Livraria da Esquina
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Agora só to te devendo uma cerveja ;)
Passar naquela rua e não entrar na Livraria da Esquina era impensável. O novo livro da saga que acompanhava febrilmente finalmente fora lançado e não seria capaz de esperar nem mais um segundo para tê-lo em mãos. Graças a Deus era sábado! Marquei com meu irmão de nos encontrarmos lá. Ele propôs um cinema a tarde, eu sugeri um almoço — quanto mais cedo colocasse as mãos no livro melhor!
Saí bem mais cedo da hora marcada. Pegaria a loja abrindo, compraria o livro e, com alguma sorte, conseguiria ler algo antes de meu irmão chegar. Difícil seria ter que se concentrar no mundo do irmão de garotas, festas e histórias divertidas depois de ter entrado no universo mágico do livro. Mas poderia superar — ou fingir...
Como esperado, a livraria tinha acabado de abrir. Ninguém no interior além dos funcionários que arrumavam as prateleiras (existe coisa mais odiosa que pessoas que tiram os livros do lugar e não colocam de volta?!) e nem notaram minha entrada. Fui direto na bancada do livro que queria e me dirigi ao caixa. No caminho, ouvi uma risada, seguida de um comentário lacônico sobre a saga que lia tão avidamente e que a continuação em minhas mãos implorava por ser lida.
Olhei em direção a risada — feminina — e prestando atenção nas palavras, percebi que a dona da risada estava tentando convencer a amiga a ler os livros também. Ela segurava o mesmo livro que eu, mas o marca-página indicava que já passara da metade — inveja. Mas suponho que trabalhar numa livraria tenha suas vantagens. ...Será que eles estão contratando?
A amiga da Risada que estava de frente pra mim, notou minha aproximação e acenou com a cabeça. A Risada virou-se e deu-me um sorriso estudado até que notou o livro que segurava e este se tornou em verdadeiro. Meu coração parou pela primeira vez naquela manhã.
Seus olhos brilhavam quando veio em minha direção e começara a falar da história, me pedindo ajuda para convencer a amiga a ler também. Sempre tive muita dificuldade com interações sociais e as únicas mulheres na minha vida eram minha mãe e a Netflix, mas jamais negaria nada a ela. Nem eu mesmo consigo explicar o porquê, mas todos os meus instintos me impeliam a fazer exatamente o que ela me pedisse e, surpreendendo a mim mesmo, comecei a falar.
Não demorou muito pra ela incluir suas próprias impressões na minha fala. Apesar de séria — ela realmente estava determinada a convencer a outra — todos seus comentários traziam uma dose de sarcasmo ou ironia. Parecia quase inevitável a ela. Natural. Como respirar.
Natural também era o fluxo da conversa entre nós dois, como se já conhecêssemos há anos e estivéssemos acostumados ao ritmo de fala e pausas de cada um. O ritmo se estabelecera sem que ninguém notasse. Eu falava confortavelmente, como se estivesse com meu irmão numa mesa de bar como já fizera tantas vezes e não travado e silencioso, como também já ocorrera outras tantas ao estar com mulheres.
Em algum momento, ao tentar provar um ponto — a tentativa de convencer a amiga abandonada por um debate sobre personagens e lugares da história — ela se inclinou em minha direção para mostrar algo no mapa da contra-capa. Meu coração parou pela segunda vez naquela manhã e eu apenas concordei com seja lá qual fosse o argumento dela, fazendo ela dar um sorriso aberto de triunfo e meu coração parar pela terceira vez. Se eu continuasse perto dela, teria um infarto em breve!
O assunto sobre o livro parecia ter morrido com a vitória de seus argumentos mas ela não parou de falar. E eu respondia, e incitava, e perguntava o que me vinha a cabeça. Tudo que importava era fazer ela continuar falando... Até que me notei falando por muito tempo. Nunca falava mais que algumas frases normalmente, mas lá estava eu, dando discurso sobre um filme que assistira recentemente e ela não. Percebi também que era seu olhar atento e sedendo de informações que me impulsionava. Ela realmente queria me ouvir falar e absorvia tudo aquilo com sofreguidão de uma mente incansável. Essa percepção me desestabilizou.
Alguns segundos calados e ela me encarou, tentando entender o que acontecera mas uma voz chamou meu nome. Meu irmão chegara. Geralmente meu salvador em momentos sociais inconvenientes, naquele momento o desprezei por ter sido tão pontual. Ela sorriu para o recém-chagado com o mesmo sorriso que me recebeu de primeira — educadamente estudado, e senti uma satisfação irracional com isso.
Como o ser social que o era, meu irmão já chegou todo sorriso, simpatia e piadas. Algo sobre ter descoberto a razão de eu gostar tanto dali e que até ele podia passar a gostar mais de ler se fosse ela a vendê-lo os livros. Ela nem ruborizou a encará-lo nos olhos e deixar seu sorriso endurecer numa máscara de educação. A força de teimosia em seus olhos fez meu coração parar pela quarta vez. E nem eram meio dia ainda.
Ela encaminhou o papo ao pagamento do livro em minhas mãos. Virou e seus cabelos balançaram enquanto andava decidida ao caixa. Paguei e ela piscou pra mim ao se despedir. Na entrada da loja, olhei para trás e a vi mexendo no celular. Droga! Por que não pedi o número dela? Meu irmão jamais cometeria tal falha. Ele perguntou o nome dela assim que saímos de seu campo de audição. Não sabia responder. Sério, o que há de errado comigo?!
De fato, não lembrava a cor de seus olhos, apenas o brilho que emanava ao comentar as partes favoritas de leitura. Nem se seus lábios eram finos ou grossos ou se estavam de batom, mas como se movimentavam rápido demais ao tentar acompanhar o fluxo que praticamente expelia de seu cérebro ao analisar as ações do vilão. Nunca me senti tão atraído por alguém, e sequer lembrava se seus cabelos eram longos ou curtos. Quão estúpido isso era?!
Fui almoçar com o irmão, ri de suas histórias e suportei as perguntas sobre a "garota da livraria" que foi como meu irmão decidiu chamá-la pela falta de nome. Assistimos um filme por fim e seguimos nosso caminho: o irmão pra mais nova ficante, eu pro mais novo livro. O domingo passaria indistinto nas páginas do livro e a perspectiva da segunda nunca foi tão boa. Sorri. Passar naquela rua e não entrar na Livraria da Esquina era impensável....
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