Loba Solitária
1 O descanso da guerreira
Notas iniciais
Mais um dia exaustivo se encerrava. Bem, ao menos era sexta-feira. Ela abriu a porta de seu apartamento, atirou a bolsa ao sofá e caminhou até a cozinha. Precisava urgentemente de um copo com água, bem cheio e gelado. Por mais que tivesse feito o caminho do trabalho para casa no conforto de seu carro, encarar o trânsito da cidade em horário de pico era estressante e cansativo. As horas que passava tentando driblar o engarrafamento sempre a obrigavam a ter de esperar um pouco mais para sentir o precioso líquido molhar-lhe a garganta ou para descansar em sua cama.
Abriu a porta da geladeira satisfeita e sentiu-se imensamente revigorada depois de matar a sede. Fechou a porta do eletrodoméstico novamente e saiu saltitando pelo corredor, rumo ao seu quarto. Naquele cômodo decorado com excelente gosto, onde a cor branca predominava, estava o seu mundo, assim como o restante daquele imóvel. A sensação de liberdade que aquele lugar lhe proporcionava era tão incrível que chegava a deixá-la extasiada de tão feliz. Ali era onde descansava, após as horas estressantes que passava trancafiada em um escritório; ali era onde a certeza de que era dona do próprio nariz era constantemente reafirmada; ali ela mandava, desmandava, criava, trabalhava, planejava, desenhava. E não havia ninguém para interferir.
Caminhando até o banheiro, livrou-se das roupas sociais e, após entrar no box, ligou o chuveiro, aproveitando os pingos frios de água que escorriam pelo seu corpo, levando embora todo o cansaço do dia. Seu emprego não era totalmente ruim: o salário era razoável e o seu superior reconhecia a boa profissional que era. Ainda assim, o trabalho que executava exigia um grande esforço de sua mente e quando se via fora daquele prédio executivo... Ah! Que imenso alívio! Alívio que se tornava completo quando fazia exatamente o que estava fazendo agora.
Após o banho, vestiu uma camisola branca e retornou a cozinha, desta vez com o intuito de preparar algo para comer. Não costumava jantar, dando preferências a lanches rápidos à noite. Ralou uma cenoura, acrescentou queijo e peito de peru picados, passas e misturou-os a maionese. E assim estava pronto o seu sanduíche natural. Em seguida, encheu um copo de suco de umbu e, colocando tudo em uma bandeja, partiu para a sala. Ali chegando, acomodou-se no sofá e ligou a televisão, escolhendo o canal que exibia o seu programa favorito. Desta forma, estava feito o seu happy hour.
Ela lançou um olhar à janela, cujo vidro lhe transmitia uma rápida ideia de como devia estar sendo a noite lá fora. Sorriu e, de repente, o programa de televisão pareceu perder o interesse. Ela começou a se perder em seus devaneios. Devaneios que tinham a ver com a sua vida. Com a sua personalidade.
Ela era jovem. Ela era bem resolvida. Ela tinha atrativos. Moças como ela deveriam estar aproveitando a noite de sexta-feira na balada ou num barzinho, cercadas por amigos ou na companhia de um namorado, não é verdade? Bem, não necessariamente.
Nunca fora de ter muitos amigos. Sempre fizera o estilo “loba solitária”. Enquanto seus colegas de trabalho rumavam para os agitos que a noite de sua cidade oferecia, ela era uma daquelas pessoas que preferiam a tranquilidade de sua casa. Um namorado não lhe fazia falta, no momento. E ela sentia-se feliz como estava. Gostava de viver a sua vida sozinha, por mais que as pessoas a achassem estranha ou infeliz. Mas ela não era. Ela apenas gostava de ter o seu próprio espaço, e não esquecia seus amigos ou deixava de visitar a sua família por isso. Apenas vivia da maneira que era a sua marca registrada: com independência.
Com apenas dezoito anos, havia criado coragem e saído de casa para morar numa espécie de república com mais cinco garotas. Com planejamento e muito trabalho, conseguiu alugar um pequeno apartamento aos vinte. E agora, com vinte e sete, havia conseguido um emprego melhor e um apartamento mais confortável. E então, tornou-se adepta do estilo de vida solitário.
Ela ainda mantinha um sorriso no rosto e o olhar fixo à janela quando saiu de suas reflexões. Ainda com o mesmo sorriso, perguntou-se se um dia passaria a preferir uma vida mais... Como as pessoas diriam... Sociável. Talvez. Mas por enquanto, o aconchego de seu lar e os momentos de paz que só ele lhe proporcionava eram tão agradáveis!
Abriu mais ainda o sorriso. Estava plenamente satisfeita com a sua vida.
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