Lobos de Veneza
31 O egoísta
Notas iniciais
Capítulo extra III
— Não foi isso que eu quis dizer – Pela primeira vez, em muitos dias, Robb a olhou. Foi como ver uma nova pessoa. Aquela não era a Myrcella que conhecia. O olhar estava diferente. Seu coração falhou duas batidas, afinal ele era o culpado daquela transformação. — Não foi o que quis dizer? Pois foi o que pareceu. — Myrcella, eu… — Então é por isso? — É por isso o quê? — Por isso que você nunca tentou algo a mais comigo? Por que eu sou uma garotinha patética? — Por que eu tentaria algo a mais? Nós já temos tudo. — Não, nós não temos tudo. Nós não temos nada. — O que você está dizendo? – Perguntou, estava genuinamente confuso. — O que eu estou dizendo é que eu gosto de você. — Eu também gosto de… — Não, não. Eu estou apaixonada. É isso. Estou apaixonada por você. O chão aos pés de Robb pareceu abrir. Por que raios estavam tendo uma conversa daquelas? Parecia uma DR. Um arrepio passou pelo seu corpo quando se deu conta da situação em que se encontrava: Estava no vestiário masculino, trajando apenas uma sunga, com uma garota. E ela não era qualquer garota, era a filha do Diretor. E sua melhor amiga. Desejou não ter cedido à vontade de dar um mergulho na piscina da escola. Mas, naquele dia em que desejou mais que nunca relembrar os velhos tempos em que era da equipe de natação, resistir aquele desejo lhe pareceu impossível. Sabia muito bem dos boatos que circulavam pelos corredores da Veneza High, que Myrcella nutria um amor por ele, no entanto, achava que era só mais um desses boatos sem fundamento. Não queria perder a amizade preciosa da Baratheon. E tampouco podia se envolver numa confusão com a filha do dono do colégio. Não era imprudente como Jon, ou como Arya. Gostava de manter uma boa relação com todos. E, apesar de gostar muito de Myrcella, não podia deixar de ser racional. Afinal, ele era Robb Stark. Robb Stark não podia se dar ao luxo de cometer erros. — Nós somos amigos. – Respondeu-a por fim, usando um tom suave. Aproximou-se lentamente, até que pudesse tocar-lhe o rosto com as mãos. – Myrcella, eu não quero magoar você. — Mas vai magoar, não é? — Acho que sim. — Então eu posso te pedir apenas uma coisa? – Ela fechou os olhos e prendeu a respiração por um momento. As mãos contorcendo a barra da saia que usava. Pôde perceber que ela estava se segurando para não chorar. — Qualquer coisa. – Sussurrou e ela lhe olhou, aquele olhar transbordava um sentimento que ele não conseguia identificar, mas que a deixava ainda mais linda. — Eu quero um beijo. — Myrcella, não… – Tentou afastar-se mas ela segurou suas mãos de modo firme. — É só um beijo Robb. Eu não sou a garotinha fraca que todos pensam que sou. Já sei que não teremos nada, não vou colocar falsas esperanças nisso. Respirou fundo. Que mal faria beijá-la? Já havia sentido essa vontade antes, não? Quando viajaram para a praia, apenas os dois. E também na noite chuvosa em que ficaram estudando até tarde na Biblioteca. Sentira vontade de beijá-la muitas vezes. Mas não a beijara, porque isso seria um erro. No entanto, que mal faria errar uma vez sequer? Robb, ela é sua amiga. E filha do Diretor. As vozes estavam certas. Não iria estragar tudo por causa de um beijo. Não poderia. — Robb, ninguém vai saber. — Ninguém vai saber? – Ecoou as palavras dela de modo automático. Ainda estava perdido nos próprios pensamentos. — Eu juro. – As mãos dela subiram por seu braço e chegaram até seu rosto, então, antes que ele pudesse fazer alguma coisa, os lábios estavam sobre os seus. Robb tomou um choque e a realidade lhe caiu pesada. O que estava fazendo? Afastou Myrcella de modo brusco e voltou para a piscina. Precisava de um mergulho. De novo. *************** Dia da briga no refeitório Myrcella escutou mais uma vez o que sua mãe dizia sobre o afastamento de Robb. Sentia-se mal por não contar toda a história, mas não podia. Não quando isso significava arriscar ainda mais a sua amizade. Amaldiçoava-se desde o dia em que resolvera contar sobre seus verdadeiros sentimentos. E não tivera nem o beijo.
Apenas uma rejeição dura e fria. Algo dentro de Myrcella inflamou. Ele não precisava ter agido daquela maneira, precisava? Ela só precionara os lábios sobre o dele por 2 segundos. 2 míseros segundos. A ideia de beijá-la era assim tão repugnante? Que idiota . Por um momento acreditou que ele correspondia seus sentimentos. — Myrcella tu tá me ouvindo? — O que é? – Respondeu de forma agressiva. A raiva que sentia pela rejeição começava a tomar conta de si. — Calma, eu só quero que tu me faça um favor. – Joffrey a encarou com um olhar pidão. — Que favor? — Eu quero que você entregue esses chocolates pra Sansa. — E por que você mesmo não faz isso? — Porque se o Jon me ver perto dela vai ficar irritado. Eu quero evitar confusão. — Tudo bem. – Cedeu. O irmão não tinha culpa do seu mau humor. E o fato de brigarem sempre não significava que ela o odiava. – Quer que eu dê algum recado? — Aí dentro da caixa tem um bilhete, mas fala a ela pra comer sozinha. Isso é importante. Quando chegou na escola, a primeira coisa que fez foi procurar Sansa. Notou que o carro dela ainda não estava no estacionamento e decidiu esperar por ali, mesmo que estivesse fazendo mais frio que o normal. Não demorou muito e quem esperava logo chegou. Acompanhada dos irmãos. Infelizmente de todos eles. — Bom dia Jon, bom dia Arya. – Decidiu ignorar a última presença e fazer o que tinha de fazer logo. – Sansa, eu posso falar com você? É rapidinho? — Comigo? – Sansa franziu o cenho. – Tem certeza de que não quer falar com o Robb? — Por que eu falaria com ele? – O comentádio escapou sem que pudesse controlar. — Aconteceu algo entre vocês? — Não aconteceu nada, Jon. – Robb disse. Ouvir a voz dele fez seu coração disparar. — Claro, não há motivo algum para acontecer qualquer coisa entre nós. – Odiava parecer tão ressentida, mas não conseguia evitar. – Sansa, será que você pode vir comigo? É conversa de menina. — Eu vou junto! – Arya exclamou. – Bom, eu também sou uma menina. Apenas assentiu. Joffrey não havia proíbido Arya de saber sobre os chocolates. Apenas Jon e Robb, que fora excluído da lista por ela. As três andaram em silêncio até o pátio. Era cedo e não havia ninguém ali, todos estavam muito ocupados indo para suas respectivas aulas. — Joffrey me pediu para te entregar isso. São chocolates. E ah! Ele disse que não é pra você dividir com ninguém. – Despejou de uma vez. A verdade é que não estava com paciência para ver a felicidade de alguém cuja a vida amorosa dava certo. — Joffrey? – Os olhos de Sansa brilharam. – Obrigada, Myrcella. Você é um anjo. Anjo. Novamente aquela palavra lhe fez lembrar de Robb. Sua mente vagou por todas as vezes em que ele lhe chamara dessa maneira. Ao contrário da costumeira alegria, sentiu raiva. Por que tinha que lembrar com tanta frequência de alguém que a rejeitou? Não percebeu quando as irmãs Starks foram embora. Nem se lhe falaram qualquer coisa antes de ir. Quando deu por si, já estava atrasada para primeira aula e teve de sair correndo para evitar perder aula pela primeira vez em sua vida. Para sua sorte, o dia passou num piscar de olhos. E logo a hora do almoço chegou. Estava faminta. Mal havia tocado no café da manhã. Resolveu passar no banheiro para retocar a maquiagem. Sabia que encontraria Robb no refeitório, não podia deixar que ele soubesse que a afetava tanto. Já lhe bastava a vergonha de mais cedo. Havia uma aglomeração em frente ao banheiro. Paramédicos levavam alguém numa maca. Em seguida surgiu Arya Stark e, não fosse o olhar acusatório que esta lhe lançou, teria pensado que a garota acidentada era mais uma das vítimas de Arya. Aproximou-se com certo receio e fez a pergunta que não poderia deixar de fazer: — O que houve? — O que houve? Sério? – O tom que ela usou fez Myrcella se encolher. – O teu irmão manda chocolates envenenados pra minha irmão e tu ainda me pergunta o que houve? — O quê? – Joffrey não faria isso, faria? Sim, faria. E a usaria para isso também. Caminhou furiosamente até o refeitório. Como Joffrey pôde? Ele tentou matar alguém. Ele a usou. Myrcella estava com raiva. E, além de tudo, sentia-se culpada. Por isso, assim que pôs os olhos no irmão, não pensou duas vezes antes socá-lo. Sua mão doeu, mas o prazer de descontar sua frustração em alguém era anestesiante. Conseguiu batê-lo mais uma vez, enquanto o xingava de todos os palavrões que conhecia, antes de alguém segurá-la. Reconheceu o cheiro dele sem nem mesmo o olhar. Aquilo — a intervenção de Robb — só aumentou ainda mais sua fúria. Só parou quando sua mãe chegou, dando um fim a tudo. Com a adrenalida abandonando seu corpo, apenas deixou-se ser arrastada. Pensava que iria até a sala de sua mãe, explicar toda a história. Mas surpreendeu-se ao se ver no vestiário masculino. Ali novamente? — O que foi isso, Myrcella? — Onde está a minha mãe? — Você não ouviu? Ela foi conversar com o Joffrey e pediu que eu tomasse conta de você. — Péssima ideia. – Resmungou sentando-se no banco comprido que ficava entre as duas fileiras de armários. — Você não se machucou, não é? — Agora você está preocupado? Me ignora por dias e agora vem me perguntar se eu estou machucada? – Riu em descrença. – Você quer mesmo que eu diga quem me machucou? — Eu… — Por que você não foi pro Hospital ver sua irmã? – Mudou de assunto. Se a conversa continuasse naquele rumo, ela iria explodir. — Meu pai disse que era melhor eu ficar. Ele vai me mandar notícias assim que tiver. Jon e Arya só foram, porque são Jon e Arya e não obedecem ninguém. — Não, Jon e Arya foram porque se preocupam com alguém além deles mesmos. Porque não são egoístas. – Levantou-se indo em direção a saída, a conversa deles estava terminada. Em sua imaginação, Robb segurava seu braço e lhe dava um beijo de tirar o fôlego. Mas ele não fez nada. Apenas deixou que fosse embora. E ela foi.
Notas finais
Esse capítulo não muda nada, nada a história. Mas é só uma daquelas coisas que eu escrevi pra servir de base pra outros capítulos - às vezes eu faço isso.
Decidi compartilhar esse, porque sim. Talvez vocês fiquem mais esclarecidos sobre o que aconteceu com a Sansa.
Enfim, Robb e Myrcella eram sempre tão amorzinhos, né?
q.q
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