Living
4 Capítulo 3
Notas iniciais
CAPÍTULO 3
Fiquei cinco dias sem ver Elliot após o ocorrido.
Em parte porque estava trabalhando bastante – a quantidade de alunos na Academia de Muay Thai havia aumentado consideravelmente e eu tivera que abri mais duas turmas, o que consequentemente aumentou minha carga horária; e em parte porque eu o estava evitando. Havia divagado bastante sobre meu pensamento repentino de me tornar amiga dele, e concluíra que ele era o tipo de pessoa a qual era fácil se afeiçoar, portanto, era melhor manter-me seguramente longe.
É claro que eu não podia deixar de me sentir ansiosa para saber como ele estava – pois da primeira e última vez que o vira, ele estava completamente ferido. Também tinha a vontade de conhecê-lo melhor que se mostrava igualmente presente. Eu tentava me convencer repetidamente que isso era resultado da forma rápida com que ele conseguira me decifrar, mas eu sabia que não era bem verdade. Porém decidi não pensar muito sobre isso.
Ainda que não o tivesse visto depois daquela noite, eu ouvira alguma coisa sobre seu estado, coisas que a Sra. Croollyn comentava ocasionalmente com outros pensionistas quando eu estava por perto – as vezes eu imaginava se ela me considerava um monstro por não ter ido vê-lo, ou sequer perguntado sobre ele. Mas decidi que isso não importava realmente.
Na manhã seguinte ela tentara me convencer a ir visita-lo em seu quarto, porém eu dispensei educadamente, dizendo que trabalharia até tarde e que não queria incomodá-lo a hora que chegasse. Depois desse dia ela nunca mais falou diretamente para mim sobre Elliot.
– Ele teve que se afastar do trabalho por algumas semanas, até o tornozelo melhorar. – disse a Sra. Croollyn respondendo a pergunta de Camilla, uma mulher alta e morena de meia idade que tinha um filho de sete anos que adorava Elliot.
Já fazia uma semana que eu não o via e não podia dizer que sentira falta dele realmente, só habitual curiosidade sobre seu estado de saúde, a qual a Sra. Croollyn saciava todos os dias, indiretamente.
– Sinto pena dele, mas sei que consegue se recuperar logo. – falou Camilla, otimista.
– Tenho certeza que sim. – disse ela, olhando para mim pelo canto do olho. Eu nada disse, apenas continuei bebendo meu café. Ao ver minha aparente indiferença em relação ao assunto, ela seguiu para a cozinha em silêncio e eu aproveitei a deixa para ir trabalhar.
***
– Você só precisa treinar mais o kao dode e o kao loi. O restante está ótimo. – falei para Brian, um dos meus alunos, após o fim da aula. Ele era um garoto de dezessete anos, alto, magro e louro com olhos cor de mel bastante expressivos. Era um bom aluno no geral.
– Obrigada Sarah. – ele agradeceu. – Vou treinar em casa essa semana inteira.
–Ótimo! – falei com um sorriso.
Quando todos os alunos foram embora, ao invés de ficar mais um pouco para treinar, decidi ir para a pensão. Estava casada e precisava de um banho e uma boa noite de sono.
Troquei-me rapidamente e fechei a Academia, entrando no meu carro – o qual eu mesma havia consertado – e ligando-o.
Segui caminho na velocidade máxima que o carro me permitia, ou seja, oitenta quilômetros por hora, e o estacionei na garagem nos fundos da pensão quando cheguei.
Peguei minha bolsa e a chave do meu quarto e saí do carro. Segui até o jardim e percorri o caminho estreito de pedra até a porta. Eu entrei e parei. Não consegui reprimir o suspiro cansado que veio a seguir.
Sentado no sofá branco e macio estava Elliot – o pé engessado apoiado na mesinha de centro, os cabelos castanhos desgrenhados e o olho esquerdo inchado e roxo. Suas muletas estavam escoradas na parede atrás da TV. Ele estava ladeado pala Sra. Croollyn e por Matthew – o filho de sete anos de Camilla, o qual tinha cabelos pretos como da mãe e olhos pretos amendoados. Ele tinha traços orientais, o que me fazia pensar que seu pai era japonês ou algo do tipo.
– Srta. Bennet! – exclamou a Sra. Croollyn ao me ver; acabando com todas as minhas chances de subir para o meu quarto de fininho. Elliot se virou e sorriu ao me ver.
– Olá. –respondi com um sorriso forçado.
– Venha, junte-se a nós. – eu hesitei por alguns segundos, pensando se havia alguma desculpa plausível para eu subir ao meu quarto imediatamente. Não consegui pensar em nada, então fiz o que ela pediu e me sentei ao lado de Elliot no sofá, mantendo uma distancia segura. – O Sr. Jones acabara de perguntar de você. – comentou. Eu me virei para ele e arqueei uma sobrancelha. Ele apenas deu de ombros. – Bom, vou deixa-los conversar. Venha Matt, tem sorvete de chocolate na cozinha, vou pegar para você. – dito isso a Sra. Croollyn seguiu para a cozinha, de mãos dadas com Mattew.
– E aí, como está o seu tornozelo? — perguntei, mais por educação do que por real interesse, uma vez que a Sra. Croolliyn deixara-me a par de tudo relacionado a sua saúde física.
– Sejamos sinceros, você não está nem aí com o meu tornozelo, não é? — disse ele após analisar minha expressão.
– Tem razão, — falei, escondendo um resquício de assombro ao confirmar o quanto ele era observador. – não dou a mínima para o seu tornozelo, só estou perguntando por educação.
– Não precisa fingir comigo, sabe disso.
– Não, eu não sei. Eu mal te conheço. – rebati.
Ele deu um sorriso torto extremamente atraente – não pude deixar de notar.
– Podíamos mudar isso. Se eu não tivesse tão debilitado, te convidaria para sair... – disse ele pensativo, olhando-me da cabeça aos pés.
– Ah, fala sério! Não vai cair na da Sra. Croollyn, vai?
– Não seria uma má ideia. – observou.
Eu revirei os olhos.
– Se continuar agindo assim, não vou querer te conhecer melhor nunca.
– Então há uma possibilidade?- perguntou, fingindo-se esperançoso.
Eu ri.
– Você devia ser comediante.
– Eu sei. – ele mudou de assunto. – Você vai jantar conosco, ou vai ficar enfornada no quarto como todas as noites?
– Estou inclinada a optar pela segunda opção... Estou exausta.
– Ah, qual é Sarah, vai negar sua companhia a um aleijado?
– Ah, por favor, pare de fazer drama. – respondi revirando os olhos.
– Tudo bem, mas ainda assim, gostaria que nos acompanhasse. – ele deu uma pausa. – Você diz que não me conhece, podemos nos conhecer enquanto jantamos.
– Com a Sra. Croollyn, Matthew e os outros pensionistas ouvindo a conversa?
– Então prefere jantar a sós comigo? — ele deu um sorriso malicioso.
– Você definitivamente é um idiota! – eu bufei. – Tudo bem, eu janto com vocês, mas quando acabar, eu vou direto para o meu quarto, ok? Estou muito cansada! – falei, exagerando um pouco. Eu não estava assim tão cansada, eu só queria me poupar da companhia de pessoas que em breve eu deixaria para trás. Mas ainda que meu intuito aqui não fosse fazer amigos – e eu realmente não queria isso – Elliot me parecia o tipo de pessoa a qual valia a pena conhecer, ainda que por breves semanas. – Satisfeito?
Ele não respondeu, apenas recostou no sofá – um sorriso de triunfo brincando nos lábios.
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