London Love
1 Ideias de Jes e Ana
Notas iniciais
Respirei fundo jogando a água gelada de encontro com meu rosto vendo minha pele pálida no reflexo do espelho. O pesadelo havia sido o mais real que eu já tivera em toda minha vida, mostrou exatamente o que eu sentira quando os vi brigando pela primeira vez – suas expressões irritadíssimas, ela apontando a dedo indicador no rosto dele, e ele, quase jogando as coisas sobre a mesa ao chão. Naquele dia eu estava debaixo da mesa, tentando fingir não estar vendo e fugindo de minha babá querendo me colocar na cama e tentar me impedir de chorar.
Não havia como, era a terceira briga no mesmo dia.
Sequei meu rosto e penteei meus cabelos extremamente lisos, característica que herdei dela, minha mãe. Os dois se separaram quando eu tinha dez anos, e nenhum deles quis ficar comigo. Exatamente o que você leu, nem minha mãe e nem meu pai quiseram ficar comigo, os dois simplesmente não se decidiram, pois sabiam que brigariam novamente.
Eu nasci na Inglaterra, vivi por lá até o dia em que se separaram. Meus avós decidiram que eu moraria com eles, porém, no Brasil e desde então vivo nessa país do outro lado do oceano, bem longe daqueles dois. Acho que era melhor assim, aqui eu poderia estudar em boas escolas, aprender línguas novas e finalmente perceber meu verdadeiro e único talento: atuar. Eu havia feitos algumas aulas de teatro e pude perceber minha paixão por filmes e todo tipo de trabalho em televisão e telas de cinema. Isso me fazia viajar, esquecer tudo que aconteceu e finalmente sorrir como nunca.
– Querida, está tudo bem? – ouvi a voz de minha avó do outro lado da porta do banheiro. Tentei controlar minha respiração ofegante e tentar parecer bem.
– Estou bem, vó. – não soou convincente, mas foi o bastante para que ela saísse de trás da porta e fosse até meu avô no andar de baixo.
Voltei a encarar meu rosto no espelho e senti uma pontada no peito – eu era muito parecida com os dois. Droga, por que? Qual o sentido de eu ser tão parecida com duas pessoas que me negaram por odiarem um ao outro? Finalmente me senti melhor e deixei o banheiro, pegando uma jaqueta e descendo as escadas até o andar onde havia a cozinha.
– Vai sair, Scarlet? – perguntou meu avô assustando-me, eu não havia o visto. Ele estava sentado em sua poltrona com os gentis olhos azuis escondidos por trás de uma das folhas de jornal.
– Vou! Jes me chamou para assistir alguns filmes na casa dela. – murmurei pegando um pedaço do bolo que minha avó havia acabado de fazer. Hum, estava ótimo. – Acho que é aquele que lançou algumas semanas atrás, e Ana vai estar lá.
– Não tem nenhum garoto envolvido, certo? – ele levantou uma sobrancelha parecendo desconfiado, mas por seu sorriso percebi a brincadeira.
– Não. – sorri de volta. – Pode-se dizer “tarde das garotas”.
Ele riu de minha piada muito ruim enquanto eu deixava a casa ainda me sentindo um pouco estranha, principalmente pelo sonho e que teria que contar às meninas o que acontecera. Ana e Jes eram minhas duas únicas amigas no Brasil, elas me ensinaram português melhor do que até mesmo meus avós. Mas, ainda brincavam muito pelo fato de meu sotaque ainda existir e eu ser completamente diferente das garotas brasileiras.
Enquanto boa parte possuía pele morena clara ou escura, cabelos escuros e pouquíssimas vezes claros, eu era totalmente o contrário. Meus olhos eram claros, cabelos loiros num tom quase branco e minha pele, bom, digamos que era um dos motivos de piada, pois se não fosse pelo cabelo no tom de loiro, eu poderia muito bem ser uma Branca de neve. Minha pele era mais branca do que a das demais pessoas, fazendo com que minhas veias ficassem em evidência, sem contar as quase invisíveis sardas que se espalhavam por meu nariz e bochechas.
A casa de Jes era apenas cinco quarteirões longe da minha, então em quinze minutos eu estava em frente da casa de dois andares cercada por portões muito altos. Morei por muito pouco tempo na Inglaterra, porém lembrava-me muito bem que por lá as casas não possuíam portões caso não fossem de condomínios e pelo Brasil, já era diferente. Ver uma casa sem um muro alto e um portão de bônus era quase impossível. Ana e Jes estavam no jardim sentadas em uma mesa branca à beira da piscina rindo de alguma coisa e apontando para o irmão de Jes – Luís era sorridente, meio bobo as vezes e dono de uma beleza que nenhuma garota era capaz de resistir. Assim como a irmã, ele tinha cabelos castanhos ondulados, bochechas rosadas e olhos de órbitas negras. A única diferença entre os quase gêmeos era que Luís era pelo menos 20 centímetros mais alto que sua irmã.
– Meninas! – chamei quando consegui entrar pelo portão aberto. – Deixem o garoto em paz. Vocês são muito chatas com ele.
Logo sentei-me em uma das cadeiras vazias ao lado das duas recebendo um olhar curioso de ambas. No mesmo instante em que disse isso, irmão de Jes colocou sua atenção em mim, mas ela não pareceu gostar muito da piadinha, principalmente Ana, quem me deu um tapa dolorido no braço.
– Ninguém está fofocando sobre ele, Scar! – berrou Ana alto o suficiente para que ele ouvisse, o que o fez rir. – Por que demorou? Temos que conversar com você!
Jes puxou-me pelos braços apara que eu ficasse mais perto delas, apesar de estar bem ao lado. Eu juro que isso é muito estranho, as duas nunca teriam assuntos sérios a tratar comigo, ainda mais porque algumas coisas que elas falam eu não entendo. Mas, lá estavam elas sem nem perceber as enormes olheiras logo abaixo de meus olhos e meu rosto pálido pela falta de sono e os pesadelos sobre meus pais. Eu omitiria o assunto por algum tempo, pelo menos até as duas me contarem o que estava acontecendo e o que poderia ser tão sério a ponto de me chamarem até a casa de Jes.
– Ok, isso é muito sério. – disse Jes não conseguindo esconder um sorriso. – Mas pode se acalmar, Srta. inglesa, ninguém assassinou ninguém. – isso arrancou risos de mim e Ana. – É sobre seu futuro.
Um enorme ponto de interrogação se formou em minha cabeça. Futuro? O que as duas estavam tramando, e o que meu futuro tinha a ver com isso?
As duas perceberam minha expressão preocupada e começaram a rir.
– Scarlet, como sabe, nós somos suas grandes amigas e infelizmente as únicas. – torci os lábios ouvindo isso. – Mas odeio falar nesse assunto. É o seguinte, o pai de Jes é amigo do dono de um dos estúdios mais famosos em Londres, por isso ele está sempre viajando e tal.
– Então... – continuou Jes sorrindo loucamente. – eu sei tudo sobre o seu sonho em atuar, ainda mais porque você está sempre participando dos teatros da escola. Eu conversei com meu pai hoje de manhã...
Senti meu coração quase pular para fora do peito. Jes é completamente louca! Como ela pôde sair contando ao pai sobre meu sonho? Isso não é justo, eu deveria ir atrás de meus sonhos, eu deveria ir atrás de qualquer teste, mesmo que aqui não há tantos quanto no exterior.
– ... e Jason McNight quer que você vá a Londres e faça o teste para o mais novo filme dele. – antes que eu pudesse ter qualquer reação, ela continuou. – Ele pediu algumas fotos suas e é claro, eu mandei com toda a permissão de seus avós. Scar, ele já acha que você tem o rosto perfeito! Não tem erro! Você precisa ir!
Eu estava completamente sem reação, encarava as duas como se elas pudessem continuar e não pudessem ver minha falta do que dizer. Afinal, o que eu deveria dizer? Obrigada? Claro, eu precisava agradecer, mas... estava em choque.
Jes e Ana são anjos, tenho certeza disso agora.
– Meu Deus, meninas. – resmunguei. – Vocês são completamente loucas! Eu... eu não sei o que dizer, isso é muito... louco!
As duas começaram com uma sessão de risos histéricos e depois, saíram pulando das cadeiras para cima de mim. Resultado: nós três caímos com tudo na piscina dos pais de Jes, com o irmão dela tendo uma crise de risos com a cena constrangedora que as duas me forçaram.
– Você vai para Londres! – berrou Jes. – Me agradeça depois quando você chegar lá e procurar pelo meu futuro marido, entendeu?!
– Ah, e é bom sempre me ligar, sua hollywoodiana, porque eu quero saber de tudo que está acontecendo por lá!
Ok, alguém mais quer se jogar em cima de mim e me dizer que vou para Londres?
[...]
A viajem seria em dois dias, coisa exclusiva de Ana, quem disse que eu teria que ir logo se fosse querer o papel no filme. Meus avós ficaram receosos por pelo menos dois dias, sem me ajudarem muito na hora de arrumar as malas ou sobre dizer se eu estava preparada para voltar. Droga, eu estava apavorada. Voltaria para onde nasci e o pior de tudo, é que eu não ficaria em um hotel ou compraria um apartamento. Meus avós já haviam ligado para Londres e eu, bom, ficaria com meu pai.
Meu pai. O mesmo que estava nos meus pesadelos. Aquele que me rejeitou, assim como minha mãe.
Isso só pode ser um pesadelo.
Terminei de guardar meus sapatos em uma mala reserva e fiquei longos minutos encarando o quarto. Meus avós, mesmo passando por dificuldades, faziam de tudo para que minha vida fosse o mais normal possível, sempre me deram o que eu precisava, cuidaram de mim até meus 18 anos. E agora, estariam distantes de mim novamente.
Do outro lado do oceano.
– Sabe, quando você chegou aqui, costumava pegar seu bichinho de pelúcia dos “Monstros S.A.” e o abraçava por muito tempo. – a voz de minha avó parada a porta fez-me virar até ela. – Você dizia “vó, papai e mamãe brigaram muito. Vou ficar com vocês?”. Impressionante como você já entendia tudo naquela época.
Um meio sorriso escapou de meus lábios.
– Entendia o que aconteceria comigo, mas com eles... bom, isso é diferente. – murmurei vendo-a se sentar ao meu lado na cama. – Vó... a senhora acha que vou conseguir vê-lo de novo?
Minha avó tinha cabelos grisalhos até a altura dos ombros, olhos gentis e mãos muito macias. Ela sabia sempre como me acalmar, dizer que tudo ficaria bem. Entretanto, naquele instante, percebi como ela não sabia o que me dizer.
– Vai, eu sei que seu sonho é bem maior do que a dor do passado, Scarlet. Você é uma garota forte e resistente, sei que vai chegar naquela cidade e enfrentar todos os obstáculos. – ela pegou minha mão e a pousou em seu colo. – Você só tem 18 anos e sei o quão adulta é. O medo está presente em todos, mas alguns tem o poder de afastá-lo, assim como você.
Senti uma lágrima pesada deixar meus olhos e atingir meu colo.
– Vou sentir sua falta, vó. – murmurei antes de abraça-la. – Você e meu avô vão fazer tanta falta.
Agora, eu já chorava como um bebê sendo ninado pela mãe, sendo afagada por minha avó, percebi o quanto eles eram importantes em minha vida. Para mim, eles eram meus pais de verdade e aquele que eu finalmente veria amanhã a noite, era apenas um corpo a quem eu chamaria de pai. Ele nunca preencheria o lugar no meu coração que meus avós conseguiam ser força nenhuma.
– Está tudo bem, Scar. – disse minha avó com a voz abafada pelo meu cabelo. – Está tudo bem. Lembre-se, você é forte, enfrente os obstáculos. Seja feliz.
Fale com o autor