London Love
40 Coração de gelo
Notas iniciais
Por mais que qualquer um se sentiria completamente aterrorizado com a voz de Henri, Tyler não pareceu nem sequer surpreso enquanto encarava às feições de meu ex namorado. Ainda estava caído na neve a alguns metros de nós usando os cotovelos como apoio no chão macio e branco. Suas feições eram de quem estava prestes a matar ou talvez de quem apenas queria entender como Henri chegara tão rápido e de repente a tempo de nos separar. Já o próprio Henri mantinha um dos braços ao meu redor puxando-me em sua direção de forma protetora apesar de tudo o que acontecera conosco nas últimas semanas. Sua mão esquerda completamente aberta em minha cintura impedindo-me de fugir segurava-me de uma forma como se jamais tivéssemos brigado ou sequer discutido.
Era como se ele ainda estivesse comigo.
Eu olhei de rabo de olho na direção do carro de Jordan do outro lado do estacionamento na esperança de encontra-la correndo em nossa direção para impedir que qualquer briga pudesse acontecer, porém, encontrei apenas o automóvel muito distante de nós com as luzes apagadas. Por um instante, duvidei que Jordan estava no carro, mas logo pude enxergar sua silhueta com apenas uma sombra no banco da frente movendo-me como se estivesse falando com alguém no celular. Talvez ela tenha ligado para a polícia ou para alguém que pudesse ajudar, afinal, estava mais que óbvio de que aconteceria uma briga a qualquer momento bem ali.
– Você. – foi tudo o que Tyler disse por um momento. Seus olhos negros se destacavam na pele avermelhada pelo ódio e eu podia ver suas mãos agarradas à neve do chão. Mas seus olhos não desviavam de Henri de maneira nenhuma. – Veio dar uma de herói, Price? Por que não estou surpreso?
– Você parece bem surpreso para mim. – murmurou Henri ainda com o tom furioso de antes.
– É, mas ambos sabemos que tem um motivo para isso, não é? – aquela não parecia exatamente uma pergunta. Era mais como se Tyler estivesse ansioso para provocar aquela briga e louco para que Henri perdesse o controle. – Se fosse esperto o suficiente, chegaria pelo menos um cinco minutos mais tarde. Mas você sempre vai atrapalhar, não é? Sempre vai chegar na hora errada e ferrar o que estou tentando fazer aqui.
Henri apertou mais o braço ao meu redor e eu observei que sua expressão possuía um ponto de medo. Medo, porque Tyler podia ser muito assustador quanto achava que era necessário ser, não apenas atuando, mas também em todos os momentos de sua vida.
Inclusive quando me chamara de vadia para uma muitas pessoas em uma festa.
– Achei que era só impressão minha... – a voz de Henri era apenas um murmúrio. Parecia que ele dizia aquilo mais para si mesmo do que para Tyler. – mas você é completamente louco. – e então, ele voltou ao tom de ameaça. – Fique longe da Scar, entendeu? Se eu o ver perto dela de novo...
– Você vai fazer o que, Price?! – interrompeu o ator finalmente se levantando do chão e apenas dessa forma eu pude notar o quão alto Tyler poderia ser. De pé assim e próximo de Henri, eu notei o quanto ele poderia parecer perigoso com apenas um olhar de seus olhos negros. – Vai me matar? – ele disse “matar” como se fosse algo engraçado e impossível e logo em seguida, começou a rir de forma sarcástica. – Você não mataria nem uma mosca, garoto, muito menos alguém que você está tão apavorado só de encarar.
Henri desviou o olhar, porém não me soltou por nem mesmo um segundo. Ele tinha a expressão contorcida como se estivesse com nojo de toda aquela conversa com Tyler e eu não o culparia por isso. Blackwell estava sendo insano, ainda mais insano do que ele jamais fora. Durante um tempo, achei mesmo que ele pudesse estar diferente e mudando conforme nossa amizade se tornava um pouco mais amigável que nosso antigo relacionamento. Mas então, ele contou sobre estar apaixonado e eu vi toda a melhora indo água abaixo. Tyler se tornou o verdadeiro bad boy que eu temia que ele fosse se tornar e agora, lá estava bem a minha frente o fruto de tudo o que acontecera nos últimos meses. Tyler se tornara um ator psicótico que criara algum tipo de obsessão por mim.
Apavorada, eu comecei a me mexer nos braços de Henri incitando a ele para que saíssemos logo dali. Mas ele não notou ou pareceu não notar enquanto meus olhos se voltavam para o carro de Jordan do outro lado do estacionamento que permanecia da mesma forma. Eu queria gritar, mandar Tyler embora e correr com Henri para longe dali antes que os dois pudessem se exaltar. Eles iriam acabar se matando caso eu deixasse as coisas continuassem daquela forma.
– Não fique ai duvidando de mim, Blackwell. – Henri revirou os olhos. – Eu nem sequer ligava para a sua existência até hoje. Agora, como eu disse antes, fique bem longe da Scar! Você já fez burrada demais com ela, Tyler, deixe a garota em paz.
Sem deixar que eu ou Tyler sequer pudéssemos dizer qualquer coisa, Henri me puxou para que saíssemos dali, mas não havia força em suas mãos enquanto me acompanhava na direção do Range Rover estacionado em frente ao portão do estacionamento, na verdade, havia apenas insistência.
Por causa do clima gélido, eu usava meu casaco pesado e o corpo de Henri próximo ao meu como uma forma de me esquentar e proteger do vento que começava a piorar conforme nos aproximávamos do carro preto. O garoto de olhos azuis permaneceu em silêncio por alguns metros durante a caminhada, mas logo quebrou o silêncio entre nós numa pergunta baixa muito próxima a um sussurro:
– Você está bem?
– Dentro do necessário. – resmunguei de volta xingando-me mentalmente por ter gaguejado. – Depois do que aconteceu...
– Tem alguém a esperando? Por que estava sozinha aqui com ele?
– Jordan... minha amiga está no carro do outro lado do estacionamento. Ela ia me dar uma carona.
– Ligue para ela depois. Vamos...
Mas antes que ele pudesse continuar, eu vi uma mão esguia colocando-se sobre o ombro de Henri e o virando para trás com uma força que nem ao menos ele teve tempo de tentar impedir. Com o movimento brusco, eu fui empurrada para longe de Henri e logo que ele estava de frente para Tyler, um soco ágil foi desferido no rosto do cantor. Henri caiu antes que eu pudesse sequer impedir ou segurá-lo atingindo o tapete fofo e imenso de neve sem nada para amortecer a queda. Já Tyler, ele não ficou no mesmo lugar. Aproveitando que Henri ainda estava no chão, o ator se jogou contra o corpo de meu ex transferindo uma sequência de socos muito parecidos com o primeiro, porém sem hesito algum já que Henri o impedia segurando seus punhos a milímetros de seu rosto.
– Não dê as costas para mim, Price! – rosnou Tyler no momento em que conseguiu se livrar das mãos de Henri e atingiu-lhe no peito. – Você não me conhece para saber o quanto posso ser perigoso!
– Você não me assusta, Tyler! – esbravejou Henri retomando sua força e empurrando o corpo de Blackwell na direção contrária e assumindo a briga ficando por cima e socando-lhe o rosto. Tyler urrou de dor quando um dos socos o atingiu bem no nariz, fazendo com que uma fina linha vermelha de sangue escorresse de uma de suas narinas. – Ninguém tem medo de você, entendeu? Você é só um maldito psicopata obsessivo!
– Eu sou um psicopata? – Tyler gargalhou com as palavras dele. Um riso carregado de sarcasmo. – Price, ela me ama. Sempre me amou e saber disso antes de você não me faz o psicopata da história e muito menos o vilão!
Mesmo que Henri pudesse lidar com aquela situação de diversas maneiras diferentes, ele preferiu a que eu menos escolheria. Com um único movimento, ele cuspiu nos pés do ator.
Furioso pela atitude de Henri, Tyler o empurrou pelo peito fazendo com que o mesmo caísse de costas no chão e Blackwell pudesse enfim se levantar. Ele parecia bem ferido comparado à Henri, considerando a linha de sangue que escorria de seu nariz e o corte nos lábios. Já eu, mal conseguia me mover observando aquela cena. Estava paralisada bem ao lado deles sem ter a menor ideia de como para-los e de como fazê-los entender que tentar se matar não ajudaria em nada.
Desesperada, meus sentidos voltaram rapidamente e eu soube o que fazer. Bom, na verdade, fiz a primeira coisa que me era possível no momento, afinal, dois homens brigavam violentamente na minha frente e eu não faria diferença nenhuma tentando parar a briga.
– PAREM COM ISSO!! – gritei passando os olhos por cada um deles. Henri estava de pé tentando segurar as mãos de Tyler para impedir uma outra sequência de socos que ele ameaçava. Blackwell era perigosamente grande e com braços maiores que os mais magros de Henri, já que ele sempre fora quase um rato de academia por causa de seu pai. – NÃO ME OUVIRAM? DROGA, PAREM DE BRIGAR!
Entretanto, ambos me ignoraram voltando para briga, onde Tyler conseguira derrubar meu ex e lança-lo contra a única parte não coberta por neve do estacionamento. As costas de Henri atingiram o concreto com uma força que eu sabia que ele poderia ter quebrado alguma coisa, mas assim que caiu, ele não moveu um músculo. Suas feições eram uma confusa expressão de dor e raiva confundidas pelas fileiras de sangue que pareciam congelar em seu rosto. Os braços estavam pousados no chão e seu peito subia e descia rapidamente como se ele tivesse dificuldade em respirar.
Meu coração parou por um milésimo de segundo.
– Henri? – perguntei num sussurro. Meus olhos deveriam estar arregalados, porém eu não conseguia me mover. Lentamente, caminhei em direção ao corpo de Henri estirado no chão e ignorando Tyler bem ao lado limpando o rosto sujo pela neve e sangue. Assim como meu ex no chão, ele estava ofegante e parecia ter dificuldade para respirar. – Henri... por favor, me responda.
Por mais que eu chamasse e tocasse de leve seus ombros com cuidado para não machuca-lo, Henri não se movia. Os únicos movimentos que ele fazia era a respiração forçada e os olhos que estavam cravados como se ele pretendesse não abri-los cedo.
– Henri, diga alguma coisa. – pedi uma última vez, porém sem sucesso algum. E foi assim que o ódio começara a ganhar de qualquer sentimento de pena ou preocupação que eu poderia estar sentindo. Furiosa, levantei-me do chão seguindo para o garoto parado em frente a grade do portão do estacionamento com as mãos sobre os lábios tentando fazer o sangue parar de escorrer. Sem medo nenhum, empurrei-o com força contra a grade e segurei-o pela blusa por baixo do casaco grosso que ele usava. – SEU ESTÚPIDO! FILHO DE UMA PUTA, QUAL É O SEU PROBLEMA?! VOCÊ QUASE MATOU ELE, DROGA! TYLER, EU VOU TE MATAR!
Porém, ao contrário de minha atitude furiosa, Tyler parecia completamente assustado. Ele olhava para mim com olhos arregalados e os alternava entre mim e o garoto caído sobre o concreto que ainda lutava para respirar. Seus olhos negros pareciam grandes órbitas assustadoras e profundas que eu jamais seria capaz de entender. Mas eu não queria entender, queria derruba-lo e faze-lo pagar pelo o que tinha feito.
Minhas mãos o empurraram mais contra a grade e por um segundo, eu franzi o cenho como se me lembrasse de algo importante.
E então, minha mente relembrou uma cena no passado, na qual Henri dobrava seu corpo para frente sem conseguir respirar bem a frente da casa de Tom semanas atrás.
– Droga... – murmurei largando Tyler para trás e correndo na direção de Henri novamente. Ele continuava com a mesma expressão de dor em suas feições e não se importou nem um pouco quando agarrei as chaves do carro de seu bolso e corri na direção do Range Rover estacionado bem em frente ao portão de entrada do estacionamento.
Quando entrei, várias imagens do passado voltaram a minha mente forçando-me a lembrar de quando eu e ele estávamos juntos e tão bem apesar de eu saber que tudo deveria acabar. Afastando as imagens, procurei pela bombinha até encontra-la em uma mochila bem abaixo do banco do passageiro como se estivesse escondida ou coisa parecida. Desesperada, agarrei o objeto e novamente corri na direção do corpo estirado sobre o concreto. Por um instante, ele não pareceu responder ao que eu tentava fazer, porém logo ao perceber do que se tratava, os dedos de Henri se agarraram aos meus a fim de encontrar o objeto entre eles. Quando terminara de usar, as pálpebras dele começaram a se abrir lentamente até que enfim estavam totalmente abertos. Ele encarou ao céu totalmente negro em algum ponto cego até que se focaram em mim sem emoção nenhuma.
– Scar... – fora um sussurro, porém causou-me uma felicidade que jamais seria capaz de explicar. Ele estava bem e era isso que importava. – Eu...
Com cuidado e incapaz de pensar qualquer coisa, ajudei-o a se levantar evitando encostar no hematoma que começava a surgir na região de seu pescoço. Ele tinha dificuldade em se manter em pé por conta de algum ponto em sua perna que ele disse “estar doendo como o inferno”, coisa que apesar da situação fez-me rir.
Estava tão feliz por ele estar respondendo e até mesmo murmurando coisas engraçadas, que não notei a pessoa que se aproximava de forma perigosa de nós. E quando me dei conta, tudo voltou a piorar.
– Ótimo, agora posso continuar o que estava fazendo. – a voz de Tyler fora um sussurro ameaçador que fora completado quando ele atingiu Henri novamente na região da bochecha fazendo-o novamente cair. – Te matar!
A força do soco fora o bastante para que Henri caísse sentado, porém dessa vez atingindo o tapete macio de neve branca do chão. Tyler ameaçou partir para cima dele novamente incitando isso quando ficou bem a frente do corpo de Henri caído na neve e murmurou alguma coisa baixo que eu não pude ouvir de onde estava.
Furiosa, eu comecei a dar passos em direção aos dois para impedirem de tentar se matarem novamente, porém um par de braços me impediu de continuar, assim como em Tyler, quem confuso começou a se debater para tentar se soltar. Apenas quando me virei para entender de quem se tratava, encontrei Jordan segurando-me de leve na região dos braços e uma expressão preocupada em suas feições. Blackwell era segurado por Jason, quem magicamente (ou sei lá como) apareceu para impedir que ele partisse para cima de Henri.
– MAS QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! – berrou o diretor empurrando Tyler o mais longe possível de Henri, quem conseguira se levantar com dificuldade da neve e limpava com a ponta dos dedos o corte que agora crescia logo acima de seu olho direito. – O QUE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO?
– Jason... – Tyler estava ofegante por conta das tentativas de se soltar dos braços do diretor. – Isso claramente não é da sua conta.
– NÃO É DA MINHA CONTA, BLACKWELL? – o diretor caminhou de forma ameaçadora em direção ao ator e com o dedo indicador apontando na direção do rosto de Tyler, eu senti seu tom ameaçador de longe. – Escute aqui, você tem muita sorte de ser o ator principal dessa merda de filme! Se não fosse por isso, estava fora do meu elenco, seu garotinho metido a bad boy! Saia daqui agora e reze para que nem Henri e nem Scarlet prestem queixa na polícia contra você!
Ainda que contrariado e claramente ofendido com as palavras de Jason, Tyler chutou um monte de neve próximo a Henri no intuito de atingi-lo como se nem sequer tivesse acabado de levar uma bronca. Porém, antes que Jason pudesse dizer qualquer coisa que fosse, o ator já estava bem longe andando de forma raivosa na direção de seu carro no estacionamento.
– Se eu fosse vocês, me preocuparia com o futuro daquela banda de merda! Ela vai terminar mais cedo do que vocês esperam!
Furioso, eu bateu a porta do carro com força sem deixar que qualquer um de nós tivesse uma reação em relação ao que ele dissera. Deu partida e arrancou pela rua desaparecendo na imensidão escura das ruas em frente ao estúdio.
Jason se voltou para Henri, quem tossia um pouco e evitava não olhar na direção de Jordan ou o diretor, pois ambos o encaravam também de forma repreendedora apesar de ele não ser o culpado daquilo tudo. Mas eu não poderia culpa-los, afinal, tudo o que viram fora Tyler tentando matar o cantor com socos e provavelmente, a parte em que ambos ameaçavam um ao outro.
– Você também, garoto. – disse Jason de uma forma mais calma comparada a forma com que mandara Blackwell embora. – Fora do meu estúdio.
– Sr. McNight, ele não tem nada a ver com...
– Scarlet, não me importa se foi Tyler quem começou essa bagunça. Eu só quero que os dois saiam daqui antes que algum paparazzi apareça e faça uma matéria nada agradável sobre o que aconteceu hoje. – ele suspirou e cobriu os olhos com as mãos. – Tomara que isso não aconteça...
Com a expressão preocupada e um pouco aflita, Jason deu as costas para nós sem se importar com mais nada além de ir embora dali. Eu sabia bem como ele deveria estar se sentindo, pois assim como o diretor, eu não via a hora de ir embora para a casa de Tom e esquecer que aquela briga acontecera. Porém, havia um pequeno detalhe – Henri estava completamente acabado depois da briga e agora mancava em direção ao seu carro sem nem sequer dar a mim uma explicação do que diabos ele estava fazendo ali.
Irritada, eu corri na direção do garoto alto que mancava sem me importar com o xingamento que ele dissera ao perceber que eu estava ao seu lado o acompanhando em direção ao carro.
– Onde pensa que vai?
– Scar, me deixe em paz. – Henri revirou os olhos. – Vá para casa.
– Está mesmo achando que eu vou deixa-lo ir embora assim? – eu apontei na direção de sua perna machucada e os dois cortes no rosto, porém ele continuou negando como se não se importasse com a dor.
– Não vai. – ele negou com a cabeça antes de soltar um longo suspiro. – Mas deveria.
– Ei, Scar, está tudo bem? – era Jordan ainda parada no mesmo local onde acontecera a briga.
Eu estava tão aflita e distraída com toda a briga o aparecimento de surpresa dos dois que nem me lembrara de que ambos íamos embora juntas desde que nos tornamos amigas. Jordan estava encolhida por conta do frio apesar de usar uma touca vermelha e casacos ainda mais grossos que o meu, pelo o que pude notar.
– Está sim! – eu gritei por cima do ombro ainda tentando acompanhar o passo apressado de Henri. Caramba, esse garoto ainda anda rápido mesmo mancando. – Eu vou leva-lo para um hospital! Pode ir, nos vemos amanhã!
Jordan assentiu ainda que sua expressão indicasse a preocupação enquanto ela me observava caminhar ao lado de Henri e ajuda-lo a entrar no carro mesmo que negasse ajuda e me mandando ir embora. Quando ela enfim voltou para seu automóvel do outro lado do estacionamento, eu já estava no banco de motorista do carro de Henri esperando-o fechar a porta e dizer mais algumas coisas contrariado por minha presença e insistência em leva-lo a um hospital.
– Sabe qual o hospital mais perto daqui? – perguntei já dando a partida no carro.
– Não quero ir para um hospital. – sua voz fora apenas um sussurro e ele evitava olhar em minha direção.
– Ahn, queridinho, — eu disse com uma das sobrancelhas arqueadas. – está mesmo achando que eu vou deixa-lo desse jeito? Olhe para a sua perna, Henri. Você precisa de um médico.
– Eu quero ir para casa.
Por um instante, eu me irritei por sua atitude além de infantil. Ele estava agindo de uma forma que eu realmente não esperava que Henri agisse, afinal, ele sempre parecera tão adulto e confiante de si e hoje, mais parecia uma criança que passara por uma situação muito complicada e tudo que quisesse era sua mãe para abraçar. Porém, eu precisava ver pelo ângulo dele – Tyler podia ser um monstro quando queria e até mesmo assustar por conta de suas atitudes, ainda mais agora que parecia um verdadeiro psicopata. Ele estava começando a me meter medo e eu não fazia a menor ideia de como lidar com aquela situação.
– Tudo bem. – suspirei. – Vou leva-lo para sua casa.
[...]
Eu me lembrava muito bem da casa de Henri desde a última vez que estivera ali quando meu pai contara sobre minha mãe e eu acabei indo para lá por não ter com quem conversar. Os móveis continuavam nos mesmos lugares como se fossem a imagem congelada daquela noite, porém agora, alguns prêmios a mais estavam enfileirados sobre uma prateleira única bem acima do sofá mostrando como o tempo havia passado. Aquela parte da casa parecia organizada demais para uma casa de um garoto e principalmente para um membro de uma banda, mas eu sempre soube da mania de limpeza de Henri e mal pude evitar sorrir ao perceber que ele continuava daquele mesmo jeito.
Com cuidado e insistência, eu o forcei a se sentar na ponta do sofá para que eu pudesse ir atrás do kit de primeiros socorros e dar um jeito nos cortes de seu rosto que sangravam e no hematoma que surgiu na região de seu joelho.
Demorou para que eu encontrasse a caixinha branca na cozinha escondida atrás de uma prateleira recheada de todos os tipos de temperos. Por um instante, pensei que estava na casa de alguma avó cozinheira, mas lembrei-me de que ele sempre fora ótimo na cozinha, então fazia sentido aquela prateleira. Novamente, um sorriso surgiu em meus lábios fazendo-me esquecer da briga e das palavras que Tyler dissera no momento em que deu as costas para nós furioso como nunca.
“Se eu fosse vocês, me preocuparia com o futuro daquela banda de merda. Ela vai terminar mais cedo do que vocês esperam!”
Voltei às lembranças de estar com suspeitas sobre Tyler, principalmente depois que minhas ideias do porquê ele faria isso começaram a fazer algum sentido. Na verdade, tudo indicava que ele era um enorme suspeito, principalmente depois de ter se mostrado terrivelmente capaz de fazer qualquer coisa e ter se tornado um psicopata obsessivo, como Henri o chamara. Me doía imaginar que ele era o culpado disso tudo, pois jamais achei que ele fosse capaz de incriminar pessoas inocentes e culpa-las por algo que qualquer um notaria que era impossível. Will, Henri, Noah e Zack jamais desviariam tanto dinheiro para suas contas de forma tão cruel e fria, ainda mais porque o dinheiro seria enviado para a caridade. Isso parecia impossível e ficaria obvio demais que eram eles.
Óbvio demais.
Foi então que minha ficha caiu. Estava óbvio demais, seria fácil demais culpa-los por isso, pois não era do dia para noite que tanto dinheiro sumia e tudo reaparecia misteriosamente na conta de artistas reconhecidos mundialmente como a The Blue. Alguém havia feito isso de forma pensada, deixando óbvio demais que foram eles quem pegaram o dinheiro e assim, qualquer outra pessoa se tornaria uma suspeita muito pequena em comparação a eles.
Afastando os pensamentos em relação às acusações sobre os garotos, agarrei com mais força do que pretendia a caixinha branca do kit de primeiros socorros e voltei para a sala onde Henri me esperava pacientemente. Ele ainda estava sentado sobre o sofá olhando distraidamente para o hematoma que surgiu em seu pulso como se aquilo fosse mais interessante do que ver a mim chegando na sala e forçando-o a ficar com o rosto na minha direção para que eu limpasse os cortes.
– Ouch. – resmungou ele assim que toquei o pano molhado no corte acima de seu olho. – Isso doeu.
– Desculpe. – sussurrei de forma sincera antes de continuar a limpar o ferimento.
O silêncio voltou a ser incômodo no momento em que ambos quebramos o contato visual e eu comecei a ajudar de verdade tomando cuidado para não machuca-lo ainda mais. Eu nunca fora nenhuma especialista em primeiros socorros, nem ao menos para limpar um mini corte de papel. O pensamento fez com que eu me lembrasse vagamente de um dia no Brasil quando Jes caiu durante um jogo de vôlei no colégio. Não havia enfermeiras no dia, pois estavam todas de férias ainda e nem ao menos nosso professor sabia bem o que fazer em momentos como aquele. Claro, sobrou para mim tentar ajudar e obviamente não fora a melhor coisa que poderiam ter me colocado, mas ainda assim eu tentei ajudar e por pouco não abri um talho ainda maior no joelho esquerdo de Jes. A coitada ainda possuía a cicatriz daquele dia e isso rendava ótimas risadas entre nós.
Mas voltei minha mente ao que acontecia naquele momento, onde eu estava na casa de Henri depois de tudo o que acontecera entre nós. Lembranças de nossa briga em frente a casa de Tom assombravam-me a cada olhar que aqueles brilhosos olhos azuis se forçavam a me fitar em silêncio conforme meus dedos trabalhavam para manter o corte acima de seu olho limpo. Ele não dizia nada, apenas me olhava de segundos em segundo e logo desviava o olhar como se tivesse algo errado em me encarar.
Bom, eu sabia bem como ele se sentia.
– Não precisava me ajudar. – ele finalmente disse quebrando o silêncio entre nós.
– Eu já disse que não ia deixa-lo assim, garoto. – resmunguei fitando-o de forma irritada. – Não sou nenhuma megera sem coração que ficaria brava pela briga e nunca mais falaria com nenhum de vocês. Principalmente porque você me protegeu.
Henri deu de ombros e fez uma careta quando eu passei álcool no ferimento.
– Eu só estava a defendendo. Não é nada demais.
– É claro que é! – exclamei afastando-me para encara-lo perplexa. – Você não era obrigado a me ajudar e nem deveria! Mas mesmo assim foi até lá e tirou aquele maluco de perto de mim.
– Qualquer um tiraria aquele maluco dali. – Henri suspirou. – Alguém deveria internar ele. Viu o que ele disse quando estava indo embora? É quase como se...
– Ele fosse o culpado. – completei olhando para qualquer coisa que não fosse Henri.
Mas então, logo após aquele quase quebra-cabeças com frases completas, eu e Henri nos entreolhamos como se finalmente descobríssemos a resposta de um terrível mistério. Não éramos lá Sherlock Holmes ou qualquer coisa do tipo, mas ainda assim, fora quase como se fossemos o personagem discutindo e finalmente chegando à uma resposta. Eu já havia pensado aquilo comigo mesma, porém nunca falando em voz alta como naquele momento e nunca com Henri, aquele que parecia não ter suspeita nenhuma sobre Tyler além de acha-lo louco.
Agora, minha suspeita sobre Tyler parecia... mais conclusiva. Era como se fizesse sentido eu desconfiar dele depois da briga e sua ameaça que fora alta o suficiente para que todos ouvissem, inclusive Jason e Jordan.
– Você não acha que...
– Acho. – arqueei uma das sobrancelhas. – Faz sentido, Henri. Ele tem motivos suficientes para odiar você e isso implica nos garotos. Que outro jeito seria perfeito de atingir você se não acabando com a banda?
Henri piscou diversas vezes. Ele parecia tão abismado e em choque com aquela situação que nem ao menos se importou quando voltei a colocar álcool em seus ferimentos, mas agora no corte abaixo de seus lábios. Em qualquer outro momento, ele teria xingado alto, mas agora apenas encarava ao nada como se avaliasse as opções do que acabamos de pensar juntos.
– Ok, Scarlet, pode até ter sido Tyler Blackwell. – sem aviso nenhum, Henri tentou se levantar, porém a dor em seu joelho fez com que o mesmo fizesse uma careta e se jogasse de volta no sofá. – Mas como ele teria acesso às contas se ele nem sequer faz parte da gravadora de Tom?
Eu dei de ombros.
– Ele poderia conhecer alguém de lá. – franzi o cenho. – Talvez tenha algum amigo que trabalha na gravadora e essa pessoa conseguiu os números das contas para ele.
– E o que você diria sobre as câmeras de segurança não terem gravado nada suspeito o dia todo?
Franzi o cenho novamente. Eu não sabia disso.
– Não gravaram?
– As fitas desapareceram. – ele tocou de leve o corte abaixo do lábio inferior e fez uma careta. – Por isso os policiais não têm nenhuma suspeita certa de alguém de lá de dentro além de nós da banda.
Pensei por alguns instantes. Tyler deveria ter algum conhecido dentro da gravadora que poderia facilmente passar os números para ele, porém para que seu plano fosse completo, as câmeras deveriam ter gravado ele entrando e saindo do local no dia em que o dinheiro foi desviado para as contas dos garotos. Alguém precisaria ir até a parte financeira e pegar os números e Tyler precisaria ir até um banco para desviar o dinheiro. Então, isso só significava uma coisa...
– Ele conhece mais pessoas. Alguém mais o ajudou. – chocada, eu me sentei ao lado dele no sofá recebendo um olhar surpreso de Henri. – Ai meu Deus, Tyler recebeu ajuda de mais de uma pessoa da gravadora.
– Uma da parte financeira e outra que trabalha com a segurança. – Henri deixou que um longo suspiro escapasse de seus lábios. – Isso é loucura, o cara montou o maior esquema só para me ferrar por causa de você, Scar.
– É por isso que é minha culpa. – com uma força que eu não pude evitar, algumas lágrimas escaparam de meus olhos.
Não havia nada que me magoasse mais do que eu ser a culpada da crise da The Blue. Eu considerava os garotos como irmãos e Tyler estar fazendo aquilo com eles apenas por não aceitar que eu não sinto nada por ele... era doentio. Eu precisava arrumar uma forma de ajudar, nem se precisasse ser a própria investigadora e tentar arrumar respostas sozinha, mas eu precisava ajuda-los.
Eu precisava arrumar as provas de que Tyler era o culpado.
– Não é sua culpa. – de repente, os dedos de Henri estavam sobre meu rosto limpando as lágrimas quase sem me tocar. Nossos olhos estavam fixos um no outro e por um instante, eu me esqueci completamente de tudo o que acontecera com nós dois desde o dia da briga até o beijo na sala de reuniões da gravadora. Aquele não parecia mais o Henri frio e calculista dos últimos e dia e sim, aquele por quem me apaixonei tão perdidamente desde o primeiro dia em que o vi tentando me ignorar. – Você não pode achar que o que Tyler está fazendo é culpa sua, Scar. Ele é maluco.
– E eu fui burra demais por deixa-lo ir tão longe!
Entretanto, de uma forma repentina que me fez esquecer qualquer tipo de outro pensamento, os lábios de Henri estavam sobre os meus calando meus demônios e silenciando minha mente. Tudo a nossa volta desapareceu e eu me vi em seus braços como da última vez na sala de reuniões, mas agora, estávamos completamente sozinhos na sala de sua casa e ninguém entraria de repente por aquela porta. Foi como repetir algo mesmo que seus alertais mentais disparassem tentando dizer o quão errado poderia ser e que você deveria parar. Só havia um porém: eu não queria parar. Não queria que ele me libertasse de seus braços ou que seus lábios se afastassem dos meus. Não queria que ele parasse de me deitar levemente sobre o sofá e cobrir seu corpo com o meu. Não queria que seus dedos parassem de percorrer o caminho sinuoso de minhas curvas pela lateral de meu corpo.
Eu simplesmente não queria que ele parasse.
Nem ao menos quando ele ignorou a dor dos cortes e seus lábios distribuíram beijos lentos por toda a curva de meu pescoço e com um toque lento e calmo, voltavam para meus lábios. Não havia nada violento como da última vez, era mais tranquilo e sem pressa alguma como se disséssemos sinto muito por via daquele beijo. Eu, pelo menos, dizia o quanto eu sentia muito por tudo o que havia feito nas últimas semanas e como eu odiava o fato de ter mentido para ele sobre meus sentimentos. Talvez ele tenha recebido a mensagem e eu rezava silenciosamente para que ele tivesse. Nós precisávamos daquela desculpa nem que se fosse por meio de um beijo carregado de palavras não ditas durante dias intermináveis.
E tudo só voltou ao normal no momento em que ambos percebemos o que estava acontecendo de verdade.
Não podíamos voltar daquela forma, não com a banda em ruinas e a ideia de montar um plano para encontrar as provas de que Tyler era o culpado. Teríamos que deixar os desentendimentos para depois e uma possível volta também, pelo menos até tudo estar resolvido – tanto o problema com a The blue como meu coração que se perdia em centenas de perguntas sempre com o mesmo início.
E se... E se... E se...
Bem lentamente, eu e Henri nos separamos e eu o vi rindo ao notar que meu rosto estava mais corado que o normal. O clima, ao contrário da outra vez, estava calmo e não pesado, pois finalmente eu havia me desculpado e ele aceitado. Talvez, aquilo poderia indicar que estávamos juntos de volta, mas isso nem ao menos eu mesma saberia.
– Nos vemos amanhã? – ele perguntou parado a porta de sua casa. Parecia quase que ele estava ignorando a dor no joelho, algo que eu sabia muito bem que doía mais que o inferno apesar de ele não dizer.
– Sim, na casa de Tom. – Henri arregalou os olhos ao ouvir aquelas palavras e eu tive que rir apesar de ainda estar incomodada com toda aquela situação. – Ele vai estar na gravadora, pode relaxar. Precisamos resolver isso logo.
Henri assentiu e aquilo para mim serviu como um “Entendi, nos vemos amanhã", tanto que dei as costas para ele preparada para tentar encontrar um táxi e finalmente ir para casa depois de uma noite tão cheia quanto aquela.
Porém, assim que coloquei meus pés para fora da casa de Henri, senti meus dedos sendo envoltos por outros e uma mão gentilmente me puxando para trás novamente.
– Mais uma coisa. – sussurrou ele de forma decidida antes de me puxar para seus braços.
E então, ele me beijou.
De novo.
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