Living

11 Capítulo 9


Notas iniciais
Boa Tarde, leitoras!! Aqui vai mais um capítulo, espero que gostem... Boa Leitura!!

CAPÍTULO 9

Um sentimento estranho, algo que podia ser comparado com ser jogada nas águas geladas do Oceano Glacial Ártico, se espalhou dentro de mim — eu me sentia surpresa, incrédula e traída ao mesmo tempo; não sabia o que dizer ou para quem olhar, só sabia que queria desesperadamente saber toda a verdade, tanto quanto eu queria correr dali e me trancar no porão para extravasar minha raiva no saco de pancadas ou nos colchonetes, qualquer coisa que eu pudesse socar.

Por alguns instantes o silêncio era tudo que havia, além de olhares sobressaltados que eram lançados mutuamente pelas pessoas no cômodo. Mesmo estando paralisada, agradeci mentalmente pela Sra. Croollyn já ter ido se deitar, pois seria difícil explicar nossa conversa à ela.

Então, Taylor começou a tremer, seu olhar fixo em Elliot, o temor era claro em suas íris castanho-claras.

–Taylor... – foi Elliot a romper o silencio. – Você não conhece a história toda.

– Não?– Taylor quase gritou, a voz embargada pelas lágrimas que escorriam sem parar por sua face clara. – Por que fez aquilo? Jordan era só uma criança...

– Eu não fiz por vontade própria. Todos ali éramos chantageados, tal como você foi. – ele respondeu, a voz elevando-se aos pouco. Josh e eu permanecíamos calados, apenas absorvendo as informações. – Ou você entregou Lorena por conta própria?

– Como sabe dessa história? – perguntou Taylor. – Nem chegou a conhecê-la. Aliás, nem à mim. Nunca fomos apresentados, mas vejo que sabe muito sobre minha vida.

– As notícias correm. E você e Lorena eram muito citadas entre nós. Dorothea sempre dizia que Lorena iria nos ajudar-nos a vencer e que você foi procurá-la quando fugiu.

– Você ia fazer parte da guerra... – sussurrei, incapaz de me conter. Eu poderia ter o matado em uma situação como essa. Ou ele poderia ter me matado.

E eu estava certa no fim das contas: Elliot não era um humano qualquer, ele era um guerreiro, um ex-recruta de Dorothea, um ex-inimigo... Ou talvez ainda fosse.

– Sarah, eu já disse, vocês não sabem a história toda...

– E nem quero descobrir. – Taylor o interrompeu. Ela se afastou de Josh e o olhou. – Eu vou... para o quarto.

– Eu te acompanho. – disse ele.

– Esperem – gritei e eles me encararam.- Eu quero. – falei. Elliot me olhou com as sobrancelhas franzidas de confusão. Notei que seu semblante estava triste, parecia desconsolado. – Eu quero saber a história toda. – esclareci e seus olhos verdes pareceram brilhar minimamente com minha declaração.

– Quer? – confirmou.

– Tem certeza? – perguntou Josh, alternando olhares cautelosos entre Elliot e eu; seus braços ainda permaneciam em volta da cintura de Taylor.

– Sim, venham. Vamos até o porão. – chamei, voz mais suave do que eu usaria normalmente, talvez fosse por causa da sua expressão triste.

–Não quero ficar Josh... – sussurrou Taylor. – Eu vou subir.

– Eu vou levá-la. – disse Josh, olhando para mim. – Mas depois quero a história toda. – exigiu, olhos raivosos fixos em Elliot, a mandíbula trancada. – E não ouse fazer nem um mal...

– Não vou machucá-la. – sua voz soou tão sincera que Josh não discutiu. Com mais uma olhada no cômodo, ajudou Taylor a subir as escadas e juntos desapareceram pelo corredor superior da pensão.

Com a deixa, Elliot e eu seguimos então lado a lado pelo corredor ligeiramente estreito, coberto de papeis de parede com estampa floral e um carpete vinho manchado em alguns pontos; em direção ao porão — ambos sem dizerem nada; apenas andamos em um silencio desconfortável enquanto a curiosidade me corroia de dentro para fora. Passei novamente pelo espelho e vi meu reflexo pela visão periférica. Parecia tão desgrenhada quanto antes, os cabelos desalinhados, o rosto suado; mas não me importei, apenas segui em frente, abrindo a porta do porão e entrando, com Elliot logo atrás de mim. Sentei-me num canto sobre um dos colchonetes – o mesmo onde, há alguns minutos atrás, havíamos lutado e nos beijado — e esperei, enquanto Elliot fazia o mesmo.

– Sabe, — comecei, após um minuto. – desde que comecei a treiná-lo, soube que não era ignorante em relação à luta, soube que já havia sido treinado e que escondia um segredo. Eu acordara hoje no intuito de desvendá-lo, mas não achara que não teria trabalho nenhum com isso. Não contava que Taylor viesse e muito menos que vocês se conhecessem.

Elliot passou as mãos pelos cabelos castanhos e suspirou.

– Não me orgulho do que fiz. –ele falou tão baixo, que tive de me esforçar para escutar. – Mas quero que saiba o que Taylor não me deixou explicar: não foi algo que fiz por vontade própria. Fui tão usado quanto ela.

– Certo, então... O que aconteceu de verdade?

– Sarah, eu não me lembro de ter descoberto meu poder como os outros. Não consigo me lembrar de nenhum evento traumático que tenha desencadeado isso. Eu simplesmente sabia desde que criança tudo o que eu podia fazer.

– E o que você pode fazer? – perguntei.

– Telecinésia. Esse é... era o meu dom.

– Era? Como...

– Já vou explicar. – garantiu-me.- Então, como dizia, eu sempre soube disso e o usava o tempo todo. Meus pais eram espíritas e acreditavam que eu era uma criança abençoada por nascer com esse dom. Diziam isso sempre. Nunca acreditei realmente na religião deles, era mais voltado para o cristianismo; mas ainda assim, me sentia abençoado por Deus. Não era todo o mundo que podia fazer o que eu fazia...

Ele suspirou, perdido em seu passado e eu aguardei, ansiosa para ouvir a história toda.

– Eu tinha dezesseis anos quando minha vida começou a mudar. Comecei a andar com as pessoas erradas e fazer coisas erradas. Meu amigos, é claro, sabiam sobre a telecinésia, aliás todos sabiam. Meus pais faziam questão de que todos soubessem sobre o filho abençoado deles. E eu nem ligava, até gostava da atenção, do olhar admirado no rosto das pessoas. Só mais tarde fui descobrir que foi essa exposição que acabou com a minha vida.

“Dorothea descobriu; morávamos no Maine naquela época. Ela armou para mim. Meus amigos e eu, queríamos tirar uma “onda” e decidimos roubar o barzinho perto do colégio usando meu dom. Foi uma ideia estúpida e a mantivemos em segredo. Mas de alguma forma ela descobriu e fez questão de bolar um plano. Ela mandou um de seus homens vestidos de assaltante e portando uma arma. Assim que ele entrou no bar, enquanto roubávamos furtivamente o que queríamos, e ameaçou o senhor magricelo que ficava no balcão, não pude perder a oportunidade: tinha de ser o herói daquela tarde.”

– O que você fez? – perguntei num sussurro. Estava tão envolvida na história que sentia que se falasse em voz alta, poderia interromper o clima tenso.

– Exatamente o que ela esperava que eu fizesse. Eu usei meu dom para tirar a arma da mão do “assaltante”, a qual ele apontava para a cabeça do senhor. Mas eu não contava que ele também tivesse um dom. A invisibilidade. Há essa altura, Dorothea já havia chamado a polícia e o que pareceu foi que eu era o criminoso e que a arma era minha tinha as minhas digitais e tudo o ais, uma vez que o verdadeiro dono dela estava com luvas. Ele não deixou nenhuma prova para trás.

“Meus pais ficaram arrasados, é claro. Jamais imaginariam isso. Mas ainda assim, foram atrás de um advogado para mim, e foi assim que Dorothea se apresentou,como Dra. Dorothea Weekham, advogada criminalista. E é claro que ela conseguiu me absolver de algo pior, me enviando para um reformatório em Óregon, do outro lado do país.”

Elliot passou as mãos pelos cabelos castanhos e suspirou, fechando os olhos por um breve momento, e parecendo voltar a realidade quando abriu os olhos novamente. Ele me olhou, fitando-me por um momento imensurável.

– O que aconteceu depois? – perguntei, engolindo em seco, desconfortável com o olhar dele fixado sobre mim.

– Bem, basicamente o que ela fez com Taylor: disse-me que se eu me juntasse a seu exército, me deixaria livre. E eu aceitei; estava desesperado. Meus pais ainda me visitavam de vez em quando, mas fora isso eu estava sozinho naquele inferno. Não tive opções. Foi então que começou meu treinamento de soldado.

– E a história de que telecinésia era o seu dom?

– O restante ocorreu mais recentemente. Assim que tive a informação de Lorena e um garoto conseguiram fugir, eu fiquei pensando que talvez isso fosse possível para mim também. Eu também tinha habilidades fora do comum, era tão capaz quanto eles. – Mordi o lábio inferior quando Elliot mencionou Nathan e Lorena. Eu ainda sentia uma leve pontada no peito quando me lembrava do que me ocorrera após a fuga dos dois. – Tentei fugir com alguns dos outros, mas não fomos tão espertos. Ela nos pegou no meio do processo e nos prendeu, nos transformou em cobaias como castigo...

– O que? Ela... fez experiências com você? – perguntei alarmada.

– Sim, ela fez. – concordou. – Estava testando um equipamento para usar “quando ganhasse a guerra”, ela dizia. Era como uma cadeira elétrica, eu me lembro. Ela produzia choques em alta voltagem que mataria uma pessoa normal, mas o objetivo dessa máquina não era matar;embora diversas vezes foi o que ela fez, já havia matado dezenas de cobaias “por acidente”. Porém comigo, ela conseguiu o efeito desejado.

– Retirar seus poderes? –ele assentiu. – Mas como?

– Foi um longo caminho para chegar nessa máquina, ela atinge, com os choques, a área do nosso cérebro que controla os nossos poderes, a mesma que se encontra adormecida quando não tínhamos a consciência dele; a máquina conseguia entorpecê-la de novo. – ele riu. – É como um órgão amputado, eu simplesmente não consigo encontrar os “músculos” necessários para usar meu dom, para trazê-lo à tona.

Eu arfei, impressionada, principalmente com a tal máquina bizarra que conseguia fazer o que todos achávamos ser impossível.

– Aqueles caras que estavam me batendo naquele dia, — falou, retirando-me dos meus devaneios. – eram ex-recrutas como eu. Três dos que haviam tentado fugir comigo. Eles ainda me culpam por terem perdidos seus poderes. Foi por isso que tentaram me matar.

– Mas foi tão fácil derrotá-los! – exclamei, lembrando. – Vocês recebia um treinamento, era par eles saberem mais sobre artes marciais.

– Eram recém-chegados, estavam tão desesperados quanto eu, ou até mais. Ainda não haviam tido tempo de aprender muita coisa. Foi por isso que levaram armas.

Eu pisquei, tentando absorver tudo. Era muita coisa. Soltei o ar devagar e me levantei, andando até estar ao lado dele e me sentando com as pernas cruzadas.

– Acredito em você. – disse e ele pareceu surpreso; eu certamente também estava. Não era de acreditar em ninguém assim, sem provas concretas, mas ele estava sendo sincero. Eu podia ver, pelo olhar, os gestos, o semblante...

– Sério? – perguntou descrente, arqueando uma sobrancelha.

– Eu estava lá no dia do combate. Vi como era aquele lugar, vi o que aquela mulher podia fazer. Ela era um monstro vingativo.

– Então... Ainda vai me dar aulas?- revirei os olhos e ele se permitiu sorrir por um segundo. – Ainda podemos treinar. – sugeriu.

– Claro. Mas antes, terá de explicar tudo ao Josh. Ele não irá baixar a guarda enquanto não souber exatamente o que houve.

– Certo. – Elliot concordou, a expressão séria. – Mas, vocês são o que um do outro?

– Amigos de infância! – eu ri. Que pergunta tola de se fazer, pensei.

– Certo. – ele parou por um segundo. –Mas, e você?

– Eu, o que?

– Qual é o seu dom? Onde foi treinada?

Mordi o lábio inferior. Eu sabia que alguma hora ele iria querer saber sobre mim, tal como eu queria saber sobre ele antes; mas mesmo tendo a certeza que ele era igual a mim, não me sentia segura o suficiente, pois nada mudava o fato de que nos conhecíamos há apenas algumas semanas.

– Elliot, não acha que está um pouco tarde... ?

– Na verdade, não. – rebateu.

– Tudo bem, então... – engoli em seco e me preparei para despejar os acontecimentos da minha vida nesse garoto que era ao mesmo tempo um estranho e um amigo.

Notas finais
E aí, o que acharam?