London Love
23 Maldito seja o filme Titanic
Notas iniciais
Para minha sorte – e a de Jason claro – Tyler apareceu no estúdio no outro dia para as filmagens que tivemos que pular por conta de sua falta inesperada. Ele parecia mais tranquilo do que como o vi da última vez, pois seu rosto parecia mais descansado e principalmente a forma de agir havia mudado um pouco. Bom, pelo menos quando estávamos em público, porque assim que chegou ele entrara em meu camarim para me lançar mais do que uma indireta.
– Quantos beijos será que Dominic e Valentina darão nas cenas de hoje? – sussurrou ele em meu ouvido logo depois que quase o espanquei por entrar em meu camarim.
Eu estava sentada de costas para a porta e de frente para um grande espelho centrado, onde geralmente fazíamos a maquiagem de minha personagem.
– Não tente evitar, minha querida Valentina. – continuou ele a sussurrar quase que incorporando seu personagem ali mesmo. – Sei que está caída de amores por mim. A única coisa que me impede de beijá-la agora é a você mesma...
– Tyler, saia daqui. – mandei virando-me em sua direção. Ele tinha um sorriso vitorioso no rosto ao pensar que minha reação negativa pudesse dizer algo mais. – Se quer agir como Dominic, faça isso na frente das câmeras.
O sorriso vitorioso ainda estava em seus lábios, então ele apenas deu de ombros, piscou e se dirigiu para a porta finalmente me deixando sozinha em meu camarim.
Na verdade, aquela nem fora a pior parte do dia. Durante as filmagens, eu consegui estragar totalmente minha imagem de atriz perfeita para o diretor Jason McNight quando afastei Tyler durante uma cena de beijo entre Dominic e Valentina. Por mais que eu realmente quisesse ter feito isso, deveria ter me impedido de empurrá-lo para longe, pois esse meu simples ato atrapalhou uma cena inteira, algo que prejudicou a filmagem. Mas, Jason se irritou apenas um pouco, pois logo mandou que as filmagens continuassem e que nós dois fossemos atores exemplares.
Claro, como se isso realmente fosse fácil.
Entretanto, a parte boa daquele dia chegou mais rápido do que pensei. As filmagens terminaram um pouco tarde, mas isso não impediu que Henri insistisse muito para vir me buscar no estúdio para que passássemos o restante do dia juntos. Só de pensar em finalmente vê-lo depois do que aconteceu com meu pai, eu já conseguia sentir o alívio e algumas horas de tranquilidade.
– Olhe só, parece que seu táxi chegou. – disse Tyler dando-me um belo de um susto quando eu estava do lado de fora do estúdio esperando por Henri. – Qual dos integrantes daquela banda que faz tudo o que você pede? Hum... talvez um dos gêmeos, certo?
Tentei evita-lo enquanto seguia para a Range Rover estacionada do outro lado da calçada, porém Tyler vinha logo atrás de mim não ligando para o fato de que eu não o respondia. Por um segundo, pensei em brigar com ele e manda-lo para longe, mas isso não adiantaria já que Tyler conseguia ignorar meus impulsos nervosos e lavar isso na brincadeira.
Todo meu esquema de ignorá-lo foi para os ares assim que vi Henri abrindo a janela do carro para sorrir em minha direção – exceto pela hora em que o sorriso desapareceu ao ver Tyler logo atrás de mim.
– Ah... então é o famoso Henri Price. – Tyler riu sarcasticamente. – Quem diria, achei que você preferisse atores, Scarlet.
Isso fora a gota da água para que eu me virasse na direção de Tyler segurando-me para não encher seu rosto perfeito de tapas. Vendo minha expressão nada alegre, o maldito mais uma vez sorriu.
– Será que pode me deixar em paz, droga?! – esbravejei. – Se disser qualquer coisa sobre Henri, eu juro que...
– Ah, então você tem algo com aquele cara.
Droga. Mil vezes droga.
– Não, ele...
– Não tente negar, Scarlet. Você acabou de admitir que tem algo com aquele cantou. – Tyler sorriu se aproximando mais de mim de uma forma ameaçadora. – Então é por isso que não consegue admitir que está apaixonada por mim tanto quanto eu estou por você? É claro que é. Você está caidinha de amores por mim, mas aquele cara ali naquele carro é o que a impede, certo?
A aproximação ameaçadora de Tyler me impediu de dizer qualquer coisa que fosse, apenas desviei meu olhar tentando controlar minhas palavras e qualquer coisa que fosse que pudesse me entregar ainda mais.
– Esqueça essa ilusão de que eu estou apaixonada por você, Tyler. – murmurei no mesmo tom que ele. – Acredite, ilusões demais podem afetar o cérebro.
O deixei ali completamente boquiaberto enquanto seguia em direção ao carro de Henri, quem apenas nos observava com um olhar um tanto preocupado e desconfiado.
– Quem era ele? – perguntou Henri assim que fechei a porta.
– Ninguém. – suspirei. – Ok, ele é um dos atores. Um idiota, na verdade, mas não precisa se preocupar com ele.
– Tem certeza?
Por um segundo, tive a vontade de responder exatamente o que estava em minha mente.
– Tenho. – menti. – Vamos logo para sua casa.
[...]
Não que eu quisesse realmente assistir a um filme de ação, mas algo daquele gênero me pareceu a melhor opção depois de tanto drama em minha vida em tão poucos dias. Quero dizer, eu bem que merecia um tempo de tranquilidade para tentar colocar não só minha cabeça em ordem, mas também toda minha vida, e isso incluía Henri e os meninos, meu pai e claro, minha carreira que parecia crescer a cada momento.
Por esses e mais alguns motivos, eu precisa mesmo ver um filme de ação cheio de pancadaria que pudesse manter minha mente ocupada sem que os pensamentos irritantes me incomodassem. Mas, como obra de um destino cruel e irônico, Henri acabou alugando nada menos que Titanic.
Pois é, o destino me ama, entendem?
– Aquele dia na sua casa, você me disse que seu filme preferido era Titanic, ai achei que seria legal. – disse Henri parecendo sem graça por eu ter feito cara feia ao ouvir o nome do filme.
– Não, está tudo bem. – resmunguei. – Eu gosto do filme, é só que... sabe, eu vou chorar no final.
Minha desculpa mais do que esfarrapada pareceu fazer um efeito positivo nele, tanto que Henri riu e me puxou para perto dele assim que caímos sobre sua cama – onde por mais um ironia, veríamos o filme. Depois de alguns minutos abraçados daquele jeito, finalmente nos ajeitamos para começar a ver o dramático filme sobre Rose e Jack.
Bom, eu pelo menos tentei. Por longos momentos, fiquei ali o encarando enquanto Henri via ao filme e parecia se divertir com o começo quando Rose e Jack cospem para fora do navio numa brincadeira. O sorriso dele fez com que um também surgisse em meus lábios, algo que não acontecera muitas vezes nos últimos dias.
Mas pensar sobre isso fez com que todos os acontecimentos voltassem a me perseguir e claro, a sensação de estar sendo enforcada praticamente voltou como uma bomba. Não arranjei em quem colocar a culpa apenas no maldito filme Titanic, que causou aquela sensação.
– O que foi? – a voz de Henri me acordou de meus devaneios trazendo-me de volta à realidade. – Você ficou estranha de repente.
– Não é nada. – resmunguei. – É só que...
– É aquele cara que vi hoje, não é? O que ele fez? Scar, se ele colocou um só dedo em você... – Henri pareceu irritado, levantou-se um pouco como quem esperava bater em outra pessoa. Tive que o impedir trazendo-o de volta para mim antes que ele realmente fizesse o que pensava.
– Não é ele. – menti. – Henri, eu só estou cansada. Por favor, só vamos... ficar calmos e assistir ao filme.
Sem dizer nada mais, ele voltou a se aconchegar ao meu lado não conseguindo esconder seu alívio por eu pedir que ficássemos quietos ali e juntos. Senti que ele voltou colocar um braço ao redor de meu ombro permitindo que eu me aconchegasse seu lado.
Depois disso, achei que nos outros minutos de filme ficaríamos em silêncio apenas assistindo, mas depois que as cenas se tornaram mais paradas como o normal, eu acabei me distraindo ouvindo-o falar como seu dia havia sido bom.
– Na entrevista, achei que fosse colocar tudo a perder. – murmurou. – Sorte que Noah pensou mais depressa que eu.
Estávamos sentados muito próximos um ao outro, eu com a cabeça sobre seu ombro e Henri segurando nossas mãos entrelaçadas sobre seu colo. A sensação de estar daquela forma com ele fez com que eu quisesse ficar ali para sempre ao lado dele, saboreando o tempo tranquilo com Henri. Era incrível o quanto seu toque conseguia me manter calma e até mesmo o som de sua voz me mantinha quase que inerte em pensamentos tranquilos.
Eu poderia ficar assim para sempre se não tivesse que responde-lo.
– Isso não importa, Henri. O que importa é que eles só têm rumores sobre nós e nada concreto e por enquanto, isso é melhor do que alguma prova que possa nos separar. – disse. – E não pense que não ouvi sobre “a garota especial”.
Ele sorriu.
– Aposto que gostou, não é?
Vendo meu sorriso, Henri fez algo que eu não esperava que fora um beijo em meu rosto, o qual desceu para o pescoço e logo subiu novamente até meus lábios. O beijo de Henri já era algo conhecido por mim, mas agora sabendo que nenhum Will entraria de repente pela porta ou qualquer coisa que atrapalhasse, eu pude realmente desfrutar daquele beijo como nunca antes. Senti-lo se aproximando como se o tivesse feito milhões de vezes antes e não conseguir respirar quando seus braços se enrolaram ao meu redor puxando-me ainda mais para ele.
Henri sabia meu ponto fraco – parar por longos segundos enquanto apenas encostava os lábios sobre a pele de meu pescoço quase que me testando. Vendo que fiquei irritada por ele demorar demais, ele voltou a me beijar e juro que fiquei sem fôlego. Dessa vez o beijo fora mais forte, tanto que minha única reação fora enrolar meus dedos nos fios de seu cabelo preto e o puxar para mim.
Agora, o beijo parecia diferente de todos os outros, como se ele estivesse realmente diferente e soubesse o que fazer. Eu o senti quando me puxou para baixo e cobriu meu corpo com o seu e seus braços voltaram a me prender contra a cama. Minhas mãos corriam por suas costas, ávidas quase como se tivessem vontade própria e a camiseta que ele usava estivesse as impedindo de finalmente sentir sua pele. Eu estava fora do controle e jurava que ele também estava, pelo menos até o momento que seus lábios voltaram para meu pescoço e me deixaram ainda mais descontrolada.
Porém, em meio a tudo aquilo uma série de imagens surgiram em minha mente – a briga com Tom por causa do moletom de Henri, Tyler dizendo estar apaixonado por mim, o ódio que as fãs sentiriam. O choque de realidade me acordou para tudo em volta, algo que me impediu de continuar. Ao perceber que eu estava parada, Henri parou no mesmo instante.
– O que foi? – murmurou ele ainda com os braços ao meu redor. – Eu fiz alguma coisa errada?
Ele se sentou ao meu lado permitindo que eu também ficasse sentada sobre a cama ainda de forma estranha não conseguindo olhar para ele.
– É que... não acho que agora seria certo. – falei quase que num sussurro. – Eu... só acho que está tudo indo rápido demais.
Só depois de dizer isso consegui o olhar nos olhos – Henri estava sentado bem ao meu lado, uma de suas mãos segurando a minha e os olhos voltados para baixo como alguém decepcionado, mas ao mesmo tempo nervoso.
– Tudo bem, Scar. – disse ele com as mãos sobre meu rosto. – Eu não...
– Eu sei que estou estragando tudo. – interrompi. Por um momento achei que as lágrimas tentariam escapar de meu rosto, porém as impedi piscando algumas vezes e escondendo meu rosto com minhas mãos.
– Não, não está, Scar. – murmurou ele colocando um de seus braços ao meu redor. – Você está exagerando! Quero dizer, eu não me importo com o tempo que demore, só quero que seja tão perfeito para você quanto será para mim. Scar, eu... eu estou completamente apaixonado por você e... isso não é o suficiente, eu amo você.
Suas palavras me fizeram esquecer por um mero segundo todos os pensamentos sobre o que acontecia em minha vida, afinal, ouvi-lo dizendo aquilo significava que eu era tão especial para ele quanto eu mesma achava. E bom, considerando meu último relacionamento, aquelas palavras poderiam me fazer esquecer a traição.
– Você... o que?
– Eu amo você, Scarlet White e nem mesmo a pior desgraça será capaz de me separar de você.
E logo, ele me beijou deixando-me completamente sem ar.
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