Lobisomem Trouxa
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Notas iniciais
Foi uma semana horrível. Além do cansaço entre faculdade e trabalho, o corpo de Jacob esteve febril todas as noites. As articulações e sua mandíbula doíam e queimavam e ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Parte dele sabia, ou tentava não saber, mas era impossível acreditar naquilo que Clance tinha falado. Ele tentou agradecer por ter sido salvo, deixou uma cesta de chocolates e sachês de cappuccino na portaria do prédio. O porteiro não fez cara de que ia entregar, mas ele torceu pelo melhor. A verdade é que era difícil demais encarar Clance, encarar essa loucura de monstro em beco e livros estranhos.
Jacob não queria ser burro, foi no hospital, se testou para raiva e tétano. Disse que tinha sido atacado por um cachorro grande. Os resultados vieram limpos, mas ele tomou algumas injeções por precaução e pegou a receita pra antibióticos. Ele preferiu se enganar e continuar. O que lhe sobrou foi torcer para que aquilo fosse só uma bactéria no machucado do ombro e logo iria melhorar.
Ainda assim, sua cabeça voltava para o quarto de Clance o tempo todo. Os potes estranhos, o livro, o caldeirão. Jacob tinha uma colega de faculdade que era Wicca, mas não era a mesma coisa. Ela só misturava várias ervas com achocolatado em pó em uma chaleira vermelha e bonita e parecia se levar muito a sério. As coisas de Clance eram diferentes. Elas pareciam bastante usadas e sérias e Jacob não reconheceu nenhum dos livros que haviam na casa. Nenhum deles parecia ter saído da sessão de 'esotéricos' de uma livraria. Com uma busca rápida na internet não encontrou nenhum livro parecido com a envelhecida cópia de "Estudos Avançados no Preparo de Poções" que ele notou na mesa de cabeceira de Clance naquela fatídica manhã.
Depois de várias páginas de busca encontrou um site estranho: AVERDADESOBREBRUXAS.COM. Era um desses sites estranhos que pareciam ter sido montados por um adolescente meio doido. Falava sobre bruxas vivendo debaixo dos olhos de todo mundo, sobre escolas feitas para deturpar crianças e ensiná-las a viver em meio a feras e monstros bizarros. E falava também sobre uma guerra que aconteceu no final dos anos 90, junto com vários vídeos postados com borrões de pessoas desaparecendo do nada e jornais cujas fotos se mexiam. O site terminava seu dito 'dossiê' com um email e uma conta para os quais deviam ser depositados 300 libras para que o autor revelasse as outras 100 páginas de seu dossiê. Jacob se sentiu idiota, bloqueou a tela do celular e voltou pro trabalho.
Tinha desperdiçado seu intervalo.
*****
Clance não conseguia esconder sua preocupação. Seu pai notou logo de cara quando chegou para visitá-lo.
— Meu deus, que cara azeda é essa?
—Nada.
— Eu não devia te entregar a caixa de bombons que chegou pra você então?
Ele desanuviou o rosto um pouco. Já começava a desembrulhar a caixa e pegar um dos bombons, depois estendeu para o pai. O homem, apenas alguns centímetros mais alto que o filho usava um terno com risca vermelha, no lugar da tradicional risca branca de giz. Seus olhos eram cor de âmbar e ele usava várias argolas nas orelhas e uma na sobrancelha. Ele trazia vários quitutes e roupas que a mãe havia mandado.
— Eu peguei assim que entregaram, por pouco o seu porteiro não guarda dentro de uma gaveta. Do jeito que ele ficou sem graça acho que não ia te entregar.
— Ah, ele faz isso mesmo. Sabe quem entregou?
— Não, mas vi um garoto de cabelo cacheado virando a esquina. Mas mudando de assunto, não vai arrumar seu nagô pra primeira semana de aula?
— Nah — ele ajeitou o cabelo enquanto ia para cozinha esquentar água para fazer os cappuccinos — acho que vou ficar com as tranças mesmo. Gostei assim.
— Certo. Não esquece que esse é um ano importante pra você, ok? Os Excede Expectativas são importantes pra poder arrumar um emprego digno. As coisas não andam mais tão boas como há dez anos atrás, quando eu entrei no ministério. A nova ministra é ótima, mas algumas coisas andam desestabilizando os empregos.
— Não preocupa pai, eu vou me esforçar. Vai dar certo.
Ele disfarçou a preocupação na voz e resolveu desviar o assunto, não queria magoar o pai.
— Er, pai, você sabe alguma coisa sobre lobisomens?
— Não muitas, Clance, muitos deles sumiram desde que Voldemort caiu. Assim como muitos deles estavam do lado dele durante a guerra. Bom, com exceção de alguns poucos. Porque a pergunta?
— Não, nada... Achei que podia ajudar alguém.
O pai fitou o filho enquanto tomava goles do cappuccino quente com cheiro de canela. Ele sabia que Clance escondia muitas coisas, mas que eram sempre boas intenções e vontade de ajudar os outros.
— Olha, eu tenho um telefone que pode te ajudar. Ele é velho, mas é um ótimo amigo. Trabalhou pra Gringotes boa parte da vida. Vou de deixar o número do telefone. Bruxos como ele não confiam na rede de Flu.
Clance ficou sem graça com a confiança que o pai depositava nele. Fez a promessa mental de tirar as melhores notas daquele ano.
— Obrigada Pai.
O homem ajeitou os cabelos, deu outro abraço no filho, deixou a xícara do cappuccino numa mesinha e partiu. Prometeram se encontrar no dia que o trem saia para o primeiro dia de aula, o que seria em duas semanas. Clance pegou o bilhete com o número, alcançou o celular e começou a discar.
O telefone tocou diversas vezes antes de alguém atender. Uma voz cansada e um pouco rouca podia ser ouvida do outro lado da linha.
— Pois não?
— Senhor Bill, (Gui)?
—Ele mesmo.
— Ah, que sorte encontrar o senhor em casa. Eu sou filho de Eddie Simmons que trabalha na Seção de controle de mau uso de artefatos trouxas
Ele ouviu um suspiro um pouco triste do outro lado do telefone.
— Ah, desculpa, olha eu não quero te ocupar muito. É só que um amigo, um conhecido foi atacado por um lobisomem num beco esses dias e eu estou um pouco preocupado. O silêncio que se passou depois disso fez Clance sentir vergonha até de existir.
— Consegue trazer ele aqui no hotel no Beco Diagonal? Fleur está de consultora num caso e estamos aqui esta semana. Você deu sorte.
— Acho que consigo sim. Mil desculpas te ocupar.
— Sem problemas, só não se esqueça de vir. Te espero até terça de tarde.
Desligaram com as respectivas despedidas cordiais.
Clance dormiu ainda mais agitado naquela noite. Era ótimo, pensou com ironia, tudo o que precisava fazer era levar um trouxa no Beco diagonal. Ótimo.
Do outro lado da cidade Jacob também se revirava na cama.
— Bruxos, hahaha, que ótimo. Agora eu só preciso acreditar em bruxos.
Um calafrio desceu por sua espinha, a lua minguante parecia estar iluminando todo seu quarto.
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