Lobos & Dragões
2 Regicida

Regicida
— Este é Othor — anunciou Thoren Smallwood. — Sem dúvida alguma. E este é Jafer Flowers — virou o cadáver com a bota, e a branca cara morta fitou o céu encoberto com olhos muito azuis. — Eram ambos homens de Sor Waymar Royce.
— Que os deuses tenham misericórdia — murmurou Benjen Stark.
Desceu do seu cavalo, entregando as rédeas a Edd Doloroso. A manhã estava anormalmente quente; gotas de suor salpicavam a larga testa do Senhor Comandante como orvalho num melão. Seu cavalo estava nervoso, rolando os olhos, afastando-se dos mortos o mais que a rédea permitia. Edd Doloroso o levou alguns passos para trás, lutando para evitar que fugisse. Os cavalos não gostavam daquele lugar. Na verdade, Jaime Lannister também não.
Os cães eram os que gostavam menos. Quando Bass, o mestre dos canis, tentou fazer com que sentissem o cheiro dos mortos, tinham enlouquecido, uivando e latindo, lutando para escapar. Mesmo agora, ora rosnavam ora ganiam, puxando as coleiras enquanto Bass os amaldiçoava, chamando-os de covardes.
— Smallwood — perguntou bruscamente Benjen Stark. — Sor Waymar Royce tinha consigo seis homens quando se afastou da Muralha. Onde estão os outros?
Thoren Smallwood balançou a cabeça.
— Bem que eu gostaria de saber, senhor.
Foi evidente que a resposta não agradou Benjen.
— Dois de nossos irmãos assassinados quase à vista da Muralha, e, no entanto, os patrulheiros não ouviram nem viram nada. Foi a isto que a Patrulha da Noite se reduziu? Ainda varremos estes bosques?
— Sim, senhor, mas...
— Ainda montamos vigias?
— Montamos, mas...
— Este homem tem um berrante de caça — Benjen apontou para Othor. — Deverei supor que ele morreu sem o fazer soar? Ou será que os patrulheiros ficaram todos não apenas cegos, mas também surdos?
Smallwood eriçou-se e seu rosto ficou tenso de ira.
— Não foi soprado nenhum berrante, senhor, caso contrário, os patrulheiros teriam ouvido. Não tenho homens suficientes para montar tantas patrulhas como gostaria, e desde a batalha contra Mance Rayder, temos permanecido mais perto da Muralha do que costumávamos ficar antes, por vossa ordem.
Benjen Stark soltou um grunhido.
— Sim. Bom. Seja como quiser — fez um gesto impaciente. — Diga-me como eles morreram.
Agachando-se ao lado do homem que se chamava Jafer Flowers, Thoren Smallwood o agarrou pelos cabelos, que se quebraram entre os dedos como palha. O Primeiro Patrulheiro xingou e bateu-lhe na cara com o pulso. Um grande corte abriu-se na parte lateral do pescoço do cadáver, como uma boca coberta por uma crosta de sangue seco. Só alguns tendões brancos ainda prendiam a cabeça ao pescoço.
— Isto foi feito com um machado — disse Smallwood.
— Sim — murmurou Dywen, o velho lenhador. — Talvez o machado que Othor levava, senhor.
Othor era um homem grande e feio, e transformara-se num cadáver grande e feio também. Não se via nenhum machado. Jaime lembrava-se de Othor; era um dos que berravam a canção obscena quando os patrulheiros partiram. Seus dias de cantor tinham terminado. A pele empalidecera até se tornar branca como leite em todo o corpo, menos nas mãos, que estavam negras, como as de Jafer. Gotas de sangue gretado decoravam as feridas fatais que o cobriam como num ataque de brotoeja, no peito, nas virilhas e na garganta. Mas os olhos ainda estavam abertos. Fixos no céu, azuis como safiras.
Thoren Smallwood pôs-se em pé.
— Os selvagens também têm machados — disse Smallwood.
Benjen Stark curvou-se para ele.
— Acredita então que isto foi obra dos selvagens? Tão perto da Muralha?
— Quem mais poderia ser, senhor?
— Se Sor Waymar Royce tivesse sido atacado por selvagens a meio dia de viagem de Castelo Negro, teria regressado em busca de mais homens, teria perseguido os assassinos até os sete infernos e teria me trazido suas cabeças — disse Benjen.
— A não ser que também tenha sido morto — disse Jaime Lannister.
As palavras magoaram o grupo, mesmo naquela altura. Passara-se tanto tempo que parecia loucura agarrar-se à esperança de que Sor Waymar Royce ainda estivesse vivo, mas se havia algo a dizer sobre o Senhor Comandante, era como era teimoso.
— É verdade — disse Smallwood. — Já se passou quase meio ano desde que Sor Waymar nos deixou, senhor. A floresta é vasta. Os selvagens podem ter caído sobre ele em qualquer lugar. Aposto que estes dois foram os últimos sobreviventes do grupo e vinham de regresso, mas o inimigo os apanhou antes que pudessem atingir a segurança da Muralha. Os cadáveres ainda estão frescos, estes homens não podem estar mortos há mais de um dia...
— Não — Jaime protestou.
— Não lhe pedi opinião, Regicida — Thoren Smallwood disse friamente.
Os olhos de Benjen Stark saltitaram de Jaime para Smallwood e de volta a Jaime.
— Se o Regicida tem alguma coisa a dizer, quero ouvi-lo — disse Benjen. — Aproxime-se, sor.
— Senhor, não pode ser um dia, olhe o sangue — disse Jaime.
— O que tem o sangue?
— Vocês podem ver as feridas — disse Jaime. — Não sangra. Em uma morte recente o sangue ainda fluiria. Mais tarde, estaria coagulado, como uma geleia, espesso.
Thoren Smallwood não estava convencido.
— Se eles estivessem mortos há muito mais de um dia, estariam agora decompostos, Regicida. Nem sequer cheiram.
Dywen, o velho e deformado lenhador que gostava de se vangloriar de ser capaz de cheirar a neve chegando, aproximou-se dos cadáveres e farejou.
— Bom, Smallwood tem razão. Não há fedor de cadáver.
— Eles não estão apodrecendo — Jaime apontou. — Olhe... não há larvas, nem vermes, nem nada. Têm estado aqui na floresta, mas não foram mordidos nem comidos por animais.
Os patrulheiros trocaram olhares; viam que era verdade, todos eles. Benjen Stark franziu as sobrancelhas, olhando de relance para os cadáveres e os cães.
— Bass, traga os cães para mais perto.
Bass tentou, praguejando, puxando-os pelas coleiras, dando um pontapé em um deles. A maior parte dos cães limitou-se a latir e fincar as patas no chão. Então ele tentou arrastar um só. O cão resistiu, rosnando e contorcendo-se como que para se libertar da coleira. Por fim, o atacou. Bass largou a coleira e tropeçou para trás. O cão saltou por cima dele e desapareceu por entre as árvores.
— Isso está estranho — disse Benjen, muito sério. — O sangue... há manchas de sangue nas roupas, e na pele, secas e duras, mas não há nenhuma no chão, ou em lado nenhum. Com aquelas feridas deveria haver sangue por todo o lado.
Dywen chupou os dentes de madeira.
— Pode ser que não tenham morrido aqui, senhor. Pode ser que alguém os trouxe e os deixou para nós. Como um aviso — o velho lenhador espreitou para baixo com ar de suspeita. — E pode ser que eu esteja doido, mas não me lembro de Othor ter olhos azuis.
Thoren Smallwood pareceu surpreso.
— Nem Jafer Flowers — exclamou, virando-se para fitar o morto.
O silêncio caiu na floresta. Por um momento, tudo o que ouviram foi a respiração pesada dos cavalos e o som úmido de Dywen chupando os dentes.
— Queime-os — sussurrou Edd Doloroso.
— Sim, queime-os — insistiu uma segunda voz. Não saberia dizer qual.
Benjen Stark balançou teimosamente a cabeça.
— Ainda não. Quero que o meistre os examine. Vamos levá-los de volta para a Muralha.
Enrolaram os mortos em mantos, mas quando Hake e Dywen tentaram atar um deles a um cavalo, o animal enlouqueceu, berrando e empinando-se, escoiceando, chegando a morder Ketter quando este correu para ajudar. Os patrulheiros não tiveram melhor sorte com os outros cavalos; nem o mais plácido dentre eles queria ter algo a ver com aqueles fardos. Por fim, foram forçados a quebrar galhos e improvisar trenós para levar os cadáveres a pé. O meio-dia já passara havia muito quando se puseram a caminho.
— Quero que sejam feitas buscas nesta floresta — ordenou Benjen a Thoren Smallwood ao partir. — Em todas as árvores, em todas as rochas, em todos os arbustos e em todos os metros de terreno lamacento num raio de trinta quilômetros. Use todos os homens que tiver, e se não forem suficientes, peça caçadores e lenhadores aos intendentes. Se Sor Waymar Royce e os outros estiverem aqui, mortos ou vivos, quero que sejam encontrados. E se houver alguém mais nesses bosques, quero ficar sabendo. Devem persegui-los e capturá-los, vivos, se possível. Compreendido?
— Sim, senhor — Smallwood respondeu. — Assim será feito.
O dia estava cinzento, úmido, encoberto, um daqueles dias que fazia desejar a chuva. Seus irmãos negros nortenhos chamavam àquele tempo de o verão dos espíritos, e diziam que significava que a estação estava enfim despedindo-se de seus fantasmas. Depois viria o frio, preveniam, e um longo verão significava sempre um longo inverno.
Quando emergiram de sob as árvores, Benjen Stark pôs o resistente cavalo a trote. Muito acima, os homens na Muralha viram a coluna que se aproximava. Jaime ouviu o chamamento profundo e gutural do grande berrante do vigia; um único e longo sopro que estremecia entre as árvores e arrancava ecos do gelo.
O som atenuou-se lentamente até silenciar. Um sopro significava patrulheiros de regresso, e Jaime pensou: “Estou há vinte anos na Muralha, mas a sensação de vê-la nunca muda. É imponente e magnífica. Você pode vê-la a quilômetros de distância, uma linha azul clara cruzando o horizonte ao norte, estendendo-se para o leste e oeste e desaparecendo ao longe, imensa e contínua. Este é o fim do mundo.”
Enquanto Jaime, Ketter e Edd Doloroso levavam os cavalos de volta ao estábulo, Hake e Dywen levaram os mortos para um dos depósitos que se abriam ao longo da base da Muralha. Uma cela escura e fria esculpida no gelo e usada para conservar a carne, os grãos e por vezes até a cerveja.
Jaime Lannister estava cansado e sua vigia no topo da Muralha era apenas à noite, mas ainda era dia. Então decidiu descansar o corpo no dormitório dos patrulheiros.
Castelo Negro não é realmente um castelo, pois não possui muralhas defendendo-a sul, leste ou oeste. Apenas ao norte fica a Muralha. Consiste de diversas torres de pedra e fortes de madeira. Sob as edificações, há uma série de passagens subterrâneas que as conectam, chamadas de caminhos de verme. São raramente usadas no verão, mas no inverno é a única forma de locomoção entre as partes do castelo. Tem apenas um pequeno septo, e não há um bosque sagrado. Os homens que seguem os deuses antigos têm de viajar para a floresta assombrada, para um pequeno bosque de represeiros esculpidos, deixados lá pelos Filhos da Floresta, para que possam jurar seus votos.
Jaime chegou em sua cama estreita e deixou-se cair. Quando acordou, parece ter passado muitas horas, e já era noite. Seu corpo estava tremendo, violentamente. “Quando o ar ficou tão frio?”
Lentamente, Jaime pôs-se em pé. Tremia incontrolavelmente, pegou sua espada dourada ao pé da cama e colocou no cinto. Sete passos o levaram até junto da porta. Agarrou a maçaneta e puxou para dentro. O ranger das dobradiças quase o fez saltar. Um irmão negro estava estatelado nos degraus estreitos, olhando para cima, para Jaime. Olhando para cima, embora estivesse de bruços. A cabeça tinha sido completamente virada ao contrário.
“Não pode ser”, disse Jaime a si mesmo. “Aqui é Castelo Negro, protegido dia e noite, isto não pode acontecer.” Foi então que ouviu os sons; o suave arrastar de uma bota na pedra, o som de uma pequena tranca rodando. Os sons vinham de cima. Dos aposentos do Senhor Comandante.
Jaime Lannister tirou a espada do cinto e também tirou da bainha. O peso do aço na mão deu-lhe coragem. Sentiu-se de novo como um cavaleiro da Guarda Real. Subiu os degraus, abrindo caminho silenciosamente. Sombras espreitavam em todas as voltas das escadas. Jaime deslizou com precaução, testando todos os recantos suspeitosamente escuros com a ponta da espada.
A porta para o aposento privado de Benjen Stark estava escancarada. Jaime parou à porta, de espada na mão, dando aos olhos um momento para se ajustarem. Pesadas cortinas tinham sido descidas sobre as janelas, e a escuridão era negra como tinta.
— Quem está aí? — Jaime gritou.
Então viu uma sombra nas sombras, deslizando na direção da porta interior que dava para a cela de dormir de Benjen. A forma de um homem todo de negro, coberto com um manto e encapuzado, mas sob o capuz os olhos brilhavam com um gelado brilho azul.
Jaime sentiu-se tão cego como Meistre Aemon. Mantendo as costas na parede, deslizou em direção à janela e arrancou a cortina. O luar encheu o aposento. Viu de relance mãos negras enterradas no pescoço de Benjen, dedos escuros e inchados que se apertavam em torno da garganta do Senhor Comandante. Benjen retorcia-se, esperneando na cama, mas não conseguia se libertar.
Jaime não teve tempo de sentir medo. Atirou-se para frente, gritando, pondo todo seu peso na espada dourada. O aço cortou a manga, a pele e o osso, mas o som estava de certo modo errado. O cheiro que o envolveu era tão estranho e frio que quase vomitou. Viu o braço e a mão no chão, com dedos negros retorcendo-se num charco de luar. Benjen libertou-se da outra mão e afastou-se rastejando.
O homem encapuzado ergueu a pálida cara de lua e Jaime golpeou-a sem hesitar. A espada cortou o intruso até o osso, arrancando-lhe metade do nariz e abrindo um rasgão de um lado a outro da face, sob aqueles olhos. Olhos como estrelas azuis ardendo. Jaime conhecia aquele rosto. “Othor”, pensou, cambaleando para trás. “Deuses, ele está morto... eu o vi morto. Isso é impossível.”
Sentiu qualquer coisa vasculhando seu tornozelo. Dedos negros agarraram-se à sua panturrilha. O braço rastejava pela perna acima, rasgando a lã e a carne. Gritando de repugnância, Jaime empurrou os dedos com a ponta da espada e atirou aquela coisa para longe, que lá ficou retorcendo-se, com os dedos abrindo e fechando.
O zumbi inclinou-se para frente. Não havia sangue. Só com um braço, com a cara quase cortada ao meio, não parecia sentir nada. Jaime estendeu a espada à sua frente.
— Fique onde está, Othor — ordenou.
O braço cortado arrastava-se para fora da manga arrancada, como uma serpente branca com uma cabeça negra de cinco dedos. Jaime golpeou o pescoço do cadáver, sentindo o aço morder profunda e duramente. Othor nada sentiu e caiu sobre Jaime, fazendo-o perder o equilíbrio.
Jaime Lannister ficou sem ar quando as costas atingiram a mesa caída. “A espada, onde ela está? Perdi a maldita espada.”
Quando abriu a boca para gritar, o zumbi enfiou os cadavéricos dedos negros nela. Nauseado, tentou afastá-lo, mas o morto era pesado demais. A mão forçou-se mais para dentro de sua garganta, fria como gelo, sufocando-o. Tinha a cara encostada à sua, enchendo o mundo. Os olhos estavam cobertos de geada, cintilando de azul. Jaime arranhou sua pele fria com as unhas e deu pontapés nas pernas de Othor. Tentou morder, tentou socar, tentou respirar.
E de repente, o peso do zumbi desapareceu e os dedos foram arrancados de sua garganta. Tudo o que Jaime conseguiu fazer foi rolar, com ânsia de vômito e tremendo. Benjen Stark estava sobre a coisa. Viu o Senhor Comandante enterrar uma adaga na barriga de Othor e começar a rasgá-lo. Observou, apenas meio consciente, por um longo momento, até que finalmente se lembrou de procurar a espada dourada.
Não encontrou a espada, mas viu uma candeia de azeite à porta do quarto. O braço cortado de Othor agitava-se violentamente pelo chão, avançando em contorções na sua direção.
Jaime tentou gritar, mas não tinha voz. Pondo-se em pé com dificuldade, chutou o braço para longe e pegou a candeia. A chama tremeluziu e quase se extinguiu. Rodopiando, Jaime viu as cortinas que arrancara da janela. Atirou com ambas as mãos a candeia para cima do monte de pano. Metal rangeu, vidro estilhaçou-se, óleo derramou-se e as cortinas se transformaram numa enorme chama. O calor do fogo no rosto era mais doce que qualquer dos beijos que Jaime recebera de Cersei.
— Stark! — gritou. — Afaste-se!
Benjen Stark libertou-se e aproximou-se enquanto o zumbi tentava se erguer do grande corte que tinha na barriga. Jaime mergulhou a mão nas chamas, agarrou a cortina ardente e a atirou sobre Othor. “Queime”, pensou, enquanto o pano envolvia o zumbi, “queime nos sete infernos, por favor.”
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