Logo Depois da Guerra

1 O Dia Seguinte


A guerra acabara. Esse foi o primeiro pensamento de Harry ao acordar depois de mais de 24 horas de sono pesado, pesado mas livre de pesadelos e de qualquer passeio à mente de seu inimigo. Abriu os olhos e se viu deitado em sua cama de dossel, com as cores vermelho e ouro tremeluzindo ao seu redor. Estava no dormitório dos meninos na torre da grifinória, uma das únicas que não haviam sido atingidas durante a batalha. Ao pôr seus óculos, Harry pode distinguir a figura borrada que jazia na cama ao lado. Era Ron, seu fiel amigo que ainda estava ferrado no sono. Esse não acorda tão cedo, pensou Harry se levantando calmamente. E era melhor que não o fizesse mesmo, ponderou o garoto com amargura, não quando a realidade das mortes recentes ainda lhe causariam tanta dor.

Se encaminhando para o banheiro Harry percebeu que ainda não havia sequer se trocado. As roupas da batalha ainda estavam em seu corpo, sujas de sangue e marcas de uma luta tão intensa. Logo avistou vestes limpas e imaginou como elas poderiam ter chegado ali. Monstro talvez, agora que procurava agradar seu mestre. Ou talvez fosse apenas a magia de Hogwarts, magia aquela que nunca iria entender por completo. Não importava. Nada importava, haviam conseguido. Voldemort estava finalmente e definitivamente morto, sem mais horcruxes para lhe trazer de volta à vida Harry não conseguia ver uma forma de Tom Riddle vencer a morte desta vez. E Dumbledore estava certo. Todo o ódio e raiva que guardara de seu diretor durante esses últimos meses de caça às horcruxes não existiam mais. O garoto entendeu tudo, entendeu que Dumbledore possuía planos maiores que não podiam ser ditos antes da hora certa e principalmente, entendeu que o bruxo era acima de tudo humano. Um humano que assim como todos os outros, comete erros e se arrepende. Harry sabia que não poderia ter exigido nada mais de Dumbledore e conseguiu guardar a imagem de seu diretor com carinho e admiração.

Enquanto tomava banho, Harry ainda pensava nos acontecimentos recentes, sabia que ia passar um bocado de tempo refletindo sobre eles. Ainda não conseguia acreditar que todo aquele desespero havia acabado. Era bom demais para ser verdade. Riu com o fato de que sua coleção de cicatrizes havia aumentado ainda mais, mas não se incomodava mais com isso, para ele cada marca se tornara um sinal nítido do sofrimento pelo qual havia passado para que a felicidade que emanava dele pudesse finalmente existir. Era importante levar em si todas essas lembranças, uma cicatriz de raio na testa, uma marca de presa de basilisco no antebraço, uma fina cicatriz de quando seu sangue foi tirado a força por rabicho, as palavras ‘Não devo contar mentiras’ para sempre brancas em sua mão, a marca do medalhão queimada em seu peito e agora uma pequena cicatriz onde uma maldição da morte lhe atingiu pela segunda vez.

Com os pensamentos mais claros e o corpo finalmente limpo, Harry saiu do banheiro. Apanhou sua fiel varinha, novamente inteira, e exclamou Oculus Reparo, pondo os óculos, agora perfeitos, em seu rosto. Desceu as escadas que levavam ao salão comunal e se deparou com Mione aconchegada em uma das poltronas, lendo. Não conseguindo se conter, Harry soltou uma risada. Seus olhos se encontraram com os da amiga e houve um entendimento mútuo, haviam conseguido. Ela se levantou indo ao encontro do garoto e eles se abraçaram, Harry tentou transmitir toda a sua gratidão à garota através daquele abraço, queria agradecer por ela nunca ter saído do seu lado e ter o acompanhado sem hesitar. Mas no fundo, ele sabia que a amiga tinha consciência da sua gratidão.

— Onde está nosso companheiro de aventuras? Ainda dorme? — Perguntou Hermione fazendo uma cara que Harry tinha visto poucas vezes no rosto da amiga, uma cara que ele logo soube associar a uma Hermione apaixonada.

— Ainda — respondeu Harry, lembrando aos poucos dos fatos que se sucederam entre os dois amigos na Sala Precisa durante a batalha.

— Acho que vou lá… — Exclamou Hermione tentando mostrar desinteresse, mas falhando miseravelmente.

— Vá — falou Harry — tenho a impressão de que você seria a pessoa que ele mais gostaria de ver ao acordar.

Hermione, então saiu em disparada pela escada que o garoto acabara de descer. Harry, mais uma vez riu. Sempre imaginara os dois juntos, mas ás vezes tinha sérias dúvidas de que iriam se entender. Aqueles eram seus dois melhores amigos no universo, amava-os mais que tudo, eram com eles as lembranças que mais facilmente vinham à mente de Harry ao conjurar um patrono. Não os trocaria por nada e, pensando melhor, até que não seria uma má ideia vê-los juntos. Um conseguiria domar o gênio do outro. Harry chegou a conclusão de que não haveria homem melhor para Mione do que Ron, assim como não haveria garota que pudesse fazer Ron mais feliz que Mione. E com esse feliz pensamento, Harry saiu pelo portal da Mulher Gorda e se encaminhou para o Salão Principal.

Não sabia o que lhe levava até lá, simplesmente sabia que era lá onde ele devia estar, provavelmente o roncado de sua barriga também contribuísse para tal decisão. Enquanto caminhava pelos tão conhecidos corredores de sua escola Harry mal acreditava no que via. Os desastres haviam sido bem maiores do que ele imaginava. Paredes inteiras desabadas e crateras enormes no chão que o permitiam ver o andar debaixo. Por vezes, o garoto se viu obrigado a pegar um atalho, pois o caminho usual não lhe permitia a passagem. Enfim chegou ao Salão, este, o garoto notou, já havia sido reconstituído, estava igual ao que ele sempre conheceu, exceto pelo fato das pessoas presentes. Parecia que todos aqueles que lutaram na batalha ainda estavam ali. Os feridos, é claro, já tinham sido encaminhados para o St. Mungus, e os mortos, Harry lembrou com pesar, haviam sido levados para outro local, de onde poderiam ser tomadas as devidas providências. O que teriam feito com o corpo de Voldemort, Harry se perguntou rapidamente, não sabia e nem tinha interesse em saber, já não era mais responsabilidade sua e, dessa vez, deixaria outros adultos se ocuparem com o problema. A única certeza que tinha é que o corpo não estaria nem próximo do de Fred, Lupin, Tonks e de todos aqueles que lutaram bravamente ao seu lado.

Mal passara pelas portas e seus olhos já começaram a percorrer todo o Salão a procura do único par de olhos que lhe interessava no momento. Lembrava de ter se certificado que Gina estava bem antes de cair no sono madrugada passada, mas, mesmo assim, não era o suficiente. Precisava vê-la novamente para seu coração se acalmar de uma vez por todas. Não demorou muito e logo avistou um conjunto de cabeças ruivas, todas agrupadas no final da mesa da Grifinória. Pensou se algum dia deixaria de sentir a alegria que inundava seu peito ao reconhecer os Weasleys em algum lugar. Eles sempre foram, e Harry esperava que continuassem sendo, a família que ele nunca teve. Correndo para perto deles, ele a avistou. Foi como se tivessem se visto pela primeira vez em anos. O sorriso que apareceu no rosto da menina, Harry pensou, era o mais bonito que já havia visto e ele não se importaria nem um pouco de vê-lo novamente todos os dias pelo resto de sua vida.

— Pensei que não acordaria mais Sr. Potter — disse Gina com um ar sorridente.

— Tive essa impressão também, Srta. Weasley — Harry respondeu se divertindo com a presença da menina.

— Está com fome? Quer comer alguma coisa?

— Há o que comer?

— Parece que milagrosamente as cozinhas do castelo foram preservadas…Mas então? Vai arranjar outro motivo nobre e idiota para ficar longe de mim de novo, ou vai se render e entender que o seu lugar é comigo? — perguntou logo a garota que não conseguia mais se conter.

— Você me aceitará de volta??

— Não, é claro que não será tão simples, afinal sou uma jovem muito cobiçada… — mas Harry não deixou a menina concluir. Passando os braços ao redor se sua cintura, ele a puxou para perto e a beijou com uma paixão que ele não sabia possuir. Gina enlaçou seus braços pelo pescoço de Harry determinada a não deixá-lo largá-la nunca mais e Harry pensou que nunca seria tão feliz como naquele momento. Como estava enganado…

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