Living-dead Exodus

1 Vida após a morte


Foi há cerca de dois anos que tudo começou. Algum surto, alguma doença, que causou esse pandemônio. Alguma coisa bacteriana, ou algo assim. Os "Zumbis", como nós os chamamos, estão agora para todo lado. Preciso sempre manter a cautela. Estou atualmente procurando um lugar isolado para ficar. Não sei quanto tempo esse caderno vai durar, mas eu espero que dure o suficiente.

Vamos lá, por onde começar? Muito bem, meu pai morreu há mais ou menos quinze anos. Minha mãe? Nunca conheci. Cresci um pouco longe do caos urbano numa fazenda com meu tio Doyle, até os quatorze.

Nunca vou esquecer o dia que vi meu tio cair no chão. Há poucos meses começou com um surto de febre, e um dia após ouvir seus gritos fui correndo para ajudá-lo. Quando me aproximei dele já era tarde, chamei seu nome, porém ele não respondeu, ao invés disso virou-se para mim com os olhos vermelhos e a boca aberta. Em um último ato de ajuda, ele se virou para mim, e com todas as forças que lhe restava me sussurrou: "Debaixo d-da cama". Aquele momento era algo que eu não esperava, era algo que não queria nunca.

Desde pequeno meu tio foi alguém bom para mim. Qualquer um poderia ir embora se quisesse, aos diabos que fossem. Mas meu tio não. Debaixo da cama, debaixo da cama, me pus a pensar.

Juro que achei que era para eu me esconder, e era o que eu iria fazer. Demorou mais ou menos uns cinco minutos para a transformação ocorrer. Subi correndo as escadas e fui para debaixo da cama dele. Foi quando eu vi. Lá em baixo, um rifle médio com uma bandoleira. Uma parte era constituída de uma madeira marrom bem escura, decerto pinheiro, enquanto que o resto era de um metal semelhante ao aço, banhado à prata.

Em um dos lados, no cano do rifle, estava escrito: "Winchester Repeating Arms Company". Sorri. Era o meu sonho ter uma dessas, a ilustríssima 44 Repeater. "A arma que conquistou o Oeste", como diziam. Atrás, de um lado da coronha, estava talhado na madeira: "Para o meu querido sobrinho Brady, você está pronto". Uma lágrima desceu do meu olho naquela hora, então eu ouvi um barulho vindo da escada. Estava sem escolha, lembrei-me de quando eu tinha nove, ele me ensinou a manusear um desses. Era uma carabina de pressão na época, e foi nesse dia, só nesse dia, que eu entendi o porquê disso tudo.

Na mesma hora, ajeitei a bandoleira no ombro, a coronha debaixo do braço, olho direito na mira. Ele estava ali, subindo as escadas. Os olhos vidrados. Mirei direto em sua cabeça. Mas decidi que não. Não assim. Seria fácil apenas acertar-lhe um tiro e deixar o corpo pra lá, mas aquele era o meu tio.

Acertei com pesar suas pernas e o deixei imóvel no chão por um tempo. Peguei minha mochila e enchi com o essencial. Cordas, munição, comida e a Colt Python do meu tio. Aquela sim. Banhada a ouro e de precisão inigualável. Acho que fica nítida a nossa admiração por armas, eu e meu tio. Visitávamos todo tipo de loja de armas e gostávamos de pesquisar bastante sobre elas. Esse revólver em especial ele havia conseguido durante um leilão.

Após pegar tudo, desci as escadas e cheguei perto de meu tio que inutilmente tentava sair do lugar. "Me preparou para isso, agora é a hora", foi o que eu me lembro de dizer. Peguei o galão de gasolina de tio Doyle e espalhei por todo seu corpo. Puxei até onde dava, pela cozinha, sala, quartos, etc. Já do lado de fora e com rastro enorme, o combustível estava ali esperando pela ignição.

Pus a mochila nas costas e segui em frente. Quando saí da casa, olhei para trás e sorri para ela mais uma vez. Coloquei a Winchester nas costas, acendi um pedaço de pano com um isqueiro, e deixei queimando ali, no chão.

Fui até o celeiro e peguei Apache, meu cavalo. Marrom avermelhado, estatura média. Mustangue. Com uma corda levei também Rebel, outro cavalo um pouco mais jovem, porém bem forte. Rebel era um bronco que meu tio custou a domar. Lembro-me de como observava o animal e dizia, "este um dia será meu". Quando finalmente adestrou o bicho, soube que este seria o nome correto. Era um appaloosa marrom escuro com pontilhados brancos pelo lombo.

Ainda bem que a natureza (naquela época) não foi tão afetada. As plantas ainda cresciam, e foi assim que os mantivemos vivos por esse tempo. Pus a sela neles e segui cavalgando para frente, desta vez sem olhar para trás. Com lágrimas saindo dos olhos, poderia imaginar como aquela casa estava. Ardendo em brasas, fumaça até o topo. Mas não olhei. Simplesmente não quis. Enxuguei as lágrimas e segui cavalgando, eu e meus dois companheiros, sozinhos pelas estradas que jaziam à nossa frente.