Little Secrets
6 VI - O Ilusionista
O Ilusionista
Vagava pela manhã afundando os pés em um mundo volúvel.
Sentado no céu brincando com pássaros sem sorrisos ou emoções, imergindo sob o fraco azul, sentindo a suavidade das nuvens o traspassarem com cuidado.
O cantar de um pássaro turquesa empoleirado em seu dedo, resplandecido em perdida admiração em seus simples olhos transformava-se nas vagas penas negras de um corvo, tão incertas e vazias como seus passos tortuosos pela estreita linha reta contornada de flores monocromáticas, leves e vazias, assim como o tempo solitário que o cercava em suas vestes maltrapilhas, velhas e negras como o laço de sua cartola que mal controlava os fios finos que caiam por sua testa, tão escuros que contrastavam com sua pálida pele.
Vagava pelo dia, recluso a seus próprios pensamentos, certificando-se de manter o sol penumbro, trazendo ofuscante claridade. O ilusionista sabia que se o sol se fosse tudo se perderia por completo e ele não precisava que a última memória — a última terna e macia sensação dela – se fosse como a chama do último candelabro.
Sabia que no fundo daquele largo corredor a luz o aguardava com escuridão. Ele não precisava escutar aquela voz serena gritar novamente. Ele não precisava de rosas vermelhas ou que seu coração movimentasse. Ele não precisava afundar e queimar seus demônios. Sua existência dependia apenas do sol mortiço tão claro como a neve.
Que seus pássaros azuis se juntassem a seu leito florido, seu cabelo afundar sob o forro de sua cartola e mergulhar profundamente em meio ao lençol branco e revolto.
Sentir aquele perfume inebriante acariciar-lhe mais uma vez... Então voltar novamente para sua ilusão onde nada precisava ser ou existir. Apenas estar.
Afinal, ele não era capaz de encarar aquelas portas.
Precisava unicamente do canto delicado dos pássaros azuis para excluir seus segredos de sua ilusão.
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