Lobos de Veneza
29 O início do fim
Notas iniciais
Jon ainda conseguia sentir o ardor da tapa que ela dera em seu rosto. Talvez alguém, se olhasse muito atentamente para ele, pudesse enxergar a marca dos dígitos da garota ali. Sorriu. Ele havia merecido aquele golpe.
— Você anda sorrindo com muita frequência, devo me preocupar? — Arya disse, entrando em seu quarto sem cerimônias. Revirou os olhos como resposta para provocação da mais nova, continuando a examinar a marca invisível que havia e sua bochecha direita. Pelo espelho, viu-a jogando-se na poltrona antes de continuar seu falatório. — Se você está tentando esconder que está triste pela partida da Daenerys, não faça isso. Não comigo, você sabe que...
— Arya, eu estou legal. De verdade. — Virou-se para encara-la. — Terminou tudo numa boa entre mim e a Daeny, não se preocupe.
— Claro, porque ela te dar um tapa no meio da cara é um claro sinal de paz.
— Eu mereci. — Deu de ombros. Relembrando do exato momento em que fora beijar a garota loira e recebera uma bofetada. Apesar das palavras “pode me beijar” terem saído dos lábios de Daenerys, ela não pretendera, em momento algum, realmente deixar que o Jon o fizesse. Agora ele sabia disso. Aquela garota que se encontrara com ele pela última vez era a Rainha dos Dragões. E o hobby daquela Rainha era humilhar seus súditos.
Estavam sozinhos e ele iria beijá-la. No entanto, quando os lábios quase se encostaram a sensação que Jon sentiu foi muito diferente da imaginada. Abrira os olhos, sentindo uma estranha dor espalhando-se por sua face. Encarara Daenerys e ela ostentava um sorriso vitorioso no rosto.
— Você acha que seria assim tão fácil, Stark? — O veneno pingara em cada palavra dita por ela. — Corrigir a merda que você fez não foi mais que obrigação. Agora, se me der licença, eu tenho que colocar certos idiotas em seu devido lugar.
— Quando você vai embora? — A pergunta escapara sem que pudesse controlar. Estava com raiva dela. Sabia que merecera aquela tapa, mas estava com raiva. E, mesmo com raiva, preocupava-se em saber o que aconteceria com ela. Às vezes nem ele se entedia.
— Vou embora o mais breve possível e não, você não vai ter tempo de tentar me beijar de novo.
—Não se ache tanto, Daeny. — Rebatera.
— Ficar aqui tendo uma batalha de egos com você é tentador, mas eu tenho muita coisa pra fazer ainda. Então, adeus. — Ela caminhara em direção a porta, mas antes de sair voltara-se para Jon com um sorriso. — Obrigada.
— Boa sorte com a sua nova vida. — Devolvera o sorriso e, após receber um sinal afirmativo de cabeça, fora deixado sozinho.
Aquela foi a última vez que Jon Stark viu Daenerys Targaryen.
Pegou sua mochila e saiu em direção ao quarto de Sansa. Na última semana pegara carona com ela todos os dias. Estava sem sua moto novamente, graças a uma conversa que seu pai – agora Diretor da escola – tivera com o professor de Biologia. Arya ia com eles. Apesar das suas desavenças com a irmã mais velha, qualquer coisa era melhor do que andar no ônibus cedido pela própria escola. Ao contrário do que Jon esperara, Arya não dirigia a palavra a Sansa nem para provoca-la ou ressaltar o quão mal ela dirigia. Arya estava estranha. Nem com ele conversava direito.
Sansa abriu a porta do quarto com um sorriso radiante no rosto. Ela era outra que estava agindo estranhamente. A diferença era que, naquele caso em especial, Jon sabia o motivo: a saída de certa loira. Negou quando Sansa perguntou se gostaria de espera-la ali e pediu para que terminasse logo sua maquiagem, esta estava feita em apenas metade do rosto, dando-a uma aparência um tanto quanto cômica. Olhou de soslaio para Arya, esperando que ela fizesse uma piada sobre tal cena, mas decepcionou-se novamente. A mais nova parecia não notar nada ao seu redor.
— Certo, me diga quem é você e o que fez com a verdadeira Arya. — Falou, já estava cansado de observar a irmã naquele estado. De repente lhe ocorreu algo. Já fazia quase um mês que o acidente acontecera, talvez a falta de mudança nos quadros estivesse afetando Arya mais do que ela estava disposta a demonstrar. — Olha, se isso for preocupação com o Bran, o médico já falou que ele está se recuperando.
— Eu sei disso, sei que o Bran vai se recuperar.
— Então por que você está assim? É por que a Catelyn ainda não saiu do coma? Ou porque ainda não encontramos o Rickon? Nós vamos conseguir superar tudo isso. Eu sei que pode ser difícil, mas...
— Não tem nada a ver com a nossa família, Jon. Não que eu não esteja preocupada com os nossos irmãos, ou com a minha mãe, é só que...
— Que... — Incentivou-a a continuar.
— Você sabe aquele meu amigo o...
— Gendry.
—... Gendry. — Ela parou por um segundo. — Como você sabia que eu ia falar do Gendry?
— Ygritte me contou que ele foi embora e que ela não faz ideia de onde ele está. Na verdade, ela está maluca atrás do paradeiro dele. — Deu de ombros. Apesar do que acontecera entre eles no passado, Ygritte havia se tornado uma boa amiga e por vezes ela e Jon trocavam confidencias. — Mas eu não sabia que você gostava tanto assim dele.
— Eu não gosto dele! — Arya bradou, levantando-se do nada. Aquela sim era a garota que estava acostumado a ver. — É só que, na última vez que nós nos falamos, eu disse a ele que não precisava dele, então — A frase que ela diria ficou no ar quando Sansa surgiu tagarelando ao telefone. Provavelmente era Joffrey, que agora ligava para a ruiva todos os dias. Isso deixava Jon preocupado, não queria que a irmã voltasse a namorar o Baratheon.
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A semana passou numa velocidade impressionante. Assim como a outra que a seguiu. Nesse tempo não conseguiu continuar sua conversa com Arya, que estava mais distante do que nunca. Ainda continuavam a pegar carona com Sansa. Esta, por sua vez, mudava constantemente de humor. Chorava por qualquer coisa. E mal tocava na comida no horários das refeições.
Sentiu um beijo estalado ser deixado em sua bochecha e sorriu para a garota que se sentou ao seu lado. Não sabia seu nome, mas era bonita e, no momento, era o que importava para ele. Estava no refeitório, observando as pessoas que o ignoravam com veemência. Elas não se importavam mais com ele ou com seus problemas, era como se tivesse voltado a inexistir. E, sinceramente, agradecia por isso.
Apesar de ter ido para a escola, não havia dado as caras em uma aula sequer naquela manhã. Ao encontrar seu pai no corredor, ouviu o mesmo sermão de sempre. Limitou-se a escuta-lo e, quando o mais velho terminou o discurso, fez um sinal positivo com a mão e virou-lhe as costas. Não estava disposto a brigar com o patriarca Stark também. Alguma coisa o deixava preocupado. Sansa estava estranha. Arya estava estranha. Todo o resto estava quieto. E isso também era estranho.
Parecia a calmaria antes da tempestade.
— Você é o Jon Stark, certo? — A garota desconhecida começou, inclinando-se em sua direção e roubando um pouco da comida de seu prato. Apenas fez que sim com cabeça, perguntando-se o que ela queria. — Eu ouvi falar muito de você nesse primeiro mês de aula, parece que Jon Stark é uma espécie de celebridade por aqui.
— Ainda estão falando de mim? — Fez uma careta de desgosto.
— E eles não falam nada bem, você sabe.
— Hm, isso não é novidade. — Sorriu. — Mas se era só isso que você queria, me informar sobre os boatos, já pode ir embora.
— Nossa! Eu só queria ser sua amiga, bonitinho. — Jon revirou os olhos e parou para examinar a garota mais uma vez. Os olhos e a pele eram negros. Os cabelos tinham uma coloração rósea, que destacava ainda mais a beleza da jovem. Geralmente, estaria animado em ter uma garota tão linda dando em cima de si, mas não estava. No fim das contas, ele também estava estranho.
— Ele já tem a mim de amiga e isso é o suficiente. — Ygritte surgiu do nada e respondeu por ele. Jon quase sorriu. Quase porque, antes de seu sorriso se completar, lembrou-se de que era sempre Arya quem aparecia para salva-lo em horas como essas. E, como consequência, voltou a pensar sobre o quão diferente ela estava, fazendo o sorriso morrer na curva. — Você vem comigo, garoto bonito. — A ruiva continuou, já o arrastando do refeitório sem deixar chances para a garota desconhecida jogar mais um de seus charmes.
— Obrigado? — Era pra ser uma afirmação, mas soou como uma pergunta.
— Não me agradeça ainda, eu não vim aqui te salvar de mais uma admiradora. Precisamos de sua ajuda.
— Precisamos?
— Ela precisa, na verdade.
— Ela quem, Ygritte?
— Sua irmã.
— Arya? O que aconteceu com...
— Não, a outra.
— Sansa? — De alguma forma, saber que era Sansa a precisar de ajuda o deixou ainda mais preocupado. Sansa nunca se metia em confusões. E, se o fazia, saia da situação sem alardes. O que teria acontecido dessa vez?
Como se tivesse lido seus pensamentos, Ygritte acelerou os passos. Andaram em silêncio até pararem em frente a uma porta. Leu a placa que indicava o banheiro feminino e franziu o cenho. Da última que vez que fora chamado com urgência até ali, fora para ajudar Sansa a encontrar um brinco que havia perdido. Sentiu-se subitamente irritado e entrou no local fazendo um barulho desnecessário. Estava pronto para gritar com Sansa, mas a cena que viu o paralisou.
Ela estava deitada no chão, contorcendo-se de dor. A cabeça apoiada nas pernas de Arya, que segurava os cabelos ruivos tentando amarra-los. Aquilo não era, nem de longe, boa coisa. Fechou os olhos na esperança de que aquela imagem fosse apenas fruto de sua imaginação, mas, ao abri-los novamente, elas ainda estavam lá. Olhou para Ygritte em busca de informação.
— Eu não sei o que aconteceu, mesmo. Quando eu entrei aqui elas duas já estavam assim e eu só pensei em te chamar. — Deu de ombros — Vou vigiar a porta, dá um jeito nisso.
— Arya? — Indagou. Aproximando-se da irmã com cautela. — O que é isso?
— Será que dá pra você chamar a merda de um médico, Jon? — Ela ignorou sua pergunta. Arya estava preocupada. Estava preocupada com Sansa.
— Não! — O grito o pegou de surpresa. — Eu já te falei que não quero um médico, Arya. Que droga, eu não posso ir ao médico. Só me levem pra casa.
— O que está acontecendo, Arya? — Tornou a perguntar, desta vez usando um tom de voz mais firme.
—Se eu soubesse, não estaria tão preocupada. Eu tava na aula e ela me mandou uma mensagem dizendo que precisava de ajuda. Primeiro eu pensei em nem vir, mas a Sansa nunca me pede ajuda.
— Sansa, por favor, me deixa chamar a ambulância. — Agachou-se para ficar mais próximo das irmãs. — Por favor...
—Não, não, não. Tudo menos isso. Senão o papai vai descobrir e ele não pode descobrir, ele não pode.
— O que eu não posso descobrir, Sansa Stark?
A voz irritada soou e Jon sentiu todos os pelos do seu corpo se arrepiarem.
***********
Estavam todos na sala de espera do Hospital. Já estava virando um ritual dos Starks visitar aquele local. Ned Stark estava andando de um lado para o outro na sala de espera. Depois que ele aparecera no banheiro, Sansa iniciara um falatório desesperado e por fim desmaiara. Houve mais gritaria e desespero e então eles logo se encontravam ali novamente, no Hospital. Desde que chegaram ali, Jon tentava conversar com Arya e descobrir algo que pudesse ajuda-los a saber o que Sansa tinha, mas ela manteve seu voto de silêncio.
Teve certeza que sim, Arya conhecia o segredo de Sansa.
Não soube quanto tempo passou. Ou quantas voltas seu pai deu por entre as poltronas. Talvez tivessem esperado por 5 minutos. Talvez por 5 horas. Quando o médico enfim chegou, correram para junto do pobre homem, que se assustou e quase deixou os papeis que carregava caírem. O patriarca Stark fez um gesto para que os filhos se afastassem, queria conversar a sós com o responsável por Sansa.
Arya puxou Jon pelo braço, reclamando que o pai era um homem injusto. Jon limitou-se a observa-los, tentando adivinhar pela expressão facial de Ned o que estava sendo dito. Primeiro um sorriso de alivio escapou. Depois a expressão voltou a fechar-se e algo parecido com ódio surgiu nos olhos daquele homem. Nunca tinha visto aquela expressão antes. Não naquele rosto.
Quando os orbes raivosos encararam um ponto atrás do ombro de Jon, o Stark mais velho pareceu enlouquecer. Andou a passos largos, empurrando o próprio filho, para que saísse do caminho, no processo. Um confuso Joffrey foi levantado pelo colarinho da camisa e Cersei imediatamente tentou proteger o filho.
Jon não gostava de Joffrey, mas sabia que se o pai o batesse, como estava parecendo que faria, teria sérios problemas. Decidiu que iria separar aquela briga. No entanto, antes que pudesse de fato fazê-lo, sentiu-se paralisado pelas palavras do pai.
— Você é o responsável por tudo que está acontecendo com minha filha!
— Então o Joffrey é o pai da criança. — Arya murmurou com ar preocupado. O mundo ao redor de Jon pareceu sumir e um único pensamento lhe tomou a mente: Ele iria acabar com a vida do maldito Baratheon.
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