Livros e rotinas

1 Capítulo Único


— Remus...

— Oi. – Frio.

Nem mesmo havia largado o livro, limitando a um levantar de sobrancelha para afirmar que prestava atenção.

Diante meu silêncio, consegui seus olhos, embora estes somente piscassem sem compreender o motivo pelo qual lhe chamei.

Todavia, eu não havia chamado.

Amava a sonoridade desta pequena palavra que tanto alegrava meu coração. Podia repeti-la por infinitas horas, mas confesso certa felicidade por estar sendo mirado pelo seu rosto confuso, mesmo ciente sobre como você reclamaria se eu ousasse repetir.

Você piscou uma, duas vezes... Logo desistindo.

Voltando a leitura. Isto me deixava um pouco enciumado já que, provavelmente, este amontoado de papel era mais interessante do que eu.

Certo, você precisava se preparar para a reunião de amanhã. No entanto, era o nosso momento, quinta à noite, naquela sala. Nunca teríamos esta quinta à noite outra vez e o que você fazia?

Eu não iria reclamar, pelo menos não em voz alta, e não desta vez, pois isto havia motivado nossa discussão no mês passado e foi quase impossível tirar você do sofá.

Abraçando a almofada, confesso que jamais havia imaginado que nos tornaríamos adultos. Pior ainda, que você aceitasse o meu convite e viesse viver comigo na antiga mansão da minha família. As lembranças do seu carinho me motivaram enquanto estive em Azkaban, por isto, acredito que agora deveríamos esquecer o mundo e viver em pleno amor.

Todavia, lendo este maldito livro, você permanece sem olhar para mim.

Outra vez, deitando no sofá seu nome escapa pelos meus lábios, por um inocente acidente.

Incomodado, você maleia a cabeça, logo virando a página e continuando a leitura.

Arrisco ler o título e outro livro chato sobre coisas de adultos. Eu sei, eu também sou adulto e deveria me interessar nestas coisas chatas, mas eu só quero conversar com você. Eu só me interesso em você. É errado isto?

— Remus...

— Sirius, se você me chamar outra vez, sem motivo, juro que arremesso este livro em você.

— É... O Harry disse que viria passar o natal...

— Estamos em julho.

— Mas o tempo passa tão rápido e... – Outra vez, perdi sua atenção.

Droga! Droga! Droga!

Eu me espreguiço, levanto, vou na cozinha e bebo um copo de água. Recostado contra a porta, permaneço te observando, ainda concentrado naquele estreito sofá.

Penso em lhe fazer um chocolate, mas não faz uma hora desde que terminamos de jantar.

Certamente, você dispensaria.

Abro as gavetas do armário, as gavetas da pia... Nada fora do lugar para que eu possa te avisar. E o pior, ontem também foi assim, e anteontem.

Como eu odeio a rotina.

Como eu odeio esta maldita rotina.

Voltando ao sofá paralelo, deito, adormeço, aguardando-o terminar. Absorto em seu próprio mundo, aos poucos, sinto que já perco meu lugar.

Ignorando-me, logo você irá me esquecer.

Hoje mesmo, até um pequeno livro parece mais importante para você.

Pisco, meus olhos estão cansados e você, permanece lendo. Arrisco balbuciar seu nome, todavia, já não é audível, assim como o significado da nossa relação.

Sucumbindo, entrego-me a letargia. Pelo menos, em sonhos, busco lhe reencontrar. Ao menos assim, dentre quimeras, eu ainda posso lhe abraçar.

— Sirius... – Tocando o ombro de leve, sinto certo calor próximo ao meu rosto. Acostumando-me com a pouca claridade, reparo seu sorriso iluminado por uma pequena vela. – Feliz aniversário... – Você sussurra baixinho, como se fosse um segredo ou houvesse mais alguém ali além de nós.

Olhando para o pequeno cupcake, onde jazia uma fina velinha, você permanece ansioso sorrindo para mim.

— Achei que você não me amasse mais.

— Você é bem dramático, Sirius. – Camuflo a satisfação, e embora bastante feliz, não revelo, faço bico e você parece prever.

Colocando o cupcake sobre a mesa de centro, você senta na beirada do sofá e, imediatamente, lhe dou as costas. Afinal, estou magoado. Decepcionado. Fui injustamente julgado. Por todo este tempo, sofri calado, para ser rotulado de dramático. Ah, Remus, isto não vai sair barato para você.

— Sabe, Sirius. – Você admite cansado, cobrindo meu corpo com o seu, a voz findando em si. Ainda assim, você explica. –Agradeço pela rotina, pois sei que irei lhe encontrar todos os dias... Eu senti tanta saudade, quando... – Você não continuou, todavia eu poderia completar aquelas palavras amarguradas que lhe induziram a levantar tristonho. Um suspiro profundo, tão pesado como o mundo a levitar... O necessário silêncio. Puxando de leve o tecido da minha camisa, você chama com a manhosa irritação. — Vem pra cama! É estranho dormir sem você.

— Você não dormiu na semana passada inteira?

— Por isto eu sei que é bastante estranho. Sendo dramático como você, posso dizer: aquela foi a pior semana da minha vida. – Eu fito seus olhos de carinho e um pequeno sorriso escapa dos seus lábios, enquanto admite vencido. – Eu ainda te amo, Sirius.

— Ainda? Pretende não me amar mais um dia?

Você não responde apesar do seu riso parecer suspeito.

Depositando um casto beijo em minha bochecha, repousa sua mão sobre a minha, transmitindo aconchegante carinho que só sua presença é capaz.

Ah, Remus! Isto não vai sair barato para você. Todavia, como hoje é meu aniversário, deixarei para cobrar da próxima vez.

Sentando no sofá junto a ti, observo a pequena velinha queimar e desejo que jamais esta maldita rotina venha nos abandonar. Afinal, ela é o que nos une. Embora, exista chocolate, tédio e alguns livros, o importante é que ela faz com que você fique aqui comigo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!