Livre
1 Prólogo
Notas iniciais
Quatro anos antes.
Aquele lugar lhe parecia ainda mais belo quando dentro. As cortinas do vermelho mais opaco ao quase como o sangue. As paredes brancas e o linho dourado pendurado nas estatuetas negras como obsidiana. Eram cobras que pareciam mira-lo.
Um calafrio percorreu a espinha de Kizashi Haruno que logo escondeu as mãos tremulas. Mesmo que tentasse continuar parecendo destemido e corajoso — que fora a forma como entrara naquele lugar — não pode fazer nada quanto à hesitação em seus passos que se tornaram mais afastados e lentos.
Estava em alerta. Realmente desejava encontra-lo naquele lugar que exalava medo, embora os incensos agradáveis estivessem abrasados sobre o altar de carvalho escuro.
E lá o avistou. Completamente discreto não fosse à aparência quase angelical e chamativa, contrastando fortemente com o olhar atento e a expressão severa. Eram olhos negros e brilhantes que se voltaram para si.
- Váli. – Cumprimentou assumindo a postura rígida que se gabava de conseguir manter diante de quem estava.
- Sasuke. – O corrigiu seco enquanto descia as escadas do altar. Do seu altar. – Achei que não apareceria depois do que fez. Pretende me pagar o que me deve? – Foi direto e não economizou palavras, embora ainda preferisse esganar o homem tão alto quanto ele.
- Sabe que não posso.
Sasuke riu e anuiu ainda com o ar cítrico e amargo. Era sem duvida um rapaz fechado e calculista. Sabia que receberia uma resposta negativa.
Kizashi ainda era muito fiel a sua mãe e completamente devoto e apegado a sua família. Assumira uma briga que não era sua, mas que fora estendida até ele. Uma causa injusta que teria de pagar com a vida de sua filha. A pequena não merecia isso. Ela era inocente de qualquer forma.
Os olhos negros pararam de mira-lo para olhar uma das estatuetas, que se movia fria e sorrateiramente de modo assustador. Contorcia-se e gemia como se sufocasse enquanto o material usado para molda-la tilintava como se fosse vidro e umas lascas pequenas e negras eram deixadas no chão branco.
Iria tortura-lo se fosse preciso, ele precisava disso, precisava fazer com que Freya sentisse o mesmo que ele. Sentisse o quanto custava para que o amargor da perda lhe fosse tirado, ou que talvez se tornasse uma cicatriz incurável até mesmo pelo tempo. Uma marca perpétua e ainda dolorida.
Freya iria pagar pelo o que fez. Iria fazê-la assistir sem que a mesma pudesse tomar uma atitude. Iria fazer a deusa da morte desejar seu próprio óbito.
Então fez, enraivecido, ouvindo as trovoadas e a forma como a chuva parecia cair mais forte do lado de fora em uníssono com os gritos do homem que nem ao menos teve a chance de ver o espécime de escamífera que rastejou e tilintou até que rapidamente se enroscasse em seu corpo. Estava o esmagando.
Freya ainda observava a água, rangendo os dentes e ainda que não pudesse ver quem fazia mal a seu filho, sentia. Jurou que a pessoa iria morrer, mesmo que estivesse no momento presa em Asgard. E o amaldiçoou, sentindo o sangue fervendo nas entranhas. Amaldiçoou a angústia interminável, desejando que pudesse ao menos ver seu rosto.
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