Lobos de Veneza
22 O fim?
Notas iniciais
Soltou um longo e ruidoso suspiro, quebrando o silêncio que reinara durante todo o trajeto. Daeny o olhou de uma maneira repleta de expectativas, expectativas que ele não poderia – de forma alguma – atender. Não havia mentido ao falar o que falara, mas, aquela atitude no hospital, fora um lapso, uma recaída proveniente de sua fraqueza momentânea.
– Você pode sair do meu carro agora. – Falou com o rosto virado para o lado contrário ao que ela estava. – Não precisa agradecer, é só sair.
– O quê? – A voz dela saiu mais vacilante do que esperava.
– Daenerys, nós não somos amigos. Nós não somos nada. Você foi muito imprudente indo até o hospital, imagina se fosse o meu pai que tivesse te visto lá? – Coçou a cabeça, lutando contra a vontade de virar-se para ela. – Eu vou fingir que isso não aconteceu, tudo bem? Então saia.
– Jon eu...
– Saia Daenerys.
– Você é seriamente bipolar, sabia? – Gritou batendo o pé do chão do carro. Uma nuvem de poeira subiu – fazia tempo que Jon não limpava aquele automóvel, já que não o usava com frequência. – E anti-higiênico. – Ela completou.
– Então você deveria ter voltado no seu próprio carro, majestade.
– Qual o seu problema, Jon Stark?
– Só saia do carro, por favor. Antes que a gente comece uma briga de novo, hã?
– Nós já estamos brigando.
Antes que pudesse abrir a boca para rebater a garota, escutou um grito vindo da mansão Targaryen. Sentiu seu corpo inteiro entrar em alerta, algo estava acontecendo ali. Algo que, mesmo sem saber o que era, não o trazia um bom pressentimento. Outro grito veio e, ao contrário do que qualquer pessoa sensata faria, Daenerys correu para casa. Jon revirou os olhos, sabia que deveria dar partida no carro e ir embora, os problemas da família Targaryen não lhe diziam respeito. Socou o volante com força e abriu a porta, correndo atrás de Daeny.
Daenerys, que ia a sua frente, estancou assim que a mão tocou a maçaneta. Agora ambos podiam ouvir os gritos com mais clareza, tanto que Jon conseguiu distinguir o dono daquela voz. Segurou a garota pelos ombros e afastou-a da porta, colocando-a trás de si. Sentiu as mãos trêmulas abraçarem sua cintura e esperou até que ela se acalmasse para poder falar.
– Você fica aqui e eu vejo isso.
– Mas...
– Se eu não voltar em 5 minutos, você corre e chama a polícia. Não entre na casa sem a polícia, entendeu? – Virou para encara-la diretamente. Havia a possibilidade de que os gritos não significassem nada de mais. No entanto, desconfiava que essa alternativa – a mais fácil – não era a verdadeira.
Não esperou que ela respondesse sua pergunta e girou a maçaneta, abrindo e fechando a porta assim que entrou. Respirou profundamente pela enésima vez naquele dia e, com uma cautela exagerada, caminhou sem fazer barulho. Um grito ecoou novamente, fazendo-o saltar de susto. Sussurrou para si mesmo que deveria ficar calmo e continuou suas lentas passadas, enquanto encarava os próprios pés.
O corredor acabou e ele entrou num grande e iluminado cômodo. Aquela sala, que gritava “riqueza” e “luxo” para qualquer canto dela que se olhasse, parecia muito mais bonita ao-vivo. Nunca havia estado ali realmente, mas já a conhecia das revistas. A família de Daeny, assim como a sua, era prestigiada no meio social. Riu amargamente enquanto percorria os olhos pelas paredes repletas de quadros, se essas pessoas soubessem o tanto de problemas que o “status social” causa, não lutariam tanto por ele.
Ao fim da primeira fileira de obras de artes, estava o início de uma escadaria. Passou rapidamente os olhos por ela, ignorando-a. Mas, ao sentir cada um dos pelos de seu corpo eriçarem, tornou o olhar. Um grito de pavor ficou preso em sua garganta. Recuou lentamente, enquanto seu cérebro pensava no que deveria fazer primeiro. Suas pernas fraquejaram e acabou por tropeçar no nada, chamando uma atenção que não queria para si.
– Eu não esperava visitas. – O garoto, que esfregava as mãos uma na outra como um louco, sorriu para ele. – Olá, Stark...
Corra, Jon, corra. Uma voz gritou dentro de sua cabeça.
– T-tudo bem? – Tentou falar normalmente, mas falhou.
– Eu não sei... – O outro respondeu sentando-se na escada.
– O que você fez, Drogo? – Ao escutar a pergunta, os olhos dele foram automaticamente para o corpo que parecia ferver largado nos degraus. Jon não o reconheceria se não fosse pelo cabelo claro, do mesmo tom do de Daeny.
Corra, Jon, corra. A voz tornou a gritar.
– Eu...? Fiz... Uma... Limpeza. – Sorriu e girou uma garrafa vazia nas mãos. – Uma limpeza.
– P-por quê? – Indagou, levantando-se com dificuldade. Suas pernas tremiam como nunca na vida, estava com medo. Pela primeira vez, sentia cada um dos seus sentidos alerta, prontos para reagirem a qualquer mínimo movimento de Drogo.
– Por quê? – A questão pareceu ser refletida por um momento. – POR QUÊ? – Drogo levantou-se de modo brusco, mas não correu para Jon, como ele esperava que acontecesse. Ficou de pé, olhando para o corpo do homem morto ao seu lado. – Ele fez a Dany terminar comigo, ela me ama, eu sei que ela me ama... Então ele, ele, ele... A culpa é dele. – O louco passou a mão pelos cabelos, parecia estar numa luta interna. – A Dany me disse que gostava de outro, mas ela não gostaria de outro. Ninguém é próximo o suficiente dela para... – Então os olhos dele pararam em Jon e, novamente, o aviso foi dito em sua mente: CORRA!
E foi o que fez.
Contornou o sofá, batendo um dos joelhos em sua lateral. Ignorou a dor que se espalhou por sua perna, já machucada, e tentou acelerar suas passadas. Seu coração parecia estar nos ouvidos, porque esse – as batidas descompassadas – era o único som que conseguia ouvir. Corra, corra, corra. Gritava para si mesmo, enquanto esgueirava-se pelos corredores desconhecidos da mansão. Virou a direita, depois à esquerda. Drogo, que era notavelmente mais rápido, estava logo atrás de si.
As mãos dele rasparam em sua jaqueta.
Jon arfou.
Corra, Jon, corra.
Virou novamente em um corredor, chegando até a cozinha. Olhou ao redor e avistou um balcão, lançou-se sobre ele, girando em cima do tampo de mármore até parar do outro lado. Caiu no chão, ficando escondido, no mesmo instante que um Drogo insano chegou ao lugar. Jon encolheu-se atrás do balcão, segurando seu joelho que fora mais machucado do que pensara. Concentrou-se em ouvir os passos do outro, ele parecia mover-se com cuidado, como um leão que está prestes a lançar-se sobre sua presa.
Não poderia ficar ali para sempre, sabia disso. Mas precisava de alguma maneira eficaz de se defender. Ainda agachado, arrastou-se até os armários e abriu a primeira das gavetas, precisava de uma faca, ou de qualquer outro objeto cortante. Sentiu uma presença atrás de si e virou. Ele estava bem ali. Com um sorriso doentio no rosto. Antes que ele pudesse fazer alguma coisa, Jon levantou, unindo o medo e a força e desferindo um soco no nariz do outro. Não foi muito, mas foi o suficiente para que pudesse ganhar tempo e correr.
Reiniciou sua correria. Sem sequer olhar para onde estava indo. Deparou-se com uma porta de metal, não parecia bom entrar onde quer que fosse, mas voltar pelo corredor também era uma péssima ideia. Girou a maçaneta e desceu os degraus, de dois em dois. Do nada, o chão sumiu de seus pés, era como se estivesse flutuando. Por dois segundos, Jon voou. Então atingiu o chão, com força, sentindo o peso de Drogo sobre si.
Girou, invertendo as posições e socando o garoto doentio mais uma vez, levantou a mão e tateou cegamente, pelo que parecia ser uma prateleira. Agarrou o primeiro objeto que tocou e soltou sobre a cabeça de Drogo. Levantou e tentou voltar pela escada, mas sentiu sua perna ser agarrada e caiu novamente. Foi atingido uma, duas, três, quatro, vezes. Tentou desvencilhar-se. Não obteve sucesso. Mais um, dois, três, quatro socos.
Perdeu as contas.
E, muito lentamente, acabou por perder a consciência.
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