Living
29 Capítulo 23
Notas iniciais
CAPÍTULO 23
Se eu fosse uma pessoa mais fraca, teria desfalecido. A dor pungente e o desgosto que senti seriam o suficiente para derrubar alguém menos teimoso que eu. Todavia não quis dar esse gostinho à odiosa mulher a minha frente que agora havia provado ser minha mãe. Ao invés disso mantive-me firme, o maxilar trincado enquanto a encarava com toda a repulsa que estava sentindo do meu sangue nesse exato momento.
– O que diz aí? – perguntou ela, com uma falsa curiosidade na voz.
– Como se você não soubesse. – falei simplesmente.
Soltei um suspiro e senti uma mão em meu ombro. Era tio Jerry. O mesmo me olhava com um ar condescendente, um olhar que eu odiava. Era como se ele tivesse pena de mim e isso me ofendia. Já não bastava o fato de ter acabado de descobrir que o sangue nojento de uma das pessoas que eu mais abomino corre em minhas veias, ao menos tinha de manter minha dignidade.
– Eu te disse. – ela sorriu triunfante. – Mas devo admitir que admiro sua teimosia. Tal como eu...
– Eu não tenho nada em comum com você. – gritei, enfatizando cada palavra como se falasse com alguém com problemas mentais, o que não era de todo mentira.
– Ah, tem sim querida. Mais do que você pensa. – novamente o sorriso triunfante. Eu não suportava mais ter que olhá-la, precisava sair dali para pensar um pouco.
– Não tem, não. – a voz de Lorena ecoou no quarto silencioso. Nathan apertou-lhe o pulso levemente, repreendendo-a. Aparentemente todos estavam com medo de Dorothea. Contudo Lorena o ignorou e continuou falando. – Ao contrário de você, Dorothea, Sarah é uma pessoa corajosa e boa. Você é um monstro covarde, você usa as pessoas. Sarah jamais faria algo do tipo.
– Fico grata pelos seus elogios a minha filha, Lorena. Sabe que você é uma pessoa muito importante para mim...
– Para os seus planos. – ela a corrigiu e Dorothea sorriu. Revirei os olhos. Não aguentava mais ficar ali...
– ... mas vou ignorar seus insultos a minha pessoa. – continuou. – Quero que todos tenhamos uma ótima convivência quando voltarmos para o reformatório.
– O que? – falamos Nathan e eu em uníssono. — Você não vai leva-la. – continuei. Eu não poderia permitir que ela machucasse Nate dessa forma novamente. E talvez, só talvez, eu tenha começado a considerar Lorena como aliada.
– Viraram amiguinhas agora? – indagou, arqueando uma sobrancelha.
– Dorothea. – meu tio se pronunciou. – Não pode fazer isso.
– E o que você vai fazer? – desafiou. – Está em desvantagem, irmão. – ela desviou o olhar do tio Jerry e analisou o cômodo. – Quero Sarah, – ela sorriu para mim. – minha filha. Lorena, Taylor e... – seus olhos pousaram no homem ao meu lado, o qual segurava firme minha mão direita, dando-me o apoio que eu precisava para manter-me de pé. – meu experimento favorito. Elliot Jones.
– Você não pode me obrigar. – disse Elliot.
– Quer pagar pra ver? – desafiou.
– Deixe Sarah em paz e eu...
– Elliot, não! – virei-me para ele, repreendendo-me. – Ninguém vai. Ela não pode nos obrigar. – falei lançando um olhar cumplice para Lorena e Taylor, as quais retribuíram com um olhar determinado.
– Querem apostar? – ela sorriu e se virou. – Mattew? – o outro recruta que havia entrado ao lado de Joshua deu um passo a frente. – Faça o que combinamos.
Todos trocamos olhares confusos e o recruta assentiu. O restante aconteceu rápido demais: Mattew puxou uma arma do cinto e antes que qualquer um pudesse reagir ele atirou. Tudo pareceu um borrão e então tio Jerry caiu sobre a minha cama, a qual estava atrás dele. Eu fiquei estática por uns breves segundos, tudo parecia um pesadelo e então a respiração ofegante de Elliot ao meu lado e o murmúrios dos meus amigos da Academia me despertaram.
– Tio! – gritei e me desvencilhei de Elliot, correndo até ele. – Tio, você está bem? – mas essa era uma pergunta idiota, completamente idiota porque havia um ferimento em sua costela. A bala o acertara em cheio.- Tio. – murmurei e eles piscou e suspirou e então voltou a fechar os olhos. – Por que fez isso? Ele é seu irmão! – Como eu poderia ser filha dela?
– Os fins justificam os meios. – falou simplesmente.
– Você é muito baixa mesmo. – Josh se pronunciou dando um passo a frente e Kathie e Taylor o deteram, segurando-lhe os braços, uma de cada lado.
– Acho melhor vocês se calarem, não estou com paciência. – ela suspirou. – Sarah, Elliot, Taylor e Lorena me sigam. O restante... bem, espero que tenham sido bonzinhos. – os lábios de Dorothea abriram um sorriso diabólico. – Caso contrário, irão para o inferno.
Dito isso ela deu as costas caminhou até a porta, porém parou antes que pudesse sair do cômodo, parecendo mudar de idéia.
– Estou me sentindo solidária hoje, então... Vocês quatro tem cinco minutos para se despedirem dos seus amigos. Estou cronometrando. – e então saiu com ambos os guardas atrás de si.
Não perdi um segundo sequer, voltei meu olhar para meu tio, o qual jazia em minha cama. Notei com alívio que ele ainda respirava.
– Oh, tio. – odiava chorar em público, mas fui incapaz de conter as lágrimas que me escaparam dos olhos. – Ela é um monstro, como pode ser minha mãe?
Ele tossiu e piscou novamente. Um sorriso fraco se espalhou por seus lábios. Ele estava mais pálido que o comum e sabia que precisava de socorro médico urgentemente.
– Desculpe-me ter escondido isso de você esses anos todos. Não quis decepcioná-la. – ele falava pausadamente parecendo cansado. Alguns gemidos de dor lhes escapavam entre as palavras.
– Shh – silenciei-o. – Não se preocupe com isso agora, tudo bem? Preciso pensar como vamos ajuda-lo.
– Sarah, não adianta mais. – desencorajou-me. – Ela não vai permitir que me levem a um hospital ou algo do tipo e, pela experiência que tenho... – ele ofegou. – nós dois sabemos que não tenho mais jeito. – ele sorriu. – Mas vocês têm...
– Tio, não fale. – interrompi-o. – Você deve descansar, eu vou pensar em algo.
– Sarah, ele tem razão. – disse Elliot, com a voz suave, as mãos afagando meus cabelos. – Ela não vai permitir e estamos em menor número. O que garante que ela não tenha matado todos os que estavam no porão?
– Não posso desistir do meu tio, Elliot. – falei, a voz firma. – Preciso pensar. – falei novamente.
Levantei-me e iniciei uma caminhada pelo quarto, andando de uma lado para o outro como eu sempre fazia quando estava nervosa.
– Sarah, acho que sei o que seu tio queria dizer. – ouvi a voz de Kathie se pronunciar e me virei para ela. Ao seu lado Lorena estava agarrada a Nathan, lágrimas escorrendo pelo rosto. Eles não pareciam prestar atenção em nada a sua volta, estavam na bolha particular deles. Estavam se despedindo. – Ele quis dizer que não podemos cair sem lutar, não é Jerry. – virei-me para olhar para meu tio e ele assentiu de leve. – Nós ainda temos uma chance, só precisamos de um plano.
– Como iremos arquitetar um plano em três minutos? – questionei, querendo mais do que nunca crer em suas palavras. – Não sei se posso fazer isso, Katherine.
– Nós podemos.
– Ela tem razão. – Taylor falou, surpreendendo a todos. – Eu não quero voltar para aquele reformatório, prefiro morrer.
– Nós também concordamos em lutar. – Nathan disse, o braço em volta da cintura de Lorena. Eles agora participavam da conversa. – Sei como é aquele inferno, estive lá por algumas semanas.
– Sim, Sarah. Eu não vou. – Lorena falou. – Se ela quer matar Nathan, que me mate também. – sua voz falhou e Nate acariciou seu braço afim de consolá-la.
Eu suspirei. Talvez eles tivessem razão. O que me adiantaria permanecer viva estando lá? Além do mais, se deixássemos as coisas como ela quer eu estaria sem meu tio, sem Nate e sem Josh. Não suportaria a dor de perdê-los, tenho certeza. E, embora Elliot estivesse comigo, teríamos que lutar para completar a vingança dela, vingança essa que eu nem sabia direito para quem era.
Sim, eles estavam certos. Eu não viveria desta forma, sou Sarah Bennet afinal e nunca caí sem lutar antes.
– O que me diz, Josh? – perguntei, fitando meu amigo que não se pronunciara até então.
– Não preciso nem dizer que estou dentro, não é? – ele arqueou uma sobrancelha como se sua resposta fosse a mais óbvia do mundo. – Não quero morrer.
– Certo. – eu assenti. Agora só faltava uma pessoa... – Elliot? – olhei-o esperançosa.
– O que você quiser. – falou pegando minha mão esquerda. – Independente da sua decisão, estarei contigo.
– Era tudo o que eu precisava ouvir. – eu sorri brevemente para ele e caminhei até a minha cama novamente, pousando minha mão no rosto enrugado de meu tio. – Tio Jerry, você precisa aguentar firme. – o instruí. – Você vai sair dessa, nós vamos lutar. – garanti.
– Eu acredito em vocês. – seus olhos brilharam um pouco ao dizer isso e eu me virei para os outros na sala.
Encarei cada rosto como se fosse a primeira vez que os via: a determinação no olhar de Taylor, a coragem estampada no rosto de Kathie, a ferocidade exposta na expressão de Josh, o brilho de vingança nos olhos de Nathan, a raiva explícita no rosto de Lorena e por fim, a cumplicidade nas feições de Elliot. Nesse momento eu soube que jamais lutaria sozinha e que se caíssemos, cairíamos juntos.
– Ótimo. – suspirei. – Alguém tem um plano?
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