Little Me
3 Capítulo 3 - Finalmente livre
Notas iniciais
Capítulo 3 – Finalmente livre
O dia em que Clara descobriu o que tinha acontecido na discoteca, não falou com ele. A raiva que tinha dele era uma enorme bola de neve a rolar encosta abaixo, e quanto mais rolava, mais força tinha. A sua mente não saiu um único momento do que iria acontecer dali para a frente. Esperou que ele ligasse, que fosse ele a dizer-lhe o que tinha acontecido. Se ele tivesse tomado essa atitude, Clara conseguiria perdoá-lo. Mas não foi isso que aconteceu; em vez disso, Davina ligou-lhe logo de manhã a contar a história por alto e só no dia seguinte é que se encontraram e ela contou-lhe mais pormenores. Assim que acabou de falar com Davina no restaurante favorito delas, foi até James.
Os dois tiveram uma conversa demorada. Ele pediu-lhe desculpas, cabisbaixo. Sabia que ele estava arrependido na altura, mas sabia que ele também era um excelente mentiroso. James era a única pessoa que olhava nos olhos das pessoas e mentia sem pestanejar. Um perfeito sociopata, Clara pensou. Para além disso, Clara não conseguia descodificar se ele estava a dizer a verdade ou não.
–Eu acho que não consigo fixar-me numa só rapariga – admitiu ele.
–Então se isso acontece, não me podes ter a mim – murmurou Clara, olhando para ele com pesar. Apesar de tudo, ainda lhe restava orgulho e amor próprios.
–Eu não sou má pessoa, Clara – disse James, ao fim de um silêncio prolongado entre os dois.
–Eu nunca disse que o eras – respondeu Clara imediatamente.
E isso era verdade. Ela não o julgava uma pessoa má, apenas… perdido. Talvez os exemplos de que estivesse rodeado não fossem os melhores, mas de novo, ela não tinha como saber porque ele nunca a incluiu no seu mundo. E mais uma vez, isso destruía-a. Pior do que saber, é saber que existe algo da qual nunca saberá.
E os problemas começaram; as suas mais recentes amigas abandonaram-na: um dia estavam lá, e no outro não estavam porque Clara recusava-se em mostrar a James o que era uma vingança perfeita. As suas amigas de longa data ouviram-na, comentaram que ele não tinha sido justo, mas dedicaram-se em recuperar o coração da amiga que estava em pedacinhos. Por vezes, Clara julgou que estava bem, mas as memórias de como tinha sido feliz com ele vinham há sua memória e eram tão bonitas, doces e quentes que a faziam vergar-se para tentar aguentar a dor que se alojava no seu corpo. Quem diz que o amor não dói é porque nunca viveu algo tão intensamente e tão breve que a palavra saudade se torna um eufemismo.
As conversas entre ambos tornaram-se cada vez mais breves, até que se tornaram inexistentes. E Clara chorou. Ela chorou tanto que as lágrimas se confundiam com as gotas de água do chuveiro, o único momento em que podia ficar realmente sozinha e ninguém podia ouvir os seus soluços. A verdade é que todos a queriam ajudar mas ninguém entendia na totalidade o que se passava: Clara podia sorrir, atravessar mais um dia, mas a verdade é que ela se sentia tão vazia e sozinha que por vezes pensava que se morresse nesse mesmo dia, ninguém iria dar por sua falta.
A dor começou a desaparecer aos poucos, tão lentamente que até um caracol conseguiria vencer a corrida contra o tempo. E um dia acordou, e não sentiu aquela dor no corpo que a fazia chorar ao acordar e chorar ao adormecer. Nesse dia, passou o dia todo fora, caminhando, pensando no quanto estava feliz e em como o Mundo tinha cores tão bonitas e vivas. Finalmente o seu Mundo tinha ganho cor de novo.
Pegou no seu telemóvel, e discou o número de James. No início, não reconheceu o número com a justificação que tinha mudado de telemóvel, mas para Clara já não importava se ele estava a dizer a verdade ou não porque ele já não exercia qualquer poder sobre ela. As suas palavras eram vazias e irrelevantes.
–Como estás? – perguntou ele, com demasiado cuidado, com medo que ela lhe tivesse ligado apenas para discutir com ele.
–Bem. Eu liguei para te dizer uma coisa.
–Oh, o que é? – Clara revirou os olhos. Curioso, sempre. Talvez um dia ele e Davina se dessem bem, porque tal e qual como acontecia com a sua amiga, Clara nunca sabia dizer se era por curiosidade ou coscuvilhice.
–Eu vou mudar-me de cidade.
–Oh. E quando é que vais?
–Dentro de uma semana.
Tinha sido uma ação bastante pensada: Elena tinha sido promovida no seu trabalho e isso exigia ir trabalhar para o Norte do país. Depois de refletir, Clara pediu gentilmente para ir com ela, com a justificação de que aquele lugar era demasiado pequeno e já não era mais o mesmo – toda a sua ingenuidade perdeu-se ali, quando se viu traída por pessoas que eram da sua mais alta confiança.
–Oh. Isso é uma mudança muito grande, não? – indagou ele.
–Sim – concordou. – Enfim, eu só te queria contar em primeira mão, porque o mundo do Facebook está cheio de fofocas.
James riu e Clara sorriu, orgulhosa por finalmente fazer uma piada que fizesse rir alguém. Os últimos meses tinham sido construídos com base em sarcasmos e ironias que, em vez de fazer as pessoas rirem, só atraía olhares de pena e outros tantos de impaciência.
–Eu ouvi falar sobre o que aconteceu com a Davina – Clara não disse nada, limitou-se apenas a ouvir. – Ela foi muito infantil.
Infantil.
Oh, se Clara pudesse, ela ter-se-ia rido daquela palavra até lhe faltar o ar dos pulmões. Quem é que era ele para dizer aquela palavra com tanto sentido quando quem tinha sido o infantil na relação tinha sido ele, com impulsos tão incontroláveis que não consegue dar valor ao que tinha na altura e decidiu dar tudo a perder apenas por uma curte?
–Pois. As coisas acontecem. Melhor ter poucas pessoas por perto, do que ter muitas e não confiar em nenhuma.
James ficou calado por alguns momentos e Clara apreciou o facto de que a sua inteligência o tinha deixado ou extremamente confuso, ou ele cresceu um pouco para ler um livro num mês e entender o que ela dizia.
–Faz boa viajem. E mantém o contacto, okay?
–Claro – mas era uma mentira conveniente para ambos.
©AnaTheresaC
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