Notas iniciais
Narradora: Sarah Localização: planeta Terra

Fazem três anos que estou no Metrô. Eu tive uma infância normal, como a das menininhas da minha cidade. Exceto pelo fato de eu ser órfã. Diria que suportei bem esse fardo, pois eu tinha bons amigos.

Vivi com minha avó até completar a idade correspondente ao primeiro ano escolar. E nesse período fui vizinha de uma família de sobrenome Crorn, que tinha dois filhos, Benjamin e Josef. Ben foi meu melhor amigo. Diria que jamais terei outro amigo como ele. Mas Josef foi o único menino do qual já gostei. É fato que jamais fui tão próxima de Josef quanto de Benjamin, só que...
Fui mandada a escola interna do distrito onde morava. Essa escola era dirigida por freiras. Dizia minha avó que era o primeiro passo para me tornar irmã, que era o que ela queria para o meu futuro. Não preciso dizer que isso estava longe do que eu sonhava para mim. Eu era daquelas conservadoras que quer casar, ter filhos, cuidar da casa, ter um cachorro e uma empregada. Se dependesse da minha avó, eu jamais a seria.

O internato era um lugar horrível. Além de acordarmos e deitarmos com o sol, de as aulas serem um castigo desse homem que as freiras tanto amam e de ter que dividir um claustrofóbico cômodo com mais duas alunas que desejavam tornar-se aquilo, eu sofria muitas advertências. Advertências essas que eram severamente punidas. Eu via a relação entre as torturas historicamente católicas e aquela escola. Com o passar do tempo e o aumento das punições, eu desenvolvi uma força invejável. Ia e voltava da sala da direção com a mesma expressão facial e corporal. Se não fossem por todas as marcas que exibia pelo corpo, ninguém acreditaria pelo que passava. Eu me acostumei e já aceitava o futuro que me aguardava.

No final de semana em que fiz quinze anos, voltei para a casa de minha avó. Ela me recebeu com um bolo feito em casa e uma notícia que fez minhas pernas bambearem e eu me perguntar se a vida tinha um ódio reciproco por mim.

– Benjamin e Josef... Mortos? — minha voz sumiu por um instante e voltou em forma de gurnido. Não era possível. Esse tal de Deus só pode tá zoando com a minha cara. Eu nunca tive nada que eu quis na minha vida. Nunca tive se quer escolha. E agora, as únicas pessoas a quem eu amava tinham sido tiradas de mim. Nem uma única lágrima escorreu por meus olhos. Eu estava seca. Eu estava cheia de ódio. O que estava acontecendo comigo? Algo fez com que cacos de vidro voassem até mim.

Um arco havia quebrado a janela. Eu o peguei, antes que um cara enorme, de cabelos loiros e pele bronzeada, com umas asinhas minúsculas pudesse adentrar minha casa. Aquele era, tipo... O Cupido? Eu ri do monstro. Simplesmente dei risada. Ele estava ali, na minha frente, esperando que eu o atacasse e eu rindo. O ser do qual eu ria tornou-se mais vermelho a cada instante. Ele estava se enfurecendo.

Eu lembrei de Ben e Josef. E do quanto eu queria bater em alguém. Meu riso dissipou-se. Podia ver, pelo canto do olho, aquela velha asquerosa paralisada. O que eu mais queria era lhe provar que não seria a neta que ela sempre imaginou. Sem pensar muito, eu atirei o arco contra aquela coisa. O bicho não esperava, eu acertei. Eu o acertei com força.

– O-ou — Aquela coisa adentrou minha sala. Eu corri para a cozinha, mas a criatura estava bem atrás de mim. Por que droga esse bicho não comia aquela velha e se mandava dali? Eu estava encurralada. Comecei a arremeçar tudo o que via pela frente nele. De repente, voavam panelas, conchas e colheres. Eu me sentia sufocada, sabendo que dali a poucos segundos, estaria morta. Mas é óbvio que não foi o que aconteceu. Caso contrário eu não teria salvo a vida do filho de Mercúrio.

Quando já não me restava muito o que tacar contra aquele anjo gay, eis que chega um anjo hétero para me salvar. Um garoto que aparentava não ter muito mais idade que eu, vestido de camisa preta e jeans, com o cabelo todo bagunçado, entrou na cozinha e trouxe o silêncio. Nem a criatura, nem eu ousamos nos mover. Ele tinha um ar de superioridade. Com um único olhar lançado sobre o monstro, ele virou-se e foi embora. Atordoada, fui atrás daquela coisa. Me deparei com ela virando pó, do lado de fora da janela. Um cheiro de queimado invadiu a casa.

Logo que me recuperei da cena, virei-me para trás, ficando frente a frente com o garoto.

– Leve só o que tiver de mais precioso. Você precisa ir, filha de Marte — do que ele tinha me chamado eu não sabia, mas ele tinha dito isso com nojo. Eu não sou imbecil. Seja lá o que aquele garoto fez com o ser sobrenatural que destruiu a casa de minha avó, eu não queria que acontecesse comigo. Faria o que ele dissesse.

Graças a Marte, jamais tive que voltar a aquilo que era obrigada a chamar de minha casa. Hoje, minha casa é outra. Confesso que conto os dias que faltam pra sair desse lugar e agradeço por termos a Terra, e não Plutão, como abrigo. Afinal, um dia em Plutão, seis na Terra. Na verdade, acho que eu preferia estar em Plutão. Acho que eu estaria morta se estivesse lá. Eu dei um nó na minha cabeça. Prosseguindo.

Na tarde de hoje, Olaf mandou me chamarem, disse que esperava por mim na Quavultesse. O Metrô Mestiço já não é meu lugar favorito no mundo, mas a Quavultesse piora tudo. Aquela é a sala da tortura.

Irrompi pela porta, adentrando a sala de estar da casa dos Crorns. A lembrança não me trazia tristeza, me deixava enfurecida.

– Mandou me chamar, Olaf? Por que ainda não começou a falar?

– Não se estresse, Sarah. — Olaf é o cara mais imperativo do mundo, o que não é segredo pra ninguém, mas ele faz a favor de se manter calmo toda a vez que fala comigo só para me irritar. Acho linda essa atitude dele. Coisa mais engraçada. — Mandei sim. Tenho uma missão pra você.

Eu já podia começar a lista de coisas que eu odeio e poderiam estar envolvidas nessa missão, mas Olaf superaria todas as minhas expectativas com a seguinte fala:

– Jack — o filho de Plutão — foi chamado a Netuno e preciso que você o acompanhe. — Ele fez aquela pausa, que se se tratasse de uma pessoa normal seria somente para o discurso se tornar mais dramático, mas nesse caso, era pra ler minha mente. — Sim, precisam ser três mestiços para serem autorizados a sair. E... — Maldita hora em que eu rezei para ele não dizer o nome do novato de Mercúrio! — É uma boa. Será bom pra ele. Ezra irá com vocês.

Eu. O filho de Plutão. Em Netuno. Com o garoto do unicórnio. Olaf me odeia.

Depois que tentei fazer aquele pré-histórico mudar de opinião, sem sucesso, voltava ao meu andar para aprontar uma mochila. É lógico que os regentes precisavam melhorar meu dia materializando o extraterrestre do meu irmão em meu caminho.

– Pra quê toda essa pressa, Sarinha?

Eu não lhe dei resposta. Continuei andando enquanto era seguida por aquele anormal.

– Soube que Olaf lhe deu outra missão. Sério, não sei porque ele insiste em lhe escolher. — Ele parou em minha frente, trancando minha passagem. Então pronunciou cada palavra quase que em câmera lenta: — Todo o Metrô sabe a inútil que você é.

– Eu sou tão inútil que nunca falhei. Ao contrário de você, Richard, que está aí, mofando por uma bobagem. Você realmente acha que aquilo valia uma restrição, suspensão ou seja lá como chamam. Nunca vou precisar saber.

O boca aberta continuou parado a minha frente, me encarando com seus olhos pretos cheios de ódio, até que eu ter que grudar meu joelho no ponto fraco do sexo masculino.

– Eu teria o derrotado com facilidade.

Sentia tanta pena quando me obrigavam a fazer isso... Mentira.

Entrei em meu quarto, deixando a roupa que vestia pelo chão e indo direto para o banho. A água caia sobre mim esfriando minha raiva, mas também me tornando mais fria. Vesti uma calça jeans, a primeira blusa que encontrei no guarda roupas, uma de cor branca, e pus meu sobretudo preto. Coloquei todos os meus pertences de valor dentro do roupeiro e o tranquei. Não confiava em meu irmão quando estava por perto, imagine só quando estivesse em Netuno. As coisas que não guardei, foram as que levei. Coloquei-as dentro da minha mochila e desci até o Salão Principal. A única informação que tinha era que sairíamos ao anoitecer.

O filho de Plutão já estava lá. Em meio a toda a multidão, sentada em uma poltrona preta ao fundo, ele se destacava. Jack sempre fora assim. Ele tem algo a mais e a menos. Você pode ver em sua postura, na forma com que anda, com que respira, que ele é superior. Ele é a superioridade e sabe disso. Porém, além do que até um estranho vê, os que o conhecem veem nos olhos cor de vinho do garoto, que lhe faltam muitas coisas. Se eu fosse crente, diria que o que falta em Jack é uma alma. Se eu sou chamada de ignorante, de egoísta, de grossa, de monstro... Jack só não é chamado de Diabo por temor. Mas eu não tenho medo. Nem dele, nem do pai dele.

Eu me aproximei, buscando encontrar as palavras para uma pergunta incerta.

– O que você tem que fazer em Netuno, filho de Plutão? — Eu tentei.

– Eu também preferia que você ficasse em casa, filha de Marte. — Como eu odeio isso que ele faz com a voz quando me menciona. — Mas como você sabe, e eu não sabia quando cometi o erro de lhe salvar, agora estamos ligados pelos laços afetivos do Metrô Mestiço — ironizou.

A voz rouca de Jack soaria como a mais bela melodia, caso ele não carregasse cada uma de suas frases com o máximo de frieza possível.

– Como é?

– Você ainda não percebeu? — Eu devia estar lançando-lhe o olhar mais incrédulo que ele já havia visto, pois os cantos de sua boca se ergueram. — Está sempre sendo mandada a missões, mesmo não sendo tão velha aqui quanto os filhos de Netuno ou Mercúrio. Sempre está sendo mandada a missões comigo.

Por um momento aquilo explicou tudo. E então, quem surgiu pondo as mãos sobre meus ombros não poderia ser outro.

– Sarah, você precisa me acompanhar a Quavultesse nesse exato momento. — Olaf não queria que dois mestiços iniciassem uma briga dentro do Metrô. Ninguém queria que um mestiço iniciasse uma briga com o filho de Plutão no Metrô. Queria socar a cara do maldito guardião. E eu tremia de raiva. — E ficaria grato se mantivesse suas mãos dentro do casaco. — Eu tentei matá-lo com o olhar. Ele deveria agradecer por eu também não ser filha do regente da morte. Ele teria virado pó.

O filho de Mercúrio passou por nós enquanto eu acompanhava Olaf. Jack realmente havia me salvado algumas vezes, mas isso não devia significar uma Ordem de Ligação ou algo assim. Eu não acredito nessas lendas. Eu não era ligada ao maldito. Eu nem precisava ter sido salva. Daria conta daquela criatura e hoje estaria treinando flechadas.

Pera aí. Isso significa que...? Não. Não. Não pode ser. Puta que pariu, por que caralhos eu fui resgatar o Ezra? Eu não posso acreditar. Isso só pode ser um delírio do filho da Morte. Minha vida jamais foi tão amaldiçoada em um único dia. Por que eu não podia ser filha de um padeiro? Ai, Sol.

Olaf entrou na sala parando ao lado da entrada enquanto eu arremessava vasos e móveis pequenos para as paredes. Ele sabia que eu precisava descontar minha raiva, então não disse nada, mas ele também sabia que queria um explicação.

– Sinto muito. — Foi a confirmação. — Fique a vontade para destruir a sala de estar. Quando estiver mais calma, dirija-se ao refeitório. A janta será servida mais cedo para os três. — E saiu dali.

Eu não tinha mais estoque de ódio para depositar em nada. Eu odiava minha vida com tudo o que tinha.

Voltei para o meu quarto e coloquei duas garrafas de vodca e uma de vinho em minha mochila. Eu iria precisar. Quando meu rosto voltou a coloração considerada normal, fiz o que Olaf aconselhou. Fui para o refeitório jantar.

Os dois estavam lá, mas não estavam juntos. Jack estava sentado na extremidade direita, enquanto Ezra sentava-se próximo a grande mesa. Podia apostar que Jack havia sido mau com ele. Ezra faz de tudo para se aparecer, mas é o tipo fraco. Tenho lá meus problemas com Jack, mas se tem algo que não posso reclamar dele é de em algum momento ter demonstrado fraqueza. E como eu também não pretendia fraquejar, depois de me servir, caminhei até a mesa onde estava e me sentei. Ele me olhou, curioso por alguns instantes.

– A quê devo a honra? — Quando foi que ele começou a ironizar tudo o que diz?

– Parece que estava certo, Jack. E parece que vai ter que se acostumar com minha presença, já que ela será imposta sempre. Não só a minha... — Eu fiz uma pausa analisando sua expressão. Não me dizia nada. — Ei! Garoto!

Ezra virou-se devagar. Não parecia que ele ia responder.

– Junte-se a nós — falei, abrindo um sorriso de satisfação ao sentir o olhar de Jack, agora incrédulo, em mim.