Lições de Irmã(o)
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mais uma one por aqui. É FreLou, tá? (Sim, Fred Weasley II e Louis Weasley, me deixem ser feliz)
Espero que gostem ♥
Lições de Irmã(o)
Capítulo único
Para todos os homens, caras, garotos e derivados, uma lição que aprendi da pior maneira: mulheres, por mais esquisitas e loucas que pareçam, são dignas de louvor. Principalmente se são suas irmãs.
Por favor, me diga que eu não era o único a não entender as cinco horas que as garotas passam no banheiro para arrumarem-se. Me diga que eu não era o único a discutir constantemente com minhas irmãs mais velhas, sendo pela posse do controle remoto da TV, times de Quadribol (é, Dominique e Victoire adoram Quadribol tanto quanto eu), o tempo que minha segunda irmã mais velha ocupa o meu banheiro enquanto minha outra irmã está usando o delas ou até por nenhum motivo aparente.
Porque sim, garotas começam a discutir por nada em certo período do mês. Nesse período elas parecem mais propensas a matanças e discussões seguidas de crises de choro ou de riso, principalmente minhas irmãs. Eu nunca havia entendido isso, até me tornar uma delas.
É, estou falando sério.
Sempre fui o Weasley mais desastrado, (excetuando o Teddy, é claro. Aquele cara tem os genes certos para isso) então foi só uma questão de tempo até que eu realmente fizesse algo que me causasse danos na aula de Poções. Acho que Mérlin resolveu tirar proveito da minha pessoa para rir um pouco fazendo-me de objeto de divertimento, principalmente para meus primos. De quebra, aprendi coisas com minhas irmãs que nunca esqueci e melhorei consideravelmente minha relação com elas.
O caso é que eu acidentalmente respirei a fumaça que emanava do meu caldeirão, onde pó de semente de girassol fervia junto a uma asa de borboleta. O professor Slughorn havia claramente avisado, muitas aulas atrás, que não deveríamos cheirar a mistura até adicionarmos o próximo ingrediente. Mas que culpa tenho eu? Era a última avaliação de Poções daquele ano e eu estava extremamente nervoso. Já ficara pendurado em Poções por todos os quatro anos que passei em Hogwarts, não poderia errar daquela vez.
Bom, os efeitos do meu ato estúpido foram bastante rápidos: depois de tossir bastante, eu espirrei. Instantaneamente senti meu corpo diminuir alguns centímetros, deixando meu uniforme mais folgado em alguns lugares e extremamente apertado em outros. Senti uma ausência estranha, como se meu pênis tivesse sumido. Estranhei, mas eu ainda precisava terminar a poção. Deixaria para investigar o que diabos havia acontecido com meu corpo depois que acabasse o teste, mas o garoto da minha casa que dividia a bancada comigo desviou seu olhar para mim no momento errado e exclamou assustado:
— Louis?! O que aconteceu com você?!
Imediatamente todos os olhares da sala se voltaram para mim, inclusive o do professor. Senti o desapontamento dele ao encarar-me, enquanto os sonserinos e grifinórios riam, os corvinos reviravam os olhos e os lufanos se assustavam.
— Este, meus caros, é o efeito de aspirar a fumaça de pó de semente de girassol fervendo junto a uma asa de borboleta. Sua nota acabou de cair consideravelmente, sr. Weasley.
— Espera, o quê? E-eu... Troquei de gênero? — perguntei espantado em uma voz ridiculamente fina que arrancou risadas de todos, abaixando o olhar para meu corpo. Eu acabara de adquirir peitos e minhas mãos estavam delicadas e femininas, como as de Dominique ou de Victoire. O que era aquilo, pelo amor de Mérlin?! — Isso tem antídoto, não é? — acrescentei aquela pergunta à minha lista de coisas urgentes a serem resolvidas.
— Infelizmente, sr. Weasley, levarei pelo menos um mês para concluir o antídoto. Até lá...
Mas eu não estava mais ouvindo o que o velho Slughorn falava. Arregalei os olhos, estático. Como assim?! Eu era uma menina!!! Pelas calças cor de rosa de Mérlin, por quê?!
Ouvi então as risadas dos meus primos, Lily e Hugo, no balcão atrás de mim. Oh, como eu estava ferrado.
***
Estávamos chegando. Eu já podia ver a estação 9 e ¾ pela janela da cabine onde eu estava sentado junto com alguns amigos, Lily e Hugo. Eu ainda era uma menina, e estávamos chegando perto de onde começaria meu inferno pessoal.
Evitei meus primos do sétimo ano por todo aquele dia desde a aula de Poções; era humilhação demais. Mas agora, voltando para casa, teria que aguentar as duas queen bees supremas o verão todo e lidar com esse corpo estranho, além de tentar não perder a calma com o senso de humor incrivelmente idiota de James Sirius e Fred II.
Por que isso, Mérlin?! Por que as coisas não poderiam estar no meu controle, como sempre estiveram?
— Boa sorte lá, Lou. — disse Carlie, uma corvina sorridente que era minha melhor amiga. Lancei-lhe um olhar de desespero e nos levantamos quando o Expresso de Hogwarts parou. Lily e Hugo tentaram ao máximo suprimir as gargalhadas que eu sabia que eles dariam assim que chegassem em casa, mas apenas revirei os olhos e andei à frente deles pelo longo corredor do trem.
Eu estava usando uma camisa branca bastante larga, a peça de roupa esquisita que Lily havia me emprestado (como é mesmo o nome? Saliã? Sutiã?) segurando meus, argh!, peitos. Meu cabelo estava solto e bem penteado, como sempre, e Lily também havia me emprestado calças femininas (é, porque eu havia tentado usar minhas calças normais só para achar a falta de pênis mais desconfortável ainda por causa do espaço que sobrara) com uma estampa roxa e cinza. Eu colocava um casaco preto que comprei há muito tempo, já que ventava bastante na minha casa, quando esbarrei em uma pessoa bastante alta.
Caí sentado no chão, o volume de bunda recém-adquirido fazendo com que eu não me machucasse. Olhei para cima, prestes a matar alguém, quando vi a mão estendida e o olhar preocupado de Fred II.
— Por Mérlin, me desculpe! — ele disse, me ajudando a levantar. — Eu estava desatento, desculpa mesmo. Você está bem?
Eu estava prestes a dar uma resposta mal-criada quando percebi o olhar do meu primo sobre mim. Ele não estava me reconhecendo?!
— T-tudo bem. — gaguejei naquela voz fina de garota. Ele sorriu aliviado, e só então pareceu notar Lily e Hugo atrás de mim.
— Quem é sua amiga? — perguntou aos dois, que gargalharam alto.
— Você não reconheceu, Fred? É o... — Lily começou, mas eu adverti-a com o olhar.
— Meu nome é Louise. E você é o Fred, certo? Primo deles... — eu havia pensado na hora: Por que não? Pelo olhar dele, eu estava bastante bonita (ou bonito? Ainda não sei dizer). Brincar um pouco com meu primo não seria má ideia, certo? Dar o troco por toda a zoação que eu receberia.
— Fred Weasley II, a seu serviço. — ele sorriu, claramente galanteador. Francamente, ele não pode ver uma ‘garota’ nova?! — Você vai passar as férias onde?
— Ahn... Eeer, vou para a casa da Dominique. — eu disse, corando um pouco — Também somos amigas. Você sabe onde ela está, por falar nisso?
— Hmm... Acho que a vi se pegando com o McLaggen dez cabines à frente. — ele coçou a cabeça — Por que eu não acho que tenha te visto em qualquer lugar de Hogwarts? Que casa você é?
— Sou Lufa-Lufa. — Por que mentir para Fred estava sendo engraçado, mas mentir a casa de Hogwarts é sujeira. Não há honra em mentir a casa. — Acho que é porque eu fico muito tempo perto do lago da lula-gigante. — Eu ri, a risada saindo bastante estranha por causa da voz de garota. Aquela era outra verdade. A lula era bem divertida no verão, e subir na grande árvore próxima de lá para estudar ou desenhar era incrível. Ninguém me perturbava quando eu estava lá, nem mesmo Dominique. Eu adoro a água, e o lago era minha conexão com o mar que banhava os arredores da minha casa enquanto estou em Hogwarts.
— Ah. — Fred sorriu de lado, parecendo sem saber direito o que fazer. — E-eer... Se você quiser, talvez nós possamos sair qualquer dia nas férias...
Quase comecei a gargalhar. Ele realmente estava caindo?
— Huh, obrigada. — sorri, imaginando que aquilo seria algo meigo a se fazer. — Sim, podemos sair sim. Agora vou procurar a Domi, foi um prazer!
Desviei do corpo alto do meu primo e segui em frente, Hugo e Lily alguns passos atrás de mim.
— Ficou louco, Louis? — o garoto sibilou em meu ouvido. — No que você está se metendo?
— Apenas pregando uma peça no primo, Huguinho. Relaxe. — eu sussurrei, rindo um pouco.
— Eu concordo com o Hugo, Louis. Brincar assim com os sentimentos do Fred não é legal. — ela disse séria.
— Ele é só mais um pegador de Hogwarts. Você deveria saber disso, Lily. Seu irmão é um deles.
— James é sim um galinha, Louis. Mas o que você deveria saber é que Fred só beijou uma garota a vida toda, e fui eu. — eu e Hugo olhamos espantados para ela. — Parem de me olhar assim, gente. — riu — Eu tinha treze, e ele estava bem bêbado. Confessou que nunca tinha beijado ninguém e me deu um selinho depois que eu o levei até o dormitório dele.
— Então toda aquela pose é só fingimento? — admirei-me.
— Ele nunca disse que tinha ficado com alguma garota de Hogwarts. As pessoas só assumem isso por ele andar com James, Dominique e Molly. Eles sim são os pegadores da escola. — Lily explicou — E agora, Louis? Qual o seu argumento para continuar com essa farsa?
Eu bufei irritado, mas não tinha resposta alguma. Por que eu tinha feito aquilo mesmo?
— Eles me zoariam se descobrissem. — falei simplesmente, abrindo a porta da cabine que Fred havia indicado e me deparando com a cena desagradável de minha irmã com a língua enfiada na garganta de um cara. — Hey, maninha!
Dominique largou o McLaggen e ergueu a sobrancelha para mim.
— Quem é você?
— Louis Weasley, seu caro irmãozinho. — sorri sarcasticamente. Ela olhou-me com a testa franzida.
— O que diabos aconteceu com você?
— Longa história. — respondi, dando de ombros — Agora vamos. Eu aparentemente tenho um encontro com Fred Weasley II daqui a alguns dias.
***
Para minha sorte, meus pais não estavam junto com o resto da família na Plataforma 9 e 3/4. Eram só eles e Victoire, que aparentemente havia brigado com Teddy e por isso insistira em não vê-lo na plataforma quando fossem nos receber.
— Louis, o que aconteceu com você?! — espantou-se minha mãe, que reconheceu-me logo que eu e Dominique nos separamos de Lily e Hugo para nos aproximarmos dos nossos pais. Provavelmente porque eu havia tropeçado no espaço entre o trem e o chão, consequentemente causando uma cena por quase ter caído de cara, mas isso não vem ao caso.
— Digamos apenas que minha nota em Poções caiu mais do que o esperado. — eu disse, naquela voz fina de garota. Percebi Victoire e meu pai segurando-se para não rir, mas permaneci quieto.
Nós cinco saímos pela plataforma e aparatamos, apenas eu acompanhado. O Chalé das Conchas estava exatamente igual a quando eu o deixei, em setembro do ano passado. Como todos os outros anos, simplesmente larguei meu malão e minha coruja em meu quarto e corri descalço para fora. Sem me importar com a bronca que levaria de Lily por molhar a calça dela de água salgada, deitei-me com tudo na área onde as ondas se encontravam com a areia e fechei os olhos. Por um segundo, sentindo a brisa marinha e ouvindo o som do vai-e-vem das ondas, esqueci da situação consideravelmente esquisita do meu corpo. Um mês, tinha dito o professor Slughorn. Um mês como garota. Não deveria ser tão ruim, certo?
— Louis? — ouvi uma voz feminina me chamar. Não respondi, rindo de leve quando a água alcançou-me. Senti então uma presença de pé ao meu lado direito, e abri os olhos para encontrar Victoire olhando-me com um sorriso. Não um sarcástico como o de Dominique nem um de pena como o do meu pai, mas um verdadeiro.
— Oi, Vic.
— Senti saudades suas, sabe. — ela falou, olhando-me com seus perfeitos olhos azuis e seu rosto meio veela.
— Conta outra. Ninguém sente falta de mim. — repliquei, emburrado. Ela riu levemente, negando tudo o que eu falei com a cabeça.
— Somos irmãos, seu lufano maluco. Eu sinto sim sua falta. — abaixou-se ao meu lado, provavelmente tentando ser gentil sem sujar o vestido florido que usava, e despenteou mais meus cabelos molhados. — E sabe, não acho que ser garota por um mês seja tão ruim assim. Talvez você passe a nos entender melhor. — ela presenteou-me com mais um de seus sorrisos doces — Agora levante daí, você vai arruinar as calças de Lily.
***
— Ele não vai usar minhas roupas! — Dominique, a histérica, gritava mais uma vez. Estávamos os cinco reunidos na sala, minha doce irmã sendo a única de pé além de mim. Eu obviamente não podia sentar-me porque estava molhado dos pés à cabeça, e a minha queridíssima irmã de cabelos pintados estava irritada demais para permanecer sentada.
— Por que não? Ele é seu irmão, Dominique. — minha mãe disse, gesticulando com a mão esquerda. Ela, estranhamente, estava calma. Falava como se estivesse simplesmente cansada de discutir, tendo como consequência o sotaque francês mais carregado.
— Olhe o que ele fez com as roupas da Lily! — ela apontou um dedo acusador para mim, o pobre garoto molhado até os ossos. Ou garota, como meu corpo diria. Mas eu, em minha mente... Ah, tanto faz. — Minhas roupas dizem quem eu sou, já que ninguém aparentemente vê isso em mim! Ele só usará minhas roupas por cima do meu cadáver!
— Ouça, Dominique. O que você acha que aconteceria se fosse você a ser transformada em garoto? — Victoire, claramente a voz da razão entre nós três, argumentou — Quem você acha que emprestaria as roupas?
— Eu não sou como ele. — Dominique replicou, dessa vez sem gritar, sarcasticamente. — Não sou idiota o bastante para fazer algo assim com meu corpo. Não vou emprestar roupas para alguém que pode estragá-las. Não estou nem aí se o tamanho do seu sutiã não cabe nele, Victoire. Se é tão amiguinha assim, se não se importa com seus vestidinhos de patricinha, empreste você as roupas. — ela falou tudo isso em um fôlego só e em um volume baixo o bastante para que eu duvidasse que meu pai, sentado no lado extremo da sala e apenas observando a discussão, tivesse ouvido.
Assenti, sorrindo como se a agradecesse.
— Tudo bem. Sem problemas com isso, Dominique. Apenas lembre-se que você ainda é minha irmã, certo? — eu disse e então passei pelo corredor que levava até o meu quarto. Deixei o resto da minha família para lá, pois eu realmente iria adquirir uma gripe se não tomasse banho e tirasse aquelas roupas molhadas logo. Eu me resolveria com Lily sobre as roupas estragadas depois.
***
Dominique passou a ignorar completamente a minha existência miserável pelas duas semanas inteiras que se seguiram ao nosso retorno para casa. Nesse meio tempo, eu:
Desenhei bastante, principalmente os rostos de Victoire e dos meus pais junto com o mar.
Beijei uma coruja.
Dormi 'pra caramba'.
Assisti algumas partidas de Quadribol na TV.
Recebi uma carta de Fred Weasley II.
Cutuquei um dragão adormecido.
Usei as roupas de Dominique sem a permissão da mesma.
Okay, saiba que nem tudo dessa lista é verdade. Mas sim, eu realmente recebi uma carta do meu primo ex-grifinório. Eu não sabia que seria possível, já que dera um nome falso (quer dizer, quase falso) para ele. Aparentemente a mentira toma conta de você e se torna quem você é, certo? E sim, ele realmente parecia afim de mim. Eu não sabia se ficava feliz ou me jogava da Torre de Astronomia assim que voltasse para Hogwarts, porque... Bem, ele era meu primo e eu estava mentindo para ele! Não, é claro que não tinha nada a ver com o fato de ele ser um dos caras mais cobiçados pela população feminina (e uma parte da masculina, deixando bem claro) de Hogwarts e ter dado bola justamente para mim, um garoto no corpo de uma garota.
Respondi à carta tremendo com o enorme peso da culpa em meus ombros. Depois de alguma troca de cartas, concluímos que o melhor lugar para nos encontrarmos seria em um shopping trouxa com um cinema incrível para assistirmos o último filme de super-herói lançado. É, temos o amor por quadrinhos em comum. E um amor quase incondicional por pipoca de cinema. E uma série de outras coisas que eu não sabia sobre ele.
Mas não é como se eu realmente quisesse saber de tudo, não é? Nem como se eu estivesse inconscientemente lembrando de cada frase que ele dizia nas cartas a cada minuto do dia, certo?
Fala sério, quem eu estou querendo enganar? Eu realmente estava caidinho por ele. O que era um problema, já que a constatação acabou levando a milhares de questionamentos sobre a minha sexualidade e se tudo aquilo não era parte dos hormônios femininos que de repente circulavam pelo meu corpo. Essa crise existencial, como todas as que eu tive ao longo dos anos de minha vida, acabou com um apoio familiar vindo de um lugar bastante diferente do usual. E foi no mesmo dia em que minha crise foi solucionada que eu aprendi algo com minha irmã.
Usando apenas uma camisa larga e cuecas, sentei-me no parapeito da janela do meu quarto com meu caderno de desenhos e um lápis. O meu encontro seria na tarde do outro dia, uma sexta-feira provavelmente ensolarada, e eu estava quase surtando com tantas perguntas e a ansiedade. Mas eu sempre esvazio a mente quando estou desenhando, então aquela era minha melhor opção. Calei todas as dúvidas que sondavam minha mente e comecei a desenhar um rosto aleatório na folha em branco que eu abrira. Primeiro o formato do rosto, depois o nariz e os olhos. Parei um pouco para ver o pôr do sol e acendi a varinha quando escureceu o bastante para ficar impossível de enxergar qualquer coisa, fazendo as linhas de expressão e a boca. Quando terminei os últimos sombreados do rosto, encarei no papel o retrato perfeito de Fred Weasley II. Joguei o caderno para o lado, grunhindo com frustração. Estava sentindo uma dor intensa, bem próximo da minha barriga. Isso estava me desconcentrando e irritando bastante.
— Desenho bacana. — ouvi.
Levei o maior susto e caí para fora da janela, de cara na areia. Respirando forte, ergui-me e olhei para dentro.
— Por Mérlin, Dominique! — reclamei, tirando rapidamente o caderno da areia (ele também havia caído) e subindo de volta para a janela. Minha irmã, as mechas cor de rosa do seu cabelo ressaltando a diferença entre nós, riu levemente.
— Desculpe. — ela falou e eu percebi que não se referia somente ao susto que acabara de me dar. Assenti com um meio sorriso.
— 'Tá tudo bem.
Ela sorriu de volta e olhou de novo o desenho em minhas mãos.
— Me conta direito toda essa história de encontro com o Fred. — pediu, sentando-se comigo no parapeito. Sentimos a brisa marítima em nosso rosto por alguns momentos, até eu desatar a falar sobre tudo. Desde o nosso encontro no trem até as cartas que trocamos e meus sentimentos confusos, omitindo algumas informações pessoais de Fred que, bom, eu era egoísta demais para compartilhar.
— Caraca, maninho! — Dominique riu alto quando acabei meu relato — Aparentemente a brincadeira tem agora um fundo de verdade, huh? — ergueu uma sobrancelha e apontou para o desenho — Ou vai me dizer que ele ter vindo parar no seu precioso caderno foi só coincidência?
Eu suspirei, sabendo que ela estava certa. É aqui, meu amigo, onde você percebe que sempre deve ouvir as mulheres. Elas fazem as coisas serem bem mais simples (na maior parte do tempo, claro) e têm uma perspicácia incrível.
— Pois é. — concordei a contra-gosto, mirando os olhos que deveriam ser profundamente azuis no papel. — Nunca pensei que eu fosse, sabe...
— Gay? — ela sugeriu e eu assenti, levemente envergonhado — Papai já sabe sobre isso?
Neguei com a cabeça. Estava com vontade de começar a chorar, mas não faria isso na frente de Dominique e ainda mais como garota.
— Nossa família é bem de boas com isso, sabe. — ela acrescentou, tentando me alegrar um pouco. Poderia ser um pouco estranho eu ter aberto meu coração justamente para Dominique, principalmente depois dela ter feito aquela cena duas semanas atrás. Mas é minha irmã, não? Irmãos fazem isso.
— Eu sei, mas e se tudo isso for coisa dos hormônios femininos confundindo meu cérebro? E o que vou fazer sobre o Fred? Não acho que...
— Não acha que ele seja gay? Que ele vá continuar a gostar de você quando contar a verdade? Porque sim, Louis, o que está sentindo não é apenas uma ilusão causada por hormônios. Qualquer tolo pode ver isso a quilômetros de distância. — ela despenteou meu cabelo, sorrindo levemente sarcástica.
— Sim para as duas alternativas e okay, aceitei minha condição. O que eu faço, sério? — falei, minha voz algumas oitavas mais aguda devido ao desespero.
— Se quer um conselho, eu digo: conte a verdade, não importa o que aconteça. Eu sei que você pensa mais do que eu quando se trata da realidade, mas você tem que aprender a não pensar. — ela frisou a palavra negativa e eu franzi as sobrancelhas — É, você ouviu direito. Não pense. Amanhã, no seu encontro, não pense. Se pensar e pré-meditar tudo e ficar com 'mimimis' do tipo "e se der errado?", vai aumentar em noventa por cento a chance de realmente dar errado. Se joga, garoto! Sempre haverão riscos, mas acredite: é melhor se machucar algumas vezes sabendo que pelo menos tentou do que pensar demais e, quando estiver velhinho e revendo sua vida, pensar: 'Se apenas eu...'
Àquela altura eu já estava chorando descontroladamente, então eu apenas abracei minha irmã e ri por entre as lágrimas.
— Citando Castle enquanto me dá um conselho, Domi?
Ela riu junto comigo, despenteando meu cabelo enquanto retribuía meu abraço.
— Sempre. — fez uma voz grave e sotaque americano, citando novamente o seriado trouxa que nos unia.
— De um jeito estranho, você é uma boa irmã. — constatei em voz alta. Ela sorriu e desvencilhou-se do abraço, descendo do parapeito e atravessando o cômodo até a porta. Olhou de volta para mim, ainda sorrindo. Percebi a pequena pilha de sutiãs e outras roupas femininas em cima da minha cama.
— Obrigada por me lembrar disso, Louis.
***
— Seria considerado grosseria se eu risse muito alto agora? — Domi perguntou com a boca distorcida em um sorriso.
— Eu realmente preciso de sua ajuda agora, então você poderia pelo menos uma vez na vida me ajudar? — falei um pouco (muito) alterado. Talvez eu estivesse fazendo uma cena, mas quem liga? Eu estava um pouco sentimental demais... E exagerando... Mas o que você espera quando por mágica (literalmente) você se torna uma garota? E ainda mais com quantidade inimaginável de sangue saindo da sua... sua... sua coisa feminina? E quando isso está acontecendo no dia em que você vai sair com o cara que você no começo estava apenas brincando, mas pelo qual acabou se apaixonando?
Minha digníssima irmã começou a gargalhar como se eu fosse um palhaço.
— Desculpe, mas é impossível de te levar a sério com essa voz.
E aquela era Dominique: séria e grande conselheira em algumas situações, mas histérica e inútil em outras.
— Falando sério, esse sangue todo é normal? — eu estava completamente nu (ou nua, já que meu corpo dizia que eu era uma garota) na porta do banheiro do meu quarto, enquanto Domi rolava de rir na minha cama. Havia sangue por todo o banheiro, sangue escorrendo pelas minhas pernas, e faltavam exatamente duas horas para meu encontro com Fred. Então vocês podem ver que minha loucura estava sendo bastante justificável.
— É sim, Lou. Relaxe. — ela disse, voltando à pose de irmã conselheira. — Entre no chuveiro, tome um banho. Vou limpar tudo isso e depois te explicar o que é um absorvente. — ela sorriu de lado, provavelmente pensando que tudo aquilo estava sendo extremamente engraçado.
Confesso, hoje eu rio bastante com as memórias daquela cena e das que se seguiram. Um eu extremamente confuso com todas as abas e as explicações sobre de onde vinha todo aquele sangue, juntamente com o nervosismo do encontro e a indecisão sobre que roupa da Domi usar. A discussão que eu e Victoire tivemos sobre usar ou não maquiagem. Eu me olhando no espelho e quase não identificando a garota bonita do reflexo como sendo eu mesmo.
E, finalmente, o momento em que eu soltei a mão da minha irmã e saí do beco escuro para onde aparatamos, sozinho com meus pensamentos. Segui pela rua até o shopping trouxa combinado, tentando não ligar para o rebuliço no meu estômago e a sensação incômoda do rímel em meus cílios; desliguei-me completamente do mundo ao ver o garoto moreno sorrindo em minha direção. Ouvi as vozes de minhas irmãs em minha mente, me dando conselhos, e consegui manter uma conversa decente com Fred a noite toda. Ele é extremamente divertido e também adora falar durante o filme, como eu.
Céus, teria tanta coisa para contar quando voltasse para casa.
***
— Você se divertiu?
— 'Pra caramba'. Ele é incrível.
— O que aconteceu?
— Nada demais. Não beijei ele, se é o que quer saber.
— Acha que tem chance?
— Ainda não sei como ele me deu uma chance, sério. Um cara incrível que nem ele deve ter milhares de garotas ao redor.
— Só sabe dizer que ele é incrível?
— 'Tá bom: ele é divertido, engraçado, inteligente. Curtimos as mesmas coisas, temos as mesmas opiniões sobre muita coisa mesmo. Melhor assim? Posso voltar a resumir e chamá-lo de incrível?
— Own, adorei. Mais um casal de primos se formando!
E foi essa a conversa que tive assim que cheguei em casa, praticamente flutuando em uma bolha de felicidade. Meu encontro havia sido fantástico, mesmo meu dia tendo começado horrível, e eu estava nas nuvens. Até meu pai interromper o nosso feliz diálogo de garotas para perguntar, estourando minha bolha e dissipando minhas nuvens:
— Já contou a verdade a ele, Louis?
— Don't rain on his parade, pai! — Domi replicou de imediato enquanto Vic abraçava-me pelos ombros depois de ver minha careta estática de choque e decepção. Meu pai não era um daqueles caras super conservadores que deserdaria os filhos caso os mesmo se assumissem gays, mas ele odiava mentiras.
— Você precisa contar a ele, Louis. Um relacionamento à base de mentiras não dura uma só estação. — meu pai afirmou com firmeza e depois voltou à leitura do Profeta Diário, claramente esquecendo da nossa existência. Nós três o encaramos com olhar ferido por alguns segundos, até ele sorrir para si mesmo e levantar a cabeça para nos brindar com uma risada.
— Vão, crianças. Sejam meninas animadas em outro lugar.
***
E foi isso.
Como vocês puderam ver neste relato, eu aprendi algumas coisas como garota e, principalmente, aprendi coisas sobre minhas irmãs. Mas eu sei que você está roendo as unhas para saber o que aconteceu comigo e com meu romance bastante esquisito com Fred Weasley II, então eu não encerrarei esta história onde eu queria. Eu sei, sou uma pessoa bem legal mesmo.
Eu e Fred saímos outras duas vezes, para uma pizzaria que ambos adoramos e um tour pelas lojas geeks da Londres trouxa. Já passávamos tempo demais imersos no mundo bruxo, tínhamos concluído em uma das diversas cartas que trocamos ao longo das semanas, para nos encontrar em lugares bruxos e clichês. Mas eu ainda tinha que seguir o conselho do meu pai e o de Domi, certo? Contar a verdade...
— Lou! Você vai para o aniversário da Roxy, não é? — ouvi Vic perguntar da porta do meu quarto. Eu, para variar, estava jogado no chão com as mãos sujas de tinta para pergaminho enquanto terminava um experimento artístico em meu caderno.
— Mas não é só para meninas? — eu indaguei, levantando a cabeça para encarar a loira em pé na minha porta.
— Você é teoricamente uma menina, certo? E joga no mesmo time. — ela riu com a minha careta incrédula. Eu sempre tive curiosidade para saber o que tanto as garotas falam nessas festas do pijama, então acabei me animando. Mas, como vocês vão perceber daqui a pouco, eu não fiquei sabendo de muita coisa.
Às oito, então, fiz aparatação acompanhada com Domi e aparecemos na esquina de uma rua trouxa nos arredores de Londres. Vic apareceu logo depois e fomos andando até o prédio azul que era onde Roxy (e Fred, claro) morava. Eu não me preocupei em encontrá-lo lá, até porque sabia que Roxanne já havia dado um jeito de expulsar todos os homens da casa desde as 18h.
Subimos de elevador até o apartamento de número 07 (sim, aquele prédio só continha apartamentos 'um por andar') e tocamos a campainha. Uma Roxy sorridente abriu a porta, mas seu sorriso extinguiu-se no minuto em que pôs os olhos em mim. Ela me fuzilou com o olhar, e pude ver que ela respirava fundo na tentativa de se controlar enquanto nos guiava para dentro de casa.
Chegamos à sala, onde Lily, Molly, Lucy e Rose já se encontravam. Lucy monopolizara o balde de pipoca, enquanto Molly e Rose debatiam algum livro e Lily procurava uma música de que gostasse no aparelho de som que estava perto do sofá.
— Meninas, essa aqui é a... — Dominique começou, mas Roxy interrompeu, olhando ameaçadoramente para mim:
— Corta essa, Domi. Sabemos quem ele é.
Eu arregalei os olhos. Se a Roxy sabia...
— Não, Louis. Não se preocupe. Eu não revelei sua farçazinha para o meu irmão. Ainda. — sibiliou ela. Olhei diretamente para Lily, que tinha culpa estampada em sua testa e sorria amareladamente. Abaixei o olhar, me preparando para o discurso da minha cunha... prima.
— Me desculpa, Roxy. É que eu...
— Olhe para mim, porra! — ela gritou, puxando meu rosto para cima violentamente. Victoire e Dominique deram um passo à frente, mas eu neguei com a cabeça. — Olha para mim e me diz que você não queria só brincar com ele! Fala! — ela continuou, sorrindo sarcasticamente.
— Eu não queria...
— MENTIROSO! — rugiu, e então eu não vi de onde veio o tapa que deixou a marca vermelha de cinco dedos no lado direito do meu rosto.
— ROXANNE! — gritaram Dominique, Victoire e Molly ao mesmo tempo. Eu estava anestesiado, chocado demais para falar ou fazer qualquer coisa, mas percebi que ela continuaria a me bater se Molly e Rose não tivessem-na arrastado até o quarto dela e Domi e Vic não me ajudado a voltar à vida.
— Não liga para ela, Louis. Ela... — Lily tentou falar, mas eu a encarei com dor. Lágrimas escorriam livremente pela minha face, e eu apertei os lábios.
— Ela está totalmente certa. E é por isso que dói. Muito obrigado, Lily. — eu a interrompi, me afastando dela no sofá. Vic já havia sumido dentro da cozinha, provavelmente para pegar gelo para o meu rosto, e Domi examinava minha face. Lucy apenas observava chocada um ponto no final da sala, que passou despercebido por causa de toda aquela cena.
Eu fui o primeiro a olhar para descobrir o que ela tanto observava, e me senti perder totalmente a cor do rosto. Fred Weasley II nos observava encostado à parede de entrada da casa, os olhos marejados e um olhar de desapontamento diretamente direcionado a mim. Molly e Lily franziram as sobrancelhas para o meu olhar chocado, e também olharam para o ponto onde ele estava. Ambas arregalaram os olhos e se levantaram. Lily foi a primeira a falar:
— Há quanto tempo você está aí?
— Tempo suficiente. — ele deu de ombros, ainda me encarando com o olhar ferido. Ele desencostou da parede e andou até a mesa de centro, em frente à nós. Então pegou um aparelho celular na cor azul que eu não havia reparado até aquele momento. — Tinha esquecido isso.
E, sem dizer mais nada, deu as costas para nós e caminhou até a porta do apartamento, batendo-a com força ao sair. O barulho desencadeou em mim uma nova crise de choro, com direito a soluços e a murmurar coisas na linguagem do choro, língua esta que só garotas entendem:
— Ele me odeia agora, não é? Eu o amo, meu Mérlin. Por quê?
Domi começou a acariciar meus cabelos, enquanto eu me encostava em seu ombro para chorar. Ouvimos então uma batida na janela. Molly caminhou até ela e a abriu. Era uma coruja com um pacote endereçado à mim.
— É do Slughorn. — ela disse, sorrindo tristemente. Eu peguei o pacote, enxugando algumas das lágrimas com as costas da minha mão, e sorrindo desesperançoso quando me deparei com a poção de cor verde e o breve bilhete:
O antídoto para a troca de gênero. – HS
— Bebe logo e vai atrás dele, Louis. — Lucy finalmente se pronunciou, sorrindo docemente. Eu suspirei e ia contestar quando Domi disse, olhando falsamente raivosa para mim:
— O que eu disse sobre não pensar, Louis Weasley?
Eu assenti, um pequeno sorriso tomando conta do meu rosto, e bebi a poção de um gole só. Senti meu corpo mudar de forma que nem na vez anterior, e eu já me encaminhava para a porta enquanto sentia meu pênis voltar para o lugar. Transfigurei as roupas femininas que vestia em roupas de homem (depois as devolveria normalmente para Domi) e esperei o elevador chegar.
Foi a descida mais longa da minha vida. Eu batucava com o pé direito nervosamente, e perdera a conta de quantas vezes eu me olhara no espelho e arrumara o cabelo. Respirei fundo quando o elevador se abriu, e olhei para todos os lugares possíveis naquela portaria atrás de Fred. Nada; ele deveria ter aparatado.
Perdi totalmente as esperanças. Ele poderia estar em qualquer lugar.
Abri a porta principal do prédio, pronto para correr a Londres trouxa inteira atrás dele, quando percebi o vulto solitário encolhido na parede do edifício, a alguns metros de onde eu estava. Até onde eu sabia poderia ser um mendigo, mas ao me aproximar mais um pouco a luz fraca do poste da esquina da rua me fez reconhecer o olhos azuis e a pele morena pelos quais me apaixonara. Ele olhava para o céu, seus olhos levemente vermelhos por causa do choro refletindo a luminosidade da lua quase cheia.
— Fred. — chamei, me aproximando devagar e estranhando minha voz repentinamente de volta ao normal. Talvez ele gritasse comigo, como fizera a irmã dele lá em cima; naquele momento, eu não sabia mais de nada.
O ex-grifinório abaixou o olhar e me encarou por alguns segundos. E então, para minha completa surpresa, ele sorriu.
— Oi, Lou.
Encorajado por essa recepção, sentei-me ao lado dele.
— Olha, eu... — comecei, mas ele fez que não com a cabeça e eu me calei.
— Sabe, Louis... Eu estava realmente com raiva lá em cima. — ele sorriu de lado — Me desculpe por ter saído daquele jeito.
— Espera. Eu menti para você e você me pede desculpas?! — eu o interrompi. O rapaz moreno revirou os olhos, ainda com aquele sorriso em seus lábios.
— Quer calar a boca e me deixar falar? — ergueu uma sobrancelha e eu assenti com um olhar de desculpas — Muito bem. Me desculpe por ter saído daquele jeito, mas eu estava totalmente confuso e a mentira me machucou bastante. — eu olhei para o chão, ainda envergonhado — Sabe, passei algum tempo pensando aqui embaixo e cheguei a esta conclusão: eu só reagi daquele jeito porque não sabia o jeito que eu te olharia quando você voltasse a ser você mesmo.
— Eu não entendi. — falei, franzindo as sobrancelhas. Ele riu.
— Muito bem, eu realmente vou ter que falar. — Fred tocou em meu rosto, fazendo-me voltar o olhar diretamente para ele. A intensidade daqueles olhos azuis me pegaram desprevenido, e eu teria me perdido neles se o dono não tivesse voltado a falar — Estou apaixonado por você, Lou. Mas eu tinha me apaixonado primeiramente pela Louise, então eu não sabia se quando você voltasse a ser você eu ainda seria apaixonado por você ou não. — Meu coração parecia que ia sair do peito, de tão forte que ele batia. Ele sorriu, provavelmente sentindo o mesmo, e eu gaguejei um pouco ao perguntar:
— E q-qual foi a sua conclusão?
Ele inclinou a cabeça para o lado, ainda com aquele sorriso incrível que poderia iluminar uma cidade inteira, e ergueu as sobrancelhas; era como se me dissesse: ‘Você ainda não sabe?’
E, para meu coração sair pela boca de vez e para a completa resposta da minha dúvida, ele se aproximou e colou seus lábios nos meus.
Notas finais
Curtiram? Comentem! Tem algo de que não gostaram? Comentem! Eu deveria desistir do yaoi e voltar pro hétero? Me digam, tá?
Até mais, pessoinhas ♥
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