Lobos & Dragões
5 Lobo Alado II

Lobo Alado
Estava desenterrando legumes em um jardim abandonado quando Bran ouviu uma cantoria, e um arrepio de medo correu por sua espinha. A canção pairava sobre o rio, vinda de algum lugar para lá da pequena elevação que havia a leste.
— Vou à Vila Gaivota ver a bela donzela, ei-ou, ei-ou...
Bran levantou-se, com as cenouras penduradas na mão. Soava como se o cantor viesse ao longo da estrada que ladeava o rio. No meio das couves, Jojen também o ouviu, julgando pela expressão que tinha no rosto. Meera foi dormir à sombra do chalé, e não estava em estado de ouvir qualquer coisa.
— Com a ponta da espada roubarei um beijo dela, ei-ou, ei-ou... — parecia ouvir também uma harpa, ao fundo do suave rumorejar do rio.
— Está ouvindo? — perguntou Jojen num sussurro, enquanto se abraçava a um monte de couves. — Alguém está vindo.
— Será que o jardim tem dono? Vá acordar Meera — disse Bran. — Não faça muito barulho.
— Será o meu amor, descansando sob a tela, ei-ou, ei-ou... — a canção tornava-se mais alta a cada palavra.
— Vamos nos esconder, Bran — disse Jojen.
O chalé e o jardim abandonado ficavam bem ao lado das margens de um riacho. Havia alguns salgueiros crescendo ao longo do rio, mas a maior parte do terreno ao redor era aberta. “Não deveríamos ter saído da floresta”, pensou ele. Mas tinham tanta fome, e o jardim era uma tentação grande. O pão e o queijo da bolsa de Jojen acabaram três dias antes, quando se encontravam no meio da floresta.
— Leve Meera e os cavalos para trás do chalé — Bran decidiu.
Lá ainda havia parte de uma parede que permanecia em pé, suficientemente grande, talvez, para esconder os irmãos Reed e os três cavalos. Se os cavalos não relincharem, e aquele cantor não vier meter o nariz no jardim.
— E você e Verão?
— Eu me escondo ao pé da árvore — disse Bran, que logo depois acenou para Verão, para que o lobo se escondesse em outra árvore próxima. — E Verão sabe se cuidar.
Jojen partiu, e Bran largou as cenouras e puxou a adaga da cintura. Não era uma espada, mas podia matar com aquela adaga, e isso bastava. Se a adaga não for suficiente, Verão ajudaria.
Rápido, Bran correu para o grande e velho salgueiro que crescia ao lado da curva da estrada e caiu sobre um joelho entre a grama e a lama, no interior do véu de ramos que roçavam o chão. Então, um cavalo relinchou e a cantoria interrompeu-se subitamente. “Ele ouviu”, compreendeu, “mas talvez esteja sozinho, ou, se não estiver, talvez tenham tanto medo de nós como nós temos deles.”
— Ouviu alguma coisa? — disse uma voz de homem. — Parece que há alguma coisa atrás daquela parede.
— Sim — respondeu uma segunda voz, mais grave. — O que acha que pode ser, Arqueiro?
“Então são dois.” Não conseguia vê-los de onde estava ajoelhado, por causa do salgueiro. Mas conseguia ouvir.
— Um urso?
— Carne de urso — disse a voz grave. — Boa para comer, se for bem cozida.
— Poderia ser um lobo.
— Arqueiro, o que pretende fazer com todas essas flechas?
— Lançar umas tantas atrás daquela parede. Seja o que for que está escondido ali, vai sair bem depressa, espere e verá.
— Mas e se for algum homem honesto que está ali? Ou uma pobre mulher com um bebê de colo?
— Um homem honesto sairia e mostraria o rosto. Só um fora da lei fugiria e se esconderia.
— Bem, é verdade. Então mande suas flechas.
Bran Stark ficou em pé de um salto.
— Não! — viu que eram três. Só três. Bran podia lutar com um, e Verão cuidava dos outros dois.
Eram homens a pé, sujos da viagem e salpicados de lama. Identificou o cantor pela harpa que embalava contra o gibão, como uma mãe embalaria um bebê. Um homem pequeno, de uns cinquenta anos, tinha a boca grande, o nariz marcante e cabelos castanhos que já rareavam. Suas roupas, de um verde desbotado, estavam consertadas aqui e ali com remendos de couro velho, e trazia na cintura um molho de facas de arremessar e, a tiracolo, um machado de lenhador.
O homem que seguia a seu lado era robusto, um metro e oitenta de altura, mas tem um jeito de curvar-se quando anda que o faz parecer muito mais baixo. Suas mãos são grandes, com os nós dos dedos vermelhos e sujeira debaixo das unhas. E ele tem o maior pé que Bran já tinha viu, nu e negro, e parecia duro como um chifre.
O último dos três era um jovem tão esguio como o seu arco, embora não fosse tão alto. Ruivo e sardento, usava uma brigantina com rebites, botas de cano alto, luvas de couro sem dedos e uma aljava a tiracolo. As penas de suas flechas eram de ganso cinza, e seis delas estavam espetadas no chão à sua frente, como uma pequena cerca. Os três homens olharam-no, ali, em pé, no meio da estrada, de espada na mão. Então o cantor tocou uma corda num gesto indolente.
— Rapaz — disse. — Abaixe já essa adaga se não quiser se machucar. Além disso, o Anguy aqui conseguiria atravessá-lo com três flechas antes de você pensar em nos alcançar.
— Não conseguiria nada — disse Bran. — Antes de você pensar em atirar a flecha, meu lobo atacaria.
— Seu lobo? — perguntou o cantor. Verão continuava escondido.
— Continue pela estrada afora — disse Bran. — Limite-se a andar adiante e continue a cantar, para que saiba onde está. Vá embora e deixe-nos em paz, e eu não os mato.
O arqueiro sardento soltou uma gargalhada.
— Septão, ele não nos mata, ouviu?
— Ouvi — disse o septão.
— Rapaz — disse o cantor. — Abaixe a adaga, que nós levamos você para um lugar melhor e colocamos alguma comida nessa barriga. Há muitos perigos nas terras fluviais. Não é lugar para um rapaz ficar vagueando sozinho.
— Ele não está sozinho — disse Meera saindo a cavalo de trás da parede do chalé, e Jojen veio atrás, trazendo o cavalo de Bran pela arreata. Com seu tridente na mão, Meera quase parecia uma guerreira, e perigosa. — Faça o que ele diz, e deixe-nos em paz — preveniu Meera.
— Três — contou o cantor — E é só isso? E também cavalos, lindos cavalos. Onde foi que os roubaram?
— São nossos — disse Bran, observando-os cuidadosamente. O cantor tentava distraí-lo com a sua conversa, mas o perigo estava no arqueiro. Se ele arrancar uma flecha do chão.
— Vão nos dizer seus nomes como homens honestos? — perguntou o cantor.
— Sou Jojen — Jojen disse de imediato.
Meera franziu a testa de cima de sua sela.
— Por que devo lhe dizer o meu nome? Ainda não ouvi o seu.
— Bom, não seja por isso, sou Tom, mas todos me chamam de Tom Sete-Cordas. Este septão tem o nome Meribald. E este jovem rapaz aqui é Anguy, ou Arqueiro, como gostamos de chamá-lo.
— E agora, quem são vocês? — exigiu saber Septão Meribald.
Ele não ia revelar seu verdadeiro nome assim tão facilmente. O apelido está de bom tamanho.
— Sou Bran — disse.
— Sou Meera — disse Meera.
Tom Sete-Cordas arrancou um acorde da harpa.
— Jojen, Bran e Meera. De onde vem?
— Isso importa? — Bran perguntou.
Mas Jojen interveio ansiosamente.
— Andamos à procura de Harrenhal — disse ele. — A quantos dias de viagem fica, vocês sabem?
Bran sentiu-se capaz de matá-lo.
— Harrenhal fica a uma longa distância — disse Tom. — A uma distância longa e faminta. Não querem uma refeição quente antes de seguirem caminho? Há uma estalagem ali adiante, não muito longe, que é de uns amigos nossos. Podíamos dividir umas cervejas e um pouco de pão, em vez de lutar uns com os outros.
— Uma estalagem? — pensar em comida quente fez a barriga de Bran trovejar, mas não confiava naquele Tom. Nem todo mundo que nos falava de forma amistosa era realmente nosso amigo. — Fica perto, você diz?
— Três quilômetros — disse Tom.
Meera parecia tão incerto quanto ele.
— O que quer dizer com amigos? — Meera perguntou com cautela.
— Esqueceu-se do que são amigos? — Tom disse. — O nome da estalajadeira é Sharna. Tem uma língua afiada e um olho feroz, admito, mas o coração é bom.
— Quem mais está lá? — Meera disse. — Você disse amigos.
— O marido de Sharna, e um garoto órfão que eles acolheram. Não lhe farão mal. Há cerveja, se achar que já tem idade. Pão fresco e talvez um pouco de carne — Tom olhou de relance para o chalé. — E mais o que quer que tenham roubado do jardim.
— Não roubamos nada — disse Bran. — Já estava abandonado.
— Você diz que está abandonado — disse o Septão Meribald. — Não é porque não há ninguém no local, que esta propriedade não tem dono. Se você tem uma cama e não está deitada nela no momento, não me dá direito de deitar na sua cama. Ela ainda é sua.
— Vamos ver essa estalagem — Bran admitiu, tentando esconder a dúvida que tinha no coração atrás de palavras ousadas. — Caminhem em nossa frente e nós seguiremos atrás a cavalo, para podermos ver o que estão fazendo.
Tom Sete-Cordas fez uma profunda reverência e disse:
— À frente, atrás, não faz diferença. Venham, rapazes, vamos mostrar o caminho. Anguy, é melhor guardar essas flechas, não vamos precisar delas aqui.
Bran guardou a adaga no cinto e atravessou a estrada até onde os amigos estavam a cavalo, mantendo distância dos três estranhos.
— Jojen, pegue essas couves — disse enquanto saltava para a sela. — E as cenouras também.
— Onde está Verão? — Meera perguntou.
— O mandei esconder atrás daquelas árvores — disse Bran. — Ele vai seguir nosso rastro sem os homens saberem. Se houver imprevistos, Verão ataca.
Puseram-se a caminho como ele quis, avançando lentamente com os cavalos ao longo da estrada sulcada, uma dúzia de passos atrás dos três caminhantes. Mas não muito tempo depois, de algum modo, estavam bem na cola deles. Tom Sete-Cordas caminhava devagar, e gostava de ir dedilhando a harpa à medida que avançava.
— Conhecem algumas canções? — perguntou-lhes. — Adoraria ter alguém com quem cantar, adoraria mesmo. O septão não consegue cantar afinado, e o nosso rapaz do arco só conhece baladas da Marca de Dorne, todas com cem versos de comprimento.
— Na Marca cantamos canções de verdade — disse Anguy.
— Cantar nessas matas é estupidez — disse Bran. — Cantar faz barulho. Ouvi você de muito longe. Podíamos ter matado você.
O sorriso de Tom indicava que ele não tinha a mesma opinião.
— Há coisas piores do que morrer com uma canção nos lábios.
— Esta floresta é nossa — disse o Septão Meribald. — Não se preocupe.
— Não sabiam que nós estávamos aqui — disse Meera.
— Garota, não devia ter tanta certeza assim — disse Tom. — Às vezes um homem sabe mais do que diz.
Um pequeno riacho desaguava um pouco mais à frente. Enquanto o atravessavam, a cantoria espantou um pato que estava no meio dos juncos. Anguy parou, pegou o arco, encaixou uma flecha e abateu-o. A ave caiu nos baixios, não muito longe da margem. O septão tirou o manto e entrou na água até os joelhos para recuperá-la.
— Acha que a Sharna terá limões lá embaixo, naquela adega dela? — perguntou Anguy a Tom enquanto observavam o septão na água. — Certa vez, uma garota de Dorne fez pato com limões para mim.
Tom Sete-Cordas reatou a canção do outro lado do riacho, com o pato já preso ao cinto do septão, por baixo de seu manto. De algum modo, a canção fez com que os quilômetros parecessem mais curtos. Não demorou realmente muito tempo até a estalagem aparecer à frente deles. Bran observou com suspeita ao se aproximar, de olhos semicerrados. Não parecia um covil de foras da lei, tinha de admitir; aparentava um local amigável, até mesmo acolhedor, com seu andar superior caiado e o telhado de ardósia e a fumaça que saía em preguiçosas espirais da chaminé. Estábulos e outros edifícios secundários rodeavam-na, e havia um vinhedo nos fundos, e macieiras e um pequeno jardim. A estalagem até tinha seu próprio ancoradouro, que se projetava pelo rio.
Desmontaram em frente aos estábulos. Não se via mais nenhum cavalo, mas Bran reparou no estrume fresco em muitas das cocheiras.
— Um de nós devia vigiar os cavalos — disse, cauteloso.
Tom ouviu.
— Não há necessidade disso, rapaz. Venha comer, eles vão ficar suficientemente seguros.
— Eu fico — disse Meera, ignorando o cantor. — Pode vir me buscar depois de ter comido alguma coisa.
Assentindo, Bran foi atrás de Jojen e Septão Meribald.
Lá dentro ficava a sala comum, onde uma mulher feia e muito alta, com um queixo protuberante, estava em pé, de mãos no quadril, encarando com ar zangado.
— Não fique aí parado, menino — exclamou. — Está bloqueando a porta. Ou entra ou sai. Septão, que foi que eu disse a respeito do meu chão? Você está pura lama.
— Abatemos um pato — Septão Meribald mostrou-o como uma bandeira de paz.
A mulher arrancou-o de sua mão.
— O que você quer dizer é que o Arqueiro abateu um pato — virou-se. — Marido — chamou, em voz alta. — Venha aqui pra cima, os rapazes voltaram. Marido!
Um homem com um avental sujo subiu a escada da adega, resmungando. Era uma cabeça mais baixo do que a mulher, e tinha o rosto grumoso e uma pele amarelada e solta, que ainda mostrava as marcas de um tipo qualquer de varíola.
— Estou aqui, mulher, pare de berrar. O que foi agora?
— Pendure isto — disse ela, entregando-lhe o pato.
Anguy remexeu os pés.
— Estávamos pensando em comê-lo, Sharma. Com limões. Se tiver alguns.
— Limões. E onde iríamos arranjar limões? Você acha que está em Dorne, seu idiota sardento? Ou você vai comer coelho, ou não vai comer. Coelho assado no espeto é o mais rápido, se tiver fome. Ou talvez o queira cozido, com cerveja e cebolas.
Bran quase conseguia sentir o gosto do coelho.
— Não temos dinheiro, mas trouxemos algumas cenouras e couves que poderíamos trocar com você.
— Ah, trouxe? E onde estão elas?
— Jojen, dê as couves para ela — disse Bran.
A mulher inspecionou bem os legumes.
— Marido! — o Marido tinha ido até lá fora, mas, ao ouvir o grito da mulher, apressou-se a voltar.
— O pato está pendurado. O que foi agora, mulher?
— Lave estes legumes — ordenou ela. — Os outros, sentem-se enquanto eu começo a cuidar dos coelhos. O garoto vai lhes trazer bebidas — olhou ao longo de seu grande nariz para Bran e Jojen. — Não tenho o hábito de servir cerveja a crianças, mas a sidra acabou. Tenho leite ou ficam à vontade para beber a água do rio.
— Eu aceito o leite — disse Bran.
— Eu também — disse Jojen.
— Tudo bem — disse Sharna, e desapareceu na direção da cozinha.
Anguy e Tom Sete-Cordas ocuparam a mesa perto da lareira, enquanto o septão pendurava seu grande manto num cabide. Jojen ficou num banco junto à mesa perto da porta, e Bran enfiou-se ao lado dele. Tom pegou a harpa.
— Uma estalagem solitária na estrada da floresta — cantou, inventando lentamente uma melodia que se adaptasse às palavras. — A mulher do estalajadeiro era feia como uma besta...
— Cale a boca, senão não vai ter coelho para ninguém — preveniu-o Septão Meribald. — Sabe como ela é.
O Marido entrou em grande correria pela porta da frente, com um avental cheio de legumes lavados.
— Há cavalos estranhos nos estábulos — anunciou, como se eles não soubessem.
— Sim — disse Tom, colocando a harpa de lado — São melhores do que os três que você deu.
O Marido deixou cair os legumes sobre uma mesa, aborrecido.
— Não os dei. Vendi por um bom preço, e arranjei também um esquife para nós, e, seja como for, o seu grupinho deveria tê-los trazido de volta.
Sabia que eles eram fora da lei, pensou Bran, escutando. A mão desceu para baixo da mesa e tocou a adaga, para se assegurar de que ainda estava lá. “Se tentarem nos roubar, vão se arrepender.”
Depois de passar dias bebendo de riachos e poças e, depois, do lamacento Tridente, o leite fresco tinha um sabor magnífico. Começava a vir da cozinha um cheiro que lhe enchia de água a boca, mas seus pensamentos ainda estavam em retomar o caminho. O criado voltou a aparecer com grandes pães redondos. Bran partiu um pedaço, esfomeado, e atirou-se nele. Mas era difícil de mastigar, estava espesso e grumoso, e queimado embaixo. Jojen fez careta assim que o provou.
— Este pão está queimado e duro — disse Jojen.
— É melhor quando há guisado para mergulhá-lo nele — disse o septão.
— Não é não — disse Anguy. — Mas com guisado é menos provável que quebre um dente.
— Podem comê-lo ou passar fome — disse o Marido. — Tenho cara de ser um maldito padeiro?
Tom sentou-se diante de Bran.
— Bran — disse ele. — Ou seja lá qual for o seu verdadeiro nome, isto é para você.
Pousou um pedaço sujo de pergaminho na mesa de madeira entre ambos. Ele olhou o pergaminho com desconfiança. Abriu e encontrou moedas.
— O que é isso?
— Trinta moedas de prata. Precisamos comprar aqueles cavalos.
Bran olhou-o com cautela.
— Os cavalos são nossos.
— O que quer dizer é que foi você que os roubou, não é?
— Os cavalos não são roubados — disse Bran.
Tom bateu com o dedo nas moedas.
— Estou lhe pagando um bom preço.
— Precisamos dos cavalos — disse Bran. — Não estão à venda.
Bran afastou-se da mesa e pôs-se em pé.
— Ei, calma. Sente-se. Estamos negociando...
— Nos atraíram até aqui para nos roubar? — Bran perguntou.
— Se algum dia tivesse encontrado verdadeiros assaltantes, saberia que eles nunca pagam. Não é para nós que levamos seus cavalos, é para o bem do povo, para que possamos nos deslocar mais depressa e travar as batalhas que precisam ser travadas.
— Que batalhas? Não estamos em tempos de guerra — disse Bran.
Estavam todos a observá-lo: o Arqueiro, o septão e o Marido, com seu rosto pálido e olhos esquivos. Até Sharna, que espreitava da porta da cozinha.
— A guerra de ideias não tem fim, rapaz.
— Não está à venda — disse Bran, embrulhando as moedas e devolvendo para Tom.
Tom Sete-Cordas fitou-o por um momento, e depois sua grande boca acolhedora torceu-se num sorriso deplorável. Riu alto.
— Bran! — o grito de Meera parecia esganiçado por causa do susto. A porta abriu-se de repente, e ali estava ele. — Soldados. Se aproximando, uma dúzia deles.
Jojen ficou em pé de um salto, derrubando a caneca de leite, mas Tom e os outros permaneceram imperturbados.
— Não há motivo para derramar leite no meu chão — disse Sharna. — Volte a se sentar e acalme-se, garoto, o coelho vem aí. Você também, rapaz. Nós vamos mantê-lo a salvo o melhor que pudermos.
A única resposta de Bran foi estender a mão para a adaga, mas antes de tê-la meio desembainhada, Septão Meribald agarrou seu pulso.
— Não vamos ter mais nada disso — torceu-lhe o braço até que sua mão se abriu. Os dedos dele eram duros, cheios de calos, e terrivelmente fortes.
A outra mão de Bran, livre, fechou-se em volta de sua caneca e brandiu-a contra o rosto do septão. O leite saltou por cima da borda e derramou-se para dentro dos olhos dele. Quando ele soltou um urro, levou as mãos ao rosto, e Bran viu-se livre.
— Vamos, Jojen! — gritou, saltando.
Mas Septão Meribald logo caiu de novo sobre ele. Bran retorceu-se e esperneou, mas ele o pegou sem esforço e manteve-o pendurado enquanto o sangue corria por seu rosto.
— Pare com isso, rapaz — gritou, sacudindo-o de um lado para o outro.
Meera fez um movimento para ir ajudá-lo, mas parou quando Tom Sete-Cordas se pôs à sua frente com um punhal. A essa altura, já era tarde demais para fugir. Ouvia cavalos lá fora, e o som de vozes de homens.
Um momento mais tarde, um homem entrou, pela porta, um tyroshi, com uma grande barba espessa, pintada de verde vivo nas pontas, mas crescendo grisalha. Atrás dele veio um par de besteiros. E mais homens vieram depois. Os homens traziam espadas, machados e arcos. Um ou dois deram olhadelas curiosas para Bran ao entrar, mas nenhum disse uma palavra. Um homem zarolho com um elmo redondo e enferrujado farejou o ar e sorriu, enquanto um arqueiro com a cabeça cheia de duros cabelos loiros gritava por cerveja. Depois, chegou um jovem de cabelos castanhos escuros e olhos cinzentos mais escuros, quase negros. Tinha um rosto bonito, e um corpo esguio e forte.
— Jon? — sussurrou Bran. E era. Sob a barba que deixara crescer encontrava-se o rosto de seu primo, bastardo do Rei Rhaegar com sua tia Lyanna. Estava mais magro, de certo modo mais duro, e em Winterfell nunca tinha usado barba. — Jon! Sou eu — contorcendo-se, atirou-se para frente, tentando se livrar da mão de Septão Meribald. — Não me reconhece?
Os olhos de Jon Snow desceram para o rosto de Bran.
— Bran?
Por um momento, Bran não soube como responder.
— Sim.
Os olhos de Jon esbugalharam-se.
— Pelos deuses — disse, numa voz emocionada. — Saiu dos pântanos do Gargalo? Septão, largue-o.
— Ele acertou meu nariz — disse Septão Meribald largando-o sem cerimônia no chão. — Quem, com os sete infernos, é que ele deveria ser?
— Ele é Brandon Stark — disse Jon Snow. — Filho do Senhor de Winterfell. Meu primo.
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