Será que ainda existem pessoas vivas nessa cidade Nieta?

Espero que sim, senão os zumbis já,já irão aparecer...

Vai brincando vai — sorri Emma.

A cidade é bem mais estranha do que parece. Nunca tinha vindo para esses lados da cidade, e agora que estou aqui meu coração está quase saltando pela boca.

Acho que a biblioteca fica por ali... Mas acho que se agente descer por essa estradinha vamos cortar caminho... — explica Emma enquanto coloca a toca na cabeça.

Você já veio aqui alguma vez Em?

Já, há uns três anos atras, mas nada está diferente... Ainda continua com cheiro de animal morto e flores do campo.

A Emma teve a quem puxar. Seus pais eram super aventureiros e com ela não poderia ser diferente. [...] Depois de andarmos por uns dez minutos finalmente chegamos. A velha biblioteca parece um daqueles bares falidos de filmes de faroeste. Mas a minha maior preocupação foi que não tivesse mais ninguém naquele lugar. Mas tinha. Uma senhora de cabelos brancos, pele enrugada e tatuada, roupas de panos ricos e finos, brincos e colar de pérolas, um salto de uns três centímetros pretos e unhas grandes e pintadas de vermelho; dentre alguns dedos se armazenava um cigarro recém aceso.

Posso ajudá-las? — perguntou a senhora.

Ah... Na verdade estamos procurando alguns livros novos... — explicou Emma. — A senhora poderia nos indicar alguns?

Hmm... Deixa eu dar uma olhadinha por aqui...

Eu e Em nos olhamos enquanto a senhora andava no meio de duas fileiras de livros empoeirados.

Psiu, Mocinha! — chamou a senhora.

Oi... — falei.

Que gênero vocês procuram?

Ah... Aventura, suspense, Terror... Esse tipo, sabe?

Então as mocinhas são corajosas não é? — falou a senhora olhando fixamente para nós. — Bom, tenho um excelente livro aqui — falou ela estendendo a mão e me entregando um livro grande, empoeirado e de capa dura.

Retirei um pouco da poeira que se formara na capa do livro e rapidamente surgiu pequenas letras douradas '' O outro lado do paraíso'' por incrível que pareça eu acho que já vi este livro em algum lugar... Ou talvez seja só coincidência.

O outro lado do paraíso? — desdenha Emma. — Que tipo de livro é esse? Só pode ser piada — gargalha Emma.

Creio que a senhorita já deve ter escutado este ditado ''Não julgue um livro pela capa'' — falou a senhora colocando o cigarro no cinzeiro.

Não estou julg...

Antes que Emma completasse a frase, uma voz masculina bem familiar surgia a poucos metros atras de nós.

Mamãe já guardei aquelas tranqueiras que a senhora pediu — falou o moço.

Não acredito! Aquele cara que tentou nos assustar na floresta é filho dessa senhora! Ai meu Deus... Agora o dia ficou completo mesmo.

Não são tranqueiras! Aprenda Nicolas, são artigos de luxo para Vernianos! — falou a mulher áspera. Agora fico me perguntando: O que será ''Verninanos''? E... O nome do garoto é Nicolas? Sério? Esse é o nome do meu avô...

Bom meninas esse é meu filho mais novo, Nicolas...

A surpresa dele foi a mesma que a nossa quando ele olhou diretamente para nós. Foi como se ele tivesse visto dois fantasmas.

Ah... A senhor mencionou alguma coisa sobre ''Vernianos'' o que exatamente é isso? — perguntou Emma.

Bom, Vernianos são pessoas que acreditam que os escritos de Júlio Verne são reais. É como se fosse um clube... Mas é claro que hoje em dia existem poucos vernianos no mundo. — falou ela acendendo outro cigarro.

É como se fosse uma ceita? é isso? — perguntei.

Não é bem uma ceita, até porque nunca conseguimos conhecer o próprio Júlio pessoalmente. Apenas tínhamos cartas escritas por ele e claro, seus livros. Mas como tudo isso surgiu é uma história bem longa que não pode ser contada para não-integrantes. — finalizou ela soprando a fumaça. — Nicolas, pegue alguns biscoitos e três xícaras de café cheias, as moças precisam comer alguma coisa.

Enquanto Nicolas — que mais parecia um empregado do que filho — pegava as xícaras e as enchia com café e colocava os biscoitos em pequenos pratinhos de porcelana eu o ajudava a levar tudo para a pequena mesinha de centro que ficava na frente de dois sofás macios e bem conservados e de duas pequenas poltronas de veludo verde musgo.

A senhora gosta de tatuagens? que radical.. — comentou Emma. Mas dava para ver que ela não gostava. Uma senhora tão elegante como ela não poderia gostar desse tipo de coisa. E as tatuagens dela não faziam sentido. Era uma frase bem grande no braço esquerdo, escrito com tinta preta e com letras miúdas. — O que está escrito ai em? — pergunta Emma mais uma vez.

Minha mãe é uma...

E antes que Nicolas pudesse completar a senhora deu um grito que fez eco dentro da biblioteca.

NICOLAS! CALE-SE!

Desculpe-me mamãe... É que...

É QUE NADA! VÁ JÁ LÁ PARA BAIXO ARRUMAR AQUELA BAGUNÇA!

Sim senhora — falou o menino caminhando rapidamente de cabeça baixa em direção da porta dos fundos. Um silêncio se fez por uns instantes. Mas logo foi quebrado com um pedido de desculpas.

Desculpem-me por este escândalo.. É que esse menino as vezes me irrita! É nessas horas que sinto falta do Richard.

Um pequeno silêncio se formou novamente

Desculpe, mas quem é Richard? — pergunto.

Richard é o meu falecido marido... Mas não quero falar sobre isso — levantou-se secando as lágrimas que escorriam do olho esquerdo. — Então meninas, já decidiram que livro vão levar?

Sim, eu vou levar este aqui e a Emma vai levar o que a senhora indicou.

Este livro é bom mesmo senhora...

Watson... Meu nome é Charlotte Watson... Mas podem me chamar de Charlotte. — falou ela. — E sim, este livro é ótimo! vai abrir sua mente para um mundo completamente novo.

Tudo bem então... Vou levar este.

Tudo bem, só esperem um pouco porque preciso registrar a saída destes dois livros. Saída? Sério? Ela fala como se muitas pessoas viessem aqui.

Ok. Agente espera — responde Emma.

Enquanto ela registrava os livros e Emma a enchia de perguntas, reparei que nas paredes estavam dois quadros pendurados. Um homem e um garoto. Ambos estavam com a mesma tatuagem da Charlotte no braço. Será que é algum tipo de ceita? ou é apenas uma tatuagem de família? Bom, seja o que for, isso é muito estranho, estranho mesmo.