Livro 1 - A Árvore de Ouro

1 A Trilha para o Desconhecido


Notas iniciais
Superei o bloqueio criativo u-u Boa leitura!

Deslizo os pés para fora da cama e eles tocam o chão gélido. Minha garganta está seca, meus lábios estão rachados e meu nervosismo mais do visível. Esse pesadelo me atormenta muito mais do que qualquer outro que ouso imaginar que me fizesse mal algum dia. Eu sonhei com algumas pessoas, algumas que conheço, outras que nunca vi na vida. Elas estavam morrendo enquanto eu as assistia.

A culpa devia ter sido minha.

Afasto o pensamento da cabeça pois, no final das contas, nada disso aconteceu de verdade. Devo me concentrar no dia de hoje, onde — apesar do tempo frio de outono lá fora — a escola está promovendo uma trilha por uma floresta no limite da cidade.

Eu ainda estou tensa, e ando devagar pela casa em busca de um copo d'água, mas acabo deixando o copo cair no chão aos meus pés, espalhando água e cacos de vidro no piso de mármore e nos meus pés. Eu limpo a bagunça e me troco, colocando também botas, caso de alguma maneira eu possa encharcar a barra da calça.

Paro para ficar empoleirada na janela. Ainda não está chovendo, mas por via das dúvidas eu coloco um casaco liso, onde a água escorrerá livremente sem infiltrar-se em minhas vestes. A janela da cozinha dá de frente para uma grande árvore. É um Ipê lilás. Observo suas folhas caindo lentamente no calçamento e nas poças d´água, do mesmo jeito da minha empolgação para essa trilha.

Choveu muito ontem à noite. Tive dificuldades para dormir por causa da tempestade, mas notei que de olhos fechados não ficava muito melhor. Não sei por que estou tendo tantos pesadelos ultimamente. Quem são essas pessoas? O que estão fazendo? Só vejo a escuridão. Essas perguntas martelaram na minha cabeça a semana inteira. Rostos implorando por ajuda e tentando deter uma sombra muito maior.

Percebo que preso na janela, com uma fita adesiva, tem um bilhete. São meus pais. Eles me desejaram bom dia e boa sorte na excursão. A letra cursiva e e bela de minha mãe, mas palavras dos dois, num equilíbrio incrível. Puxo com cuidado a fita adesiva do papel, e guardo o papel em meu bolso.

Após um longo suspiro, eu abro a porta.
Ao sair de casa sinto a leve brisa atingir meu rosto e finos pingos de chuva me atingem em cheio. Estou sozinha, e gostaria de ficar aqui para sempre. Sentindo as gotas de chuva, que me tranquilizam quase que instantaneamente.

Não estou fugindo da chuva. Não estou tentando bloquear as minúsculas gotígulas de água a se romperem na minha pele, nos meus cabelos. Mas logo preciso sair, para não chegar na escola em demasia encharcada.

Ando com calma pelo calçamento, sem me preocupar em contornar as poças d'água pelo caminho já que minhas botas já dão conta da tarefa. Poucas vezes tive chance de um contato tão direto com a chuva. É bom. Revigorante. Na intensidade perfeita.

Olho em volta, e tenho certeza de ter visto alguma coisa no final da calçada. Talvez não. Mas não podia me mover.

Então uma voz suave e simpática me traz de volta do meu estado de estupor:

– Lyah! — me viro quase que imediatamente, e me deparo com uma sorridente Kyra, em sua capa de chuva amarela. — Pegue — baixo os olhos para suas mãos e vejo que está segurando uma capa de chuva extra, dobrada perfeitamente. Eu balanço a cabeça negativamente. — Oh, tudo bem. — Ela me acompanha o resto do caminho. De uma maneira ou outra, eu acabei aceitando a capa de chuva depois. Esse é um dos motivo para Kyra ser popular na escola e fora dela. Ela tem um sorriso contagiante, um sorriso que faz questão de distribuir a todos que precisam dele. É uma garota inteligente e de boas intenções, mesmo quando você não a quer por perto. Como se não bastasse as qualidades da sua personalidade, Kyra é muito bonita. Com suas mechas louras e claros e estonteantes olhos verdes, como esmeraldas.

E durante todo o caminho ela me conta as novidades, suas expectativas para a "Excursão Educativa para o Incentivo a Aprimoração do Ensino" — resumindo tudo isso, pode-se dizer que é um lugar onde nós aprenderemos algumas coisas inúteis, pois nunca teremos condição de poder colocar aquilo tudo em prática. Além disso, sempre acaba resultado em um ou outro aluno perdido... Os responsáveis não se importam muito. Se seu filho se perder numa trilha dessa cidade, no máximo eles darão uma pequena bolsa de seis meses e talvez lhe dirão que vão abrir investigações para esclarecer o desaparecimento. Mas eles nunca encontram, porque eles nunca pensaram em procurar — e o quanto ela se encontra ansiosa.

Fico hesitante em entrar na escola, e Kyra me observa com atenção, talvez tentando ler meus pensamentos. Depois, finalmente perde a paciência, segura meu pulso e me puxa escola à dentro.

Eu paro abruptamente. As palmas das mãos de Kyra estão suadas, e esse movimento repentino faz com que elas escorreguem do meu pulso. Ela olhou para trás, confusa, quando percebeu que eu não estava mais junto à ela. Bom, talvez estivesse confusa, mas não sei se essa palavra se encaixa bem, porque não sei quase nada sobre essa garota.

– É sério, não precisa ficar aqui comigo. Sei que está doida para correr junto a elas. Não seria educado deixá-las esperando. — sorrio, pouco nervosa. Então observo ao meu redor e encontro o grupo de amigas que cercam Kyra todo dia. Só me vem à mente o nome de uma delas — Elena quer falar com você! — aponto.

Ela chega a olhar. Eu não estou mentindo, Elena realmente a está chamando para se juntar à elas. Mas Kyra ergue um sombrancelha para mim, sua expressão é entre seriedade e divertimento ao ouvir minhas palavras. Nunca a vi fazendo essa expressão, exceto quando a via extremamente concentrada com alguns de seus projetos pessoais.

– Tudo bem. — ela diz. Eu realmente pensei que estava resolvido, mas ela não foi embora. Então diz logo depois: — Elas podem esperar. — e volta com seu sorriso de sempre.


***

Então o ônibus finalmente chega e está pronto para partir. Kyra ainda está do meu lado e me disse que vai ficar comigo durante toda a excursão. Também disse que me achou muito sozinha nos últimos meses, preciso me enturmar. Talvez ela esteja certa. Mas ninguém parece muito entusiasmado em conversar comigo. Mas por que Kyra só vem agora? Como ela disse, eu fiquei meses dessa maneira. Desde que Lílian foi embora. Ela era minha melhor amiga, em todos os momentos. Mas ela desapareceu. É por isso que eu odeio essa excursão, esse lugar e todos os responsáveis pelos alunos. Ela sumiu numa excursão dessa. No mesmo lugar...

Kyra, sentada ao meu lado no ônibus, percebe meu desânimo. Acho que ela tem uma espécie de poder, onde ela sempre sabe, sempre se lembra do que deixa você triste e sabe exatamente o que dizer ou fazer pra ajudar. Ela cutuca meu braço.

– Eu entendo — ela diz. Depois de uma longa pausa, ela continua: — Eu já passei por isso. — sua expressão tornou-se sombria. E não falamos mais nada.

Observo com muita atenção a janela. A paisagem logo muda. De uma grande cidade com o barulho ensurdecedor do congestionamento, para casas cada vez menores e vastos campos verdes, que possuem os tipos mais diversos animais alimentando-se. Foram necessárias duas horas de viagem para chegarmos a esse grande bioma bem-preservado.

O professor que vai nos acompanhar, mostra várias folhas e fichas para um senhor na portaria. Ele as lê, faz algumas anotações e por fim carimba a última folha. Então os portões se abrem e nós somos literalmente despachados do ônibus. O motorista vai embora com o ônibus.

Somos guiados por dentro do acampamento que fica na entrada. Não vamos para lá ainda, de acordo com o planejamento, a trilha será feita primeiro e quando anoitecer iremos passar uma noite no acampamento. O guia responsável do local, chega para nos dar as boas-vindas.

– Sejam muitíssimo bem-vindos ao Acampamento de Sunwell! — disse ele com ênfase. — Eu sou o guia de vocês por esse local, meu nome é Frederico, mas podem me chamar de Fred. — ele abre aos braços — Vamos lá, animem-se! Vocês vão se divertir eu tenho certeza!

Só você, penso. Quando ouvir um ruído desconhecido vai ser o primeiro a correr e nos deixar perdidos neste lugar. Então ele acrescenta:

– Vocês podem deixar reservados os seus alojamentos. Vocês têm uma hora. — disse Fred, e foi suficiente para que todos começassem a correr para o chalé principal. E termina com um comentário baixinho, já que ninguém quis ouvir: E iremos começar nossa grande aventura...

Então eu vou com Kyra até o chalé. Ele fica a poucos passos daqui, na verdade. Mas a fila está desastrosa. É até rápida a reserva, mas tem muita gente de várias turmas e várias idades.

Esperamos por volta de quarenta e cinco minutos até que finalmente Kyra chega no balcão e reserva um alojamento para... Ela disse quatro pessoas? Tudo bem, não tem problema.

Ela sai da fila segurando quatro bilhetes. E me dá um deles, que guardo imediatamente em meu bolso direito. Não temos tempo de dizer quase nada, porque Fred já está nos chamando, dizendo que quanto mais adiantados chegarmos, mas cedo iremos voltar. Isso já me anima muito.

Nós adentramos na floresta.

As horas iam passando e Fred nos mostrava várias placas falando sobre vários tipos de plantas e animais. Realmente tem muita coisa para ver por aqui. No começo eu achei interessante. Mas depois da primeira hora, mudei completamente minha opinião. Fred até repetia algumas coisas de tanto que ele falava, porque não se lembrava de ter falado ou queria nos relembrar do que já foi dito no início.

Kyra observa durante toda a trilha o cenário à sua volta. A fauna, a flora, e as pessoas: os alunos, os funcionários e os guias por outras trilhas. Só que, ela para abruptamente, fazendo com que eu me choque contra ela. Solto um ruído de indignação massageando a ponta do nariz.

– Shhhh! — ela pede silêncio. Ela está com a face muito preocupada e está arfando. Já estamos quase no escuro, o sol já se punha à muito tempo. Ela olha de um lado para outro e depois me puxa para o lado. Ela disse, quase inaudível: — Bryan não está aqui. Ele deve ter ficado para trás ou se perdido. Vamos!

Antes que pudesse protestar ela me puxa pelo braço e corre à toda velocidade. Ah sim, isso também, ela é excelente em esportes. Eu quase não consigo correr no rítimo dela sem tropeçar em todas as pedras e galhos que aparecem na minha frente. Quer dizer, acho que dos galhos eu não consegui desviar bem, pois estou cheia de pequenos cortes nos braços e com um no rosto, próximo ao lábio superior.

– Kyra, pra onde você pensa que vai?! — pergunto quase berrando. — Se ele pegou o caminho errado não temos como achá-lo sem nos perdermos também!
Ela por um momento diminui o rítimo. Talvez ela está reconsiderando a situação. Mas parar, ela realmente não está parando.

Ela para abruptamente. Eu me choco contra ela pela segunda vez e solto um grunhido de dor. Ela faz um gesto para que eu fique quieta e começa a escutar com atenção. Eu também. Escuto um galho se partindo logo em frente. Talvez seja esse... Quem? Bryan? Tanto faz. Logo uma silhueta aparece em frente. Não quem é. Não me vem a mente agora.

Depois de vê-lo acho que as coisas mudaram de rumo. Kyra o abraçou, como faz com todo mundo. Ele está arfando. Após ver seu rosto eu noto que já o vi em algum momento. Minha mente está nebulosa, não consigo me lembrar. Mas tenho certeza que nunca soube o nome dele. Eu me sento em uma rocha e fico observando a situação.

– O que aconteceu? — perguntou Kyra, ela deve estar com aquele olhar interrogativo, o encarando com aqueles brilhantes olhos verdes.

– Nada, eu... — Bryan hesita. Ele deve estar considerando se deve contar o que houve. Deve ter decidido contar, porque tirou do bolso uma pequena pulseira de contas coloridas. Elas tinham vários desenhos e um número. Talvez para organizá-las caso se perdessem numa colisão com a terra seca? Ele estende a pequena pulseira e Kyra a toca com cautela. Bryan finalmente acrescenta: Precisava resgatar a pulseira da Elisa.

– Oh, eu entendo... — responde Kyra, visivelmente sem graça. Não porque disse algo maldoso, mas porque tocou num assunto delicado.

Acho que alguém deve ter notado minha presença. Porque Bryan olhou para mim, e eu devolvi o olhar. Completamente frio. Ele deve se lembrar do que aconteceu, talvez esperando que eu comentasse algo. Kyra percebe e olha para trás. Ela diz com toda a tranquilidade:

– Ah sim. As apresentações? — talvez ela tenha entendido de outra forma. Melhor assim, eu acho. — Hã... Lyah, este é Bryan. Bryan esta é Lyah. — e pronto. Oficialmente, de acordo com Kyra, somos conhecidos. Mas eu não o conheço e nem ele sabe sobre mim. Não mesmo. E nem pode.

– Podemos ir embora Kyra? — pergunto logo depois. — Já está ficando completamente escuro.

Mas ela me respondeu com uma expressão confusa. Que ótimo. Estamos agora os três perdidos. Adeus mundo exterior.

Então algo inesperado aconteceu.

Um fenda de luz abre-se de um tronco de uma árvore antiga. Deve ser aquela que Fred disse ser a árvore mais antiga de Sunwell. Dizem que ela viveu seiscentos anos, ou talvez mais.

A fenda abre tanto que ocupa o espaço de dez árvores enormes como a árvore antiga. Minha boca está ressecada devido ao fato de que eu nos últimos segundos só estou respirando pela boca, além do meu grande espanto. Estreito os olhos e consigo ver algumas coisas por atrás da luminosidade. Tudo passa em flashes de cenários, e não existe forma de focar em uma coisa só.

Kyra e Bryan estão ao meu lado tremendamente espantados, e ninguém ousa falar palavra alguma. Quero correr. Mas não posso. Não consigo mover um músculo sequer, nem mesmo meu maxilar. E meu coração dispara.

O cenário vai parando aos poucos, e dá para ver as cenas que vão passando. Parece que as imagens identificam o tempo, as eras, os anos, meses. Vejo coisas horríveis. Um monstro grande e escuro. Ele não tem formato, e só o que se vê nele é seus grandes olhos cor de sangue, que espalham pelo cenário um pálida luz vermelha. Vejo pessoas morrendo. Algumas eu conheço. Conheço elas das minha noites de insônia, onde cada vez que tentava fechar meus olhos, eu via todas as elas.

A culpa devia ter sido minha.

Então, depois de toda a destruição que a criatura fazia ela começou a se desfazer. Não, ela não estava morta, apenas se escondendo de algo. A cidade — ou melhor, aquilo se parecia mais um reino — levou um longo tempo para ser restaurada. Então estava tudo normal novamente. E a imagem para. Aprendi novamente a arte do movimento. Mas minha consciência me faz caminhar diretamente para a luz. Kyra e Bryan estão vindo logo em seguida.

E eu perco os sentidos.

***

Quando recobro os sentidos, meu rosto é atingido pela luz do sol iluminando minha pálida face. Olho para minhas mãos e vejo que estão em uma tonalidade mais rosada. Não só o sol, mas as flores do imenso jardim vivaz natural me fazem sentir segura e feliz. Meu olfato fica completamente desorientado, com a confusão e intensidade de diversos tipos de fragrâncias intensas e deliciosas das flores e plantas espalhadas pelo lugar. Bryan está ainda desacordado, ou apenas aproveitando um pouco o ar, deitado da grama.

Kyra me ajuda a levantar, ainda um pouco atordoada. Ela tem uma marca vermelha na lateral direita de sua testa, que não tinha antes, o que deve significar que ela bateu com a cabeça no período de tempo desde que estávamos conversando os três, e a nossa vinda aqui.

Ela não está usando o uniforme da escola? Oh, eu também não estou. Os três estão com simples vestes: uma calça pouco larga bege, botas de couro e camisetas brancas confortáveis.

É maravilhoso esse cenário, não há dúvida. Mas para onde temos de ir? Para todos os lados que olho é a mesma coisa, sem estradas de terra, sem árvores e sem animais.

– Não existe direção — Dou um pulo de susto ao ouvir Bryan atrás de mim. Ele se levantou tão silenciosamente que não tive tempo que ver. — Nós estamos presos aqui.

Não entendo o que isso quer dizer. Caminho alguns passos com a mão direita à frente. Eu toco uma superfície de vidro. As pontas dos meus dedos deslizam pelo espelho fazendo um ruído irritante. Tenho sorte de não ser claustrofóbica. Mas Kyra, pelo jeito, é.

Ela caminha por todo o retângulo com as mãos tocando o vidro. Ela começa a arfar por não encontrar nenhuma saída. Ela olha para Bryan com desespero, mas ele entende o que ela quer dizer.

Por cima também não funciona. Bryan tentou dar impulso para Kyra subir, mas só encontrou o vidro. Kyra senta no chão, enterra o rosto nas mãos e começa a chorar. Acho que agora chegou minha vez.

Me sento do lado dela tentando consolá-la com palavras positivas.

– Nós vamos dar um jeito. — digo — Isso não pode ser invencível.

– Eu sei, Lyah — disse, levantando a cabeça — Mas não temos mais nada. Nossas mochilas ficaram na trilha, e até nossas roupas foram trocadas. Isso é uma prisão.

Não consigo fazer como ela faz. Ela anima as pessoas muito facilmente, e eu não consigo animar nem a mim mesma. Quero retribuir de alguma forma o jeito que ela me ajudou, mas não tem como.

Estreito os olhos para um objeto transparente no canto da prisão de vidro. Uma pá. Que eu não teria visto se não fosse pelo pequeno brilho que emitiu de repente. Me arrasto até a pá e a puxo para perto de mim. Bryan está esperando que eu diga alguma coisa.

– Me ajude aqui! — eu disse.

Bryan está tentando cavar no centro da prisão de vidro, a terra está muito dura para cavar, e eu corro para animar Kyra.

– Kyra, olhe — eu a cutuco. Ela olha o cenário e seus olhos brilham ao ver a possibilidade de ajuda. Ela corre para ajudá-lo.

Eu não ajudo porque eu estou um pouco ocupada olhando a paisagem lá fora. Ela não está bonita como antes. Era pra ser um belíssimo por do sol, se não fosse por figuras cor magenta que cambaleiam na nossa direção. Eu grito quando o mais próximo encosta no vidro.

Eles tem olhos vermelhos e são pegajosos. Eles são quase imperceptivelmente humanoides, e tem uma longa cauda que serpenteia atrás deles. Achei que eles se derreteriam tocando o vidro, mas eles tem mãos sólidas por baixo da camada do material pegajoso. Eles batem no vidro que está se partindo agora. Escuto um "tuc" atrás de mim.

Me viro imediatamente e Kyra e Bryan tiram de dentro da terra uma espécie de baú. Eles me chamam para ajudar a puxá-lo, por que ele é realmente enorme. Eu corro até eles.

Bryan abre o baú e sinto um frio na espinha. Armas.

Não qualquer arma, é claro. Eu estou falando de um arco, uma aljava de flechas, espadas, facas e adagas, cintos que incluem uma bainha para a espada e com algumas coisas pequenas que não prestei muita atenção e por último, e não menos importante, roupas novas confortáveis. Eles puxam uma espada cada um. Só faltava eu, mas hesito.

Eu, trêmula passo as pontas dos dedos pela lâmina afiada de prata e limpa. Quando minha mão apertou o punho da espada, escuto a explosão.

Eu me viro e movo numa rapidez que não era minha. O vidro explodiu e as criaturas haviam nos cercado. Kyra pegou as facas e adagas e os cintos. Bryan pegou as roupas. Estamos sem movimento. Não sabemos o que fazer. Então fazemos a coisa mais idiota — talvez quem sabe eficaz — do mundo.

Nós tentamos lutar.

Talvez não seja tão bobo assim, não parece tão difícil. Temos espadas longas e afiadas, e mesmo que nossos reflexos fosse terríveis acertaríamos mesmo assim. Mas estou errada. Não temos reflexos terríveis. Bryan se moveu primeiro, e nós corremos logo depois.

Eu não sei manejar uma espada. Não sei manejar uma faca. Acho que não sei fazer nada. Se eu pegasse o arco eu também não conseguiria, porque eu sou ruim em quase qualquer coisa que faço. Mas tem duas coisas que não sou: covarde e burra.

Faço um movimento com a espada que dizima os monstros mais próximos, apenas de tocá-los. Eles não soltam sangue, eles se desfazem em pó de luzes, subindo para as nuvens. Eu faço o possível para mantê-los longe de mim.

Solto um grito quando um me segura por trás. Quando me viro ele virou pó, e eu vi uma faca dourada no chão. Kyra piscou pra mim e voltou para a luta.

E acabou. Não foi nem um pouco difícil. Talvez seja porque existem coisas piores para virem ainda. Mas essa batalha me fez vir à mente uma úncia pergunta, que fica martelando na minha cabeça: Onde Bryan aprendeu a lutar assim? Quando lutei senti minhas forças maiores, minha determinação maior, meus reflexos melhores. Mas nem eu e nem Kyra, conseguimos lutar com tanta ousadia e destreza que lutou Bryan. Dessa vez quem o encarou primeiro fui eu, seguida por Kyra.

– Eu não sei — e isso foi sufiente. Ele deixa a espada cair e se senta no chão, exausto.

Seguimos o movimento dele. A força veio só na hora da batalha mesmo. Agora me sinto a inútil e fraca de sempre, e agora com uma dor agoniante no braço direito. Faço uma careta quando Kyra olha o ferimento.

– Está tudo bem, Lyah — ela disse, aliviada — Mas você deve aguentar porque não tem nada aqui que eu possa usar para cuidar disso.

– Você sabe socorrer alguém ou cuidar de uma ferida como essa? — pergunto.

– Não. — ela responde. Era disso que eu tinha medo — Mas podemos nos virar se tivermos água pelo menos.

– O que devemos procurar agora mesmo. — fala Bryan, de repente. — Não pensam em passar a noite bem aqui não é? No jardim da prisão de vidro, om monstros à solta por aí. Certamente aqueles monstros tem seus amigos.

– Mas também não podemos passar à noite andando por aí! — retruco apontando para o céu. O sol já foi embora e as estrelas estavam começando a surgir. Bryan não respondeu.


– Tudo bem, vamos ficar aqui mesmo — Kyra fala, finalmente — é só alguém montar guarda. Eu fico nessa noite. Eu fui a que menos me movi hoje.

Para mim está ótimo. Eu durmo logo, mas antes eu consigo escutar Kyra falando em sussurro para ela mesma "Nós vamos sair daqui...", e repetia isso até que eu caí no sono.

Tenho um pesadelo diferente essa noite. Vejo uma moça adulta, parecida com Lílian, chega a assustar. Ela tem a cor negra e os cabelos belamente cacheados que Lílian possuí, mas não mostra todo seu rosto. Seus olhos estão fechados e cobertos pelos cabelos, mas eu vejo lágrimas deslizando pelas maçãs do seu rosto, num tom brilhante que se destaca na escuridão do aposento. Seus pulsos estão presos por correntes, e com feridas que mostram suas tentativas falhas de se soltar. Vejo marcas no resto de seu corpo, que seriam de tentativas de suicídio.

– Me deixe em paz — ela estremeceu, fazendo barulho com as correntes. — Perdão pelas minhas falhas... Eu vou obedecer-te, por ela. Eu juro.

Uma voz alto ribomba pelo lugar. Não era humano.

– Destrua os jovens da profecia. Eles não podem vir. Eles vão me trazer a mais pura desgraça, e espero que não sorrias a isso, Sue! Não vou cair sem fazer muito, muito sangue ser derramado. Principalmente o da sua família, aqueles seres tão insignificantes quanto você. Se preza por tua vida e a dela, vai me obedecer.

– Eu juro que vou Mestre. — ela responde, sua voz desesperada se transforma em ódio puro: — Eu vou me vingar do sangue que Aila derramou aos meus pés. Isso é culpa dos infelizes que vem a seu encontro, Mestre.

– Sim, isso mesmo — a voz virou um sussurro. A voz está persuadindo a moça — Faça isso mesmo. Obedeça as minhas ordens e você fará isso e muito mais. Será uma de minhas rainhas no meu novo mundo.

– Serei leal a ti, Mestre. — disse, trêmula — Lílian não vai morrer por causa dela.

– Sou obrigado a lembrar você o que acontece com quem é desobediente. MULTIPLIQUE ESSA DOR POR UM MILHÃO — escuta-se um estrondo e a moça urra de dor, e mais lágrimas caem. O sangue da mulher escorre de suas costas e se espalha pelo quarto numa grande poça. Depois simplesmente, para.

A cena se contorceu e virou uma grande cobra preta, que veio em minha direção me engolir.

A culpa devia ter sido minha.

Eu acordo com um grito agudo.

Kyra correu para o meu lado. Ela olhou para mim com preocupação. Bryan acordou segurando o punho da espada imediatamente. Quando viu que estava tudo bem ele embainhou novamente.

– Está tudo bem, Kyra — ela suspira quando termino a frase. — De verdade. — me levanto preguiçosamente.

– Missão do dia: achar água — diz Bryan, um pouco distraído.

– E depois? — pergunto.

– Não sei, ainda não pensei nisso — responde.

Kyra está agachada perto do baú, e pega o que sobrou. Uma arco, uma aljava, e algumas outras facas. Ela coloca o arco em minhas mãos. É justo. Kyra está com todas as facas, e Bryan com uma mochila, cheia de comida e bugigangas.

Mas eu coloco o arco no chão.

– Não sei atirar com isso.

– Sabe sim. — Kyra afirma.

– Não, Kyra, é sério — chuto o arco para longe — Nunca toquei numa coisa dessas — de fato é isso mesmo. Vou acrescentar à lista de coisas que não sei fazer direito.

– Tudo bem, você quem sabe — responde ela -Mas você não tem uma mira ruim, eu notei. Você deve tentar.

Eu quero protestar. Mas não dá tempo, porque Bryan levanta-se.

– Chega. — diz ele, que estava até agora observando a discussão. Pega o arco no chão aos seus pés. Ele deposita-o nos meus braços com força. — Ou você fica com isso, ou amarro esse arco em você!

Suspiro. É melhor não discutir mais. Eu coloco a aljava nas costas e penduro o arco no ombro, revirando os olhos.

Começamos a caminhar, completamente descansados. Bryan abre um pacote de biscoitos que estavam na mochila pendurada em seu ombro esquerdo.

Não tinha reparado muito em sua aparência. Ele é um pouco maior do que eu, tem os olhos e cabelos de um castanho bem escuro. É bonito, sim, mas acho que não faria meu tipo. Talvez eu não saiba que pessoa seria meu tipo, já que as vezes eu mesma não entendo de que tipo eu sou. Ele tem um olhar determinado. Estou tentando me lembrar quando eu vi aquele olhar antes.

Mantenho distância de Kyra enquanto ela gira o punho da faca no dedo indicador. Eu preferia que fosse uma bola de basquete. É muito menos perigoso...

Andamos por muito tempo por vastos campos floridos, com o sol ardente sobre nossas cabeças, até que achamos a entrada de uma floresta, que já possuía uma pequena nascente. Eu aperto o passo. Minha garganta dói com o esforço, e a ferida no meu braço começa a latejar.

Eu deixo os dois pegando água para os cantis, enquanto eu lavo com muito cuidado o ferimento. Kyra diz que essa é a água mais pura que ela já viu e que, aparentemente, o nosso foi o primeiro toque externo que a água recebeu. Não tenho a menor ideia de como ela chega nessa conclusão, mas não a questiono. A água é incrivelmente cristalina.

Ouço o ranger de uma porta.

Nosso primeiro movimento é para nos escondermos, atrás de largas árvores.

Escuto passos fortes. Me espremo contra a árvore e prendo a respiração.

Alguém solta uma gargalhada satisfeita. Foi tudo muito rápido, e quando tomei a consciência de volta, nós três estamos apontando as espadas para uma silhueta. Ela não fica surpresa, pelo contrário, ela ri mais ainda.

– Muito bom! — ela disse. Agora eu posso enxergar sua aparência. Uma senhora de cabelos brancos como nuvens, olhos pretos fundos e sem brilho, as roupas marrons e maltrapilhas. Ela segura uma certa com frutas: maçãs, peras, uvas. — Baixem as armas, estou em paz. — ela levanta a mão livre

Bryan e Kyra obedeceram imediatamente. Eu não. Pois não confio numa única palavra do que ela diz.

– Lyah, baixe a arma! — disse, em tom reprovador, mas ainda se divertindo.

Mas eu não a obedeço.

Sinto meu corpo e minha mente implorando para obedecê-la, me movo devagar, tentando organizar meus pensamentos.

– Lyah, jogue a arma no chão! — ela disse, em tom severo — Caso contrário, a farei curvar-se a mim.

Sinto uma forte pressão nas costas. Não quero ninguém invadindo meu cérebro. Não quero que ela veja meus sentimentos, minhas memórias; ela não tem esse direito. Eu vejo tudo passar na minha cabeça. Pesamentos felizes, pensamentos sombrios. Ela está tentando se apoderar da minha mente.

– Não — retruco, minha voz quase não sai da minha garganta. Não vou me curvar a esse tipo de pessoa. Esse pensamento me traz entusiasmo, me faz ganhar forças, e logo já estou quase gritando: — Você não me controla!

Senti a pressão ir embora. Eu caio de joelhos, com sangramento nazal. A mão livre da mulher começa a derramar sangue por uma fenda grande. Ela, espantada, coloca a mão na água, e o corte se fecha. Ela já está recuperada.

– Tudo bem, chega crianças — ela diz sorrindo. — Muito bem, Lyah. Espero que você se lembre, quando precisar, que possui essa força dentro de você. — ela nos chama para entrar. Eu sou a última, e ainda segura a espada.

Ela nos oferece cadeira, e me sento hesitante. Ela senta numa cadeira de balanço.

É uma casa com paredes e piso de madeira, e tem poucas janelas, o sol iluminando palidamente o aposento. Posso dizer que é uma casa de um cômodo apenas. A cama está quebrada e o colchão está fora dela. A minúscula cozinha está completamente suja, como se não fosse usada a muitos anos. Um relógio de parede ainda funciona na parede atrás da cadeira de balanço.

– Vocês sabem, no fundo, que não estão aqui pelo mais puro dos acasos. — inicia a mulher. — Vocês têm um objetivo, que não só salvará o mundo de vocês, mas também o meu e muitos outros. Eu os procurei minha vida inteira...

– Espere aí! — protesta Bryan — Explique isso direito.

– Foi a muitos anos... — continua — Uma força maligna invadiu esse mundo, e isso foi muito antes de eu nascer. A criatura só se sentiu satisfeita depois de destruir tudo que os seres humanos construíram — Me lembro das imagens do portal, reinos destruídos e uma grande guerra — A criatura continua governando esse mundo, e muitos outros.

Uma vez uma velha mulher, muito sábia, recitou uma profecia através das três placas de cristal. Ela representa o equilíbrio do bem, do mal e do neutro. — depois para.

– E o que ela disse? — incentiva Kyra.

– Ela disse que seis jovens, três garotas e três garotos, poderia derrotar a criatura. E que apenar um deles poderia dar o golpe final. — a mulher bebe um copo de água e depois continua: — Ela acrescentou que três estariam aqui e três no... É Universo o nome do mundo de vocês? — ela dá de ombros. — Sem esquecer que quatro de você precisar de sua relíquia específica. Não sei qual será para cada e para quem.

Ela suspirou.

– Quando me formei como soldado, saí em busca do mundo onde vocês moram. O oráculo não cedeu informações sobre a data em que vocês apareciam, pois ele nunca mais respondeu nossas perguntas.

– Algo a mais? — pergunto.

– Sim. Cada vez que vocês recuperarem uma relíquia, deverão derrotar o guardião respectivo a ela. — Ela olha para o relógio na parede, e depois se vira para nós: — Para conseguirem a primeira relíquia, deverão matar cada um dos sete reis desse mundo.

– Não! — Kyra e eu protestamos ao mesmo tempo. Kyra acrescenta: — Não podemos matar essas pessoas!

– Não se preocupem queridas, eles são monstros. Monstros que aprisionaram a verdadeira realeza daqui. Cada um desses reis verdadeiros, possuem uma safira, e com as sete safiras vocês conseguirão formar um mapa para a "Árvore de Ouro" — suspira. — Podem partir logo pela manhã

Sou a última a levantar. Quando estou saindo, a velha segura meu ombro e sussurra:

– Não leve para o lado pessoal, querida — diz — eu precisava saber se você era mesma a escolhida. É que você me parecia tão... Comum.

Então eu saí.

Notas finais
Se possível comente, favorite, divulgue o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.