Acordo de repente, empapada de suor frio. Meu coração está acelerado, meu rosto riscado de lágrimas. Sinto todos os músculos de meu corpo contraídos de tensão.
Me sento na cama e olho para o relógio na mesa de cabeceira. O visor mostra os números 4:37 brilhando vermelhos na escuridão.

— Pior pesadelo da minha vida — murmuro. Minha voz sai como um sopro rouco, e eu nem a reconheço direito.

Levanto da cama e vou até meu banheiro. Tomo um banho frio, me visto e volto para o quarto. Ainda estou tremendo um pouco, mas estou mais calma. Meu cérebro ainda tenta processar tudo que aconteceu, ou que eu sonhei que aconteceu pelo menos. Paro em frente a janela, olhando para a casa da frente. Luzes dançam na cortina do quarto de Jeff, ele deve estar com a televisão ligada, provavelmente. Pego meu celular e mando uma mensagem para ele.

Eu: "Oi" (Enviado 4:47am)
Eu: "Tá acordado?" (Enviado 4:48am)
(Visualizado 4:51am)

Jeff: "Oi" (Recebido 4:51am)
Jeff: "Tá tudo bem?" (Recebido 4:52am)

Eu: "Mais ou menos..." (Enviado 4:53am)
(Visualizado 4:54am)

Jeff: "Fala" (Recebido 4:54am)

Eu: "É que... Eu não sei direito como explicar, eu tive um sonho muito bizarro" (Enviado 4:57am)
(Visualizado 4:57am)

Jeff: "Bizarro quanto?" (Recebido 4:57am)

Eu: "Muito. Tipo, muito mesmo" (Enviado 4:57am)
(Visualizado 4:57am)

Jeff: "Chego em 5 minutos" (Recebido 4:58am)

— — -

— Você não demorou nem três.

— Tá quente ué.

— O que isso tem a ver?

— Eu tava dormindo só de cueca, acha que sou louco de usar pijama nesse inferno?

— Aff Jeff, me poupe dos detalhes.

Ele deu risada e eu o encarei, furiosa.

— Porra Tommy, vai acordar meus pais.

— Calma! — ele ri baixinho e aperta minha bochecha — Eu sentia falta de você me chamando de Tommy, fofa.

Eu reviro os olhos e puxo ele pra dentro, fechando a porta da frente.

— Sua irmã não está? — pergunta ele, enquanto subimos as escadas para o meu quarto, e eu faço que não com a cabeça.

— Ela foi numa festa com a Ash, só volta de tarde, provavelmente. — Ash é a namorada da minha irmã mais velha, Laureth. Ela é adotada. Isso meio que não importa muito, considerando a semelhança que ela tem com minha mãe. Ela tem 21 anos e passa boa parte do tempo fora de casa com Ash, volta tarde da noite e sai cedo (ou nem volta pra casa, como essa noite). Eu quase nem vejo ela direito ultimamente, e eu tenho quase certeza de que ela começou a usar drogas. Mais uma vez, isso não importa muito. Ela está cursando Direito e meus pais tem tanto orgulho dela que nem ligam pras festas, bebedeira ou a sua namorada.

Ele esboça um sorriso e exclama:
— Boa sorte pra aguentar a louca de ressaca.

Nós entramos no meu quarto e eu me sento na cama. Ele se senta ao meu lado.

— Então... E sobre o tal sonho?

O sorriso que vinha estampado em meus lábios desapareceu.

— É complicado...

— Tente. Eu sempre te entendo, você sabe disso linda. — ele me puxa para si e me abraça.

— Eu, hm... bom, foi estranho. No começo parecia só um dia normal, mas então enquanto eu estava tomando café da manhã, antes de ir pra escola, os noticiários começaram a passar noticias de emergência, falando sobre a confirmação de um vírus letal, que estava se alastrando mais rápido do que é racionalmente plausível e, aparentemente, não tinha cura. Diziam que era contagioso mesmo depois do óbito das vitimas, portanto todos os corpos deveriam ser incinerados. Com o tempo nós descobrimos que era bem pior que um simples vírus, era o fim dos tempos. As pessoas estavam morrendo, e depois voltando, se arrastando pelas ruas como canibais apodrecidos.

— Zumbis? — pergunta ele.

Eu faço que sim com a cabeça e continuo contando tudo que aconteceu em meu sonho, sobre como eu vi minha família morrendo, como nós nos juntamos com um pessoal que encontramos — nossos vizinhos e alguns amigos da escola — e muito deles acabaram sendo infectados também. Sobre todos os três difíceis, dolorosos e podres anos que se passaram no meu sonho, sobre as pessoas que passaram por nós, e sobre as que se foram. Mas ele esteve sempre ao meu lado. Ou quase sempre. No final, ele começou a agir estranho. Eu havia sofrido um acidente e fiquei alguns dias desacordada, e alguém — eu suponho que John — tinha dito coisas a Jeff que tinham mexido com ele, deixado ele desconfiado, irritadiço e com muito, muito ciúme.

Após terminar esse meu relato bizarro, nós ficamos em silêncio, encarando a escuridão. Eu estava tremendo um pouco, e ele ainda estava com seus braços em volta de mim, me aperta levemente.

— Tá tudo bem. Eu estou aqui. Não tem nenhum morto-vivo lá fora. Nenhum dos nossos amigos morreu eu seu pais estão dormindo no quarto do outro lado do corredor. Vai ficar tudo bem. Já está tudo bem. Eu estou aqui com você, e não tem nada que aquele babaca do John possa dizer que me tire daqui.

Eu me viro, me encolhendo em seu colo, e afundo o rosto em seu peito.
É muita coisa para processar em uma só noite. Três anos caramba! Isso é muita coisa pra um pesadelo. Foi surreal. Mas Jeff está certo, já passou.

— Então, — diz ele depois de passarmos alguns minutos em silêncio — Que tal a gente sair um pouco? Sei lá, comprar uns tacos, uma Coca Diet. Andar pela cidade, respirar um ar puro. Sem zumbis. Vai fazer bem a você.

— Bom... Claro, por que não?

Eu me levanto, lavo o rosto, pego algum dinheiro e calço meus tênis.

Nós acabamos sentados em uma lanchonete 24 horas qualquer, que estava completamente vazia, a não ser por mim, Jeff e alguns poucos funcionários.

— Aquilo tudo parecia tão real — digo, pegando uma batata frita — Que é quase como se isso fosse um sonho.

— Olha, eu acho que você tem é que esquecer esse negócio antes que fique paranóica.

— Eu já sou paranóica Rogers.

— Vai ficar mais.

Ele toma um gole do seu milk-shake de chocolate e me oferece um pouco. Eu aceito, olhando pela janela.

— Mas e se...

— Jessie — diz ele, com voz acusadora.

— Tá, mas sério. Me escuta. Imagina se essa coisa toda acontecesse. Sabe, dos zumbis e tal.

— Uhum — ele pega o milk-shake da minha mão.

— Eu não sei como eu iria reagir. Tipo, principalmente depois desse sonho. Eu meio que tenho a sensação de que eu ia ficar meio surtada, com medo de um paradoxo temporal ou qualquer merda assim por já ter "vivido" isso.

— Olha, eu que você já tá ficando meio surtada, fofa. Não sei mesmo. Mas uma coisa eu posso te dizer: Eu quero outro milk-shake.

— Gordo.

— Magrela — ele se levanta da mesa e vai até o balcão.

Pego meu celular no bolso, ligo no fone e boto uma playlist qualquer pra tocar, me recosto no banco, fecho os olhos e espero Jeff voltar.

Abro meus olhos. Não estou mais na lanchonete. Minha roupa é diferente, e o ar está cheio de um aroma pútrido, além do cheiro de sangue. Eu estou em uma sala iluminada pela luz da lua, que entra por grandes janelas na parede ao meu lado. Eu vejo Mabel na outra extremidade da sala, em frente a uma das ultimas janelas. Eu me sento, minha cabeça girando. Uma lágrima escorre pelo meu rosto.

Não foi real.

Nada foi real.

Isto é real.

O mundo acabou.

Os mortos voltaram.

E eu continuo aqui.

Tudo mudou.

Eu olho para a lua pela janela, desejando que tivesse mesmo sido tudo um sonho.

Eu suspiro e me sento, olhando para a lua pela janela.
Mabel vê meu movimento e vem até mim.

— Te acordei?

— Ahn? Uh, n-não. Eu só... só tive um sonho meio estranho.

— Você tá bem?

— Uhum.

— Certeza Jess?

— Uhum. — eu digo desviando o olhar do rosto dela.

Ela suspira e me estende a mão, eu seguro enquanto ela me ajuda a levantar.
Eu abraço Mabel por alguns instantes, repousando meu rosto sobre sua cabeça. Eu solto ela ando até a janela.
Toda essa escuridão lá fora me perturba um pouco.

— Que horas são? — pergunto.

— 5h50, mais ou menos. — ela fala olhando no relógio em seu pulso. — Não sei como essa porcaria ainda funciona... — ela murmura.

— Deuses! Parece 1h da manhã, com todo esse breu. Os outros ainda estão dormindo?

— Aham. Você vai lá falar com eles?

— Vou.

— Me trás uma água?

— Uhum.

Eu desci as escadas o mais rápido possível. Fui até onde Ellie estava dormindo e tentei acorda-la.

— Uh, o que — ela bocejou — o que foi Jessie? Você não tava de guarda criatura? Que porra, que horas são?

— A Mabel tá lá em cima. E agora são quase 6 horas.

Ela se apoia no cotovelo, olha para fora pela janela e depois vira para mim de novo.

— Tá, sério, que horas são Jess?

— Eu já te disse, umas dez pras seis, por ai.

— Você tá falando sério?

— Uhum. Foi por isso que te acordei. Tem algo meio... sei lá, estranho nisso. A gente tem que ir embora.

— Tá, sobe avisar a Mabel, eu vou acordar os outros. Vamos pegar o máximo de suprimentos que der e saímos.

— Okay.

Eu pego uma garrafa d'água para Mabel e subo as escadas novamente.