Lobos de Veneza
24 E na encrenca!
Notas iniciais
Balançava as penas de um lado para outro, enquanto encarava o rosto cheio de hematomas dele. Fazia duas semanas desde aquele acidente. Fazia, também, duas semanas que ela não ia à escola, fazia duas semanas que sua vida virara completamente do avesso, com repórteres tentando conseguir uma exclusiva, pessoas lhe dando um falso apoio e, o pior, fazia duas semanas que não falava com o irmão preferido.
Haviam brigado e não tiveram a chance fazer as pazes.
Lembrava-se bem de estar no hospital, na sala de esperas, aguardando notícias sobre Bran e sua cirurgia, quando outra notícia ainda pior chegara. Jon sofrera um acidente. A princípio, sua mente confusa não fora capaz de juntar as peças, mas, antes mesmo que os jornais inventassem suas manchetes mirabolantes, ela já havia sacado tudo.
Durante uma semana a família Stark foi chamada de “A AZARENTA”. Depois dos acidentes, em que Brandon ficara em coma, em que sua mãe – apesar de ter o caso de maior estabilidade física – fora mantida sedada, já que, quando acordada, apenas chorava e gritava por seus filhos, que Rickon desaparecera e que Jon aparecera completamente machucado, a mídia fizera a festa apostando qual dos Starks seria “o próximo”.
Seu nome estava no topo da lista.
Aproximou-se mais um pouco de Jon, sentindo uma súbita vontade de conferir se ele ainda respirava. Não usava qualquer aparelho, mas os médicos lhe colocaram em coma induzido, porque, ao chegar ao hospital, ele estava agitado. Policiais iam lá todos os dias, para saber, com detalhes, a cena de crime que Jon presenciara, mas ele nunca estava acordado. Drogo, que matara o irmão da tão famosa e popular Daenerys de uma forma doentia, e que machucara seu irmão daquela maneira, estava passando por tratamento. E, quanto a própria Daenerys, não sabia o que estava acontecendo com ela e não se importava. Se ela nunca tivesse entrado na vida de seu irmão, ele não estaria em uma situação tão... Delicada.
A culpa era dela. Toda dela.
O pior de tudo é que aquela cara de pau ainda teve a audácia de ir visita-lo! Claro que seu pai cuidou de coloca-la para fora, mas, algo dentro dela, sabia que a “Rainha dos Dragões” iria voltar. Tocou a ponta do nariz de seu irmão com o dedo indicador e pressionou levemente. Para sua surpresa, obteve uma reação, um leve mexer de nariz. Sorriu e alargou ainda mais o sorriso quando ele abriu lentamente os olhos. Sentiu que as lágrimas iam cair e virou-lhe as costas.
Uma parte estava de si estava radiante por ele ter acordado. No entanto, havia outra parte, outra que ainda estava magoada demais.
— Ei. — Era a primeira vez, depois de semanas, que escutava a voz dele. — Você pode chorar na minha frente. Sabe disso. — Tais palavras, inevitavelmente, faziam-na sentir aquele sentimento de novo. A tristeza. Voltou para sua poltrona e suspirou, tomando coragem para respondê-lo.
— Eu não sei de mais nada, Jon. — Esperou que ele absorvesse a informação e continuou, sua voz soando surpreendentemente calma: — Eu achava que... Sei lá, nós éramos o tipo de irmãos que sempre iam apoiar o outro... Eu achava que poderia contar com você e... E então... — De repente as palavras lhe faltaram, tudo que tinha na mente eram as lembranças do dia anterior. Inspirou até seus pulmões ficarem cheios, depois expirou languidamente. Por fim, retomou a conversa, decidindo que deveria ser sincera. — Isso pode parecer estranho, mas sabe o motivo dessa minha vontade de chorar? É você. E eu sei bem que minha mãe está num hospital, que um dos meus irmãos está em coma e que o outro está desaparecido. Eu sei bem. Mas, de alguma maneira, a única coisa que acabou comigo foi tudo aquilo que eu ouvi... Ouvi da sua boca. — Levantou a mão para retirar algo que insistia em incomodar seu rosto. Quando tocou sua bochecha completamente molhada, percebeu que o que a incomodava eram as lágrimas. Estava chorando. Ela, que nunca chorava na frente de ninguém, estava chorando.
— Eu...
— Você gritou comigo e me falou aquele monte de... — fungou, numa tentativa de cessar o choro. — E depois ainda quase morreu! Além de me deixar com raiva, ainda me deixou preocupada! Como você acha que eu reagi quando...
— Desculpa... — Jon disse, interrompendo-a. Arya reprimiu um murmúrio de surpresa, o irmão mais velho, definitivamente, não era do tipo que se desculpava. Por mais errado que estivesse. — Eu... Eu achei que você tinha me trocado. — A imagem diante de si, quase a fez sorrir. Ele estava com a cabeça baixa, examinando as próprias mãos, que estavam entrelaçadas sobre seu colo. Quando, enfim, teve o olhar dele sobre o seu, percebeu que o irmão também estava chorando.
Ele, justamente ele.
— Quer dizer... — Ele continuou no mesmo tom — Eu estava que nem um louco atrás de você, porque soube que você já tinha se envolvido em confusão... E aí aqueles três patetas me disseram que tu foi atrás do Robb e eu... Sei lá. — Jon suspirou e passou a mão pelos cabelos. Era um gesto típico de quando não sabia o que fazer. Mas, ao invés de acalmá-la, aquelas palavras só a deixaram com mais raiva. Levantou bruscamente da poltrona, disposta a ir embora, seria melhor voltar no dia seguinte, quando estivesse menos nervosa. Ele já havia acordado, não? Era suficiente para ela saber que o irmão estava vivo. No entanto, Jon foi mais rápido e correu para segura-la.
— Me larga. — Bradou, mas ele fingiu que não ouviu e envolveu seu roso com as mãos. — Você... Você não confiou em mim! Em mim! — A esta altura estava usando toda a força que possuía para bater no peitoral dele, pouco se importava se estava machucado.
— Eu senti ciúmes, Arya! CIÚMES! —Parou ambas as mãos no ar, encarando-o, incrédula. Ele havia acabado de admitir...
— Esse tanto de pancada que tu levou na cabeça te fez mal, o Jon que eu conheço não admitiria assim...
— Arya... — Ele gargalhou, mas logo assumiu a expressão séria novamente. — É que eu te amo. Amo pra porra, sabe? E só de pensar que você... Sei lá... Que poderia me deixar...
— Você é idiota? Por que eu te abandonaria?
— Porque eu não sou o Robb. – A resposta veio seca e ela sentiu o peso daquelas palavras caindo sobre seus ombros. Tirou as mãos que estavam em seu rosto, mas permaneceu segurando-as. Arrependeu-se de ter ficado tão brava. Jon, assim como ela, tinha uma insegurança sobre determinadas coisas.
— Olha só, seu babaca, eu também te amo. E é bem mais do que pra porra, te amo pra caralho. —O mais velho abriu um sorriso, ela continuou: — E nunca, nunca, vou te abandonar.
— Você me perdoa, né? — Sentiu vontade de batê-lo de novo, que tipo de pergunta imbecial era aquela? — Mas é que, desde que eu consigo me lembrar, você é a única pessoa em quem eu confio. Você é a única que sabe tudo de mim... E... Não sei...
— Ei, você não precisa se explicar pra mim. Eu te entendo sempre, lembra? E, pode ficar tranquilo, porque nem 10 Robbs valem 1 Jon. — Falou e era verdade. Gostava muito do irmão Robb, mas ele, assim como seu pai, era... Nobre demais.
— Você é a única que acha isso, Arya.
— Ué... — Apertou a bochecha dele (a que não possuía hematomas), se divertindo com aquela versão enciumada. — E a opinião de alguém mais importa, por acaso? — Jon fez que não, balançando a cabeça freneticamente de um lado para o outro, como se fosse uma criança pequena, ostentando um sorriso largo no rosto.
— Tem razão, a opinião de mais ninguém importa.
Gargalhou e sentiu uma inevitável vontade de abraçar o irmão. Não conseguia imaginar como seria se, na sua vida, ele não existisse. O que sua mãe chamava de "castigo", para Arya era um presente. Presente que lhe fora enviado antes mesmo que nascesse. Tinha lido em algum lugar, que anjos não precisavam de asas, ou de auréolas. E aquela frase era coberta de razão. Jon era, definitivamente, seu anjo.
— Que merda, Arya. — Jon sussurrou com o rosto enterrado em seu cabelo. — Eu tô chorando que nem uma menininha.
— Tá sim. Você é muito sensível pra ter o título de delinquente da família, é melhor desistir e entrega-lo a mim.
— Vai sonhando, mané. — Ele afastou-se um pouco para olha-la — Tu também tá chorando, olha aí.
— Mas eu sou uma menininha, babaca.
Abraçaram-se novamente e, como não poderia faltar alguém para presenciar aquela patética e clichê cena que estavam protagonizando, a porta foi aberta. Revelando uma nova visita para Jon. Arya fechou a cara instantaneamente e o irmão, que estava de costas para a porta, fez uma cara confusa para ela.
— Você veio de novo. — Abriu um sorriso forçado. Nesse mesmo instante Jon virou para ver com quem ela falava e seu rosto assumiu uma expressão ainda mais estranha.
— Seu pai e seus irmãos não estavam aqui e bem... Oi.
— Oi.
— Você quer que eu deixe vocês dois sozinhos? — Perguntou para o irmão, para ver se ele tomava alguma atitude.
— Eu não sei... — Ele respondeu.
— Jon, a gente precisa conversar seriamente.
— E se ele não quiser? — Interveio a favor do irmão. — Por favor, ele está se recuperando, não acho que...
— Eu estou indo embora.
— Embora... — A voz do único homem presente no quarto, soou novamente. —Por quê?
— Por... Por... — A garota olhou para Arya de um modo sugestivo.
— Tudo bem, entendi. Vou sair.
— Fica Arya, por favor. — O irmão pediu.
— Jon eu queria falar só com você.
— Eu volto daqui a pouco, não se preocupa, nem vai dar tempo de você começar a chorar de saudades minhas. — Deu mais um abraço apertado nele e saiu do cômodo, esbarrando, propositalmente, no ombro da visita desagradável.
Pegou o celular enquanto esperava o elevador que a levaria até o andar da lanchonete. Havia uma dúzia de mensagens de números desconhecidos. Algumas pessoas, ou abutres como preferia chama-los, conseguiram, sabe-se lá como, descobrir seu número e, desde o acidente, passaram a bombardeá-la com mensagens e ligações pedindo entrevistas. Apagou todas elas sem nem mesmo ler e se dirigiu a única que lhe interessava.
“Teu irmão já acordou?” Era o que dizia a mensagem de Gendry.
“Sim, acordou. E adivinha? Fizemos as pazes, sabe o que significa?” Respondeu e, assim que entrou no elevador e apertou o botão do andar, seu celular apitou novamente.
“Significa que você vai parar de chorar pelos cantos. Já tava cansativo.”
Riu daquilo. Sabia que se não fosse Gendry a apoiando durante aquelas duas semanas, talvez não tivesse lidado tão bem com as coisas. Era agradecida por aquela amizade inesperada, mas não admitiria aquilo tão cedo. Na verdade, nunca.
“Significa que não preciso mais da sua amizadesinha, querido ;)”
Em menos de um segundo escutou o sinal de notificação novamente, perguntou-se como Gendry poderia ter respondido tão rapidamente, mas a mensagem não era dele. O remente era aquele com quem conversava, pessoalmente, minutos antes, seu irmão mais querido. Jon. Franziu o cenho e respirou fundo, fosse o que fosse o conteúdo daquela mensagem, não viria coisa boa por aí.
“ARYA! Preciso de ajuda, tenho que ir a um psiquiatra. UM PSIQUIATRA. Volta aqui agora que não vou ficar nem mais um segundo nessa merda de hospital.”
Gargalhou. Era definitivo, ela e Jon estavam de volta.
Às boas e à ativa.
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