Livro

1 Capítulo 1 - Tédio


Raios de luz pálidos entravam pela janela da sala de aula enquanto um dos estudante admirava o nada a admirar dos gestos e sons monótonos que tinha de presenciar todos os dias de sua vida: Os gritos estridentes, cansados e nervosos de sua professora, que tentava ensinar Português aos jovens burgueses de curta vida e paciência quando foi interrompida por uma bola de papel nas costas, justificando assim os berros.

O nome do admirador é Lort, jovem de apenas 16 anos, com físico magro, cabelos vermelho-rubi, atitude punk e possuidor do olhar mais entendiado da turma, que estava notavelmente entretida no esporro desnecessário que a professora jogava aos montes nela. Sentiu esgotar o resto de energia que pretendia gastar neste dia improdutivo e logo, logo desperdiçado de sua vida. Por isso teve a desagradável ideia de levantar sua mão no meio do discurso interminável de Jundira, sua professora, para pedir permissão para beber água. Jundira, com seu rosto vermelho e suas veias saltitando o pescoço, ao perceber a mão suspensa de seu aluno, limitou-se a olhá-lo com uma expressão "morre diabo" sinistra e a gritar ainda mais sobre a falta de respeito dos alunos:

-VOCÊS NEM ESCUTAM MAIS O QUE EU QUERO FALAR! NEM ISSO! — retrucava a professora quase explodindo de raiva.

Depois de alguns segundos de esporro a mais, Lort simplesmente resolveu abaixar seu braço e bater na mesa com força, provocando um estrondo.

-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARH!- gritou Lort por puro impulso selvagem.

A professora arregalou os olhos nervosos como uma reação ao grito, fazendo o susto que tomou transparecer a raiva que sentia antes, enquanto o resto da sala começou a encarar Lort tentando achar uma explicação lógica pro grito irracional do mesmo.

-Sai! — grita a professora denovo (parece que só sabia gritar) enquanto apontava o dedo para a porta da sala.

E foi o que ele fez, andou para fora da sala com a cabeça abaixada e olhar tímido. Para falar a verdade nem mesmo ele sabia o motivo de tal alvoroço, nunca fez algo estranho assim, era provável que estivessem rindo dele agora mesmo. Mas estava, de fato, satisfeito por estar distante daquela sala.

Ao chegar na secretaria da escola, queriam saber o motivo da repentina explosão que ele havia feito, começaram então a fazer uma série de perguntas, até que foi perguntada a pergunta que Lort temia que perguntariam:

-Como vai o seu luto? — "Mas que tipo de pessoa faz uma pergunta dessas?", era tudo o que pensava Lort enquanto encarava com ódio nos olhos a coordenadora que lhe interrogava. Levantou-se em silêncio e simplesmente andou para fora da sala, precisava de ar.

Saiu da escola e permaneceu ali, no portão, parado... pensativo... olhando para o céu e respirando calmamente. Escutou o barulho de um avião passando e resolveu fitá-lo só pra ter algo pra fitar... Olhava hipnotizado para a trajetória linear do avião... Quando... o avião explode.

Lort arregala os olhos que estavam fixos no avião e perde o controle das pernas. A aeronave vinha em sua direção praticamente sem controle! Não sabia se corria, se avisava a escola, se ligava pra alguém... No final, apenas paralisou-se boquiaberto olhando o avião se aproximar. Por sorte, o avião desviou a trajetória antes de tombar. Lort respirou fundo com os olhos fechados de alívio, quando cai um objeto extremamente pesado no topo de sua cabeça.

-Ai! Caralho! Mas que porra é essa? — se perguntava com os olhos cerrados de dor e amaciando a cabeça.

Abriu os olhos para satisfazer a sua curiosidade e percebeu que o que o acertara agora residia no chão (á vá! gravidade filho!), um livro. Por mais curioso que estivesse, estava puto demais e com muita vontade de ir pra casa, resolveu, simplesmente ignorar a queda do avião e cumprir seu desejo de ir para casa."É improvável que ninguém tenha notado o acidente, alguém avisará as autoridades." era o que pensava. Ao virar as costa e dar seu primeiro passo, escuta de sua reta-guarda:

-Hey! — uma voz desconhecida tenta chamar a atenção de Lort, que ao olhar para a fonte da voz, reparou que a mesma estava sentada em cima do livro, um moleque — Você não vai me levar pra sua casa? — completa o garoto misterioso ajeitando seus cabelos levemente cumpridos, cacheados e prateados. Aparentava ter uns 10 anos.

-Você tá me estranhando moleque?!- Reage Lort à pergunta extremamente homossexual do garoto.

-Desculpe-me, disse algo atípico?- diz o garoto. Lort estranha a formalidade de sua fala e a inocência contida nos olhos do garoto, é algo tão anormal de se ver nas crianças dessa idade hoje em dia que chega a ser estranho, isso acaba despertando sua curiosidade, fazendo-o querer entender o menino:

-Você se perdeu de seus pais, garoto?

-Do que falas? Não possuo pais. -Isso abala um pouco Lort, mas decide continuar ajudando:

-Então não sabe como chegar em casa?

-Também não tenho casa. -"será que se trata de um mendigo com albinismo concentrado no cabelo?" pensava Lort. Na verdade após reparar bem, era possível visualizar que as roupas do menino eram bem antigas, e eram como se tivessem sido feitas à mão, logo, talvez realmente se tratasse de um mendigo, bem educado, mas mendigo.

-Ok...Então...Você quer alguma comida?

-Não. Também não como. -"ele deve estar brincando comigo!", Lort concluiu.

-Argh! Muito bem... Garoto, qual o seu nome?

-Livro. — respondeu secamente. Esta afirmação provoca um sorriso sarcástico do rosto do incrédulo do estudante, que decidiu ser direto e perguntar:

-O que você quer então? Quer me sacanear? Rir da minha cara, é isso?!

-O quê?! Não! Para que iria eu querer algo assim? -seu rosto parecia confiável, pois permanecia sério-Quero que você me leve para sua casa, como já disse. Já vi que você não é uma das pessoas mais geniais.

-Menino, eu nem te conheço, você tá me chamando de burro e quer ir pra minha casa?! Me diga ao menos o motivo disso!

-Primeiramente, mancebo, não sou um menino, como já lhe disse, sou um livro. Melhor dizendo, sou "O" Livro. -Tal afirmativa, é claro, fez Lort estranhar franzindo e desfranzindo rapidamente a sobrancelha, abrindo mais ainda seu sorriso sarcástico. — E quero ir para sua casa ensinar-lhe.

-Olha só! Esse negócio tá muito gay pra mim. Você quer me ensinar o quê? Como assim você é um livro?! Que história mais ridícula é essa?!

-Como assim como assim um livro?! Um livro oras! Feito de capa, páginas e saber. Até onde eu saiba não há nada ridículo nisso! — Enquanto falava ele gesticulava como um professor — E o que eu quero te ensinar... — Lort aproxima a cabeça para finalmente obter a resposta procurada. — Mágica!

-HÁ! SABIA QUE VOCÊ TAVA DE ZUERA COMIGO! — quando Lort disse isso, o Livro parecia estar convencido de que não adiantava ficar tentando convencê-lo por diálogo, então... O Livro simplesmente entrou no livro. Quando Lort viu isso, resolveu não acreditar na possibilidade daquilo existir para manter sua própria sanidade, mas não conseguiu não acreditar. Lort fazia o gênero científico e acreditava apenas no que visse, seria contradizer suas próprias regras ser incrédulo sobre o que acabou de presenciar, logo, resolveu conferir. Se aproximou do livro com cautela, o pegou e abriu, o livro não tinha nada escrito, folheou todas as páginas à procura de algo e quando menos esperava, todas as páginas tinham algo escrito:

'Não "estou de zuera", mancebo.' — o calafrio que Lort sentiu ao ler passou-lhe por entre todos os seus ossos.

"Será que descobri a cura do meu cotidiano?", pensava ele.

Agora ele não tinha mais do que discordar, ou ele estava louco à ponto de alucinar, ou poderia aprender magia. Preferiu pensar que poderia aprender magia.


Continua no próximo capítulo...

Notas finais
Comentem, gostaria de suas severas críticas.