Notas iniciais
eu fiz sozinha '-' então se parecer com alguma conhecida, não foi intencional.

Um

Eu com certeza odeio quando chega o entardecer. Tipo assim, não que eu odeio o pôr-do-sol, a noite e essas coisas. Mas, de fato, é nessa hora que os hormônios – os humanos chamariam assim – começam a ferver em mim e eu preciso fugir. O problema é esse: para onde?

A maioria dos humanos não sabe de nossa existência – se é que alguém sabe. Para eles, o entardecer é apenas outra parte comum do dia. (Cara, como eles são burros!) Mas não é bem assim.

Minha avó acha que não há muitos de nós por aí. Na verdade, a cada cinco gerações nasce um de nós (ou seja, minha mãe, minha avó, minha bisavó e a avó de minha bisavó não eram como eu, mas minha avó entende muita coisa sobre isso. Aliás, acho que ela sabe tudo)

Minha mãe morreu quando eu nasci. Tenho duas teorias para isso. Primeira: ela não suportou a dor e morreu. Segunda: ela morreu de uma doença, sei lá. E se a primeira for verdade, eu a matei. É, praticamente.

E foi tipo assim que aconteceu: estou fazendo a lição de casa com minha melhor amiga Katheryn (sinceramente, não sei pra quê existe ensino médio!) e ouço o uivo de um alfa no vento. Minha expressão deve ter ficado tipo “ahn? O que está havendo e por que agora?” e Katheryn balançou os braços para me trazer ao normal.

– Kyla, – ela arqueou uma das sobrancelhas – você está legal?

– Ahn, estou. Eu preciso ir, Kate.

– Certo. Te vejo amanhã?

– É.

Joguei o material de qualquer jeito na mochila, dei um beijo no rosto de Kate. Saí às pressas de sua casa e segurei a vontade de me transformar. A força com que os hormônios me atingiram foi grande e é preciso ser muito forte para controlar a transformação.

“Vamos, Kyla” pensei. Minha casa não era tão longe. Eu morava em um tipo de aldeia perto de uma floresta à alguns metros de Shoshone (é, eu morava em uma floresta) e nos mudamos (minha avó, minha tia, meu irmão e eu) para Seattle há cinco anos. É difícil me transformar por aqui, mas não impossível.

Josh – meu irmão de doze anos – diz que prefere Seattle, mas eu ainda prefiro Shoshone. É muito mais calmo e...

“Droga!” bufo enquanto atendo o celular que vibra desesperadamente no bolso do jeans desgastado. É minha avó.

– Oi vó.

– Kyla, preciso de você aqui. Venha logo.

Atravessei as duas quadras com velocidade incrível e minha avó estava à minha espera. Sorri e ela me fez um gesto para entrar em casa. Entrei e joguei a mochila no sofá.

– Kyla, você fez o chamado?

– Não. Eu vim para casa por causa disso.

– Então quer dizer uma coisa: você precisa se transformar.

– Não posso. É difícil controlar e...

– Vá. Corra até o rio ou floresta mais próximo possível. Volte ao amanhecer.

– Mas e o Josh e o vovô?

– Não se preocupe. Vá!

Fui para meu quarto e me olhei no espelho. A garota do espelho tinha um corpo esbelto e os longos cabelos negros presos em uma trança. Nos olhos cor de chocolate viam-se um lobo e a pele morena era quente. “Efeito dos hormônios” pensei. Subi na janela e saltei com um rosnado na garganta. Passei a mão no pescoço até chegar ao peito, onde ficava o pingente de lobo de meu colar.

Corri sobre duas pernas até os hormônios me tomarem de novo. Um rosnado é solto e o fogo se alastra em minha pele. Os pelos surgem e a transformação começa. Corro sobre quatro patas com velocidade sobrenatural. Ninguém notava o grande lobo branco correndo pela cidade. O vento parece um uivo de novo e eu aumento a velocidade. Kate gostaria disso.

Um aperto no coração que é meio humano, meio animal surge ao pensar em Kate. Se ela soubesse disso não sei se me aceitaria. Balanço a cabeça e continuo a correr. Posso ouvir os espíritos dos lobos ancestrais em minha mente.

“Muito bem, Kyla. Continue. Deixe os hormônios te guiar.”

A voz era de minha bisavó. Ela sabia muito sobre isso e sua avó foi uma loba. Continuei correndo sem saber aonde ia.

“Siga o chamado do alfa.”

O uivo no vento ecoou outra vez e eu tentei ser mais rápida.