Notas iniciais
Bom, a one é bem curtinha mas fiz em homenagem a todos aqueles legistas que não são reconhecidos e que por trás deles há toda uma história, muitas vezes não muito agradáveis. E que proficionais desse tipo deveriam sempre ser reconhecidos.

Espero que gostem!

Era um dia comum na vida daquele legista forense. Cumprimentou seus colegas, tomou um café quente e conversou alguma sobre fatos não muito importantes.

O velho homem tentou enrolar ao máximo para entrar na sala. Quanto menos tempo passasse naquele lugar, melhor.

Mas em poucos minutos recebeu um chamado. Não havia mais escapatória: estava na hora.

Com um suspiro cansado, o legista caminhou sem nenhuma vontade, até chegar num compartimento frio com apenas uma luz forte na frente de uma mesa. O cheiro de morte era imprescindível, e não era para menos: havia mais cadáveres ali do que em qualquer lugar do mundo.

Um corpo já o esperava em cima da mesa de exames. Não olhou para o rosto da vítima... Estava cansado de reconhecer tantas pessoas que vinham parar naquele lugar. Apenas tinha que executar seu trabalho, mesmo que às vezes ele fosse repugnante. Começou a executar os procedimentos enquanto pensava em sua vida.

E que vida era aquela mesmo? Se ele estava mais entre os mortos do que os vivos... A mulher o largara por causa de sua profissão, alegando justamente esse motivo, levando com ela os dois filhos. Perdera muitos amigos: ninguém queria apertar a mão de um sujeito que abria cadáveres. Só estava acompanhado daqueles que nunca nada iriam dizer... Mas mesmo assim ele achava que cada um tinha uma história. E nenhuma delas era agradável, mas era seu dever descobrir o que realmente acontecera com aqueles que lá vinham parar. Era uma questão de honra.

Então sua mente voltou para os acontecimentos do passado que o levaram a escolher a perícia forense como sua profissão. Ele era um jovem entusiasmado, contestador e considerava-se um revolucionário. Decidiu cursar medicina e por intermédio de um amigo que lhe emprestou uma série de livros sobre um legista que através de sua área conseguia desvendar crimes, o rapaz também optou pela mesma carreira.

No começo de tudo, sentiu-se até enjoado pelas cenas que via. Mas a sede de justiça o fez seguir em frente. E dia após dia, semana após semana, ele ficava trancado naquela saleta minúscula e apertada que cheirava a morte e a solidão. Aos poucos ele foi percebendo que a vida de um legista forense não era tão encantadora como a que era descrita nos livros.

Não era cercado de mulheres bonitas, não ganhava rios de dinheiro e seus dias não eram tão poéticos e cheios de aventuras. Ele só era mais um homem normal, numa vida medíocre, fazendo o trabalho que os investigadores se recusavam a executar. Perdeu tudo. Sentia-se infeliz, no fundo. Os únicos vivos que tinha contato eram os que trabalhavam no mesmo prédio que ele. Fora esses, nenhum outro ousava se aproximar dele.

Os cabelos loiros e bem cuidados deram lugar aos brancos emaranhados, o porte atlético foi substituído por uma barriga levemente grande e o sorriso branco perfeito virou um risinho zombeteiro e irônico.

Por fim, sua adolescência passou. Seu sonho também foi com ela. Seu lema, de “Viva e deixe viver” passou a ser “Então viva e deixe morrer”. Entendeu que na sua profissão não poderia fazer com que ninguém voltasse a vida, nenhum iria lhe contar sua história... Teria que abri-los para descobrir.

E isso lhe trouxe certa desolação.

Mas o que aconteceria se pessoas como ele desistissem de suas profissões? Quem iria fazer o trabalho difícil? A questão é: ninguém.

Talvez por isso, no meio de tanta decepção, ele sentia-se útil. Pois fora o único dentre vários que escolhera aquela carreira, aquele sonho, aquela ideologia como meio de vida. Fora ele que abdicara de sua existência para fazer justiça a aqueles que já morreram.

E talvez por esse motivo, quem sabe, ele não iria desistir. Por aquela única razão, ele continuaria a viver entre os mortos. Descobriria o que pudesse... Para que todos os seus sacrifícios fizessem com que as almas daqueles que partiram, finalmente, possam descansar em paz.

FIM

Notas finais
E aí? Gostaram?
Mereço alguns reviews? *--*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!