Little Lion Man
6 Capítulo 6
Notas iniciais
_Alice? – perguntou, parado. Estava confuso, e mal acreditava no que estava acontecendo. – O que é isso?
A moça trazia uma mala em uma mão, e com a outra, arrastava uma criança, de mais ou menos, 2 anos. Scorpius lembrava muito bem dela. Alice Longbottom era apaixonada por ele nos tempos do colégio, e até o seguiu na faculdade. Se formou junto com ele em jornalismo por pura paixão.
_Eu vi nos noticiários, nos jornais... Me desculpe, eu tive que vir Scorpius. Eu sinto muito. – e se enganchou no pescoço dele com a mão que antes segurava a mala.
_Muito obrigado, Alice... – agradeceu, desconcertado, os olhos fixos na menininha, que lhe sorriu timidamente – É a sua filha?
A moça olhou com dúvida para a menina, que se distraiu olhando por trás das pernas de Scorpius, com um dedinho erguido na boca.
_A gente realmente precisa conversar, Scorpius.
Começando a sentir a visão turva, Scorpius sacudiu a cabeça. Ouviu a moça murmurar um “posso entrar?”, e abriu passagem. Fechou a porta do apartamento, e sentou-se na poltrona em frente à moça – que se sentara com a pequena Olivia no colo.
_Olivia é sua filha, Scorpius. E eu preciso da sua ajuda.
Por um momento, Scorpius achou que fosse verdade. Por outro, viu-se rindo da situação, quando na verdade, a mulher estava confusa. A menininha observava tudo com o olhar, inclusive Scorpius. Quando olhava para ele, seus olhinhos claros se demoravam um pouco mais. Mas, sempre se desviavam para a mesinha de centro ou a TV.
_Não brinca comigo, Alice. Eu preciso ir agora. Até qualquer dia, foi bom te ver.
A moça nem se mexeu. Scorpius parou no meio do caminho, e ficou olhando-a, incrédulo.
_Ela é sua filha, você querendo ou não. E eu estou precisando da sua ajuda.
_E eu preciso ir trabalhar. Até mais ver, Alice. – dirigiu-se à porta, onde ficou esperando com a mão no trinco.
Alice permaneceu sentada no sofá. Olivia seguia o olhar da mãe, fixados em Scorpius. E ele precisou focar na luminária no teto pra não se sentir pressionado.
_Eu vim aqui te dar outra chance – ela começou, pausadamente, pensando em cada palavra a ser usada – Nós dois erramos muito no passado. Éramos inconsequentes, não te culpo... Mas, hoje eu e a Olivia precisamos de você. – Scorpius sentou-se novamente, sentindo as pernas oscilarem demais – Os meus pais foram para os Estados Unidos. Me deixaram sozinha quando descobriram que eu estava grávida. Eu vivi 1 ano e meio sem te contatar, não queria te importunar, mas é que não consigo mais. A gente precisa da sua ajuda.
Scorpius pousou a mão na boca, preocupado, olhando de uma até a outra. Respirou fundo 3 vezes, pensando no que responder.
_Fala de uma vez – começou, sentindo-se zonzo – o que você quer.
_Começar de novo – ela respondeu, tão rápido que parecia já saber o que ele ia dizer. Scorpius sacudiu a cabeça, negando qualquer pensamento que o fizesse aceitar.
_Você ficou louca, né? Eu não posso, Alice... Eu não quero. – ele falou, cobrindo os olhos com as duas mãos. – Eu tenho uma revista para reerguer, eu tenho dívidas pra pagar. Eu tenho a minha vida pra viver.
_E tem uma filha. – Alice balançou a perna, fazendo Olivia se remexer um pouco em seu colo.
_Eu te dou dinheiro. E a gente não fala mais disso, tudo bem? Pode ser?
_A vida não se baseia no tanto de dinheiro que você tem, Scorpius. Eu não preciso do dinheiro, eu preciso de você. Nós duas precisamos...
_Você passou 1 ano e meio sem falar comigo, eu nem sei se ela é filha minha mesmo, eu... Alice, sai. Por favor, sai do meu apartamento – falou, erguendo o braço. Apontou para a porta, sentindo o peito se inflamar.
A moça se levantou devagar do sofá, e Scorpius viu seu olho se enchendo de lágrima – que ele não soube distinguir se era de raiva ou angústia. Ela abriu a boca algumas vezes para dizer ou, quem sabe, ofender o rapaz, mas preferiu sair sem dizer nada. A menininha caminhava em direção à porta com a mãe, mas seus olhinhos estavam fixos em Scorpius. O pescocinho gordinho se enrugando, os olhinhos visivelmente confusos e trêmulos.
A porta se fechou com um baque.
***
_Sr. Malfoy, está tudo bem? August está te esperando na sala do andar de baixo. – Mía avisou, assim que o elevador se abriu. Scorpius passou como uma flecha ao lado da mesa da moça, e fechou a porta da sala com violência.
Respiro fundo uma, duas, três vezes. Sacudiu a cabeça, esfregou o rosto e decidiu seguir em frente.
A sala de reuniões estava completa, exceto por duas cadeiras vazias – de Scorpius e de seu pai. Sua mente entrou em confusão, parou na metade do caminho de sua cadeira, quando decidiu ocupar à do pai. Olhou para todos os presentes, alguns murmuraram um “sentimos muito, Sr. Malfoy”, ou apenas deram sorrisinhos de compaixão.
_Muito bem, eu... Ãhn, convoquei essa reunião – falou, ajeitando a gravata – porque a Malfoy tem uma dívida. E quando digo que a Malfoy tem, isso significa que todos vocês têm.
_Uma dívida? De quanto, mais ou menos? – uma mocinha loira perguntou, da ponta da mesa.
_5,000.000,00 de libras. – todos se surpreenderam, soltando uivinhos ou apenas abrindo a boca de susto – E, como meu pai disse em sua última reunião, as últimas vendas foram o fracasso. As próximas não podem ser. Temos que subir as vendas. Então, por favor, mantenham-se focados no trabalho. A Malfoy depende de vocês pra erguer-se. É o trabalho de vocês, não é? Bom, eu não sei muito o que falar, mas... Acredito que vocês saibam exatamente o que fazer.
E já ia recolhendo suas coisas, quando um rapaz – que ele supôs ser do T.I – erguer a mão.
_As outras revistas já fizeram especulações sobre famosos que nós desmentimos. Acredito que as vendas tenham caído em 20% quando fizemos isso. Porque não... mudamos o jeito de escrever nossas matérias?
_Você quer dizer, inventando sobre os famosos? – uma moça de cabelos curtos perguntou, um tom debochado na voz. – Sem chance.
_Não... Na verdade, — começou Scorpius, abrindo um sorriso – isso é perfeito! Todo mundo se interessa por famosos, não é? Então, porque nós não nos aproveitamos deles? Isso é ótimo, parabéns Sr...
_Hopkins.
_Isso, parabéns Sr. Hopkins. Que comecem os trabalhos! – Scorpius completou, alegre.
_O seu pai não gostaria nada disso. Seu pai sempre foi muito sério com o trabalho dele, ele levava isso daqui como se fosse a vida dele, Sr. Malfoy...
_Meu pai não está mais aqui, está? – cuspiu Scorpius, começando a se irritar com a mocinha – Agora, é o que irão fazer. Meu pai mentiu tanto durante a vida inteira, querida. Se ser sincero nos fez perder clientes, então vamos mentir para recuperá-los! E, a não ser que alguém queira perder o emprego, a reunião está encerrada, e está decidido o que iremos fazer. Vamos reformular o design da revista também. Os designers, quero os modelos até quarta na minha mesa. Tenham um bom dia.
E ignorando o silêncio que deixava para trás, saiu da sala.
***
_O Sr. tem visita. – Mía falou, por telefone.
_Mande entrar.
A porta abriu-se, revelando os cabelos ruivos. Scorpius abriu um sorriso. Rose tinha mesmo vindo. Virou-se para o computador, fingindo estar concentrado em um relatório ou algo que um presidente de uma revista fazia em um computador – coisa que ele ainda não descobrira ainda.
_Ok, aqui estou. Pode, por favor, me explicar esse negócio de trabalhar aqui? – começou a moça, sentando-se na cadeira em frente à ele.
_Claro, eu posso. Gostei tanto das fotos que você tirou na sexta, que quero que você cubra os demais eventos. E não quero correr o risco de perder você para outra revista ou outro casamento, não sei... Por isso, quero você trabalhando aqui. O salário será o dobro do que você ganhava lá na... Camera Lens? E 10% será adicionado a cada trabalho concluído. Ah, e claro, os trabalhos dependerão de você. Se quer, ou não, cobrir um evento. Férias sempre que desejar. E uma sala inteira sua. Ah, e já ia me esquecendo. Além de tudo, quero que seja diretora da Malfoy.
A moça ouviu tudo calada, revirando os olhos algumas vezes. Ao terminar de falar, Scorpius abriu um sorriso convidativo.
_Proposta tentadora, Sr. Malfoy – Rose começou, a ironia era visível em sua voz – mas a resposta é não.
_Qual é, Weasley? – exclamou, desmanchando a pose de presidente.
_Isso é insano, Malfoy. Você é insano. Você tá brincando de ser presidente. – ela riu.
Scorpius ergueu uma sobrancelha. Respirou fundo uma vez, puxou uns papéis e fingiu folheá-los.
_Tudo bem, então. Se a proposta foi recusada, não temos mais nada a discutir. – disse, olhando das folhas para o computador, franzindo o cenho e fingindo uma preocupação.
Rose puxou as folhas de sua mão, o que o fez olhá-la sério, exclamando um “ei”. Ela o olhava com a boca contorcida e os olhos semicerrados.
_Isso não é brincadeira, Scorpius.
_Eu sei disso, por isso estou dando tão duro aqui. Olha quantas matérias preciso revisar e autorizar. E eu só queria uma fotógrafa apta a me ajudar. Mas, como você disse, isso é insano. Tudo bem, eu entendo. Preciso encontrar alguém então.
Scorpius se assustou ao vê-la começar a rir. Tentou recuperar a pose de presidente, começando a digitar no computador – na verdade, estava entrando no Facebook, quando Rose parou de rir aos poucos.
_Tudo bem, eu aceito. Quando eu começo?
_Ah, desculpe – falou, em falso tom de tristeza – acho que o time está completo. Boa sorte, Weasley. Você é uma ótima fotógrafa.
_Vai pro inferno, Malfoy. Onde vai ser a minha sala?
Scorpius abriu um sorriso, que Rose acompanhou.
***
Mostrou à sala onde Rose iria trabalhar, e ela o dissera como a decoraria. Ele gostou, mesmo não entendendo muito do que ela dizia. Estava de volta à sua sala agora, olhando para os diversos papéis que já começavam a ser entregues em sua mesa. Se interessou por alguns, outros leu até a 5ª linha e abandonou. Passou a mão pelos cabelos, lembrando-se do pai. O que ele faria com uma dívida de milhões de libras e um filho que ele nem sabia que tinha? Às vezes pensava no que ouvira na reunião, que o pai não faria isso. Scorpius queria fazer tudo do jeito certo, mas ficava dividido entre fazer do jeito certo e fazer do seu jeito.
Combinara com Rose de que ela começaria no dia seguinte. Ela reclamara no começo “é pouco tempo”. Mas no fim, cedeu.
Scorpius ficou extremamente agradecido, porque ele realmente gostou das fotos que ela havia tirado. Tanto, que pedira à melhor redatora – a preferida de seu pai, o rapaz nem sabia quem era ela – para escrever a matéria do evento que acompanharia as fotos de Rose.
Passou a manhã toda em sua sala, se esforçando para ler as matérias que já tinham sido entregues, mas se distraía muito fácil. Se perdia em meio aquelas palavras, e desistia no meio das leituras. Resolveu autorizar todas.
_O senhor não vai almoçar? – perguntou Mía, abrindo à porta, exatamente ao meio-dia. – estou indo agora, se o senhor não precisar de mais nada.
_Bom, sendo assim, vamos juntos – ofereceu Scorpius, abrindo um sorriso.
Scorpius dirigiu até o restaurante – que ficava no final da mesma avenida da revista – e insistiu em pagar para Mía.
_Eu imagino como o senhor está se sentindo, Sr. Malfoy. Eu perdi minha irmã e lembro bem a dor que eu sentia. Mas, a sua, claro... é imensa, não é? Perder os pais... – disse Mía, pousando o garfo no prato, e olhando piedosamente ao chefe.
_Talvez – começou Scorpius – tenha sido preciso. A gente precisa de um baque de vez em quando, alguma coisa pra sacudir o esqueleto e crescer um pouco.
Ele dava um sorriso, diferente de Mía que ainda tinha os olhos tristes.
_Eu sinto muito por eles, Mía. Foram cedo. Não ficaram o suficiente para ver o filho deles crescer, e virar alguém – e colocou uma garfada da macarronada na boca.
_O senhor não...
_Por favor, não me chame de senhor. Sou dois anos mais velho que você – pediu, o sorriso estampado levemente no rosto.
_Bom, o... Você está tão focado na revista por causa da dívida, não é? Se não fosse ela, você teria deixado a revista por conta dos redatores.
Scorpius fitou a moça por uns segundos, pensando no que ela havia dito. Não sabia ao certo o que responder, nunca parou para pensar por esse lado. Sim, era por causa da dívida. Porém, se ela não existisse, o que faria?
_É a única herança que tenho dos meus pais. Preciso honrar a revista. Afinal, aquilo agora é meu.
Abriu um sorriso, e isolou-se no prato, encerrando o assunto discretamente. Mía era inteligente, pareceu entender. Não perguntou mais nada, nem falou mais nada. Principalmente, quando Scorpius se ofereceu a pagar a conta, permaneceu calada.
De volta à revista, não se falaram, a não ser quando Scorpius pediu para que enviasse a resposta das matérias para os redatores.
***
Eram 18:15. Scorpius estava terminando de fazer o jantar. Quando o celular tocou, ele gritou “já vai”. Correu para a sala, jogando as almofadas para cima, quando notou que o som vinha da mesa.
_Alô? – atendeu, o pé preso na poltrona, que quase o fizera cair.
_Scorpius, podemos conversar?
_Você de novo? Alice, eu já disse, não temos o que conversar. – respondeu, começando a se arrepender de ter atendido.
_Por favor, abre a porta?
Droga. Desligou o celular quando o trinco girou, revelando a imagem de uma mulher alta e loira. De cabeça baixa, ligeiramente incomodado, deixou-a entrar.
_Onde está a Olivia? – perguntou, trancando a porta. Evitou olhá-la por alguns segundos.
_Na casa de uma amiga. Me desculpa por hoje, eu realmente não sabia o que fazer. Eu pensei que você estivesse precisando de alguém, de uma companhia...
_Vejo que pensou errado, então...
_Scorpius, vamos... – a mulher se aproximou, fazendo Scorpius virar o olhar para a janela – sei que sente saudade. Eu também sinto – suas mãos agora tocavam os ombros dele, fazendo-o se remexer incomodado – Por isso estou aqui...
_Não, obrigado...
_Melhor uma retrô, do que ficar na mão...
E ela se aproximou mais. Scorpius não se mexeu. As mãos dela se entrelaçavam pouco a pouco em volta do pescoço dele, enquanto dava beijinhos em volta do mesmo. Scorpius contorceu-se um pouco, sentindo o corpo inteiro se arrepiar.
Há quanto tempo não faz isso?, dizia uma voz dentro de si. Ele se segurou para não empurrá-la, se entregando pouco a pouco à vontade de tê-la mais uma vez.
_Por favor... – ela sussurrou, fazendo os olhos dele se virarem para baixo.
Relutante, os lábios dele se encontraram com o dela. Scorpius pensava que estava perdendo a razão, mas nenhum músculo de seu corpo queria parar. Quando Scorpius começa, ninguém o para.
Talvez fosse o doce da boca dela, a nostalgia que o fizera continuar com aquilo. Após alguns minutos, já não lembrava mais que há pouco tempo, estava coberto por fúria e ódio. Mas agora, tampouco se importava. Se sentia mais uma vez com 19 anos, com uma garota qualquer na cama.
O quarto estava em chamas. A panela com o jantar estava começando a queimar, mas ele não percebera. Não ouviu, não sentiu. O momento estava perfeito, e ele não estava se importando muito, quanto mais Alice.
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