Lobos de Veneza
19 Malditas ações
Notas iniciais
Onde a maldade era fria e intensa como um banho de gelo. Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles...
Apoiou a mão no vidro frio que protegia aquela criança do exterior, vê-la – a criança – daquela maneira causava-lhe um misto de alegria e tristeza. Alegria, pois sabia, agora sabia, que podia realmente confiar naquele homem com quem compartilhava tantos segredos. E tristeza porque, mesmo que aquele homem fosse confiável, era incompetente. Murmurou um palavrão em seus pensamentos, sem tirar os olhos daquele menino intrometido que tanto lhe dava nos nervos. Desejava atravessar o vidro que os separava e dar um fim naquilo ela mesma. No entanto, não poderia. A única saída era...
Rezar?
Não, isso também não poderia fazer. Nem conseguiria se tentasse. Se quisesse.
No fundo, sabia bem, não gostava do desfecho daquela história. Mas aquele era um mal... Necessário. Brandon Stark era amigo de seu filho, uma criança, assim como a sua era. No entanto, diferentemente de Tommen, Bran – como era chamado por todos – acabou por ser conhecedor de coisas que não tinha de ser conhecer.
Naquela tarde ela chegara mais cedo do trabalho, após tentar, sem sucesso, que os dois irmãos candidatos a delinquente da família Stark lhe ouvissem. Arya e Jon pareciam ser o maior problema que tinha que enfrentar. Porém, justo naquela tarde, naquela maldita tarde, em que tudo já estava tão errado, fora outro dos irmãos que acabara com sua alegria. Um dos mais novos, Bran.
Ao chegar em casa, Cersei não se dera conta que seu filho caçula já estava lá e, pior ainda, que levara consigo um “amiguinho”. Na verdade, depois daquela manhã infernal no colégio, ela esquecera-se até que tinha filhos. Infelizmente, esquecer-se da realidade não a tornava inexistente. Por alguma maldita razão, aquele garoto, aquele maldito garoto, fora até seu quarto e presenciara uma aquela maldita cena.
Ela e Jaime.
Aos beijos.
A relação que possuía com seu irmão jamais seria bem vista aos olhos da sociedade, porém ela não conseguia evitar, aquele sentimento – o desejo, aliado ao amor fraternal por Jaime – tornaram impossível qualquer resistência. Talvez sim, fosse um pecado, talvez sim, sua alma não tivesse mais salvação. Mas, muito antes de sentir todos os estranhos e fortes sentimentos por ele, ainda quando criança, acreditava que uma vida sem pecado era uma vida não vivida.
Talvez ela já tivesse nascido daquela maneira. Torta. Ao contrário. Má?
Ajeitou o boné, que escondia seus longos cabelos loiros, na cabeça e recolocou seus óculos do sol. Abaixou a cabeça e caminhou pelos corredores, pedindo, a sabe-se lá quem, que tudo desse certo no final e que aquela maldita criança não pudesse falar nada. Parou bruscamente no corredor, agachando-se e escondendo-se atrás de uma cadeira, quando viu Ned Stark seguido de sua família. Eles estavam atordoados e Ned gritava para o médico as palavras “É impossível, é impossível”. Se ela fosse qualquer outra pessoa, teria sentido pena daquele homem, mas ela era ela e, sendo assim, não conseguia sentir nada.
Levantou-se com cuidado para não ser notada e rumou para outra saída do hospital. Pegou o elevador até o estacionamento e, por fim, caminhou lentamente, como se desfilasse em uma passarela, até seu carro. Abriu a porta e entrou, sentindo todo o calor aconchegante do interior do automóvel. Sorriu, não sabendo exatamente o motivo. Seu plano não havia dado certo de todo, Bran ainda estava vivo, mas talvez a expressão do patriarca da família Stark lhe fosse apetitosa o suficiente. E o era.
– Jaime? – Falou assim que ele atendeu ao telefone.
– E então?
– A criança ainda está viva, eu achei que tinha sido clara quando lhe disse que...
– Eu fiz tudo corretamente, como ele está?
– Bran? Está na UTI, os médicos falaram que as sequelas do acidente são incalculáveis, ele sofreu uma batida muito forte na cabeça e... Essa é a minha esperança.
– E os outros?
– Que outros?
– A mãe e o outro irmão estavam no carro também.
– Sinceramente? Não me importo com eles.
– Cersei?
– Hm?
– Isso foi mesmo necessário? Você sabe... Bran é só uma criança.
– Uma criança que sabe demais. – Disse enquanto revirava os olhos, às vezes Jaime parecia tão... Sensível – Não tente me transformar numa megera, Jaime, você, mais do que ninguém, sabe o quão necessário isso foi.
– Eu sei.
Desligou o telefone sem falar mais uma palavra e deu partida no carro. Lembrou-se de tudo o acontecera naquele dia, tanta coisa. Coisa demais para um dia só. Ligou o rádio para desanuviar a mente, no entanto, como um carma que a perseguiria dali por diante, o acidente da família Stark estava sendo anunciando, ou melhor dizendo, gritado, pelo locutor do programa.
“Um grande acidente, envolvendo uma das famílias mais influentes da nossa cidade, aconteceu hoje. Enquanto voltavam de uma visita na casa de amigos, membros da família foram acertados por um caminhão que vinha descontrolado em sua direção. Ainda não sabemos o que aconteceu, mas rumores dizem que o corpo de uma das pessoas que estava no veículo não foi encontrado. Repito: Há um Stark desaparecido. Outros rumores dizem que Brandon Stark, um dos filhos mais novos de Ned Stark, o dono das pizzarias Stark, está hospitalizado e corre risco de vida”.
Risco de vida... Aquela era uma boa coisa de se ouvir.
Seu telefone tocou impedindo que continuasse qualquer pensamento, olhou no visor e viu o nome do marido. Provavelmente estava ligando para lhe dar a terrível notícia. Parou o carro no acostamento e respirou fundo, o que menos queria naquele momento era atuar, no entanto, era mais um mal necessário.
– Sim, querido?
– Cersei onde você está?
– Eu? Ah, decidi ir naquele mercado que vamos sempre, hoje Brandon foi a nossa casa e percebi que não tínhamos muita coisa para oferecer as crianças. Você sabe, doces, essas coisas...
– Você já chegou no mercado?
– Não, ainda estou a caminho. Quer alguma coisa, querido?
– Que você volte para casa.
– Por quê? – Perguntou, empregando um falso tom de preocupação na voz. – Aconteceu algo com nossos filhos?
– Graças a Deus não, mas o filho do Ned...
– O Jon? Se meteu em outra confu...
– Não, o Bran. O Bran sofreu um acidente. – Acidente...
– Mas isso é impossível, ele estava em nossa casa agora e...
– Querida, apenas volte para casa.
– Você não tem notícias? De como ele está?
– Ned acabou de me ligar dizendo...
– Bran morreu? – Deixou a frase escapar de uma forma animada. Animada demais.
– Não, Cersei, vira essa boca pra lá, ele disse que Brandon precisa de uma nova cirurgia, ele fraturou uma vértebra, a situação não é boa.
– Será que ele pode...
– Morrer? As chances são grandes, a cirurgia é de alto risco.
– Que pena. – Disse tal frase que não combinava com sua expressão de alegria. – Querido, vou desligar. Assim que eu chegar em casa vamos ao hospital, hã? Precisamos apoiar o Ned nesse momento difícil.
– Querida?
– Sim?
– Você é realmente a melhor. – Sim, ela era.
E, para ser ainda melhor, precisava acabar com todos os obstáculos que atravessavam seu caminho. Porque talvez aquela fosse a única saída que tivesse, talvez aquele fosse o único caminho que lhe restava. Não fazia por mal, apenas fazia assim.
Talvez apenas mais alguns goles...
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