal alguns vários anos atrás. Sempre gostei muito de Joseph e Megan... são pessoas muito honestas e carinhosas, sabe? Como eu era vizinha da família Price e... bom, meu marido havia falecido anos antes de Henri nascer, eles me escolheram para ser também a madrinha do filho do casal. – seus olhos fitaram o rosto de Henri de forma carinhosa. – Eu vi esse menino crescer... pelo menos até o dia em que eles formaram a banda e Henri saiu de Bradford.
– Então você é madrinha de Henri?
– Sim. – Anabelle assentiu. – Madrinha de casamento de seus pais e dele.
Logo que ela terminara de dizer isso, eu ouvi a gargalhada de Noah e Will, os quais tentavam reprimi-la com as mãos apesar de suas tentativas terem sido em vão. Mas o pior de tudo era que eu não podia culpa-los por acharem graça daquilo tudo, afinal, o mundo havia dado uma volta gigantesca e eu e Henri estávamos ainda mais entrelaçados do que nunca. A namorada de Tom era madrinha de Henri, o garoto que meu pai deixara bem claro que não gostava e muito menos aprovava nós dois juntos.
Bom, parece que as coisas mudaram.
[...]
Por mais que a mais nova notícia fora totalmente de surpresa e algo que eu jamais fosse esperar, Anabelle acabou por se juntar ao nosso grupo e por consequência, descobriu tudo o que estava acontecendo com a banda. Os gêmeos explicaram detalhe por detalhe, incluindo nossas suspeitas sobre Tyler Blackwell e quem poderia tê-lo ajudado para conseguir desviar aquela enorme quantia de dinheiro. Claro, assim que ouviu os motivos da denuncia, ela não pôde esconder sua surpresa assim como todos que ouviam. Afinal, os garotos da The Blue não tinham cara de ladrões e não pareciam ser o tipo de pessoa que faria uma coisa dessas. Quem desconfiaria dos gêmeos? Eles mal fariam qualquer tipo de mau para uma mosca! E Will? Tudo bem que ele se metera em alguns problemas relacionados à garotas e tal, mas ele jamais roubaria dinheiro. E Henri? Henri não desviaria dinheiro que iria para caridade, nem ao menos se estivesse sob ameaça! Os garotos não fariam isso e eu tinha certeza.
E ao que parecia, Anabelle também.
– Garotos, acho que sei bem o que vocês precisam para descobrir quem são as outras pessoas e como juntar as provas. – disse ela encarando ao próprio celular de forma pensativa. – Acho que precisam de um detetive particular.
Quase como reflexo, Will escondeu o rosto sobre uma almofada.
– Isso é karma! – exclamou ele com a voz abafada pelo tecido da almofada. – Só porque eu disse que não adiantaria brincar de detetive. Agora só falta você dizer que o nome do cara é Sherlock Holmes.
Anabelle encarou Will por alguns instantes antes de revirar os olhos de forma brincalhona e procurar pelo nome do sujeito em sua lista telefônica.
– Bem, William, o nome dele definitivamente não é Sherlock Holmes. – ela riu baixinho de sua própria brincadeira. – Oliver é um ótimo detetive particular. Ele já ajudou muitas bandas que precisaram desse tipo de serviço e acho que é o mais recomendável para vocês, garotos. Eu posso passar o telefone dele para vocês. Tenho certeza que será uma ótima ajuda.
A conversa não durou muito além disso já que começava a ficar tarde e Tom poderia chegar a qualquer momento. A sala estava uma tremenda bagunça com cobertores para todos os lados e algumas canecas ainda com o chocolate quente que eu fizera (que por acaso não sobrou nada) que todos deixaram para trás quando a conversa tomou um rumo diferente. Agora, tínhamos uma chance de encontrar as provas necessárias e principalmente descobrir quem eram as pessoas que ajudaram Tyler. A sensação era de ter encontrado a tão procurada saída do labirinto e poder respirar de novo, afinal, eles tinham uma chance.
E aquilo poderia significar que a The Blue não acabaria assim tão fácil.
– Você não contou para ninguém, não é? – todos estavam entrando em seus devidos carros em frente a casa de Tom. Heiley e Jordan seguiram juntas antes de buzinar no sentido de tchau e os garotos dividiam um único carro e por isso, Henri ficara para trás esperando os gêmeos terminarem uma briga. Ele havia sussurrado em meu ouvido tentando disfarçar o suficiente. – Sobre nós?
Virei-me em sua direção e com um sorriso, assenti de forma negativa.
– Ninguém sabe.
– Talvez seja melhor assim. – ele esboçou um sorriso antes de tirar alguns fios rebeldes de meu cabelo que caiam sobre meu rosto e coloca-los atrás de minha orelha direita. – Sobre aquela história da Tia Anabelle...
– Está tudo bem. – murmurei. – Ainda quero que você me explique isso direito, mas acho que pode ajudar. Sabe, dar um empurrãozinho no nosso segredo.
– Você pode ter razão.
Dando uma olhada rápida na direção dos garotos para ter certeza de que nenhum deles estava vendo, Henri aproximou-se de mim e puxou-me para seus braços. Os lábios dele foram rápidos sobre os meus em um movimento sincronizado e levemente tranquilo antes de ele se afastar e depositar um beijo em minha testa.
Eu sentia falta daquilo, sentia falta de tê-lo ao meu lado e agindo daquela forma carinhosa como se não tivesse medo dos julgamentos e muito menos do que o mundo diria. Talvez, o medo dele sobre a opinião dos fãs e principalmente da de Tom tivesse desaparecido durante o tempo que passamos separados quase odiando um ao outro. Ele havia me odiado apesar de não dizer e enquanto isso, eu estava ocupada demais odiando a meu pai e a mim mesma por não ter sido forte o suficiente para ter lutado por ele. Ás vezes, quando minha mente voltava a pensamentos como esse, eu realmente achava que não merecia Henri em minha vida. Talvez ele merecesse alguém que jamais o deixaria da forma em que deixei.
E ninguém saberia o quanto isso me doía no peito.
Tão rápido quanto ele se aproximara, Henri se afastou murmurando um tchau baixo e quase como se ele estivesse lutando para sair. E fora no momento certo, pois logo depois Noah colocou sua cabeça loira para fora da janela do banco do passageiro para falar comigo gritando.
– Vamos ligar para o Sherlock Holmes amanhã de manhã, Scar! De noite eu ligo para você e Ana para avisar o que vamos fazer e... WILL, TIRA A MÃO DO MEU CD DO ELVIS PRESLEY OU EU JURO QUE CORTO SEUS DEDOS!
E com isso, o carro dos gêmeos desapareceu entre a entrada da casa e a rua coberta pela neve branca e macia.
Sentindo como se um pedaço meu havia sido levado com eles, demorei um pouco para enfim decidir entrar em casa. O clima estava congelante do lado de fora, mas meu rosto ainda corado por conta do beijo de Henri me mantinha aquecida e com um maldito sorriso alegre nos lábios.
No entanto, o mesmo sorriu desapareceu assim que me virei na direção da porta da casa.
– Scarlet. — Anabelle estava encostada entre o vão da porta de entrada e sua expressão era séria. Ai droga, há quanto tempo ela está ai? – Será que podemos conversar por um momento?
Fale com o autor