London Love
38 Acusações
Notas iniciais
“Nesta manhã de quinta-feira, as coisas parecerem não estarem mais tão a favor da boyband britânica mais conhecida no mundo. Ao que parece, os garotos estão sendo acusados de desviarem uma alta quantia em libras que seria doada para uma das instituições de caridade que têm parceria com a gravadora responsável pela The Blue, a White Records, fundada por Tom White. A quantia teria desaparecido misteriosamente da conta da gravadora e a mesma, ter reaparecido separada de forma igual para cada uma das contas dos garotos. A polícia ainda não sabe dizer se eles são ou não culpados pelo desvio do dinheiro e enquanto aos quatro integrantes da The Blue, continuam em silêncio sobre o assunto.”
Desde o momento em que desliguei o telefone avisando Zack de que iria para lá o mais rápido possível, essa era a reportagem que passava na televisão inundando meus ouvidos com algo que eu não queria ouvir e muito menos acreditar. Os garotos jamais seriam capazes de desviar o dinheiro que seria doado para a caridade e manda-lo para as contas pessoas deles. Não, eu não conseguia acreditar que nenhum deles seria capaz disso.
– Scar, tem certeza que... – Ana coçou a nuca deixando óbvio seu nervosismo em continuar. Estávamos no carro do motorista de meu pai seguindo para a gravadora em alta velocidade como eu mesma havia pedido. – Quero dizer, tem certeza de que eles não...
– Não, eles não fariam isso. – eu disse certa do que estava dizendo. – Eu posso não conhecer os meninos há anos, mas os conheço o suficiente para ter certeza que eles não roubaram nada. Desviar dinheiro que ia para a caridade? Isso não parece nada com o que qualquer um deles faria.
– Tomara que você esteja certa.
Ficamos em silêncio depois disso apenas esperando que o carro estacionasse de uma vez em frente a gravadora de Tom. Assim que coloquei meus pés para fora do automóvel, só conseguia pensar em chegar o mais rápido possível à sala de reuniões onde Zack dissera que ele e os garotos estavam. Não sabia ao certo do porquê que precisavam de minha presença, porém eu não dava a mínima, apenas queria estar com eles e defende-los de qualquer tipo de acusação. Eu sabia que eles inocentes e não havia quem me fizesse mudar de ideia.
Porém, não posso dizer que não mudei de ideia em vontade de fugir no momento em que entrei na sala e todos dirigiram sua atenção para mim.
Zack, seu irmão gêmeo Noah, Will e Henri estavam sentados um ao lado do outro dividindo um único sofá da sala, meu pai estava de pé logo ao lado da porta por onde entrei acompanhado de dois policiais e todos pareciam exibir a mesma expressão tensa.
– Scarlet? – meu pai encarou-me de cenho franzido sem esconder que ficara confuso e surpreso com minha presença. – O que você está fazendo aqui?
– Eu a chamei, Tom. – respondeu Zack por mim. – Achei que seria bom ter a madrinha da banda conosco. É mais uma testemunha.
Meu pai continuou com o semblante surpreso, porém não disse nada quando eu e Ana nos sentados na mesa de 12 lugares da sala de reuniões. O clima, pelo contrário, continuava ainda mais tenso fazendo com que minhas mãos suassem e não parasse de me mexer na cadeira por não conseguir conter o nervosismo. Tanto que eu quase não Henri no sofá lançando-me um olhar rápido e profundo como se tentasse se acostumar com minha presença.
Irritada, tanto pelo nervosismo quanto pelo medo, virei-me em sua direção para que ele soubesse que eu o havia visto.
Mas assim que meus olhos encontraram os dele, senti todo meu rosto corar no mesmo instante. Por mais que eu ainda estivesse furiosa com ele pelo o que me disse na premiação, aquele olhar mal se comparava com o último. Era um olhar doloroso, mas ao mesmo tempo ele parecia apenas estar me estudando ou talvez, tentando me mandar alguma espécie de sinal silencioso.
– Bom, agora podemos continuar, policial. – ouvi meu pai dizer interrompendo completamente o clima. Ele tinha sua atenção voltada para mim e Henri como se tivesse notado o que acontecera.
Ouvindo sua deixa, o policial da esquerda de meu pai descruzou os braços em frente ao peito e se pôs em uma posição de quem começaria um verdadeiro sermão.
– Bom, como eu estava dizendo, — disse ele. Sua voz era firme, porém nada repreendedora. – William, Noah, Zack e Henri, vocês estão sendo acusados pelo desvio de doze mil libras destinadas para a instituição contra o câncer de Londres. Estamos investigando exatamente o que aconteceu, mas hoje pela manhã soubemos que a exata quantia havia sido dividida em quatro e que havia sido depositada na conta pessoal de cada um de vocês.
– Isso é loucura! Nós nem sequer sabemos qual conta estava o dinheiro antes de ser enviado para a instituição! – exclamou Will claramente exaltado. – Nós não desviamos dinheiro nenhum!
– Will, tente se acalmar. – pediu Tom lançando-o um olhar repreendedor. – O que ele está querendo dizer, policial, é que os garotos não fariam uma coisa dessas. Aliás, nós não os informamos nada sobre as contas, apenas as pessoais de cada um deles.
O policial observou Tom por algum tempo antes de prosseguir. Na verdade, ele parecia um pouco desconfiado com toda aquela situação, afinal, deveria ter cuidado de centenas de casos semelhantes, ainda mais hoje em dia em que nem todas as celebridades são tão honestas quanto os garotos da The Blue. Eu mesma já assistira muitas vezes na televisão artistas sendo acusados de roubar lojas, desviar dinheiro e milhares de outras coisas. E além do mais, tinha um ótimo exemplo muito bem ao meu alcance – Tyler nunca fora nenhum santo e estava sempre se metendo em confusão com drogas, altas noitadas e vadias de boates. Um homem tão bonito, charmoso e um verdadeiro talento promissor do cinema que mal podia resistir à drogas e bebidas. Não se podia mais confiar em ninguém, muito menos em pessoas caçadas pela mídia 24 horas por dia.
– Bom, vocês estão sobre investigação policial, então não serão presos. Por enquanto. – o policial voltou a cruzar os braços em frente ao peito antes de fitar cada um dos garotos. – Por isso, quero que me avisem sobre qualquer tipo de suspeita que tenham. Como pode ser que não sabiam sobre a conta, alguém que trabalha na gravadora pode muito bem saber e ter feito isso para incriminar vocês. Por acaso têm alguma represália? Alguma pessoa da mídia ou que trabalhe com vocês que irritaram?
Os quatro se entreolharam algumas vezes e discutiram entre si possibilidades, porém apenas assentiram de forma negativa em silêncio.
– Não que eu saiba. – murmurou Zack. – Nós não somos do tipo que arrumam muitas brigas.
– Eu tenho algumas ex-namoradas irritadas, mas acho que elas não fariam nada disso. Não sabem nem ao menos digitar a própria senha do cartão de crédito. – Will começara a gargalhar de sua própria piada, entretanto ao ver que ninguém o acompanhou, se calou no mesmo instante.
– Bela hora para piadas, William. – resmungou Noah revirando os olhos para ele e então se voltou para o policial. – Então, achamos que não, senhor policial. Se soubermos de alguém, entraremos em contato com você.
O policial assentiu.
– Ótimo. – e então, seu olhar se voltou para mim. – Srta. White, como madrinha da banda deve passar muito tempo com eles, não é? – como eu assenti, ele continuou. – Por acaso não percebeu nada de estranho nos garotos nas últimas semanas? Ou talvez alguém que possa ter feito algo do tipo para incriminá-los?
Com aquela pergunta, minha mente vagou por um tempo avaliando todas as possibilidades de pessoas que poderiam ter contribuído ou tramado algo como aquilo para acabar com a banda. Pensei em todos que eu conhecia desde as pessoas do cast do filme à todos que conheci na gravadora de meu pai. Talvez os garotos poderiam realmente ter irritado alguém ali dentro, alguém que conhecia muito bem a parte financeira da gravadora e poderia ter tramado o desvio do dinheiro para as contas pessoas da The Blue.
Mas quem poderia ser? Afinal, eles não fariam uma coisa dessas, eu tinha a maior certeza disso. Alguém que os odiasse muito poderia estar tramando acabar com a banda, ainda mais a The Blue que era conhecida mundialmente e com milhões de fãs e se tratava de uma banda que movimentava altas quantias de dinheiro todos os dias.
Ou talvez, a pessoa não estivesse tentando necessariamente acabar com a banda por conta de uma represália contra todos eles e sim, com apenas um. Poderia ser alguém com raiva de um dos garotos e que queria muito que sua carreira fosse por ralo abaixo.
Mas quem?
– Não, senhor. – respondi calmamente. – Também não faço a menor ideia de quem poderia ser.
– Muito bem... – o policial pegou a papelada que estava sobre a mesa onde eu e Ana estávamos sentadas. – Ficarão sabendo de tudo o que está acontecendo com as investigações. Policiais serão mandados todos os dias para a gravadora para investigar e tentaremos encontrar o possível culpado. Até lá, ainda estarão sendo acusados, garotos.
E assim, os dois policias deixaram a sala de reuniões acompanhados de meu pai e Nathalie, a responsável pelo marketing dos artistas gerenciados pela gravadora e quem permanecera estranhamente em silêncio durante toda a conversa. Na verdade, eu prestara pouco a atenção nela, mas o bastante para perceber que a mesma mordia os lábios com força como se estivesse se segurando para não dizer nada.
Hum, estranho.
Assim que todos saíram da sala deixando apenas eu, Ana e os garotos por ali, eu observei eles finalmente suspirando como se segurassem o ar durante toda aquela conversa. Noah principalmente, quem deixara o corpo deslizar pelo sofá como uma geleia.
– Cara... achei que fôssemos ser presos agora. – disse ele rindo de forma nervosa. – Isso foi uma loucura. Não roubamos nada!
– É claro que não, idiota. – o irmão gêmeo de Noah resmungou sem hesitar em revirar os olhos. Zack parecia tão nervoso quanto os outros, mas ainda assim tinha a expressão suavizada. – Poderíamos ser acusados de qualquer coisa, exceto desviar dinheiro.
– Droga, eu nem sequer sei como desviar dinheiro de uma conta para outra. – murmurou Will arrancando risos dos gêmeos, exceto de Henri, quem ainda estava em silêncio mordendo os lábios.
– Vocês não têm nem ideia mesmo de quem poderia ter feito isso? – perguntou Ana pela primeira vez desde que chagamos ali.
Assim como fizeram antes, os garotos se entreolharam por alguns minutos como se pudessem ler a mente um do outro para vasculhar por uma resposta.
– Não. – respondeu Noah por todos. – Quero dizer, é difícil pensar em alguém que nos odeie tanto no ponto de fazer isso e ameaçar acabar com a banda. Não acredito que temos um inimigo.
– Olha, eu continuo com a mesma opinião sobre minhas ex-namoradas. – Will começou a gargalhar novamente. – Louquinhas, ok?
– Quieto, Will. – mandou Zack dando um tapa no mesmo por cima do ombro do irmão gêmeo. – Isso é sério, cara. Como você mesmo disse, suas ex-namoradas mal sabem usar o próprio cartão de crédito.
– Se for uma das que eu conheci, — Henri surpreendeu a todos finalmente dizendo alguma coisa. Ao contrário de sua expressão carrancuda, sua voz parecera estranhamente calma e confiante. – pode acreditar, o cartão elas sabem muito bem usar. Principalmente para comprar aqueles mini vestidos.
Se já não bastasse o fato de Henri ter falado alguma coisa, ele ainda conseguira fazer com que todos rissem. E muito. Bom, exceto por um Will irritado que começou a mandar Henri cuidar de sua própria vida e ambos iniciaram uma discussão sobre “ex-namoradas problemáticas”, o que me deixou um pouco desconfortável já que eu era uma das ex-namoradas.
Mas isso não importava. Desde que o policial deixara aquela sala dizendo que eles não seriam presos ou coisa parecida, apenas sendo investigados, Henri pareceu ter assumido uma expressão suavizada e diferente da que tinha no dia da premiação. Mesmo que estivesse em uma discussão com Henri e estivesse com o cenho franzido, ele parecia diferente e por alguns instantes, ele pareceu muito com o antigo Henri de quase um mês atrás quando ainda estávamos juntos.
– Ei, vocês dois, querem parar com isso?! – esbravejou Zack colocando-se de pé. – Estamos no meio de uma discussão séria e vocês ficam discutindo sobre namoradas? Puta merda, cresçam!
Henri e Will o encararam de forma completamente boquiaberta.
– Thompson, não é minha culpa que fomos acusados de roubo. – reclamou Henri revirando os olhos. – E ninguém aqui faz a menor ideia de quem foi.
– Concordo com a margarida. O que quer que a gente faça? Sentar numa rodinha no chão com todos de pernas cruzadas e ficar se questionando sobre inimigos como se estivéssemos numa partida de algum jogo de detetive?
Zack encarou a ambos como se tivessem acabado de sugerir de se jogarem de uma ponte.
– Isso é sério? É claro que precisamos sentar e discutir sobre isso. Precisamos descobrir quem foi, merda. – ele soltou um longo suspiro e se voltou na direção da mesa onde eu e Ana permanecíamos em silêncio. Eles estavam exaltados demais para que eu ou ela interferíssemos. – E temos a Scar aqui, ela nos conhece como fã e pode nos dar informações para ajudar. Não é, Scar?
Eu concordei, porém ainda assim estava nervosa demais para dizer qualquer coisa que fosse. Principalmente, porque Henri me fitava como se fosse uma novidade para ele eu estar ali.
– Chega disso, Zack. Só a polícia pode descobrir quem foi. – Will assentiu de forma negativa levantando-se do sofá. – Vamos embora e aproveitar a “folga” pelo resto do dia. Amanhã temos duas entrevistas e ainda temos que terminar as gravações do cd novo. Eu não sei você e seu irmão, mas preciso dormir urgente.
– Exatamente, deixe isso para a polícia. – completou Henri. – Se vocês não se importarem, eu também vou para a minha casa aproveitar uma das únicas folgas que tenho desde que ficamos famosos. Boa sorte no jogo de detetive.
E isso fora a gota d’água para mim.
Tanto Henri quanto Will estavam agindo de forma imatura como se não dessem a mínima para o futuro daquela banda e se fossem presos sendo culpados pelo desvio do dinheiro, eles estariam de bem com isso.
– Ótimo, fuja para a sua casa. Eu sabia que não iria saber lidar com isso mesmo.
Minha fala pareceu chamar a atenção de Henri, quem parou de andar em direção da porta no instante em que eu terminei minha frase. Noah e Zack estavam no sofá de frente para a mesa e mal podiam disfarçar a expressão assustada e boquiaberta que assumiram como se aquilo fosse a última coisa que esperassem de mim. E bom, nem ao menos eu esperava. Estava irritada pelo comportamento dos dois, porém principalmente de Henri, pois esperava muito mais dele. Talvez mais comprometimento para com a banda, afinal, ele era um dos vocalistas e pelo o que eu conhecia a história da The Blue, ele e Will tiveram a ideia juntos para formar o grupo.
Surpreendendo-me mais uma vez no dia, eu observei Henri virar-se lentamente e caminhar na minha direção até que estivesse em frente à mesa da sala de reuniões tendo apenas o vidro e algumas cadeiras nos separando. Encarou-me diretamente nos olhos com a expressão pesada e claramente irritada. Por um momento, eu senti medo dele.
– O que você disse?
– Eu disse que sabia que não saberia lidar com essa situação. – repeti calmamente usando o mesmo tom de voz dele. – Você foge daquilo que não sabe lidar, Price.
Henri permaneceu me encarando de forma sinistra até que finalmente eu o vi abrir os lábios como se fosse dizer alguma coisa, mas ao invés disso começou a rir de forma sarcástica.
– E posso saber quando agi desse jeito, White? – aproximando-se mais de mim, ele pousou as mãos sobre o vidro da mesa de forma que pôde ficar com o rosto muito próximo do meu já que eu havia ficado de pé. – Talvez quando você jogou na minha cara que não sentia nada por mim? Ou quando me mandou embora da sua casa como se eu fosse lixo? Eu fugi dali, porque não sabia lidar com aquela situação, White?
Seria uma enorme mentira dizer que aquelas palavras não me machucaram. Doeram tanto como receber um soco bem no meio da testa ou um tiro no peito. Doeram tanto, que eu permaneci em silêncio com os olhos fixos sobre os dele tentando mandar sinais silenciosos do quanto ele estava me ferindo com aquelas lembranças.
Mas, doíam ainda mais ao eu perceber que ele tentava me fazer sentir o mesmo que sentira quando eu disse aquilo para ele. Quando disse que não o amava, quando o mandei embora de forma fria... de quando quebrei seu coração.
– Ok, chega disso. – eu ouvi Ana dizer bem ao meu lado enquanto se levantava. – Vamos embora daqui, 90% da The Blue. Esses dois precisam de uma meia hora para resolver os problemas do passado e eu não quero estar aqui quando começarem a tentar se matar.
Sem deixar que eu ou Henri interferíssemos, os gêmeos, Will e Ana deixaram a sala de reuniões murmurando algo como “em briga de casal não se mete a colher” e logo depois, um som de tapa.
Quando enfim a porta se fechara, eu senti que todas minhas barreiras se abaixaram. Fazia pelo menos um mês que eu e Henri não ficávamos sozinhos e muito menos tão próximos como naquele instante, apesar da expressão dura dele e o assunto pesado sobre nossa briga. Porém, por mais que eu quisesse de forma quase que insana implorar pelo perdão dele, me mantive de forma séria tentando encará-lo da mesma forma que o mesmo fazia, fitando-me de forma tão intensa que poderia ler minha alma.
Percebendo que eu continuaria imóvel, Henri fora o primeiro a se afastar. Ele deu alguns passos para longe da mesa de costas para mim como se precisasse se recuperar. Mesmo agora de longe, eu notava que seus olhos estavam fixos no chão e o movimento de seus dedos praticamente gritavam de forma nervosa.
– Você não respondeu minhas perguntas. – ouvi-o dizer baixo.
– E deveria? – retruquei. – Você sabe as respostas.
– Isso não significa que ainda não queria ouvi-las. – e então, ele se virou. Não parecia mais tão furioso, apenas sério e ainda mais confiante enquanto apoiava-se na parede próxima a porta. — Por acaso, eu fugi porque não sabia lidar com a situação de você não me amar, Scarlet?
– Sim. – engoli um seco. Ele não soube esconder a surpresa quando arqueou as sobrancelhas. – Você fugiu. Deveria ter ficado e principalmente, deveria ter percebido a verdade que eu deixei tão clara quando você me beijou. Mas preferiu fugir, porque não sabia lidar com isso e talvez, porque tinha medo de continuar com o segredo.
– Eu fui embora, porque você aceitou terminar comigo, porque seu pai não me aceitava e não porque tinha medo de continuar o segredo.
– Talvez tenha sido melhor assim, não é? Você está livre para arranjar outra garota que não tenha um pai que o odeia e eu posso continuar minha carreira e arranjar alguém que Tom aceite. Ambos saímos ganhando, Henri! – apesar das palavras, eu lutava contra o choro que me ameaçou escapar. Eu não podia chorar, não agora que estava conseguindo ganhar a briga. – E... é melhor assim. Menos problemas com a mídia, menos problemas com famílias, menos problemas com sentimentos não correspondidos. Como eu disse, os dois saem ganhando.
– Acha mesmo que eu vou cair nessa de novo? – ele riu de forma sarcástica. – Pare de tentar fugir de mim, Scarlet. Pare de tentar enfiar nessa sua cabeça que não sente nada por mim ou que é melhor assim! Você insiste em achar que eu fugi, sendo que você está fugindo de mim! Está apavorada, White, apavorada por não saber lidar com essa situação.
Um ponto para Henri Price.
Nenhum ponto para Scarlet White.
O pior de tudo, era que olhando pelo ponto de vista que Henri praticamente jogara na minha cara, ele estava certo. Nunca fora ele quem esteve fugindo por todo aquele tempo e sim eu. Eu estava dizendo adeus a um sentimento que jamais tive, porque tinha medo de como lidar com um pai que me abandonara quando criança por não saber lidar com aquilo quando minha mãe fora assassinada. Eu estava fugindo.
– Mas sabe... os dois não saem exatamente ganhando... – eu o ouvi murmurar. Estava distante de mim, encostado na parede ao lado da porta olhando-me de longe com uma expressão vazia como se nunca tivesse falado aquilo. – Eu não sairia ganhando se não a tivesse comigo. Eu não quero outra garota, Scar... eu quero você.
Tudo parecia acontecer em câmera lenta conforme eu precisava apoiar-me na mesa para que não caísse no chão. Não faço a menor ideia de quantas vezes as palavras de Henri se repetiram em minha mente de forma dolorosa e sempre bagunçada, como se muitas pessoas as repetissem várias vezes e sem ordem alguma. Mas tudo se intensificou quando vi Henri se aproximar sempre lento demais avaliando cada um de meus movimentos até que estivesse novamente bem a minha frente tendo apenas a mesa entre nós. Seus olhos azuis estudaram cada centímetro meu desde os olhos, os lábios, deslizando pela linha de meu pescoço até a cintura e voltando novamente para o ponto de partida. Assim como eu, pousou as mãos sobre o vidro de forma que pudesse se inclinar em minha direção a fim de ficar na mesma altura que eu. Nossos rostos estavam próximos demais e seu perfume, aquele que eu tanto amava, invadiu minhas narinas e por pouco eu não perdi o controle.
Queria afundar minhas mãos naquele cabelo negro e puxá-lo para mim, diminuir a distância de nossos lábios até que a mesma se tornasse mínima. Queria tê-lo apenas para mim de novo com nada nos atrapalhando.
Mas, se eu o fizesse, estaríamos em uma encrenca enorme.
De novo.
– Não, você não quer. – eu me ousei dizer mal conseguindo controlar a respiração pesada.
– Eu quero, Scar. Cansei de mentir para mim mesmo que posso ignora-la, que posso esquecer você e tira-la de minha cabeça. – ele mordeu o lábio inferior. – Acredite, eu já tentei esquecer você de todas as maneiras, mas não posso. Não me importa se está com aquele ator com quem vive saindo e não me importa se Tom vai ou não me aceitar, eu quero você. Quero você comigo aqui e agora.
– Só tem um problema. – irritada comigo mesma por ter que mentir e principalmente, porque não conseguia ser uma droga de boa atriz no momento, fechei meus olhos com força apenas para que não o olhasse nos olhos ao dizer aquela mentira. – Eu não sinto nada.
– Não sente nada?! – ele repetiu minhas palavras, mas pelo som as quais saíram, eu quase podia sentir que ele sorria. Ainda que de olhos fechados, ouvi seus passos largos enquanto dava a volta na mesa e sem aviso nenhum, o senti virando meu corpo na sua direção sem modos algum. Mesmo que sem ver, eu sabia que estávamos cara a cara, pois sentia o calor de seu corpo quase queimando o meu e sua respiração de encontro ao meu rosto. – Se isso fosse verdade e você realmente não sentisse nada, — ele abaixou o rosto até a altura de minha orelha e continuou de forma sussurrante. – não estaria praticamente lutando consigo mesma para por as mãos em mim.
E foi assim, naquele momento em que abri meus olhos e dei de cara com seu corpo muito próximo do meu, que perdi o controle.
Na verdade, não sei ao certo quem perdera o controle primeiro, pois quando me dei conta estávamos um completamente grudado ao outro num beijo que sabe-se lá quais seriam as consequências.
Henri não se importou nem um pouco quando agarrou-me pela cintura a fim de diminuir os já poucos centímetros que nos separavam e colocar-me contra a beirada da mesa de reuniões. Mas, eu não o culpada, afinal, também não me importei nem um pouco quando afundei meus dedos nos fios negros de seu cabelo bagunçando-os da mesma forma que repeti tantas vezes em minha mente. Os lábios dele se moviam com rapidez contra os meus lutando um contra o outro, contra os sentimentos que guardamos por tanto tempo e agora, ele colocava para fora com tanto desespero que eu não sabia se seria capaz de suportar. Mas, mudei drasticamente de ideia quando ele mordiscou meu lábio inferior e sorriu de forma maliciosa logo em seguida.
Autocontrole, meu querido, pode ir embora porque não vou mais precisar de você!
Fora um beijo longo, o qual se intensificava à medida que ele me prensava mais contra a beirada da mesa até que senti-o descendo os dedos sorrateiramente pelos lados de meu corpo até encontrar minhas pernas e pegar-me no colo. Sem que eu pudesse reclamar, ele me colocou sentada na mesa e se posicionou bem a minha frente deixando com que eu enlaçasse seu quadril com suas pernas para puxá-lo novamente para mim. E esse meu movimento o fez sorrir de forma maliciosa de novo.
– Achei que fosse me bater, porque não sente nada por mim. – sussurrou ele apertando uma de minhas coxas.
– Quieto, Price.
Obedecendo e com um maldito sorriso nos lábios, ele voltou a me beijar, mas dessa vez atacando meu pescoço sem dó nem piedade depositando ali beijos e mordidas que, por mais que fossem leves acabariam deixando a área roxa. Aquilo deixou-me completamente desnorteada e mal pude conter o suspiro e a respiração falha que ele conseguira me arrancar. E antes que eu pudesse sequer xingá-lo por isso, Henri mordiscou lóbulo de minha orelha.
Droga, esqueça o autocontrole!
Quase que desesperada, voltei a puxar Henri para mim apenas para que nossos lábios voltasse a se tocar da mesma força necessitada que ambos parecíamos dividir. Eu sabia que ele sentia falta daquilo e deixara mais que claro quando disse que me queria e eu... bom, não havia nem sequer como negar. Eu queria quilo tanto quanto ele.
Porém, foi quando seus dedos começaram a levantar minha blusa pela barra e eu ameaçar soltar os botões de sua camisa que minha ficha caiu.
Estávamos na gravadora de meu pai na sala de reuniões com milhões de pessoas passando pelo lado de fora.
E eu acabara de dizer que não sentia nada por ele apesar da infeliz atual situação.
Completamente em choque e desesperada, afastei-o com um belo empurrão e corri para longe dali atropelando a porta e em seguida, as pessoas que passavam pelo corredor. Sabia que estava descabelada e provavelmente sem fôlego, porém ainda assim continuei com passos rápidos até encontrar o carro com o motorista de Tom e Ana parada em frente a uma das portas com a expressão de “demorou por quê?”. Porém, sem responder entrei no carro e bati a porta com toda a força que ainda me restava.
Durante o caminho, meus pensamentos fluíam lançando-me imagens mentais do que poderia acontecer a seguir e de meu ódio repentino por Henri Price. Eu o havia beijado depois de dizer de forma tão convicta que não sentia nada por ele e perdera o controle. As consequências seriam muitas, afinal, agora ele sabia que eu sempre estive mentindo e bom, não conseguiria mais fugir dele.
Mas o pior de tudo era que, além de ter conseguido “me ter” como ele queria, o maldito agora sabia da maior verdade.
Eu sentia sim algo por ele.
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