Notas iniciais
primeiro capítulo, apenas o início. Espero que gostem.

Era a segunda vez que ele acordava atrasado naquela semana. Xingou várias vezes a função “soneca” do alarme, enquanto vestia a calça social com pressa, sem nem perceber que estava do avesso. Vestiu a camisa, colocou um cinto e passou a mão rápida no cabelo, tentando mantê-lo baixo e disfarçar que estava descabelado. A empresa ficava do outro lado da cidade, e tinha 20 minutos para chegar até lá. Seu pai não perdoaria outro atraso.

Saiu do quarto, e dirigiu-se a cozinha, apressado, tirou um pacote de bolacha, e socou dentro da maleta. Abriu a geladeira, começando a suar, e tirou um suco de caixinha de laranja. Viu seu reflexo na porta da geladeira ao fechar, e o suco escorregou da sua mão.

_Ai que droga! – resmungou, voltando ao quarto. Como se esquecera de amarrar a gravata? Escolheu uma cinza, lisa, e vestiu o paletó.

Quando desceu pelos elevadores do apartamento, e chegou ao carro, tinha 12 minutos para chegar à empresa do pai. Deu partida, a caixinha do suco escorregando por cima do painel do carro, e a maleta no banco do carona. Saiu apressado do estacionamento, nem ligou o som, como costumava fazer a essa hora da manhã. Cruzou os dedos por cima do volante, torcendo para o centro não estar atolado pelo trânsito.

Em cada farol que ele parava, sentia o tempo passando mais rápido. Suas mãos apertavam o volante com força agora. Pegou um atalho por uma rua do subúrbio de Londres, mas mesmo tendo que dar a volta pelo centro, sendo um caminho maior, preferiu seguir assim mesmo. Quase não havia carros nas ruas, e os prédios eram de uma cor escura, desbotadas. Mas ele não reparou em nada disso. Tinha pressa, muita pressa. Os prédios que passavam com rapidez, misturavam suas cores e viravam quase cinza.

Exceto por um ponto colorido, um tom mais forte que o prédio desbotado no qual ele se destacava. Ela. O ponto, na verdade, era o cabelo de uma moça. Scorpius reparou, enquanto desacelerava o carro, que ela olhava para a bolsa, e revirava-a, procurando alguma coisa. Ergueu os olhos para uns óculos, de aros quadrados, que colocou no rosto. Como se seus olhos entrassem em foco, avistou o carro que passava, tão devagar, na rua. Sentiu um arrepio na espinha. O que um carro daquele porte estava fazendo rondando por aquela rua e àquela hora da manhã?

Os olhos se encontraram, e um choque na nuca de Scorpius o fez olhar novamente para o volante. Já sentira aqueles olhos outra vez. Balançou a cabeça, na intenção de afugentar o pensamento, e focou na rua. Restavam 5 minutos! Pisou fundo no acelerador se viu saindo do subúrbio e chegando ao bairro onde se encontrava a revista do pai. Virou a esquina sem pensar duas vezes, e estacionou de qualquer jeito em frente ao grande prédio do pai. Saiu carregando a maleta e o suco de caixinha. Estava em cima da hora. Subiu pelo elevador, desejando mais do que nunca que ele fosse mais rápido.

Caminhou a passos largos até sua sala, passando pela secretária e nem lhe dando ouvidos quando a moça deu gritinhos de exclamação, lembrando-o da reunião. Scorpius deixou a maleta e o suquinho de caixinha em cima da mesa, pegou o laptop e uma pasta, e saiu da sala mais rápido que entrou. Tentou manter a gravata com o nó perfeito, a roupa em bom estado, quando chegou à sala da reunião, e viu todos sentados em suas devidas cadeiras, ao redor da longa mesa de vidro. Seu pai sentado na cabeceira.

_Sabia que chegaria. – e sorrindo, olhou o relógio de pulso, quase sem mover o pescoço. – Alguns minutos atrasado, como sempre.

_Desculpe. – manteve a cabeça baixa, enquanto sentava-se e iniciava o laptop. Abriu a pasta, retirou uma folha e uma caneta prata de dentro, disposto a anotar tudo o que seu pai disser.

Após alguns segundos de silêncio, em que, mesmo sem olhar, Scorpius percebeu os olhos de seu pai – e de todos da mesa – nele, torceu para não estar ficando vermelho e parecer um garotinho de onze anos.

_Bom, podemos começar então – Draco ergueu-se da cadeira, e virou-se para o telão atrás de sua cadeira, apertando um controle remoto que tirara do bolso – a revista da última quinzena, foi um fracasso – comentou, mantendo o tom natural de sua voz, e exibindo um gráfico verde onde mostrava o desempenho das vendas – e queria parabenizar alguns de vocês pelas matérias. Ninguém se interessa por feminismo mais, o que é machismo mesmo? Exatamente, nada. Vocês precisam ler outras revistas, entrar mais na internet, saber do que estão falando, o que os jovens se interessam. E o que vocês fazem? Escrevem sobre homens que não querem mais seguir o caminho de seus pais. Quem se interessa por isso? – debochou ele, fazendo com que dois ou três funcionários na mesa se remexesse nervosamente. – Música. O que leva alguém a querer saber sobre músicas africanas, quando um adolescente canadense anda causando por todo o mundo? Escrevemos para advogados, médicos, estudantes, outras revistas se espelham na nossa, mas há pessoas presentes aqui que estão estragando a nossa reputação. Quero que lembrem que quando estragam a minha revista, também mancham meu nome. Afinal, a revista leva, nada mais, nada menos que o nome da minha família.

Scorpius perdeu a atenção no pai, e começou a balançar a caneta entre os dedos. Sabia que o pai não ia chamar a atenção dele, nem mandar-lhe uma indireta no meio da reunião. O máximo seria uma conversa particular na sala dele, onde o foco da conversa poderia ser trocado tranquilamente por mais um aumento de salário.

As nuvens no céu pareciam tão interessantes agora, que ele se perguntou por que nunca olhara para ele antes. Ainda amanhecia, e a cor estava começando a invadir o céu. Quase ele não conseguia ver o sol saindo por entre as nuvens, de tantos prédios que havia na frente da janela. Batucava a caneta na mesa, sem perceber, olhando para um jornalista sentado a sua frente, que prestava atenção tão atentamente em Draco, que parecia estar decidindo o rumo da vida dele ali. Scorpius torceu o nariz e olhou para o pai, que ainda mostrava gráficos no Datashow, e falava arrastando a voz num tédio profundo. Scorpius bufou, queria sair logo daquela sala e ir para a dele, poder tomar seu suco, comer alguma coisa. Na verdade, queria sair dali. Sair logo.

_Scorpius – os ouvidos do rapaz inflaram ao ouvir seu nome, olhou nos olhos do pai como se estivesse prestando atenção o tempo todo – a Malfoy tem um evento hoje. E não vou poder ir, como já foi dito, você irá no meu lugar.

Todos os outros presentes na mesa olharam atentamente para Scorpius, alguns deixando os óculos escorregarem até a ponta do nariz. Ninguém precisou dizer nada, para que ele soubesse que era uma oportunidade que todos queriam ali. Eram redatores muito bons, renomados, trabalhavam para a revista Malfoy! E mesmo assim, o mauricinho, filho do papai, que se formou em jornalismo sem ligar muito para a faculdade e só estava lá pra ficar o dia todo jogando aviãozinho na sua sala. Ele assentiu devagar para o pai, não afirmando nada, mas questionando.

_Há tantos jornalistas bons, que fariam matérias ótimas. Alguns aqui são até fotógrafos, coisa que eu não sou. Helena, por exemplo. Helena tira fotos ótimas pra coluna dela.

Uma mocinha de olhos puxados deu um sorrisinho curto, nervoso, ansiosa por querer ser escolhida.

_Helena tem matéria para escrever. Ela está viajando hoje, inclusive. Estou certo? – Draco perguntou, a voz ainda arrastada tediosamente.

A moça abriu a boca para falar, mas a fechou abruptamente. Scorpius se perguntou porque as pessoas tinham medo do pai dele?

_S-sim. – respondeu, digitando rapidamente no notebook, tentando manter-se ocupada o suficientemente para que ninguém mais falasse com ela. Scorpius bufou, e endireitou-se na cadeira.

_E outra, eu já contratei um fotógrafo. – Draco comentou, remexendo numas pastas na mesa. – De uma empresa, não sei. Eu espero que seja competente.

_Não que não tenhamos fotógrafos competentes na Malfoy. – Scorpius rebateu, sentindo a dor no coração dos colegas fotógrafos na mesa.

_Claro... Competentes quando não estão ocupados. – Draco respondeu, o tédio na voz começando a irritar Scorpius.

_Escrevendo matérias para a Malfoy. Sendo competentes fazendo o que devem fazer.

_O que importa é que já temos um fotógrafo para esse evento. Mas, quero que você vá. Só fazer presença. Só isso. É pedir demais? – Draco levantou o olhar para o filho.

Scorpius assentiu, agora afirmando que iria. Sem querer ir, sabendo que seria outro evento com outro fotógrafo fanático, que ao invés de fotografar o evento, os presentes, o cenário da festa, ficaria fotografando o próprio Scorpius. Já passara por isso antes, e o que seria uma festa maravilhosa, se tornou uma invasão de privacidade irritante.

Ouviu o pai dizer que podiam se retirar, e recolheu as coisas. Saiu da sala antes que todos saíssem. Estava com sono, com fome. Se sentiu na época do colégio, quando acordava atrasada e perdia o primeiro tempo. Passou pela recepção, onde sua secretaria digitava rapidamente, sem tirar os olhos da tela, e entrou na sala.

_Dr. Malfoy, você teve ligações, e alguns recados. Eu deixei todos anotados aí. E também o sr. Malfoy pediu para avisar que hoje o senhor irá cobrir um evento por ele.

_Já fui informado. – falou, sentando-se na mesa e observando a jovem McLaggen que quase tropeçara nos próprios pés ao largar o computador e correr atrás dele na sala. – Preciso de uma coisa, Mía.

_Pode falar. – ela sorriu pomposa.

_Meu pai contratou um fotógrafo de uma empresa, e quero saber qual é. Não quero passar por aquilo de novo. – e por aquilo, a secretária entendeu do que se tratava – então... Tem como você... me arranjar?

_O telefone da empresa, o telefone do fotógrafo?

_Não. Na verdade, só o nome. O nome da empresa e do fotógrafo. – ele correu a corrigir. A moça assentiu rapidamente, ansiosa, disse “com licença” e saiu da sala.

Scorpius pôde, enfim, relaxar. Pensou em tomar seu café da manhã ali na sala, depois trancar a porta e dormir um pouco no sofá que havia ali – era como criança, tinha um armário grande no fundo da sala, com cobertores e travesseiros. Vivia dormindo no trabalho. Era filho do dono, não precisava fazer nada!

Abriu a caixinha de suco e tomou um gole. Seu estômago não sustentaria só aquilo. Mas suas pernas eram incapazes de se levantar dali, de sono.

_Mía... – chamou, pelo telefone, quando a secretária atendeu do outro lado da parede. – Busca algum lanche pra mim na lanchonete, vai...

_Sim, senhor. – ela concordou, e Malfoy viu pela janela que dava para o lado de dentro do prédio, a moça se levantando e indo até o elevador.

Scorpius balançou a cabeça, gostando de ter as pessoas aos seus pés. Puxou uns papéis que estavam sobre a mesa, com a letra de McLaggen, e os leu.

Lançamento do perfume da atriz Alysa Frank, no centro de Londres, às 19:15.

Ligação de Marcel Zabini, pediu para retornar.

Reportagem no site da blogger Aggie Abernathy sobre a revista Malfoy.

Telefone do advogado Peter Reynolds, caso o senhor queira processar a blogger.

Scorpius riu, e guardou a folha na gaveta. No notebook, leu a reportagem da blogger, e não se surpreendeu ao vê-la dizer que ele era “um riquinho mimado que usava a revista do pai como parque de diversões e fábrica de dinheiro”. Balançou a cabeça algumas vezes, ao ler mentiras ali, e gargalhou ao ver imagens dele mesmo, porém bêbado.

_Aqui está, dr. Malfoy. E aqui está também, o que o senhor havia pedido. – McLaggen apareceu, em 10 minutos, entregando uma sacola que exalava um cheiro delicioso, e um papel.

Scorpius agradeceu, colocou o lanche em cima da mesa, e leu a folha primeiro.

The Camera Lens, rua principal, nº 1627.

Fotógrafo: Rose Weasley.

Notas finais
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